FORTALEZA
DIGITAL

DAN BROWN


 SEXTANTE



Prlogo


Plaza de Espana 
Sevilha, Espanha
11 h da manh

Dizem que, quando chega a hora da morte, tudo se torna claro. Ensei Tankado sabia agora que isso era verdade. Quando caiu no cho com fortes dores, apertando o peito com a mo, percebeu a dimenso terrvel do seu erro.
Algumas pessoas se aproximaram, cercando-o e tentando ajudar. Mas Tankado no queria ajuda. Era tarde demais.
Levantou a mo esquerda, tremendo, e esticou os dedos. Olhem para a minha mo! As pessoas em volta olhavam, mas ele percebia que no estavam entendendo.
Em um de seus dedos havia um anel dourado entalhado. Por um breve instante, as inscries do anel reluziram ao sol da Andaluzia. Ensei Tankado sabia que essa seria a ltima luz que jamais veria.

CAPTULO
1

Estavam no seu hotel preferido nas Smoky Mountains. David olhava para ela, sorrindo.
- Ento, querida, o que me diz? Vamos nos casar?
Deitada na cama, ela devolveu o olhar. Aquele era o homem certo. Para sempre. Enquanto admirava seus profundos olhos verdes, em algum lugar distante uma campainha comeou a tocar. Ela tentou abra-lo, mas seus braos encontraram apenas o vazio.
O rudo do telefone acabou despertando Susan Fletcher do seu sonho. Ela suspirou, sentou-se na cama e tateou em volta, procurando o telefone.
- Al?
- Oi, Susan,  o David. Eu te acordei?
Ela sorriu, rolando na cama.
- Estava sonhando com voc. Vem pra c ficar comigo...
Ele riu.
- Ainda est escuro l fora.
- Humm - ela murmurou, sensualmente -, ento voc tem mesmo que vir pra c. Vamos brincar. Podemos dormir um pouco antes de viajar.
David soltou um suspiro de frustrao.
-  por isso que estou ligando. Vamos ter que adiar nossa viagem.
Susan acordou totalmente, como se tivesse levado um soco.
- O qu?
- Mil desculpas. Vou ter que viajar, mas volto amanh. Podemos partir para as montanhas bem cedo e ainda teremos dois dias.
- Mas j fiz as reservas - disse Susan, contrariada. - Consegui nosso quarto predileto no Stone Manor.
	- Eu sei, mas  que...
	- Essa  uma data especial, amos comemorar nossos seis meses. Voc ainda lembra que estamos noivos, no ?
	- Susan, no posso explicar os detalhes agora - ele suspirou. - Eles mandaram um carro que est me esperando l fora. Ligo do avio e explico tudo depois.
	- Avio? - perguntou, espantada. - o que est acontecendo? Por que a sua universidade... ?
- No  a universidade. Ligo depois e explico. Preciso ir agora, esto me chamando. Entro em contato assim que puder, prometo.
- David! - ela gritou. - a que est...
Ele j havia desligado.
Susan Fletcher ficou acordada durante horas, esperando que ele ligasse, mas o telefone no tocou.
  
Mais tarde, naquela mesma manh, Susan sentia-se abandonada. Resolveu tomar um banho. Entrou na banheira e afundou a cabea na gua, tentando esquecer o Stone Manor e as Smoky Mountains. Onde ser que ele est? Por que no ligou ainda?
Aos poucos, a gua quente foi ficando morna, depois fria, e ela estava se preparando para sair do banho quando o telefone deu sinal de vida. Levantou-se com pressa, espalhando gua pelo cho enquanto agarrava o aparelho que havia deixado sobre a pia.
- David?
- No,  Strathmore - respondeu a voz do outro lado.
Susan desmoronou.
- Ah... - Foi incapaz de esconder seu desapontamento. - Boa tarde, comandante.
- Voc estava esperando algum mais jovem, talvez? - ele respondeu, brincando.
- No, senhor - disse Susan, desconcertada. - No foi o que eu...
- Claro que sim! - ele disse, rindo. - David Becker  um bom sujeito. No o deixe escapar.
- Obrigada, senhor.
O comandante mudou de tom e falou com uma voz grave:
- Susan, estou ligando porque preciso de voc aqui. Imediatamente.
Ela tentou se concentrar.
-  sbado, senhor. Em geral ns no...
- Eu sei - ele disse calmamente. - Mas  uma emergncia.
Susan sentou-se. Emergncia? Era a primeira vez que ouvia o comandante Strathmore dizer isso. Uma emergncia? No Departamento de Criptografia? No conseguia imaginar o que poderia ser.
- S-sim, senhor. - Fez uma pausa. - Vou chegar a o mais rpido possvel.. 
- No demore - disse Strathmore e desligou.
De p, enrolada na toalha, Susan ficou olhando as gotas de gua carem sobre as roupas que havia cuidadosamente separado na noite anterior - shorts para usar em caminhadas, um suter para as tardes frias da montanha e a nova lingerie que comprara para as noites trridas. Deprimida, foi at o armrio pegar uma blusa e uma saia. Uma emergncia?
Enquanto descia as escadas, ela pensava no que mais poderia dar errado naquele dia.
Em breve iria descobrir.

CAPTULO
2

Trinta mil ps acima das guas plcidas do oceano, David Becker fixava o olhar, abatido, atravs da pequena janela oval do Learjet 60. O telefone de bordo no estava funcionando, e ele no pde ligar para Susan.
O que estou fazendo aqui?, resmungou para si mesmo. A resposta era simples: h pessoas para as quais no se diz "no.
	- Sr. Becker - disse uma voz pelo alto-falante -, chegaremos dentro de meia hora.
Becker balanou a cabea melancolicamente ao ouvir a voz invisvel. Excelente. Fechou a proteo da janela e tentou dormir. Mas s conseguia pensar em Susan.
  
CAPTULO
3

Susan parou seu Volvo logo abaixo da cerca de arame farpado de trs metros de altura. Um jovem guarda apoiou as mos no teto do carro.
- Sua identificao, por favor.
Susan lhe entregou o documento e olhou para o infinito, enquanto esperava o guarda passar seu carto por um leitor computadorizado.
- Obrigado, senhorita Fletcher. - O guarda fez um sinal discreto, e o porto se abriu.

Quinhentos metros  frente, Susan repetiu o procedimento diante de outra cerca de arame farpado igualmente imponente. Vamos, l rapazes... Esta  s a milionsima vez que venho aqui.
Ao se aproximar da ltima guarita, um sentinela musculoso, segurando dois ces de guarda e uma metralhadora, olhou para sua placa e fez sinal para que prosseguisse. Ela seguiu a Canine Road por mais alguns metros, depois estacionou na rea C, reservada para funcionrios. Inacreditvel, pensou. Eles tm 26 mil empregados e um oramento de 12 bilhes de dlares - ser que no conseguem passar um fim de semana sem mim? Susan estacionou o carro na vaga e desligou o motor, contrariada.
Atravessou os impecveis jardins, entrou no prdio, passou por mais duas verificaes de segurana e finalmente chegou ao tnel sem janelas que levava  nova ala. Uma cabine com um sistema de reconhecimento de voz bloqueava sua passagem.

NATIONAL SECURITY AGENCY (NSA)
DEPARTAMENTO DE CRIPTOGRAFIA
SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO

O guarda armado olhou para ela.
- Boa tarde, senhorita Fletcher.
Susan sorriu, cansada.
- Oi, John.
- No esperava v-la aqui hoje.
- , nem eu. - Ela se aproximou do microfone parablico e disse, em voz clara: "Susan Fletcher." O computador reconheceu o espectro de freqncias de sua voz e o porto se abriu. Ela entrou.
  O guarda observou Susan enquanto ela ia andando pelo corredor. Notou que seus vibrantes olhos castanhos pareciam meio distantes, mas seu rosto exibia um certo frescor, e os cabelos castanhos, na altura do ombro, ainda estavam midos. Ela deixava atrs de si um suave perfume de talco para bebs. O sentinela percorreu com os olhos suas costas bem torneadas, observando a blusa branca com a marca do suti quase invisvel por baixo. Desceu o olhar pela saia at chegar s pernas - as famosas pernas de Susan Fletcher.
Difcil imaginar que elas sustentam um QI de 170, ele pensou.
Ficou olhando para ela por um bom tempo, at que sua silhueta sumiu ao longe.

Quando Susan chegou ao final do tnel, uma porta circular, parecida com a de um cofre, bloqueava sua passagem. Havia uma placa com letras grandes que dizia: CRIPTOGRAFIA.
Com um suspiro resignado, colocou a mo sobre o teclado numrico embutido na parede e digitou seu cdigo pessoal de cinco dgitos. Alguns segundos depois, a porta de 12 toneladas de ao comeou a girar. Susan tentava se concentrar, mas seus pensamentos acabavam voltando para ele.
David Becker. O nico homem que havia amado em toda a sua vida. O mais jovem professor titular da Universidade de Georgetown, brilhante especialista em lnguas estrangeiras e praticamente uma celebridade no mundo acadmico. Dotado de uma memria prodigiosa e profundo amante das lnguas, dominava seis dialetos da sia, assim como espanhol, francs e italiano. Suas palestras na universidade sobre etimologia e lingstica eram concorridssimas, e ele geralmente se estendia muito alm do horrio para poder responder  enxurrada de perguntas da platia. Falava com autoridade e entusiasmo, aparentando indiferena em relao aos olhares de admirao das suas alunas, fascinadas com um professor famoso.
Becker era um homem de 35 anos, moreno e forte, cheio de vitalidade. Tinha olhos verdes e uma inteligncia  altura de seu porte. Seu queixo quadrado e feies bem marcadas faziam com que Susan se lembrasse de uma esttua de mrmore. Com mais de um metro e oitenta de altura, jogava squash com uma rapidez que surpreendia seus colegas. Depois de massacrar seu oponente na quadra, ele costumava se refrescar enfiando a cabea embaixo de um bebedouro e deixando a gua escorrer pelo cabelo espesso e preto. Ento, ainda pingando, em geral tomava uma vitamina de frutas com um sanduche em companhia do adversrio.
O salrio que a universidade lhe pagava era modesto como o de qualquer outro professor em incio de carreira. Algumas vezes, quando precisava renovar sua anuidade no clube de squash ou colocar um novo encordoamento de tripas em sua velha raquete Dunlop, conseguia algum dinheiro extra fazendo trabalhos de traduo para agncias do governo em Washington ou nos arredores. Foi num desses trabalhos que conheceu Susan.
Era uma manh fresca durante as frias de outono, e Becker voltava de sua corrida matinal para o apartamento de trs quartos cedido pela universidade.
Viu que havia recados na secretria eletrnica. Tomou um grande copo de suco de laranja enquanto ouvia o recado. A mensagem era parecida com muitas outras que j tinha recebido: uma agncia do governo estava requisitando seus servios de traduo naquela mesma manh. A nica coisa peculiar  que Becker nunca tinha ouvido falar dessa organizao especfica.
-  chamada de National Security Agency. Agncia de Segurana Nacional - disse Becker, telefonando para alguns colegas em busca de informaes.
A resposta era sempre a mesma:
- Voc est falando do Conselho de Segurana Nacional?
Becker ouviu de novo a mensagem.
- No. Eles disseram "agncia. A sigla  NSA.
- Nunca ouvi falar.
Becker verificou a listagem oficial de agncias e organizaes governamentais, mas tambm no encontrou nada. Confuso, ligou para um de seus velhos companheiros de squash, um ex-analista poltico que trabalhava como assistente de pesquisa na Biblioteca do Congresso. David ficou um pouco chocado com a explicao.
No apenas a NSA existia de fato, como era tambm considerada uma das organizaes mais influentes do mundo. Coletava informaes de inteligncia de todo o planeta e protegia informaes secretas norte-americanas h mais de 50 anos. Apenas 3% dos americanos tinham conhecimento de sua existncia.
Seu amigo brincou com ele.
- NSA significa: Ningum Sabe dessa Agncia.
Preocupado e curioso ao mesmo tempo, Becker aceitou a oferta da agncia misteriosa. Percorreu os 60 quilmetros at a central de operaes da NSA, que ocupava 350 mil metros quadrados discretamente escondidos pelas verdejantes colinas de Fort Meade, em Maryland. Depois de ter passado por inmeras verificaes de segurana e ter recebido um passe de visitante com holograma, vlido por seis horas, foi levado at um luxuoso laboratrio onde lhe disseram que iria passar a tarde fornecendo "suporte cego" ao Departamento de Criptografia, um grupo de elite de gnios matemticos responsveis por decifrar todo tipo de cdigos.
Durante uma hora, os criptgrafos pareciam no ter sequer notado que Becker estava presente. Iam e vinham em torno de uma enorme mesa e falavam usando termos que Becker nunca tinha ouvido antes. Falavam de cifras de fluxo, geradores autodecimados, variantes knapsack, protocolos de conhecimento zero, pontos de unicidade. Becker limitou-se a observar, completamente perdido. Rascunhavam smbolos em papel quadriculado, debruavam-se sobre listagens de computadores e se referiam constantemente  massa ilegvel de texto que estava sendo exibida no projetor.

JHdia3iKH Dhmado/ertwtilw+igi328 5iha IsfnHKhhhfafOh hdfgaf/fi37we ohi93450s9difd2h/H H rtyFH Lf89303 95 i s P if2i08901 h i98yhfi080ewrt03 i o i r845hOroq+itOeu4tqefqellou iw 08UVOI H0934itpwfiaier09qu4i r9gu iviP$duw4h95pe8rtugviw3p4e/ikkc mffuerhfgvOq394iki rmg+unhvs90er i rk/0956y7uOpoi klO i p9f8760qwerqi

  Aps algum tempo, um deles aproximou-se e explicou a Becker aquilo que ele mesmo j havia deduzido. O texto todo bagunado era um cdigo - um texto cifrado, ou criptograma -, grupos de nmeros e letras que representavam palavras encriptadas. O trabalho dos criptgrafos era estudar o cdigo e extrair dali a mensagem original, ou mensagem clara. A NSA chamou Becker porque suspeitava que a mensagem tinha sido escrita no dialeto mandarim da lngua chinesa. Ele deveria traduzir os smbolos assim que os criptgrafos os decifrassem.
  Durante duas horas, Becker interpretou uma sucesso sem fim de smbolos em mandarim. Mas todas as vezes que fazia uma traduo, os criptgrafos sacudiam a cabea, em completo desespero. Aparentemente, o cdigo no fazia sentido. Tentando ajudar da melhor forma possvel, Becker lhes disse que todos os caracteres traduzidos at ento tinham uma particularidade: eram caracteres Kanji. No mesmo instante o burburinho que tomava conta da sala cessou. O chefe das operaes, um fumante inveterado e magricela chamado Morante, virou-se para Becker, espantado:
- Voc quer dizer que estes smbolos possuem mltiplos significados? Becker disse que sim. Explicou que Kanji era um sistema de escrita japonesa
baseado em caracteres chineses modificados. At ento, ele estava traduzindo-os como se fossem mandarim porque era isso que lhe tinham pedido.
- Meu Deus! - disse Morante, tossindo. - Vamos tentar o Kanji.
Como num passe de mgica, subitamente tudo fez sentido.
Os criptgrafos ficaram muito impressionados, mas, ainda assim, fizeram com que Becker trabalhasse nos caracteres fora de ordem.
-  para sua prpria proteo - disse Morante. - Assim voc no tem como saber o que est traduzindo.
Becker riu. Mas ningum  sua volta estava rindo.
Quando o cdigo finalmente foi quebrado, Becker no tinha idia dos segredos sombrios que teria ajudado a revelar, mas uma coisa era certa: a NSA levava aquele assunto muito a srio. O cheque que lhe deram equivalia a mais de um ms de seu salrio na universidade.
Quando estava saindo, passando pelos muitos postos de segurana ao longo do corredor principal, sua passagem foi bloqueada por um guarda que acabara de desligar o telefone.
- Sr. Becker, aguarde aqui, por favor.
- Algum problema? - Becker no esperava que o trabalho demorasse tanto e estava comeando a se atrasar para sua partida de squash dos sbados  tarde.
	- A chefe da Criptografia quer falar com voc. Ela est vindo para c  disse o guarda.
- Ela? - Becker riu. No tinha visto nenhuma mulher desde que pisara na NSA. - H algo de errado nisso? - disse uma voz feminina atrs dele.
Becker virou-se e sentiu o rosto corar. Olhou para o crach na blusa da mulher. A chefe do Departamento de Criptografia da NSA no era s uma mulher, era uma linda mulher.
- No - ele disse, atrapalhando-se com as palavras. - Eu s...
- Susan Fletcher - disse ela, sorrindo e estendendo-lhe a mo delicada. Becker cumprimentou-a.
- David Becker.
- Parabns, Sr. Becker, soube que fez um bom trabalho hoje. Podemos conversar um pouco?
Ele hesitou.
- Na verdade, estou com um pouco de pressa. - Ficou pensando se era realmente sensato no dar ateno  agncia de inteligncia mais poderosa do mundo, mas sua partida de squash iria comear em pouco menos de uma hora e ele tinha uma reputao a manter: David Becker jamais se atrasava para o squash... Para as aulas, talvez, mas nunca para o squash.
- Serei breve - disse Susan Fletcher, sorridente. - Por aqui, por favor.
Dez minutos depois, Becker estava na cantina da NSA, comendo salgadinhos e tomando um suco de frutas com a adorvel chefe da Criptografia. David percebeu rapidamente que aquela moa de 38 anos no estava ocupando um alto cargo na NSA por mero acaso: era uma das mulheres mais inteligentes que j havia encontrado. Enquanto conversavam sobre cdigos e como decifr-los, Becker teve que se esforar para no se perder na conversa, o que era uma experincia nova e estimulante para ele.

Um hora depois, quando Becker j tinha deixado de lado sua partida de squash, e Susan, por sua vez, havia ignorado completamente trs chamadas pelo sistema interno de comunicao, ambos estavam achando tudo aquilo muito engraado. L estavam eles, duas mentes altamente racionais e analticas, supostamente imunes a paixes sbitas, mas, enquanto discutiam morfologia, lingstica e geradores de nmeros pseudo-aleatrios, sentiam-se como um casal de adolescentes, como se houvesse fogos estourando a seu redor.
Naquele dia, Susan no chegou a tocar no assunto pelo qual havia originalmente chamado David para aquela conversa: queria convid-lo para trabalhar, durante um perodo de teste, na Diviso de Criptografia Asitica. Mas o jovem professor falava com tanta paixo de suas aulas que Susan percebeu que ele nunca deixaria a universidade. E no quis estragar o clima com assuntos de negcios. Sentia-se novamente como uma adolescente e no queria que nada atrapalhasse isso. E assim foi.
A fase inicial do relacionamento foi lenta e romntica: momentos roubados sempre que as agendas de ambos permitiam, longos passeios pelo campus da Universidade de Georgetown, um caf j tarde da noite no Merlutti, algumas palestras e concertos. Susan percebeu que nunca tinha rido tanto em sua vida. David conseguia fazer com que todas as coisas parecessem engraadas. Era uma boa forma de relaxar da tenso do trabalho na NSA.
Ela adorava se lembrar de uma tarde fresca de outono em que os dois ficaram assistindo a uma partida de futebol e falando bobagem.
- Qual  mesmo o esporte que voc disse que pratica? - perguntou Susan, zombeteira. - Splash?  na gua?
Becker olhou torto para ela:
- Chama-se squash.
Ela lanou um olhar vago, como se no houvesse entendido.
-  parecido com tnis, mas a quadra  menor - ele continuou.
Susan encostou o ombro no dele, carinhosamente.
- E voc? - perguntou Becker. - Pratica algum esporte?
- Sou faixa-preta em spinning.
Becker fez cara de total desprezo.
- Prefiro esportes onde se possa vencer.
Susan sorriu.
- Conheo algum que  competitivo...
Susan chegou mais perto de Becker e sussurrou no ouvido dele:
- Doutor.
Ele virou-se e olhou para ela, sem entender.
- Doutor - ela repetiu. - Me diga a primeira coisa que lhe vier  cabea. Becker continuava olhando, meio desconfiado.
- Livre associao?
- Procedimento-padro da NSA. Preciso saber com quem estou andando...
- Ela olhou para ele muito seriamente e repetiu:
- Doutor.
Becker deu de ombros.
- Seuss, o dos livros infantis.
Susan olhou de volta com um sorriso torto.
- T bom, vamos tentar outra: cozinha.
Ele no hesitou:
- Quarto.
Susan levantou as sobrancelhas.
- Mais uma... gato.
- Tripas.
- Tripas?
- . Tripas... Mais especificamente, tripa de gato.  o encordoamento de
raquetes de squash usado por todos os campees.
- Que simptico - ela resmungou.
- Seu diagnstico? - perguntou Becker.
Susan refletiu e disse:
- Voc  infantil, viciado em squash e sexualmente frustrado.
Becker deu de ombros.
- Acho que  mais ou menos isso.
As coisas continuaram assim durante vrias semanas. Becker lhe fazia milhares de perguntas quando se encontravam para jantar em restaurantes que funcionavam durante 24 horas. Onde ela tinha aprendido matemtica? Como foi parar na NSA? Como tinha se tornado to atraente?
Diante da ltima pergunta, Susan corou e admitiu que tinha custado a desabrochar. Fora uma adolescente magrela e esquisitona, com aparelho nos dentes. Contou que uma de suas tias lhe dissera uma vez que Deus tinha compensado sua total falta de graa com um crebro privilegiado. Becker pensou que aquela tinha sido uma declarao muito prematura.

Susan explicou que seu interesse em criptografia comeou no incio do ensino mdio. Um de seus amigos viciados em informtica, um grandalho chamado Frank Gutmann, digitou para ela uma poesia de amor e encriptou-a usando uma cifra de substituio numrica. Susan implorou-lhe que contasse o que estava escrito, mas Frank., sedutor, se recusara a falar. Susan levou o cdigo para casa e passou a noite trancada no quarto at descobrir o segredo - cada nmero representava uma letra. Ela o decifrou cuidadosamente e ficou olhando, maravilhada, quando aqueles dgitos aparentemente aleatrios se transformaram magicamente em uma poesia. Naquele instante soube que estava apaixonada: cdigos e criptografia iriam se tomar o centro de sua vida.
Quase 20 anos mais tarde, depois de completar seu mestrado em Matemtica pela Johns Hopkins e de obter uma bolsa integral para estudar Teoria dos Nmeros no MIT, ela defendeu sua tese de doutorado: Mtodos, Protocolos e AIgoritmos Criptogrficos para Aplicaes Manuais. Aparentemente, seu orientador no foi o nico a ler a tese: pouco tempo depois, ela recebeu um telefonema e uma passagem de avio da NSA.
Todos os que trabalhavam com criptografia conheciam a NSA. Era l que estavam os maiores crebros do planeta nessa rea. No final de cada semestre, enquanto as empresas do setor privado cortejavam os alunos mais brilhantes recm-chegados ao mercado de trabalho, oferecendo-lhes salrios ultrajantes e vrios benefcios adicionais, a NSA observava cuidadosamente, selecionava seus alvos e ento entrava em cena, oferecendo o dobro. O que a NSA queria, a NSA pegava. Trmula com a expectativa, Susan pegou o vo at o Aeroporto Internacional de Dulles, em Washington, onde um motorista da NSA estava  sua espera, pronto para lev-la a Fort Meade.
Havia outros 41 candidatos que tinham recebido o mesmo telefonema naquela vez. Com 28 anos, Susan era a mais jovem. Era tambm a nica mulher. A visita acabou sendo mais uma sesso de relaes pblicas com uma bateria de testes de inteligncia do que propriamente uma apresentao formal da NSA.
Na semana seguinte, Susan e seis outros foram convidados a retornar. Apesar de indecisa, ela acabou voltando. O grupo foi imediatamente separado. Os participantes foram submetidos individualmente a testes no polgrafo, investigaes sobre seus antecedentes, anlise de caligrafia e muitas horas de entrevistas, inclusive a respeito de suas orientaes e prticas sexuais. Quando o entrevistador perguntou a Susan se j tinha praticado sexo com animais, ela quase se retirou, mas, de alguma forma, todo o mistrio envolvido fez com que continuasse. Havia a perspectiva de trabalhar com o que existia de mais avanado dentro da teoria de cdigos, entrar no "Palcio dos Quebra-Cabeas" e tornar-se membro de um dos mais secretos grupos do planeta: a Agncia de Segurana Nacional.
Becker ouvia, fascinado, suas histrias.
- Ento realmente perguntaram se voc j tinha feito sexo com animais? 
Susan deu de ombros:
- Faz parte da rotina de testes.
- Bem... - Becker tentou suprimir um sorriso malicioso. - O que voc respondeu?
Ela chutou-o por baixo da mesa.
- Disse que no! - E acrescentou: - At a noite passada, era verdade.
Aos olhos de Susan, David era a encarnao da perfeio. S tinha uma qualidade lamentvel: toda vez que saam, ele insistia em pagar a conta. Ela odiava v-lo gastar o dinheiro de um dia inteiro de trabalho para pagar um jantar a dois, mas Becker no cedia. Susan acabou desistindo de protestar, mas ainda assim isso a incomodava. Ganho mais dinheiro do que preciso, pensava ela. Era eu quem deveria estar pagando.
Ela decidiu que, apesar desse cavalheirismo um pouco exagerado e deslocado, David era o homem ideal. Sabia ser solcito, cuidadoso, interessante, engraado e, o que era melhor, interessava-se de fato pelo trabalho dela. Durante as idas ao Smithsonian, os passeios de bicicleta ou enquanto deixavam o macarro passar do ponto na cozinha de Susan, ele estava sempre curioso. Susan respondia a todas as perguntas que podia e lhe fornecia a viso geral e pblica da Agncia de Segurana Nacional. David ficava fascinado com aquilo que ouvia.
Fundada pelo presidente Truman no primeiro minuto do dia 4 de novembro de 1952, a NSA foi a agncia de inteligncia mais clandestina do mundo durante quase 50 anos. A doutrina de sua fundao, descrita em sete pginas, especificava um objetivo muito bem definido: proteger as comunicaes do governo dos Estados Unidos e interceptar as comunicaes de foras estrangeiras.
O teto do principal prdio de operaes da NSA estava repleto com quase 500 antenas, incluindo dois grandes domos de captao de radiofreqncias, semelhantes a grandes bolas de golfe. O prdio em si era gigantesco - mais de 185 mil metros quadrados, o dobro do tamanho do centro de operaes da CIA. Dentro do prdio havia quase 2.500 quilmetros de cabos telefnicos e 7.500 metros quadrados de janelas vedadas.

Susan contou a David sobre o COMINT (Communications Intelligence), a diviso global de reconhecimento da agncia - uma rede admirvel de postos de escuta, satlites, espies e grampos telefnicos ao redor do planeta. Milhares de comunicados e conversas eram interceptados diariamente e enviados para que os analistas da NSA os decodificassem. O FBI, a CIA e os consultores de poltica externa dos EUA, todos dependiam do trabalho de inteligncia feito pela NSA para tomarem suas decises.
Becker ficava hipnotizado pela conversa.
- E quanto ao trabalho de decriptao, onde  que voc se encaixa nisso tudo?
Susan explicou-lhe como as transmisses interceptadas muitas vezes vinham de governos potencialmente perigosos, faces hostis e grupos terroristas, muitos dos quais operavam dentro dos EUA. Suas comunicaes em geral eram codificadas para impedir a quebra de sigilo, caso cassem em mos erradas.  claro que, graas ao COMINT, isso acontecia freqentemente. Susan contou que seu trabalho era estudar os cdigos, quebr-los manualmente e fornecer  NSA as mensagens decodificadas. Contudo, essa no era toda a verdade.
Susan sentia-se mal por ter que mentir ao seu novo amor, mas no tinha escolha. At poucos anos antes, isso seria verdade, mas as coisas haviam mudado na NSA. Todo o universo da criptografia tinha mudado. O novo trabalho de Susan era secreto, at mesmo para muitos dos que se encontravam nos altos escales do poder.
	- Cdigos - disse Becker. - Como voc sabe por onde comear? Quero dizer... como voc os quebra?
	Susan sorriu.
	- Voc, mais que ningum, deveria saber.  como estudar uma lngua estrangeira. No incio, o texto parece incompreensvel, mas aos poucos voc aprende as regras que definem sua estrutura e comea a extrair o sentido.
	Becker concordou, encantado. Queria saber mais.
	Rabiscando suas lies em guardanapos e programas de concertos,
Susan lanou-se  tarefa de dar a seu novo e charmoso aluno um mini-curso de criptografia. Ela comeou com a caixa de cifras, o "quadrado perfeito" de Jlio Csar.
- Historicamente - ela explicou - Csar foi o primeiro a usar cdigos escritos. Como seus mensageiros eram algumas vezes capturados em emboscadas e seus comunicados secretos podiam ser roubados, ele criou uma forma rudimentar de codificar suas ordens. Reorganizou o texto de suas mensagens de uma maneira que o texto parecia no ter sentido. Obviamente isso no era verdade. Cada mensagem sempre possua uma contagem de letras cujo total equivalia a um quadrado perfeito, dependendo de quanto Csar tivesse que escrever. Assim, uma mensagem com 16 caracteres usava um quadrado de quatro por quatro; se fossem 25 caracteres, seria cinco por cinco; 100 caracteres requeriam um quadrado de dez por dez, etc. Seus oficiais sabiam que deviam transcrever o texto preenchendo as casas do quadrado sempre que uma mensagem aleatria chegasse. Ao fazerem isso, podiam ler a mensagem na vertical e seu sentido se tornaria claro.
Ao longo do tempo, a idia de Csar de reorganizar o texto para codific-lo foi sendo adotada por outros e alterada para que o cdigo se tornasse mais difcil de ser quebrado. O pice da codificao sem uso de computadores foi durante a Segunda Guerra Mundial. Os nazistas criaram uma impressionante mquina de criptografia chamada Enigma. O dispositivo mecnico se parecia com uma antiga mquina de escrever. Possua engrenagens rotatrias de metal que se encaixavam de formas complexas e transformavam uma mensagem clara em cadeias confusas de caracteres, agrupados de maneira incompreensvel. Apenas atravs de outra mquina Enigma,' calibrada exatamente da mesma forma, o destinatrio poderia quebrar o cdigo.
Becker ouvia, compenetrado. O professor havia se tornado um aprendiz.
Uma noite, durante uma apresentao do Quebra-nozes na universidade, Susan escreveu para Becker sua primeira mensagem encriptada, usando um cdigo bsico. Ele ficou sentado durante todo o intervalo refletindo sobre a mensagem de 20 letras:

ENH ANL SDQ SD BNMGDBHCN

Finalmente, pouco antes de as luzes se apagarem para a segunda parte, ele compreendeu. Para codificar a mensagem, Susan havia simplesmente substitudo cada letra do texto pela letra anterior do alfabeto. Para decifrar o cdigo, tudo que Becker tinha a fazer era trocar cada uma das letras pela seguinte: A virava B, B virava C e assim por diante. Ele rapidamente fez isso com as outras letras. Nunca imaginou que cinco breves palavras pudessem deix-lo to feliz:

FOI BOM TER TE CONHECIDO

Ele rabiscou rapidamente sua resposta e deu o papel para Susan:

SZLADL ZBGDH

Susan leu e corou.
Becker riu. Tinha 35 anos e seu corao batia loucamente. Nunca havia se sentido to atrado por uma mulher em toda a sua vida. Susan tinha feies delicadas e olhos castanhos brilhantes. Era um tipo de beleza europia, clssica, que lhe lembrava os belos anncios de cosmticos da Este Lauder. Talvez ela tivesse sido magrela e esquisitona quando adolescente, mas certamente havia mudado muito. Ao longo dos anos, ganhou belas e graciosas curvas, um corpo torneado, com peitos firmes e um abdmen perfeito. David muitas vezes brincava com ela, dizendo que era a primeira modelo que ele conhecera que tinha doutorado em Matemtica Aplicada. Conforme os meses se passaram, os dois comearam a suspeitar que aquela poderia ser uma relao para toda a vida.
J estavam saindo h uns dois anos quando, do nada, David lhe props casamento. Foi durante uma viagem de fim de semana para as Smoky Mountains. Estavam deitados em uma grande e confortvel cama no Stone Manor. Ele sequer tinha comprado um anel - apenas disse o que tinha em mente, do nada. Essa espontaneidade era uma das caractersticas que ela admirava. Beijou-o longa e amorosamente. Ele tomou-a em seus braos e tirou a camisola dela com um gesto suave.
- Vou considerar isso como um sim - disse ele.
Fizeram amor durante toda a noite ao lado da lareira.
Passaram-se trs meses desde aquela tarde mgica. Fora antes da inesperada promoo de David a diretor do Departamento de Lnguas Modernas. Desde ento, o relacionamento dos dois se tomou cada vez pior.

CAPTULO
4

A porta da Criptografia emitiu um bipe, tirando Susan de seus devaneios. A macia porta giratria estava aberta e iria se fechar de novo em cinco segundos, completando uma rotao de 180 graus. Susan deixou de lado seus pensamentos. Um computador registrou automaticamente sua entrada.
Apesar de ter praticamente morado na Criptografia desde que fora inaugurada, havia trs anos, a viso da sala ainda a impressionava. A parte principal era uma cmara circular com a altura de cinco andares. O ponto mais alto do domo transparente que lhe servia de teto ficava a 35 metros de altura do cho. A cpula de plexiglas fora revestida com uma rede de policarbonatos, capaz de resistir a uma exploso de dois megatons. A tela filtrava a luz do sol, tecendo delicados padres de luz nas paredes. Pequenas partculas de poeira descreviam largas espirais para cima, capturadas pelo poderoso sistema de desionizao do domo.
As laterais inclinadas da sala formavam um amplo arco na parte superior e ficavam quase verticais conforme se aproximavam do nvel de viso. Tornavam-se ento sutilmente translcidas e esmaeciam at atingir um preto opaco quando se encontravam com o cho - uma ampla rea cintilante de cermica preta polida, que emanava um brilho surreal, causando no observador a estranha sensao de que o cho era transparente. Gelo negro.
No centro da cmara, atravessando o cho como a ponta de um enorme torpedo, encontrava-se a mquina para a qual o domo havia sido construdo. Seus reluzentes contornos negros arqueavam-se quase dez metros acima, para depois mergulhar novamente no cho. Curvada e lisa, parecia uma gigantesca baleia assassina que houvesse sido congelada no meio de um salto em um mar frgido.
Esse era o TRANSLTR, o mais caro computador do planeta, nico em seu gnero. Uma mquina que o NSA jurava no existir.
Como um iceberg, 90% de sua massa e poder computacional se ocultavam sob a superfcie. Seus segredos estavam trancados em um silo de cermica que ocupava os seis andares abaixo. Assemelhava-se a uma cpsula de foguete, circundada por uma trama de plataformas, cabos e vlvulas de exausto do sistema de resfriamento a gs fron. Os geradores de energia na parte mais baixa emitiam um zumbido grave e contnuo que dava  Criptografia uma sonoridade abafada, quase fantasmagrica.
O TRANSLTR, como todos os grandes avanos tecnolgicos, era produto da necessidade. Durante os anos 1980, a NSA presenciou uma revoluo nas telecomunicaes que mudaria o mundo da espionagem para sempre: o acesso pblico  Internet. Mais especificamente, a chegada do e-mail.
Criminosos, terroristas e espies, fartos de ter que lidar com linhas telefnicas grampeadas, voltaram-se imediatamente para essa nova forma de comunicao global. O e-mail combinava a segurana do correio convencional com a velocidade do telefone. Como as transferncias eram feitas atravs de cabos de fibra ptica e nunca transmitidas por ondas de rdio, era impossvel interceptar e-mails - ou, ao menos, era o que parecia.	
Na verdade, interceptar e-mails enquanto eles viajavam pela Internet era trivial para os tecno-gurus do NSA. A Internet no era uma nova revelao originada dos computadores pessoais, como muitos acreditavam. Havia sido criada pelo Departamento de Defesa dos EUA trs dcadas antes - uma gigantesca rede de computadores projetada para assegurar as comunicaes do governo em caso de uma guerra nuclear. Os olhos e ouvidos da NSA eram profissionais veteranos da Internet. Aqueles que estavam conduzindo negcios ilcitos atravs de e-mails rapidamente descobriram que seus segredos no eram to secretos assim. rgos do governo americano, como o FBI, a DEA (Drug Enforcement Administration) e outros, auxiliados pela hbil equipe de hackers da NSA, tiraram proveito disso para realizar uma leva de prises e condenaes muito til.
 claro que, to logo os usurios de computadores ao redor do mundo descobriram que o governo americano tinha livre acesso a suas comunicaes por e-mail, houve uma onda de protestos. At mesmo amigos que usavam e-mail apenas para correspondncias pessoais acharam a falta de privacidade perturbadora. Por todo o planeta, programadores independentes se lanaram  tarefa de tornar os e-mails mais seguros. Rapidamente encontraram uma forma de faz-lo, e foi assim que nasceu a codificao por chave pblica.
A codificao por chave pblica era um conceito ao mesmo tempo simples e brilhante. Consistia no uso de um programa simples, para computadores pessoais, que alterava as mensagens de e-mail de tal forma que estas se tornavam impossveis de ler. Os usurios passaram a poder escrever suas mensagens e codific-las usando um programa desse tipo. O texto resultante parecia um bloco de caracteres aleatrios e sem sentido: um cdigo. Qualquer um que interceptasse a mensagem iria ver apenas lixo em sua tela.
A nica maneira de decifrar o cdigo era digitar a senha do remetente - uma srie secreta de caracteres que funcionava basicamente como a senha de um carto de crdito. Geralmente, as senhas eram longas e complexas e transportavam as informaes para transmitir ao algo ritmo de decodificao as operaes matemticas necessrias para recriar a mensagem original.
Os usurios desses programas voltaram a poder, ento, enviar e-mails com total confiana. Mesmo se a transmisso fosse interceptada, apenas aqueles que tivessem a chave poderiam decifr-la.
A NSA sentiu o peso dessa nova forma de criptografia imediatamente. Os cdigos com os quais se deparava no eram mais simples cifras de substituio que podiam ser decifradas com lpis e papel quadriculado. Eram agora funes de hash geradas por computadores que usavam a teoria do caos e mltiplos conjuntos de smbolos para codificar as mensagens de forma que parecessem absolutamente aleatrias.
No incio, as chaves geradas eram pequenas o suficiente para que os computadores da NSA fossem capazes de decifr-las. Se a chave desejada tivesse dez dgitos, um computador era programado para testar todas as possibilidades entre 0000000000 e 9999999999. Mais cedo ou mais tarde, o computador iria encontrar a seqncia correta. Esse mtodo de tentativa e erro era conhecido como "ataque de fora bruta. Era demorado, mas tambm matematicamente garantido que iria funcionar.
A medida que o mundo foi compreendendo o poder da abordagem por fora bruta para a quebra de cdigos, as chaves foram se tornando cada vez maiores. O tempo necessrio para que os computadores descobrissem a chave correta passou de semanas para meses e, finalmente, para anos.
Na dcada de 1990, as chaves j tinham mais de 50 caracteres e empregavam todos os 256 caracteres do cdigo ASCII usado pelos computadores pessoais letras, nmeros e smbolos. O nmero de possveis combinaes para uma chave era prximo de 10120 - ou seja, 1 com 120 zeros depois. Adivinhar uma chave de tamanha complexidade era mais ou menos to improvvel quanto escolher o gro de areia correto em uma praia de cinco quilmetros. Estimavase que, para obter sucesso na descoberta de uma chave-padro de 64 bits usando um ataque de fora bruta, o supercomputador mais poderoso da NSA levaria 19 anos. Quando o computador finalmente conseguisse encontrar a chave e quebrar o cdigo, o contedo da mensagem certamente j seria irrelevante.
Paralisada em um vazio virtual de inteligncia, a NSA traou uma diretriz ultra-secreta que foi endossada pelo presidente dos Estados Unidos. Munida de financiamento governamental e com carta-branca para fazer o que fosse preciso para resolver o problema, a NSA decidiu construir algo considerado impossvel: a primeira mquina do planeta capaz de decifrar qualquer cdigo.
Apesar de muitos engenheiros considerarem a proposta de criao do novo computador invivel, a NSA persistia em seu lema: "Tudo  possvel. O impossvel apenas demora mais."
Cinco anos, 500 mil homens-horas e 1,9 bilho de dlares depois, a NSA provou mais uma vez do que era capaz. O ltimo dos trs milhes de microprocessadores, cada um do tamanho de um selo postal, foi soldado em seu lugar, a programao interna do computador foi finalizada e o revestimento de cermica, fechado. O TRANSLTR havia nascido.
Ainda que os segredos do funcionamento interno do TRANSLTR fosse produto de muitas mentes e no houvesse um nico indivduo que compreendesse todos esses segredos simultaneamente, seu princpio bsico era simples: muitas mos tornam o trabalho mais leve.
Seus trs milhes de processadores iriam trabalhar em paralelo, executando clculos a uma velocidade impressionante, experimentando cada uma das permutaes possveis no processo. A esperana era de que mesmo cdigos que possussem chaves fabulosamente grandes no estariam a salvo da tenacidade do TRANSLTR. Essa obra-prima de quase dois bilhes de dlares usaria o poder do processamento paralelo, assim como alguns avanos altamente secretos em anlise de mensagens claras, para descobrir chaves e cdigos de quebra. Seu poder viria no apenas do nmero colossal de processadores, mas tambm dos avanos obtidos em computao quntica, uma tecnologia em desenvolvimento que permitia que a informao fosse armazenada como estados qunticos em nvel atmico, em vez de meros dados binrios.
O momento da verdade veio em uma manh tempestuosa de outubro. O primeiro teste real. Apesar das dvidas quanto  velocidade final da mquina, os engenheiros concordavam quanto a uma coisa: se todos os processadores funcionassem em paralelo corretamente, o TRANSLTR seria um computador poderoso. A questo era saber o quo poderoso ele seria.
A resposta chegou 12 minutos mais tarde. Em silncio, admirados, os poucos privilegiados que estavam presentes observaram quando o computador
mostrou o resultado: a mensagem clara, o cdigo decifrado. O TRANSLTR havia descoberto uma chave de 64 caracteres em pouco mais de 10 minutos, cerca de um milho de vezes mais rpido do que as duas dcadas que o segundo computador mais veloz da NSA teria levado.
Conduzido pelo vice-diretor de operaes, comandante Trevor J. Strathmore, o Departamento de Produo da NSA havia triunfado. O TRANSLTR era um sucesso e, para manter esse sucesso absolutamente secreto, o comandante Strathmore deixou vazar prontamente informaes de que o projeto havia sido um fracasso total. Todas as atividades na Criptografia eram, supostamente, uma tentativa de salvar o fiasco de dois bilhes de dlares. Apenas a elite da NSA conhecia a verdade: o TRANSLTR estava funcionando a pleno vapor, quebrando centenas de cdigos todos os dias.
Com a divulgao de que nem mesmo a todo-poderosa NSA era capaz de decodificar as mensagens encriptadas pelos computadores, os segredos comearam a ser revelados. Chefes do mundo das drogas, terroristas e criminosos em geral, preocupados com a possibilidade de interceptao de suas transmisses por celular, voltaram-se para o fantstico mundo dos e-mails codificados a fim de se comunicarem instantaneamente atravs do planeta. Nunca mais teriam que encarar um jri no tribunal e ouvir suas vozes saindo de uma fita, prova de alguma ligao por celular h muito esquecida, mas captada por um dos satlites da NSA.
O trabalho de inteligncia nunca foi to fcil. Os cdigos interceptados pela NSA entravam no TRANSLTR como cifras absolutamente ilegveis e saam, minutos depois, como mensagens perfeitamente claras. No havia mais segredos.
Para tornar o mistrio em torno de sua incompetncia completo, a NSA mantinha um forte lobby contra qualquer novo programa de computador para encriptao de dados, insistindo que isso atrapalharia seu trabalho e tornaria impossvel que os agentes da lei perseguissem e prendessem os criminosos. Os grupos de direitos civis ficaram felizes, defendendo que, de qualquer forma, a NSA no deveria estar lendo os e-mails das pessoas. Programas de encriptao continuavam a ser criados e vendidos. A NSA havia perdido a batalha, exatamente como havia sido planejado. Toda a comunidade eletrnica mundial fora enganada... Ao menos, era o que parecia.

CAPTULO
5

Onde esto todos?, pensou Susan, enquanto atravessava a sala deserta da Criptografia. Que grande emergncia essa...
Apesar de muitos departamentos da NSA funcionarem durante os sete dias da semana, a Criptografia normalmente ficava vazia aos sbados. Os matemticos que trabalhavam nesse ramo eram, por natureza, viciados em trabalho e bastante tensos, e existia uma regra informal de que nunca trabalhariam aos sbados, exceto em casos de emergncia. Especialistas em quebrar cdigos eram um recurso valioso demais para que a NSA se arriscasse a perd-los por conta da estafa.
Susan atravessou a sala, tendo  sua direita a imponente figura do TRANSLTR. O rudo difuso dos geradores seis andares abaixo parecia estranhamente ameaador naquele dia. Susan no gostava de ficar na Criptografia fora do horrio de trabalho. Era como estar trancada em uma cela com uma gigantesca besta futurstica. Ela apressou o passo, dirigindo-se ao escritrio do comandante l no fundo.
A sala de Strathmore era toda de vidro e tinha recebido o apelido de "aqurio" devido  sua aparncia quando as cortinas estavam abertas. Ficava acima do salo principal, ligada por um conjunto de escadarias e passarelas. Enquanto subia os degraus, Susan olhou para cima, na direo da porta de carvalho macio do escritrio de Strathmore. Podia ver o smbolo da NSA - uma guia americana, de asas invertidas, segurando ferozmente uma chave de prata. Atrs da porta estava um dos homens mais impressionantes que ela j conhecera.
O comandante Strathmore, vice-diretor de operaes, tinha 56 anos e era como um pai para Susan. Foi ele quem a contratou, transformando a NSA em sua casa. Quando Susan foi trabalhar na agncia, h mais de 10 anos, Strathmore era o chefe do Departamento de Desenvolvimento em Criptografia, que servia como local de treinamento para novos talentos - ou melhor, novos homens - para a criptografia. Strathmore nunca tolerou qualquer tipo de discriminao, mas era especialmente protetor em relao  nica mulher em seu grupo. Quando era acusado de favoritismo, respondia com a verdade: Susan Fletcher era uma das aprendizes mais inteligentes que j tinha visto e ele no tinha a menor inteno de perd-la por conta de assdio sexual. Um dos criptgrafos teve a m idia de testar a resoluo de Strathmore.
Em uma manh, durante seu primeiro ano, Susan passou pela nova sala de lazer dos criptgrafos para preencher alguns formulrios. Quando estava saindo, notou que havia uma foto sua no quadro de avisos. Quase desmaiou de tanta vergonha. Na foto, ela aparecia de calcinha, deitada em uma cama.
Mais tarde descobriram que um dos criptgrafos havia digitalizado uma foto de uma revista ertica e editado a imagem, colando a cabea de Susan no corpo da modelo original. O resultado ficou bem convincente.
Infelizmente para o autor da brincadeira, Strathmore no achou a menor graa. Duas horas depois, um memorando significativo foi emitido:

FUNCIONRIO CARL AUSTIN EXPULSO POR CONDUTA INADEQUADA.

A partir desse dia, ningum mais ousou mexer com ela. Susan Fletcher era a menina-dos-olhos do comandante.
Os jovens criptgrafos de Strathmore no foram os nicos que aprenderam a respeit-lo. Logo no incio da carreira, ele chamou a ateno de seus superiores ao propor diversas operaes de inteligncia pouco ortodoxas e altamente bem-sucedidas.  medida que foi subindo na carreira, Trevor Strathmore ficou conhecido por suas anlises coesas e sucintas de situaes altamente complexas. Parecia ter uma habilidade nica de enxergar alm das complexidades morais que sempre envolviam as difceis decises da NSA e depois agir sem remorsos no interesse do bem comum.
Ningum tinha dvidas de que Strathmore amava seu pas. Era conhecido entre seus colegas como um patriota e um visionrio, um homem decente em um mundo de mentiras.
Desde em que Susan comeou a trabalhar na NSA, Strathmore subiu rapidamente de seu posto de chefe do Desenvolvimento em Criptografia para o posto de segundo em comando de toda a NSA. Agora havia apenas um homem hierarquicamente superior ao comandante Strathmore na agncia: o diretor Leland Fontaine, o lendrio senhor supremo do Palcio dos Quebra-Cabeasnunca visto, raramente ouvido e eternamente temido. Ele e Strathmore dificilmente se encontravam, e, quando isso acontecia, era como uma batalha de tits. Fontaine era um gigante entre os gigantes, mas Strathmore no parecia se intimidar. Argumentava com o diretor a favor de suas idias com o mesmo fervor de um boxeador apaixonado. Nem mesmo o presidente dos Estados Unidos ousava desafiar Fontaine como Strathmore fazia. Para isso, era preciso imunidade poltica ou, no caso do comandante, indiferena poltica.
  
  Susan subiu as escadas. Antes mesmo que batesse, a tranca eletrnica da porta de Strathmore soou. A porta se abriu, e o comandante fez sinal para que entrasse.
- Obrigado por ter vindo, Susan. Fico te devendo essa.
- Sem problemas. - Ela sorriu, enquanto sentava-se do outro lado da mesa. Strathmore era um homem grande, bruto, cujas feies inexpressivas ajudavam a disfarar a eficincia obstinada e o perfeccionismo. Seus olhos acinzentados geralmente transmitiam uma impresso de confiana e circunspeco resultantes da experincia, mas naquele dia pareciam irrequietos e perturbados.
- Voc parece cansado - disse Susan.
- J estive melhor - Strathmore suspirou. 
- Eu diria que sim, ela pensou.
Susan nunca tinha visto Strathmore to mal. Seus cabelos grisalhos e ralos estavam despenteados e, mesmo com o ar-condicionado no mximo, sua testa suava. Parecia que havia dormido usando aquele terno. Estava sentado em uma mesa de design moderno, com dois teclados embutidos e um monitor de computador em um dos cantos. Havia vrias listagens de computador impressas jogadas pela mesa, fazendo com que esta parecesse uma espcie de cabine de comando aliengena colocada ali no centro de sua sala acortinada.
- A semana foi difcil? - perguntou Susan.
Strathmore sacudiu os ombros e respondeu:
- O de sempre. A EFF est novamente infernizando minha vida com a questo dos direitos civis.
Susan sorriu. A EFF - Electronic Frontier Foundation - era uma entidade mundial formada por usurios de computadores que haviam criado uma poderosa organizao para a manuteno dos direitos civis, destinada a apoiar a liberdade de expresso e instruir outras pessoas sobre os fatos e os perigos de se viver num mundo eletrnico. Faziam um forte lobby contra aquilo que chamavam de "capacidade orweliana de vigilncia por parte das agncias governamentais, em particular a NSA. A EFF era uma, eterna pedra no sapato de Strathmore.
- Nada de novo, ento - disse ela. - Qual  a grande emergncia que fez com que voc me tirasse do banho?
Strathmore sentou-se por um instante, brincando distraidamente com a trackball embutida em sua mesa. Aps uma longa pausa, olhou para Susan fixamente e disse:
- Qual foi o tempo mais longo que o TRANSLTR j levou para quebrar um cdigo?
A pergunta pegou Susan completamente desprevenida. Parecia sem sentido.
Foi por isso que ele me chamou?
- Bem... - ela pensou um pouco. - Teve uma mensagem interceptada pelo COMINT alguns meses atrs que levou cerca de uma hora, mas a chave era absurdamente longa - algo como dez mil bits, se no me engano.
Strathmore resmungou.
- Uma hora, certo? O que voc me diz dos testes de capacidade mxima que j executamos?
Susan respondeu:
- Se voc incluir os diagnsticos, obviamente temos um tempo mais longo. 
- Quanto tempo?
Susan no estava entendendo aonde Strathmore queria chegar com aquela conversa.
- Senhor, eu me lembro de ter executado um algo ritmo, em maro deste ano, com uma chave segmentada de um milho de bits. Usei funes de loop ilegais, autmatas celulares, tudo junto. Ainda assim o TRANSLTR conseguiu quebr-la.
- Em quanto tempo?
- Trs horas.
Strathmore se surpreendeu.
- Trs horas? Levou esse tempo todo?
Susan fez uma cara feia, ligeiramente ofendida. Seu trabalho durante os ltimos trs anos havia sido o de aperfeioar o desempenho do computador mais secreto do mundo. Boa parte da programao que tornava o TRANSLTR to rpido fora escrita por ela. Uma chave de um milho de bits era, obviamente, uma situao pouco realista.
- Muito bem - disse Strathmore. - Ento, mesmo em condies extremas, o tempo mais longo que um cdigo j sobreviveu dentro do TRANSLTR foi de cerca de trs horas?
Susan concordou. - . Mais ou menos isso. Strathmore fez uma nova pausa, como se estivesse com medo do que tinha a dizer. Ento olhou novamente para ela e disse:
- O TRANSLTR encontrou algo...
Susan esperou.
- Mais do que trs horas?
Strathmore assentiu, mas ela no pareceu preocupada.
- Um novo diagnstico? Algo que o Departamento de Segurana de Sistemas nos enviou?
- No,  um arquivo externo.
Susan ficou esperando para ver qual era o final da piada.
- Um arquivo externo? Voc est brincando, no ?
- Bem que eu queria. Eu o coloquei na fila de processamento ontem  noite, por volta das 23h30. Ainda no foi quebrado.
Susan ficou boquiaberta. Olhou para o relgio, depois para Strathmore. 
- Ainda est sendo processado? Mais de 15 horas?
Strathmore inclinou-se um pouco para a frente e virou seu monitor para Susan. A tela estava toda preta, exceto por uma pequena caixa de texto amarela no meio, com nmeros piscando.

TEMPO DECORRIDO: 15:09:33 AGUARDANDO CHAVE: _________
Susan olhou, impressionada. Parecia que o TRANSLTR estava tentando quebrar um nico cdigo h mais de 15 horas. Ela sabia que os processadores do computador eram capazes de verificar 30 milhes de chaves por segundo - 100 bilhes por hora. Se o TRANSLTR ainda estava calculando, significava que a chave deveria ser algo monstruoso - mais de dez bilhes de dgitos. Aquilo no fazia o menor sentido.
-  impossvel! - declarou ela. - Voc verificou se h algum indicador de erro? Talvez o TRANSLTR tenha ficado preso em um erro de programao e...
	- No h nada de errado.
- Mas essa chave deve ser enorme!
-  um algoritmo comercial padro. Meu palpite  de que a chave seja de 64 bits.
	Perplexa, Susan olhou pela janela na direo do TRANSLTR, um pouco abaixo deles. Por experincia prpria, ela sabia que uma chave de 64 bits geralmente levava menos de dez minutos para ser encontrada.
- Deve haver uma explicao.
Strathmore assentiu.
- H, sim. Mas voc no vai gostar dela. Susan olhou para ele com uma sensao ruim. - O TRANSLTR est funcionando mal?
- No h nada de errado com ele.
- Temos um vrus?
Strathmore balanou a cabea.
- Nenhum vrus. Apenas me escute.
	Susan estava estupefata. O TRANSLTR nunca tinha encontrado um cdigo que no pudesse quebrar em menos de uma hora. Em geral a mensagem clara era enviada ao mdulo de impresso de Strathmore em poucos minutos. Ela olhou rapidamente para a impressora laser atrs de sua mesa. Estava vazia.
- Susan - disse Strathmore, em um tom de voz abafado. - Vai ser difcil aceitar isso de cara, mas oua o que tenho a dizer. - Ele mordeu o lbio. - Esse cdigo em que o TRANSLTR est trabalhando  nico. No  nada parecido com o que j encontramos at agora. - Strathmore fez uma pausa, como se fosse difcil completar a frase. - Esse cdigo  inquebrvel.
Susan olhou para ele e quase riu. Inquebrvel? Como assim? No fazia sentido pensar em um cdigo inquebrvel. Alguns cdigos podiam requerer mais tempo, mas todo cdigo podia ser quebrado. Era matematicamente certo que, mais cedo ou mais tarde, o TRANSLTR iria descobrir a chave certa.
- Voc disse inquebrvel?
- Sim,  isso mesmo - ele respondeu secamente.
Inquebrvel? Susan no podia acreditar que aquilo havia sido dito por algum com 27 anos de experincia em anlise de cdigos.
- Inquebrvel, senhor? - disse ela, constrangida. - E o Principio de Bergofsky? Susan havia aprendido a respeito do Principio de Bergofsky logo no incio de sua carreira. Era um dos fundamentos da tcnica de fora bruta. Havia sido tambm a inspirao de Strathmore ao construir o TRANSLTR. O princpio dizia claramente que, se um computador testasse um nmero suficiente de chaves, era matematicamente garantido que iria encontrar a correta. A segurana de um cdigo no dependia de sua chave no poder ser encontrada, mas do fato de que a maioria das pessoas no tinha nem tempo nem equipamento suficientes para faz-lo.
Strathmore sacudiu a cabea.
- Esse cdigo  diferente.
- Diferente? - Susan lanou-lhe um olhar suspeito. Um cdigo inquebrvel  uma impossibilidade matemtica! Ele sabe disso!
	Strathmore enxugou com a mo sua testa suada.
	- Esse cdigo  produto de um algo ritmo de encriptao completamente novo, que jamais encontramos antes.
As dvidas internas de Susan aumentavam. Os algoritmos de encriptao eram apenas frmulas matemticas, "receitas de bolo" para misturar o texto e transform-lo em cdigo. Matemticos e programadores criavam novos algoritmos todos os dias. Havia centenas deles no mercado: PGP, Diffie-Hellman, ZIP, IDEA, El Gamal. O TRANSLTR quebrava todos esses diariamente, sem problemas. Para o supercomputador, todos os cdigos eram iguais, no importando qual fosse o algoritmo usado.
- No entendo - disse ela. - No estamos discutindo como fazer a engenharia reversa de uma funo complexa, estamos falando sobre a abordagem de fora bruta. PGP, Lcifer, DSA, no importa. O algoritmo gera uma pequena chave que ele considera segura, e o TRANSLTR continua fazendo novas tentativas at encontr-la.
	A resposta de Strathmore demonstrava a pacincia e o controle de um bom professor.
	- Sim, Susan, o TRANSLTR sempre ir encontrar a chave, mesmo se for gigantesca. - Fez uma longa pausa. - A menos que...
	Ela quis falar, mas estava claro que Strathmore ia finalmente soltar a bomba.
A menos qu?
- A menos que o computador no saiba quando tiver quebrado o cdigo. Susan quase caiu da cadeira.
- O qu?
- A menos que o computador j tenha encontrado a chave correta, mas continue tentando porque no percebeu que a encontrou. - Strathmore parecia estar profundamente cansado. - Acho que esse algo ritmo possui uma mensagem clara circular.
Susan engoliu em seco. A noo de uma funo de mensagem clara circular foi enunciada, pela primeira vez, por um matemtico hngaro, Josef Harne, em um obscuro artigo acadmico de 1987. Uma vez que os computadores usando o mtodo de fora bruta quebravam cdigos examinando a mensagem clara a fim de encontrar padres identificveis de palavras, Harne props um algoritmo de encriptao que, alm de encriptar, deslocasse a mensagem clara de acordo com uma varivel temporal. Teoricamente, a mutao contnua iria assegurar que um computador que tentasse quebrar o cdigo jamais encontraria padres de palavras identificveis e, assim, nunca saberia que tinha encontrado a chave correta.
- Onde voc conseguiu isso? - perguntou ela.
A resposta do comandante veio lentamente:
- Um programador do setor privado escreveu isso.
- O qu? - Susan caiu de volta na cadeira. - Temos os melhores programadores do mundo aqui! Todos ns, trabalhando em conjunto, jamais chegamos sequer perto de escrever uma funo de mensagem clara circular. E agora voc est me dizendo que um cara qualquer, sentado em casa com um PC, descobriu como resolver o problema?
Strathmore diminuiu um pouco o tom de voz, aparentemente tentando acalm-la.
- No diria que esse programador  um "cara qualquer':
Susan no estava mais ouvindo. Estava convencida de que devia haver alguma outra explicao: um erro. Um vrus. Qualquer coisa era mais provvel do que um cdigo indecifrvel.
Strathmore olhou para ela friamente.
- Uma das mais brilhantes mentes criptogrficas de todos os tempos escreveu esse algoritmo.
Susan pareceu ainda mais descrente. As mais brilhantes mentes da Criptografia estavam em seu departamento e ela certamente estaria a par de um algoritmo como esse.
- Quem?
- Acho que voc  capaz de adivinhar - disse Strathmore. - Digamos que  algum que no gosta muito da NSA.
- Assim fica fcil! - devolveu ela, com sarcasmo.
- Ele trabalhou no projeto TRANSLTR. Quebrou as regras. Provocou um alvoroo no meio da inteligncia. Eu o deportei.

Susan estava com uma expresso distante, mas em seguida ficou branca. - Meu Deus...
Strathmore acenou positivamente.
- Ele passou o ano todo se vangloriando a respeito de seu trabalho em um algo ritmo capaz de resistir  abordagem de fora bruta.
- M - mas... - Susan balbuciava. - Achei que ele estava blefando. Ele realmente conseguiu?
- Sim. a encriptador definitivo e inquebrvel.
Susan ficou em silncio.
- Mas... isso quer dizer que...
Strathmore olhou-a no fundo dos olhos.
- Ensei Tankado acabou de tornar o TRANSLTR obsoleto.

CAPTULO
6

Ensei Tankado ainda no tinha nascido quando a Segunda Guerra terminou, mas ele estudou cuidadosamente tudo o que pde a respeito dela. Em particular, estudou tudo a respeito de seu ponto culminante, a exploso em que 100 mil de seus compatriotas morreram, incinerados por uma bomba atmica.
Hiroshima, 8h15 da manh. Dia 6 de agosto de 1945 - um ato desprezvel de destruio. Uma demonstrao de poder sem sentido por parte de um pas que j havia vencido a guerra. Tankado aceitou tudo isso. A nica coisa que ele no podia aceitar era que a bomba tinha tirado dele a possibilidade de conhecer sua me. Ela morreu durante seu parto, devido a complicaes decorrentes do envenenamento por radiao sofrido muitos anos antes.
Em 1945, antes que Ensei nascesse, sua me, assim como muitos de seus amigos, viajou para Hiroshima para trabalhar como voluntria nos centros de tratamento de pessoas queimadas. Foi l que ela se tornou uma das hibakusha - as vtimas da radiao. Dezenove anos mais tarde, quando tinha 36 anos, deitada na enfermaria com uma hemorragia interna, ela sabia que iria morrer. O que no sabia era que a morte a livraria do ltimo dos horrores: seu nico filho iria nascer deformado.
O pai de Ensei nem mesmo chegou a ver o filho. Abalado pela perda da mulher e envergonhado pela chegada de um filho, que, segundo as enfermeiras, era uma criana com m-formao e que provavelmente no sobreviveria at o dia seguinte, desapareceu do hospital e nunca mais voltou. Ensei Tankado foi para a casa de pais adotivos.
Ao entrar na adolescncia, todas as noites o jovem Tankado olhava para seus dedos deformados, segurando sua boneca-talism daruma, e jurava que iria vingar-se do pas que havia lhe tirado sua me e envergonhado tanto seu pai que ele o abandonara. O que ele no sabia  que o destino estava prestes a entrar em cena.
No ms de fevereiro do ano em que Tankado completou 12 anos, um fabricante de computadores de Tquio ligou para seus pais adotivos e perguntou se seu filho gostaria de participar de um grupo de usurios para testar um novo teclado que estava sendo desenvolvido para crianas deficientes. Sua famlia concordou.
Ensei Tankado nunca havia visto um computador, mas parecia saber us-lo instintivamente. Os computadores lhe abriram possibilidades com as quais sequer havia sonhado. Em pouco tempo, aquelas mquinas tornaram-se o centro de sua vida. Tankado cresceu, deu aulas, ganhou dinheiro e eventualmente obteve uma bolsa para a Universidade de Doshisha. Logo ficou conhecido em Tquio como fugusha kisai, o gnio aleijado.
Em algum momento Tankado leu sobre Pearl Harbor e sobre os crimes de guerra japoneses. Seu dio pela Amrica se dissolveu lentamente. Tornou-se um budista devoto e esqueceu a promessa de vingana que havia feito na infncia. O perdo era o nico caminho para a iluminao.
Quando completou 20 anos, Ensei Tankado j era uma figura cult no meio underground dos programadores. A IBM ofereceu-lhe um visto de trabalho e um emprego no Texas. Tankado aproveitou a oportunidade. Trs anos depois havia deixado a IBM, estava vivendo em Nova York e programando por contra prpria. Pegou a nova onda de encriptao com chave pblica. Escreveu alguns algoritmos e fez fortuna.
Como muitos dos melhores programadores de algo ritmos de encriptao, Tankado foi sondado pela NSA. Ele no deixou,  claro, de perceber a ironia: a oportunidade de trabalhar no corao do governo de um pas que uma vez ele havia jurado odiar. Decidiu ir em frente e comparecer  entrevista. Qualquer dvida que ainda possusse se desfez quando conheceu o comandante Strathmore. Conversaram francamente sobre o passado de Tankado, a hostilidade em potencial que poderia sentir contra os Estados Unidos, seus planos para o futuro. Ele fez um teste com o polgrafo e se submeteu a cinco semanas de rigorosas entrevistas com psiclogos. Passou por tudo isso. Sua raiva havia sido substituda pela devoo a Buda. Quatro meses depois, Ensei Tankado foi trabalhar no Departamento de Criptografia da Agncia de Segurana Nacional.
Apesar de seu alto salrio, Tankado ia trabalhar numa moto antiga e comia sanduches sozinho em sua mesa, em vez de se juntar ao resto do pessoal para desfrutar de um bom almoo no refeitrio da NSA. Os outros criptgrafos o admiravam. Ele era brilhante: um dos programadores mais criativos que todos j haviam conhecido. Era gentil, honesto, tranqilo e tinha uma tica impecvel. A integridade moral era da maior importncia para ele. Por isso, sua dispensa da agncia e subseqente deportao foram um choque para todos.
Tankado, assim como o restante da equipe de criptgrafos, estava trabalhando no projeto do TRANSLTR com a idia de que, se tivessem sucesso, o computador seria usado para decifrar e-mails apenas em casos em que isso fosse previamente autorizado pelo Departamento de Justia dos Estados Unidos. O uso que a NSA faria do TRANSLTR seria regulamentado, mais ou menos do mesmo modo como o FBI precisava da ordem de uma corte federal para instalar um grampo telefnico. O supercomputador deveria incluir uma programao que precisasse de senhas - que estariam sob controle do Banco Central americano e do Departamento de Justia - para decifrar um arquivo. Isso impediria que a NSA bisbilhotasse indiscriminadamente as comunicaes pessoais de cidados inofensivos ao redor do mundo.
Contudo, quando chegou a hora de programar essa parte, a equipe do TRANSLTR foi avisada de que houvera uma mudana de planos. Por conta da urgncia associada ao trabalho antiterrorismo da NSA, o TRANSLTR passaria a ser um dispositivo de decodificao independente, cuja operao no dia-a-dia seria regulada apenas pela prpria agncia.
Tankado ficou indignado. Na prtica, isso significava que a NSA poderia abrir os e-mails de qualquer um sem que o usurio jamais ficasse sabendo. Era como ter um grampo em cada telefone do planeta. Strathmore tentou fazer com que o rapaz visse o TRANSLTR como um dispositivo para assegurar a aplicao das leis, mas no houve jeito. Ele foi inflexvel e insistiu que aquilo constitua uma enorme violao dos direitos humanos. Pediu demisso no ato e, poucas horas depois, violou a norma de sigilo da agncia ao tentar entrar em contato com a Electronic Frontier Foundation. Tankado estava determinado a chocar o mundo com sua histria sobre uma mquina secreta capaz de expor todos os usurios de computadores do planeta a tramias secretas do governo. A NSA no teve outra alternativa seno impedi-lo.
A captura e a deportao de Tankado, amplamente divulgadas em listas de discusso na Internet, foram para ele uma enorme humilhao pblica. Contra os desejos de Strathmore, os especialistas em conteno de danos da NSA - temendo que Tankado continuasse tentando convencer as pessoas de que o TRANSLTR de fato existia - espalharam rumores que destruram sua credibilidade. Assim, Ensei Tankado foi deserdado pela comunidade internacional de informtica. Ningum mais iria acreditar em um aleijado acusado de espionagem - sobretudo quando ele estava tentando comprar sua liberdade com alegaes absurdas a respeito de uma mquina americana capaz de quebrar qualquer cdigo.
A coisa mais estranha  que Tankado parecia entender que tudo fazia parte do jogo da inteligncia. No aparentava guardar rancor, mas apenas mantinha-se firme em sua deciso. Enquanto estava sendo levado pela segurana, ele pronunciou sua ltima frase para Strathmore, com uma calma assustadora.
- Todos temos o direito de guardar segredos - disse. - Um dia eu farei com que isso volte a ser possvel.

CAPTULO
7

A mente de Susan estava em turbilho. Ensei Tankado escreveu um programa que cria cdigos indecifrveis! Era algo to incrvel que ela mal podia compreender.
- Fortaleza Digital - disse Strathmore. - Foi o nome que ele escolheu.  a arma definitiva de contra-inteligncia. Se esse programa chegar ao mercado, qualquer moleque com um modem ser capaz de enviar cdigos que a NSA no poder quebrar. Nossos servios de inteligncia tero problemas.
Mas os pensamentos de Susan estavam longe das implicaes polticas do Fortaleza Digital. Ela ainda estava tentando entender a existncia daquele programa. Havia passado toda a sua vida quebrando cdigos, negando com convico a existncia de um cdigo definitivo, indecifrvel. Todo cdigo pode ser decifrado,  o Principio de Bergofsky! Ela se sentia como um ateu que subitamente tivesse dado de cara com Deus.
- Se esse cdigo se espalhar - murmurou -, a Criptografia ir se tomar uma cincia morta.
- Esse  o menor de nossos problemas.
- Podemos comprar Tankado?? Sei que ele nos odeia, mas no podemos lhe oferecer alguns milhes de dlares? Convenc-lo a no distribuir o cdigo?
	Strathmore riu.
	- Alguns milhes? Voc tem idia de quanto vale essa coisa? Cada um dos governos do planeta ir oferecer rios de dinheiro. Voc pode imaginar como seria dizer ao presidente que continuamos interceptando as comunicaes iraquianas, mas no conseguimos mais ler as mensagens interceptadas? No  algo que diga respeito apenas  NSA,  um problema para toda a comunidade de inteligncia. Ns damos suporte a todos eles, o FBI, a CIA, a DEA, e subitamente estariam todos no escuro. Seria impossvel rastrear as remessas dos cartis de drogas; as grandes corpo raes poderiam transferir dinheiro sem deixar vestgios, burlando o fisco, e os terroristas poderiam conversar em total segredo - em suma, seria o caos.
- A EFF vai se divertir com a notcia - disse Susan, plida.
- A EFF no tem a menor noo do que fazemos aqui  emendou Strathmore, irritado. - Se soubessem quantos ataques terroristas j conseguimos impedir porque decodificamos suas comunicaes, eles iriam mudar de tom.
Susan concordou, mas estava claro que a EFF jamais entenderia o quanto o TRANSLTR era importante. O supercomputador j havia ajudado a frustrar dezenas de ataques, mas essas informaes eram altamente secretas e nunca seriam reveladas. A lgica por trs da manuteno desse segredo era simples: o governo americano no poderia permitir uma histeria em massa causada pela revelao da verdade. A reao do pblico s notcias era uma incgnita. Somente no ltimo ano, grupos fundamentalistas tinham feito duas tentativas de ataques com armas nucleares em solo americano. Ambas foram evitadas por pouco.
E os ataques nucleares no eram a nica ameaa. No ms anterior, por exemplo, o TRANSLTR havia impedido um dos ataques terroristas mais engenhosamente concebidos que a NSA j vira. Uma organizao de oposio ao governo tinha elaborado um plano cujo codinome era Floresta de Sherwood. O alvo era a Bolsa de Nova York, e o objetivo, a "redistribuio da riqueza': Durante seis dias, membros do grupo colocaram 27 dispositivos de fluxo EMI noexplosivos nos prdios ao redor da Bolsa. Quando acionados, eles iriam gerar uma poderosa onda eletromagntica. A descarga simultnea iria criar um campo magntico to poderoso que qualquer mdia magntica dentro da Bolsa seria apagada - incluindo discos rgidos de computadores, bancos de armazenamento em memria ROM, backups de fita, disquetes, etc. Todos os registros de "quem possua o qu" seriam permanentemente desintegrados.
Como era necessria uma preciso absoluta para a detonao simultnea dos dispositivos, eles foram interconectados via Internet atravs de linhas telefnicas. Durante a contagem regressiva de dois dias os relgios internos dos dispositivos trocaram infindveis cadeias de dados de sincronizao codificados. A NSA interpretou os pulsos como alguma anomalia na rede, mas ignorou-os porque pareciam ser uma troca inofensiva de bobagens. Mas depois que o TRANSLTR decodificou as cadeias de dados, os analistas da agncia reconheceram a seqncia como uma contagem regressiva sincronizada atravs da rede. Os dispositivos foram localizados e removidos apenas trs horas antes do momento em que deveriam disparar.
Susan sabia que, sem o TRANSLTR, a NSA no tinha como fazer frente ao avanado terrorismo eletrnico. Ela olhou novamente para o monitor. Continuava mostrando pouco mais do que 15 horas. Ainda que o arquivo de Tankado fosse decodificado naquele exato momento, a NSA estava acabada. A Criptografia estaria relegada a quebrar menos de dois cdigos por dia. Mesmo com a taxa atual de 150 cdigos por dia, j havia uma fila de arquivos em espera para serem decodificados.
- Tankado entrou em contato comigo ms passado - disse Strathmore, interrompendo os pensamentos de Susan.
Susan olhou para ele.
- Tankado falou com voc?
- Sim, para prevenir-me.
- Preveni-lo? Mas ele o odeia!
- Ele ligou para me dizer que estava aperfeioando um algoritmo que gerava cdigos indecifrveis. No acreditei nele.
- Mas por que ele iria contar a voc? - perguntou Susan. - Ele queria que a NSA comprasse o cdigo?
- No. Era chantagem.
As coisas comeavam a fazer sentido para Susan.
-  claro. Ele queria que voc limpasse o nome dele.
- No - disse Strathmore. - Tankado queria o TRANSLTR.
- O TRANSLTR?
- Isso. Me ordenou que fosse a pblico e dissesse ao mundo todo que temos o TRANSLTR. Disse que, se admitssemos que podamos ler qualquer e-mail, ele destruiria o Fortaleza Digital.
Susan olhou para ele, pensativa. Strathmore continuou:
- De qualquer forma,  tarde demais agora. Ele colocou uma cpia gratuita do Fortaleza Digital em seu site na Internet. Todas as pessoas do planeta podem	fazer o download.
- Ele fez o qu? - perguntou Susan, branca.
-  uma jogada de marketing, no h com o que se preocupar. A cpia que ele deixou no site est encriptada. As pessoas podem fazer o download, mas ningum pode abri-la. Foi realmente bem pensado. O cdigo-fonte do Fortaleza Digital foi encriptado, completamente trancado.
Susan estava impressionada.
-  claro! Dessa forma todos podem ter uma cpia, mas ningum pode abri-la! - Exatamente. Tankado est balanando uma cenoura.
- Voc j viu o algoritmo?
O comandante pareceu confuso.
- No. Acabei de lhe dizer que est codificado.
Quando viu a cara de Strathmore, Susan lembrou-se de que as regras haviam mudado.
	- Deus! - disse ela. - O Fortaleza Digital foi codificado usando seu	prprio algoritmo?
	- Exato - assentiu Strathmore.
	Susan estava chocada. A frmula para o Fortaleza Digital havia sido codificada usando o prprio Fortaleza Digital. Tankado colocou no site uma receita matemtica de valor inimaginvel, mas o texto da receita - o algoritmo de encriptao - havia sido embaralhado, usando a si mesmo para fazer a encriptao.
	-  um Cofre de Biggleman - disse Susan, profundamente admirada.
Strathmore concordou. O Cofre de Biggleman era um cenrio hipottico em criptografia, no qual um fabricante de cofres teria projetado um cofre inviolvel. Querendo manter seu projeto secreto, decidiu construir o cofre e trancar o projeto dentro dele. Tankado havia feito a mesma coisa com o Fortaleza Digital. Havia protegido seu algoritmo encriptando-o com a frmula descrita por este algo ritmo.
- E o arquivo que est no TRANSLTR? - perguntou Susan.
	- Eu fiz o download do site de Tankado na Internet, como todo mundo. A NSA  agora a orgulhosa detentora do algo ritmo Fortaleza Digital. Infelizmente no podemos abri-lo.
	Susan estava perplexa com a engenhosidade de Ensei Tankado. Sem ter que revelar seu algoritmo, havia provado  NSA que ele era de fato inquebrvel.
	Strathmore lhe passou um clipping de jornais japoneses. Era uma traduo do Nikkei Shimbun, o equivalente japons do Wall Street Journal. Uma matria dizia que o programador japons Ensei Tankado havia criado uma frmula matemtica que ele afirmava ser capaz de criar cdigos indecifrveis. Chamava-se Fortaleza Digital e estava disponvel para quem quisesse avali-la na Internet. O programador iria vend-la em leilo para quem fizesse a melhor oferta. A coluna prosseguia dizendo que, apesar do grande interesse que o assunto despertou no Japo, as poucas empresas de software americanas que ouviram falar do Fortaleza Digital comentaram que a alegao era sem sentido, algo como dizer que era possvel transformar chumbo em ouro. A frmula, segundo essas empresas, era uma farsa e no devia ser levada a srio.
- Um leilo? - Susan olhou para Strathmore.
- Sim - disse ele. - Neste exato momento todas as empresas de software do Japo j fizeram download do Fortaleza Digital e esto tentando quebr-lo. E, a cada segundo que no conseguem faz-lo, as ofertas sobem.
- Isso  absurdo! - argumentou Susan. - Qualquer arquivo encriptado com um novo algoritmo  indecifrvel, a menos que algum possua o TRANSLTR. O Fortaleza Digital poderia no ser nada alm de um algoritmo genrico, e ainda assim essas empresas no conseguiriam quebr-lo.
- Mas voc deve concordar que  uma jogada de marketing brilhante - disse Strathmore. - Pense bem: todas as marcas de vidro  prova de balas supostamente param as balas. Contudo, se uma companhia desafiar os clientes a fazerem uma bala passar pelo seu vidro, todos iro tentar.
- E os japoneses realmente acreditam que o Fortaleza Digital  diferente? Melhor do que qualquer outra coisa no mercado?
- Tankado pode ter sido afastado da comunidade de informtica, mas todos sabem que  um gnio.  praticamente um cone cult entre os hackers. Se Tankado diz que um algoritmo  indecifrvel, as pessoas acreditam nisso.
- Mas, at onde o pblico em geral sabe, eles so todos indecifrveis.
- Sim... - disse Strathmore, pensativo. - Por enquanto.
- O que voc quer dizer com isso?
Strathmore respirou fundo.
- Vinte anos atrs, ningum imaginava que seramos capazes de quebrar cifras de fluxo de 12 bits. Contudo, a tecnologia progrediu, como sempre. Os fabricantes de software esto presumindo que, em algum momento, computadores como o TRANSLTR estaro disponveis. A tecnologia est avanando exponencialmente - em algum momento os algoritmos atuais que usam chaves pblicas deixaro de ser seguros.  necessrio encontrar algoritmos melhores para ficar  frente dos computadores do futuro.
- E o Fortaleza Digital seria a soluo?
- Exatamente. Um algoritmo capaz de resistir a um ataque de fora bruta jamais se tornaria obsoleto, no importa o quanto os computadores fiquem mais potentes. Ele se tornaria um padro mundial da noite para o dia.
Susan deu um suspiro.
- Que Deus nos ajude - disse, em voz baixa. - Podemos fazer uma oferta? Strathmore balanou a cabea.
- Tankado j nos deu uma chance. Ele deixou isso bem claro. De qualquer forma, seria arriscado demais: se descobrissem, seria basicamente uma admisso de que estamos com medo desse algoritmo. No apenas estaramos admitindo publicamente que realmente temos o TRANSLTR, mas tambm que o Fortaleza Digital  imune a ele.
- Quanto tempo ainda nos resta?
- Tankado planejava anunciar quem ganhou o leilo amanh ao meio-dia. Susan sentiu seu estmago embrulhar.
- E depois?
- O acordo  que ele daria a chave ao vencedor.
- A chave?
- Faz parte do jogo. Todos j tm o algoritmo, ento Tankado est leiloando a chave que poder decifr-lo.
-  claro - resmungou Susan.
Era um plano perfeito: simples e claro. Tankado havia encriptado o Fortaleza Digital e apenas ele tinha a chave capaz de decifr-lo. Susan estava pensando que, em algum lugar do mundo, provavelmente anotada em um pedao de papel no bolso de Tankado, estava uma chave de 64 caracteres que iria arruinar o trabalho de inteligncia dos Estados Unidos para sempre.
Sua mente girava, estonteada por esse cenrio improvvel. Tankado entregaria a chave ao vencedor do leilo e essa empresa iria decodificar o arquivo do Fortaleza Digital. Depois, provavelmente, iria embutir o algo ritmo em um chip  prova de engenharia reversa, e, cinco anos mais tarde, todos os computadores sairiam de fbrica com um chip do Fortaleza Digital. Nenhum fabricante havia tentado criar um chip de encriptao porque os algo ritmos de encriptao normais se tornavam obsoletos aps algum tempo. Mas o Fortaleza Digital jamais ficaria obsoleto: com uma funo de mensagem clara circular, nenhum ataque de fora bruta seria capaz de encontrar a chave correta. Seria um novo padro em encriptao. De agora at o final dos tempos. Todos os cdigos se tornariam indecifrveis. Bancos, traficantes, terroristas, espies. Um s mundo - um s algoritmo.
Anarquia completa.
- Quais so as nossas opes? - indagou Susan. Ela estava ciente de que em tempos extremos eram necessrias medidas extremas, mesmo na NSA.
- No podemos simplesmente dar sumio nele, se  isso que voc est perguntando.
Era exatamente o que Susan queria saber. Desde que comeara a trabalhar para a NSA, ela ouvia rumores de conexes vagas com os melhores assassinos profissionais do mundo - uma elite de mercenrios chamada para fazer o trabalho sujo da comunidade de inteligncia.
Strathmore sacudiu a cabea.
- Tankado  demasiado inteligente para nos deixar uma opo to simples. Susan achou a resposta estranhamente tranqilizadora.
- Ele est sob proteo?
- No exatamente.
- Escondido?
- Tankado deixou o Japo. Ele planejava verificar os lances por telefone. Mas sabemos onde est.
- E vocs no vo agir?
- No. Ele tem um seguro. Tankado deu uma cpia de sua chave para uma outra pessoa, de identidade desconhecida... caso algo lhe acontecesse.
 claro, pensou Susan, maravilhada. Um anjo da guarda.
- E suponho que, se algo acontecer a Tankado, esse homem misterioso vender a chave?
- Pior. Se qualquer um atacar Tankado, seu parceiro ir public-la na web. Susan parecia confusa.
- Ele ir torn-la pblica?
- Sim. Ser colocada na Internet, em sites, em grupos de discusso, em jornais. Na prtica, ir distribu-la para quem quiser.
- Downloads gratuitos? - perguntou Susan, arregalando os olhos.
- Isso mesmo. Tankado concluiu que, se estivesse morto, no precisaria do dinheiro. Ento, por que no deixar um pequeno presente de despedida para o mundo?
Houve um longo silncio. Susan respirava profundamente, tentando absorver o impacto daquela situao. Ensei Tankado criou um algoritmo indecifrvel. Ele est nos mantendo como refns.
Subitamente levantou-se. Sua voz estava cheia de determinao.
- Temos que entrar em contato com Tankado! Deve haver uma forma de convenc-lo a no divulgar o algoritmo! Podemos triplicar a oferta mais alta! Podemos limpar o seu nome! Qualquer coisa!
- Tarde demais - disse Strathmore, engolindo em seco. - Ensei Tankado foi encontrado morto em Sevilha, na Espanha.

CAPTULO
8

O Learjet 60 aterrissou no asfalto escaldante da pista de pouso. Olhando para fora da janela, a paisagem borrada das terras secas da Espanha aos poucos foi desacelerando, at se fixar.
- Sr. Becker? - chamou uma voz pelo rdio. - Chegamos.
Becker levantou-se e alongou-se. Ao abrir o compartimento de bagagens, lembrou-se de que no tinha bagagem alguma. No teve tempo sequer para fazer uma mala. No que isso importasse, pois haviam lhe prometido que seria uma viagem breve: entrar e sair.
Enquanto as turbinas paravam, o avio saiu do sol e foi para um hangar deserto do outro lado do terminal principal. Poucos instantes depois, o piloto apareceu e abriu a porta de segurana. Becker tomou o ltimo gole de seu suco de frutas, colocou o copo sobre o bar e pegou seu blazer.
O piloto tirou um grosso envelope pardo do bolso de seu uniforme.
- Tenho ordens para lhe dar isto. - Entregou o envelope a Becker. Na frente, rabiscadas em caneta azul, estavam as palavras:

FIQUE COM O TROCO.

Becker passou o dedo pela grossa pilha de notas avermelhadas.
- Mas o qu...?
- Moeda local- retrucou o piloto, secamente.
- Essa parte eu sei - respondeu Becker. - Mas  muito dinheiro. S preciso de uma pequena quantia para o txi. - Becker fez uma rpida converso mental. - H milhares de dlares aqui!
- Apenas cumpro ordens, senhor. - O piloto se virou e trancou-se de volta na cabine de comando.
Becker olhou para o avio, depois para o dinheiro em suas mos. Ficou em p por alguns instantes no hangar vazio, depois colocou o envelope no bolso do blazer e seguiu em direo  sada. Era uma forma estranha de comear. Procurou clarear seus pensamentos. Com um pouco de sorte, estaria de volta a tempo de viajar com Susan para o hotel nas montanhas.
Entrar e sair, pensou consigo mesmo. Entrar e sair.

CAPTULO
9

O tcnico em segurana de sistemas Phil Chartrukian tinha decidido passar rapidamente pela Criptografia, pois precisava pegar uma papelada que havia deixado por l no dia anterior. Seus planos iriam mudar em breve.
Atravessou o salo da Criptografia e entrou no laboratrio de Segurana de Sistemas (SegSis). Percebeu que havia algo errado quando viu que no tinha ningum sentado em frente ao terminal que controlava continuamente o funcionamento do TRANSLTR e que seu monitor estava desligado. Chartrukian chamou em voz alta:
- Tem algum a?
Ningum respondeu. O laboratrio estava absolutamente limpo, dando a impresso de que nenhum funcionrio pisara l nas ltimas horas. Chartrukian tinha apenas 23 anos e era relativamente novo no esquadro de SegSis, mas havia sido bem treinado e conhecia os procedimentos: deveria sempre haver algum de SegSis de planto na Criptografia, sobretudo aos sbados, quando os criptgrafos ficavam em casa. Ele ligou imediatamente o monitor e virou-se para o quadro de escalas afixado na parede.
Quem deveria estar aqui?, perguntou a si mesmo, percorrendo a lista de nomes. De acordo com a escala, um novato chamado Seidenberg deveria ter comeado um turno duplo  meia-noite. Pensativo, Chartrukian correu os olhos pelo laboratrio vazio. Por onde anda esse cara?
Olhando para o quadro, ele pensou se Strathmore j sabia que o laboratrio de SegSis estava deserto. Ele havia reparado, ao entrar, que as cortinas do escritrio do comandante estavam fechadas, o que era relativamente normal em se tratando de um sbado. Ainda que Strathmore pedisse aos seus criptgrafos que tirassem sempre folga aos sbados, ele mesmo parecia trabalhar 365 dias por ano.
De uma coisa Chartrukian estava certo: se Strathmore descobrisse que no tinha ningum no laboratrio de SegSis, o novato que havia faltado seria demitido no ato. Chartrukian olhou para o telefone, pensando se deveria ligar para o tcnico e dizer que ficaria no planto em seu lugar. Existia uma regra informal entre o pessoal de SegSis de que cuidariam uns dos outros. Dentro da hierarquia da Criptografia, os SegSis eram cidados de segunda classe, constantemente envolvidos em disputas com os senhores do castelo. Ningum tinha dvida de que os criptgrafos dominavam esse palcio de alguns bilhes de dlares. Os SegSis eram tolerados apenas porque mantinham seus "brinquedos" funcionando corretamente.
Chartrukian tomou uma deciso. Pegou o telefone e comeou a discar, mas interrompeu o gesto no meio. Seus olhos fitavam, hipnotizados, o monitor  sua frente. Como numa filmagem em cmara lenta, colocou o telefone de volta no lugar e ficou olhando para a tela, boquiaberto.
Em oito meses de trabalho, Phil Chartrukian jamais vira o ExeMon, o monitor de execuo de tarefas do TRANSLTR, exibir nada alm de zero no campo referente s horas. Essa era a primeira vez.

TEMPO DECORRIDO: 15:17:21
- Quinze horas e dezessete minutos? - Ele tremia. - Impossvel!
Pediu uma atualizao de tela, torcendo para alguma coisa boba ter dado errado. Quando a tela foi novamente exibida, continuava mostrando o mesmo nmero de horas.
Chartrukian sentiu um calafrio. Os SegSis da Criptografia tinham uma nica responsabilidade: manter o TRANSLTR "limpo", ou seja, sem vrus.
Ele sabia que um tempo de execuo de 15 horas s podia significar uma coisa: vrus. Um arquivo contaminado havia entrado no TRANSLTR e estava corrompendo sua programao. Chartrukian entrou automaticamente em ao: no importava mais se o laboratrio de SegSis tinha ficado vazio ou se o monitor estivera desligado. Ele se concentrou no problema principal: o TRANSLTR. Pediu uma listagem de todos os arquivos enviados para o TRANSLTR nas ltimas 48 horas. Comeou a ler a lista.
Ser que passou algum arquivo infectado?, pensava ele. Ser que os filtros de segurana deixaram de perceber alguma coisa?
Como medida de segurana, todos os arquivos que eram enviados para o TRANSLTR deviam passar por aquilo que era conhecido como Gauntlet - uma srie de poderosos portais codificados nos prprios circuitos, filtros de pacotes e programas de limpeza que analisavam cada um dos arquivos que chegavam  procura de vrus e sub-rotinas potencialmente perigosas. Qualquer arquivo que contivesse uma programao desconhecida para o Gauntlet era rejeitado e tinha que ser verificado manualmente. Ocasionalmente, o Gauntlet rejeitava arquivos absolutamente incuos apenas porque continham alguma programao que os filtros nunca haviam encontrado. Nesses casos, o pessoal de SegSis fazia uma inspeo manual cuidadosa e, apenas depois disso, com a garantia de que o arquivo estivesse limpo, podiam pass-lo por fora do Gauntlet e envi-lo diretamente para o TRANSLTR. Os vrus de computador eram to variados quanto os vrus orgnicos. Assim como seus congneres, os vrus de computador tinham um objetivo: agregar-se a um sistema hospedeiro e replicar-se. No caso, o hspede era o TRANSLTR.
Chartrukian ficava impressionado que a NSA ainda no tivesse tido nenhum problema com vrus. Gauntlet era um sentinela poderoso, mas, ainda assim, a NSA digeria, indistintamente, enormes quantidades de informao digital de sistemas de todas as partes do planeta. Espionar dados era, de certa forma, como fazer sexo com centenas de pessoas: com ou sem proteo, mais cedo ou mais tarde voc iria pegar alguma coisa.
Ele terminou de examinar a lista de arquivos que estava na tela. Ficou mais confuso do que antes. Todos os arquivos pareciam estar perfeitos. Gauntlet no havia encontrado nada de diferente, o que significava que o arquivo sendo processado pelo TRANSLTR estava limpo.
Por que diabos est levando tanto tempo?, perguntou em voz alta, na sala vazia. Sentiu que estava comeando a suar. Ficou pensando se deveria perturbar Strathmore com essas notcias.
Uma verificao antivrus, disse Chartrukian, com voz firme, tentando se acalmar. Tenho que fazer uma varredura completa contra vrus.
De qualquer maneira, ele sabia que essa seria a primeira coisa que Strathmore iria pedir. Olhando para a sala deserta, decidiu que aquilo era o melhor a fazer. Carregou e mandou executar o software de varredura contra vrus. Iria levar cerca de 15 minutos.
Por favor, me diga que no h nada, murmurou para si mesmo. Absolutamente nada. Diga para o papai aqui que no  nada demais.
Mas Chartrukian sentia que no podia ser nada. Seus instintos lhe diziam que algo muito estranho estava acontecendo dentro do gigante decodificador.




CAPTULO
10

- Ensei Tankado est morto? -Susan sentiu-se nauseada.-Voc o matou? Achei que tinha dito que...
- No encostamos um dedo nele - Strathmore respondeu num tom de voz calmo. - Ele morreu devido a um ataque cardaco. O COMINT ligou hoje cedo, pela manh. O computador deles encontrou o nome de Tankado num registro policial de Sevilha atravs da Interpol.
- Ataque cardaco? - Susan parecia desconfiada. - Mas ele tinha s 30 anos. - Trinta e dois - corrigiu Strathmore. - Tankado tinha um defeito congnito no corao.
- Nunca soube disso.
- Descobrimos durante os exames fsicos, quando ele ingressou na NSA. Ele no gostava muito de ficar espalhando isso por a.
Susan achava difcil aceitar a incrvel coincidncia de eventos.
- Um defeito congnito podia causar uma morte sbita, sem nenhuma indicao prvia? - Aquilo lhe parecia um pouco conveniente demais. Strathmore suspirou.
- Um corao fraco, combinado com o calor da Espanha... Sem esquecer o estresse de estar chantageando a NSA.
Susan ficou em silncio por alguns instantes. Mesmo considerando a situao, ela sentia uma pontada de dor pela perda de um brilhante colega. A voz grave de Strathmore interrompeu seus pensamentos.
- A nica coisa boa em toda essa sucesso de problemas  que Tankado estava viajando sozinho. H boas chances de que seu parceiro ainda no saiba que ele morreu. Recebemos o chamado porque o COMINT estava atento. As autoridades espanholas disseram que iriam reter a informao o mximo possvel. - Strathmore olhou profundamente para Susan. - Temos que encontrar o parceiro de Tankado antes que ele descubra que Tankado morreu. Foi por isso que chamei voc. Preciso de sua ajuda.
Agora Susan estava realmente confusa. Ela tinha a impresso de que a morte sbita e conveniente de Tankado havia resolvido todo o problema.
- Comandante, se as autoridades disseram que ele morreu de um ataque cardaco, estamos limpos. O parceiro dele saber que no fomos responsveis - argumentou.
- Voc realmente acha isso? Tankado chantageia a NSA e aparece morto alguns dias depois. Voc acreditaria que no fomos responsveis? Aposto como o parceiro dele no vai ver as coisas desta forma. O que quer que tenha acontecido, vamos parecer muito culpados. Poderia facilmente ter sido veneno, uma autpsia falsificada, muitas coisas. - Strathmore fez uma pausa e perguntou: - Qual foi mesmo a sua primeira reao quando eu disse que Tankado havia morrido?
Ela olhou para baixo, pensativa.
- Achei que a NSA tivesse assassinado ele.
- Exatamente. Se a NSA consegue colocar cinco satlites Rhyolite em rbita geossncrona sobre o Oriente Mdio, acho razovel presumir que temos dinheiro suficiente para comprar alguns policiais espanhis. - O comandante deixou seu ponto bem claro.
Susan suspirou. Ensei Tankado est morto. A NSA ser responsabilizada. - Podemos encontrar seu parceiro a tempo?
- Acho que sim. Temos uma boa pista. Tankado disse diversas vezes, em pblico, que estava trabalhando com um parceiro. Creio que sua inteno era desencorajar as empresas de software de tentar impedi-lo, mat-lo ou ento roubar sua chave. Ele avisou que, se algum jogasse sujo, seu parceiro publicaria a chave na rede, e todas as empresas passariam a competir por um software gratuito.
- Bem pensado - assentiu Susan.
Strathmore prosseguiu.
- Algumas vezes, tambm em pblico, Tankado se referiu a seu parceiro nominalmente. Ele o chamou de North Dakota.
- North Dakota? Deve ser um apelido, no?
- Provavelmente. Por via das dvidas, entrei num site de buscas e pesquisei por North Dakota. Acabei me deparando com uma conta de e-mail. Inicialmente assumi que no fosse o North Dakota que estava procurando, mas ainda assim fui investigar, s para ter certeza. Fiquei muito surpreso ao descobrir que a conta estava cheia de e-mails de Ensei Tankado. E as mensagens faziam referncia ao Fortaleza Digital e aos planos de Tankado de chantagear a NSA.
Susan olhou para Strathmore, ctica. Ela achava estranho que o comandante pudesse se deixar enganar to facilmente.
- Mas, comandante, Tankado sabe perfeitamente bem que a NSA pode ler as mensagens transmitidas pela Internet. Ele jamais usaria e-mail para enviar informaes secretas.  uma armadilha. Ensei Tankado lhe deu a pista para North Dakota. Ele sabia que voc iria fazer uma pesquisa e, sejam quais forem as informaes que ele andou enviando, certamente queria que voc as encontrasse.  uma pista falsa - argumentou Susan.
- Bons instintos, exceto por alguns detalhes - retorquiu Strathmore. - No achei nada quando pesquisei por North Dakota, ento comecei a fazer outras buscas. A conta que eu encontrei estava sob uma variante do nome, NDAKOTA.
Susan mais uma vez sacudiu a cabea.
- Trabalhar com variaes  nosso procedimento-padro. Tankado sabia que voc iria tentar todas as possibilidades at encontrar algo. NDAKOTA  uma variante muito bvia.
- Pode ser - disse Strathmore, enquanto escrevia algumas palavras num papel e o passava para Susan. - Mas veja isso.
Susan olhou para o papel, e ento a linha de raciocnio do comandante ficou clara. Ele havia escrito o endereo de e-mail de North Dakota:

NDAKOTA@ara.anon.org

Foram as letras ARA, no endereo, que chamaram a ateno de Susan. ARA significava American Remailers Anonymous (Remailers Annimos da Amrica), um servidor de e-mails annimos bem conhecido.
Os servidores de e-mails annimos eram populares entre os usurios da Internet que gostavam de manter suas identidades secretas. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, as empresas protegiam a privacidade dos usurios, agindo como um intermedirio eletrnico para os e-mails. Era como ter uma caixa postal numerada: um usurio podia enviar e receber mensagens sem nunca revelar seu verdadeiro endereo ou nome. A empresa recebia e-mails endereados para a conta annima e ento os redirecionava para a verdadeira conta do cliente. A empresa de e-mails annimos possua um contrato que a impedia de revelar a identidade ou localizao de seus verdadeiros usurios.
- Isso no  uma prova - disse Strathmore. - Mas me parece bastante suspeito.
	Susan concordou, um pouco menos ctica.
- Voc acha, ento, que Tankado no se importava se algum estivesse procurando por North Dakota porque sua identidade e localizao estariam protegidas pela ARA.
- Isso mesmo.
Susan analisou a questo.
- Em geral os usurios da ARA so americanos. Voc acha que North Dakota poderia estar aqui, em algum lugar?
- Talvez. Usando um parceiro americano, Tankado teria mantido as duas chaves geograficamente separadas. Poderia ser uma boa estratgia.
Susan continuou pensativa. No acreditava que Tankado fosse compartilhar sua chave com ningum, a no ser um amigo ntimo. E, pelo que se lembrava, Tankado no tinha muitos amigos nos Estados Unidos.
- North Dakota - murmurou, enquanto sua mente criptogrfica analisava possveis significados para este nome. - Qual o contedo dos e-mails que ele retomou para Tankado?
- No tenho idia. Tudo o que temos so as mensagens que Tankado enviou. Por enquanto, a nica coisa que conseguimos sobre North Dakota  um endereo annimo.
- Alguma chance de ser apenas um disfarce? - questionou Susan.
- Em que sentido? - perguntou Strathmore.
- Bem, Tankado poderia estar mandando e-mails falsos para uma conta morta, esperando que nos dssemos ao trabalho de espion-la. Desta forma, iramos acreditar que ele estava protegido, e ele jamais teria que se arriscar a compartilhar sua chave. Assim, poderia muito bem estar trabalhando sozinho.
Strathmore sorriu, impressionado.
- Bela linha de pensamento, mas h um porm. Ele no estava usando nenhum de seus endereos habituais, nem os pessoais nem os profissionais. Ele se dava ao trabalho de ir at a Universidade de Doshisha e conectar-se ao main-frame da universidade. Tudo indica que ele tinha uma conta l e conseguiu mant-la em segredo.  uma conta bem protegida, e s consegui encontr-la por acaso. - Strathmore parou por alguns instantes. - Ento, se ele de fato queria que espionssemos seu e-mail, por que estaria usando uma conta secreta?
Susan franziu a testa.
- Voc acredita que North Dakota exista de fato?
- Infelizmente, sim. E temos que encontr-lo; mas  preciso agir discretamente. Se ele perceber que estamos tentando localiz-lo, est tudo acabado. Agora Susan sabia por que havia sido chamada.
- Deixe-me adivinhar: voc quer que eu entre no banco de dados protegido da ARA para descobrir a identidade real de North Dakota?
Strathmore respondeu com um discreto sorriso.
- Susan, voc acaba de ler meus pensamentos.
Susan era a melhor pessoa a chamar quando era necessrio fazer "pesquisas discretas" na Internet. H cerca de um ano, um oficial snior da Casa Branca estava recebendo mensagens contendo ameaas de um endereo de e-mail annimo. Pediram  NSA que localizasse o responsvel. Ainda que a agncia tivesse o poder de ordenar  empresa de envio de e-mails annimos que revelasse a identidade do usurio, decidiu optar por um mtodo mais sutil- um tracer.
Susan criou um programa que era, na prtica, um localizador unidirecional disfarado como um e-mail comum. Ela podia envi-lo para o endereo falso do usurio, e a empresa de e-mails annimos, ao executar o servio para o qual fora contratada, iria encaminhar a mensagem para o endereo real do usurio. Assim que chegasse ao destino, o programa registraria sua localizao na Internet e enviaria uma mensagem de volta para a NSA. Em seguida, o programa sumiria sem deixar qualquer vestgio. A partir do dia em que o tracer foi criado, do ponto de vista da NSA, os e-mails annimos se tornaram apenas um ligeiro incmodo.
- Voc pode encontr-lo? - perguntou Strathmore.
- Claro. Por que voc demorou tanto para me chamar?
- Na verdade, no havia pensado em cham-la. No queria que ningum mais soubesse disso. Eu mesmo tentei enviar uma cpia de seu tracer, mas voc escreveu aquela coisa em uma dessas novas linguagens hbridas, de forma que no consegui faz-lo funcionar. Ele no parava de enviar dados sem sentido! Ento tive que engolir o orgulho e pedir que voc viesse.
Susan riu. Strathmore era um programador brilhante na rea da Criptografia, mas seu repertrio estava limitado, basicamente, a algoritmos. Muitas vezes ele no estava a par de detalhes sutis da programao mais corriqueira. Alm disso, Susan escrevera seu tracer em uma nova linguagem de programao hbrida, chamada LIMBO. Era compreensvel que o comandante tivesse encontrado alguns problemas.
- Deixe que eu resolvo. - Virou-se, preparando-se para sair. - Estarei em meu terminal.
	- Alguma idia de quanto tempo isto pode levar?
	- Bem, depende de quo eficiente a ARA  ao encaminhar suas mensagens.
Se ele estiver aqui nos EUA e usar um dos grandes provedores pblicos, como a AOL ou a Compuserve, terei sua conta de carto de crdito e um endereo de correspondncia em menos de uma hora. Se estiver em uma universidade ou grande corporao, levar um pouco mais de tempo. - Ela forou um sorriso, sentindo-se desconfortvel. - O resto  com voc.
Susan sabia que "o resto" seria uma equipe ttica em ao, cortando a energia da casa do suspeito e entrando pelas janelas com armas paralisantes. Provavelmente seus superiores diriam  equipe que se tratava de apreenso de drogas. Strathmore iria vasculhar os escombros pessoalmente para encontrar a chave de 64 caracteres e depois destru-la. O Fortaleza Digital ficaria vagando para sempre pela Internet, trancado por toda a eternidade.
- Envie o tracer com todo o cuidado possvel - acrescentou Strathmore, visivelmente preocupado. - Se North Dakota perceber que estamos atrs dele, entrar em pnico e sumir do mapa com a chave.
- Atacar e fugir - disse Susan, tranqilamente. Assim que o tracer chegar  conta de destino, ir desaparecer. Ele nunca saber que estivemos por l.
O comandante assentiu, deixando transparecer seu cansao por trs do olhar contido.
	- Obrigado.
Susan acenou levemente de volta. Sempre ficava impressionada como Strathmore, mesmo frente a um possvel desastre, conseguia se manter impassvel. Ela estava convencida de que essa habilidade havia definido os rumos da carreira dele, fazendo com que chegasse a um dos mais altos escales do poder.
Enquanto caminhava at a porta, olhava fixamente para o TRANSLTR, l embaixo. A existncia de um algoritmo inquebrvel ainda era um conceito difcil de digerir. Ela rezou para que pudessem encontrar North Dakota a tempo.
	- Seja rpida e voc poder estar nas Smoky Mountains no incio da noite - acrescentou Strathmore, em voz alta.
	Susan congelou. Ela sabia que no havia mencionado sua viagem ao comandante. Sentiu algo estranho. A NSA est grampeando o meu telefone?
	Strathmore levantou os braos, pedindo desculpas.
	- David me disse, pela manh, que vocs pretendiam viajar hoje. Ele comentou que voc" ficaria muito chateada se a viagem tivesse que ser adiada. Susan se sentiu desnorteada.
- Voc falou com David hoje pela manh?
- Claro. - Strathmore mostrou-se surpreso com a reao dela. - Eu tinha que passar os detalhes para ele.
- Detalhes? Do qu?
- Da viagem dele. Eu enviei David  Espanha.

CAPTULO
11

Espanha. Eu enviei David  Espanha. As palavras do comandante quase doam.
- David est na Espanha? - Susan no podia acreditar. - Voc o mandou para a Espanha? - disse, irritada, quase gritando. - Por qu?
Strathmore estava perplexo. No era comum que algum se dirigisse assim a ele, muito menos sua principal criptgrafa. Olhou para Susan. Ela estava encrespada, como uma leoa defendendo sua cria.
- Susan, voc falou com ele, no? David no lhe explicou nada?
Ela aparentemente estava em choque e mal conseguia pensar. Espanha? Foi por isso que David adiou nossa viagem para Stone Manor?
- Enviei um carro para peg-lo hoje cedo. Ele disse que iria ligar pra voc antes de sair. Lamento, mas achei que...
	- Por que voc mandaria algum como David  Espanha?
	Strathmore parou, olhou fixamente para ela e respondeu, como se fosse bvio:
- Para pegar a outra chave.
- Que outra chave?
- A que estava com Tankado.
Susan se sentiu completamente perdida.
- Do que voc est falando?
Strathmore respirou fundo e prosseguiu.
- Tankado certamente estava carregando sua cpia da chave ao morrer. A ltima coisa que eu queria era que ela ficasse vagando pelo necrotrio de Sevilha.
	- Ento voc mandou o David? - O cho sumia sob seus ps. Nada daquilo fazia o menor sentido. - Ele nem mesmo trabalha para voc!
	Strathmore no sabia como reagir. Definitivamente no estava acostumado a ser tratado daquela forma.
	- Susan - disse ele, procurando manter a calma -, a idia era exatamente esta. Eu precisava de...
	A leoa soltou suas garras.
	- Voc tem 20 mil empregados sob seu comando! O que lhe d o direito de mandar meu noivo?
	- Precisava de um civil, algum que estivesse desligado do governo. Se eu passasse pelos canais normais e algum ouvisse falar a respeito...
- E David Becker  o nico civil que voc conhece?
- No, claro que David no  o nico! Mas, s seis da manh, as coisas estavam acontecendo bem rpido e eu tinha pouco tempo. David fala espanhol,  inteligente, eu confio nele e achei que estaria lhe fazendo um favor!
- Um favor? - dardejou Susan. - Mand-lo para a Espanha  considerado um favor?
- Sim! Estou lhe pagando dez mil dlares por um nico dia de trabalho. Ele s vai pegar as coisas de Tankado e voltar para casa. Isso  um favor!
Susan ficou em silncio. Ento era isso. A coisa toda se resumia a dinheiro. Voltou no tempo, lembrando-se da promoo de David cinco meses atrs, quando o reitor da Universidade de Georgetown o convidara para ser diretor do Departamento de Idiomas. Ele explicou que as horas de aula seriam reduzidas e que haveria um aumento na papelada, mas tambm um substancial aumento de salrio. Susan quis gritar: David, no aceite! Voc vai se sentir pssimo. J temos dinheiro demais, no importa qual de ns est ganhando mais! Mas aquele no era seu estilo. No final, acabou concordando com a deciso dele de aceitar o cargo. Quando dormiram, naquela noite, ela tentou se sentir feliz por ele, mas alguma coisa lhe dizia que aquilo seria um desastre. O tempo iria mostrar que estava certa - s no esperava estar to certa assim.
- Voc pagou dez mil dlares? Isso  um truque baixo!
Strathmore ficou furioso.
- Truque? No foi truque algum! Eu nem mesmo contei a ele sobre o dinheiro. Pedi-lhe um favor pessoal, foi tudo, e ele consentiu em ir.
-  claro que consentiu! Voc  meu chefe!  o vice-diretor da NSA! Ele no podia simplesmente dizer no!
- Voc est certa - retrucou Strathmore. - E foi exatamente por isso que eu	liguei para ele. No podia me dar ao luxo de...
	- O diretor por acaso sabe que voc mandou um civil?
- Susan - Strathmore estava claramente medindo suas palavras, beirando o limite de sua pacincia. - O diretor no est envolvido. Ele no sabe de nada a respeito disso.
Susan olhou para o comandante, perplexa. Como se aquela pessoa que estava ali, falando com ela, subitamente fosse um completo estranho. Ele havia mandado seu noivo - um professor universitrio - em uma misso da NSA e, ainda por cima, no havia notificado o diretor sobre a maior crise na histria da organizao.
- Leland Fontaine no foi notificado?
O pavio de Strathmore havia chegado ao fim. Ele explodiu.
- Susan, chega. Agora oua aqui! Eu chamei voc porque precisava de uma aliada e no de um inqurito! Tive uma manh infernal. Fiz o download do arquivo de Tankado na noite passada e fiquei sentado, ao lado da impressora, durante horas, esperando e rezando para que o TRANSLTR pudesse quebrar o cdigo. Pela manh tive que engolir minha honra e liguei para o diretor. No preciso dizer o quo agradvel esta ligao seria para mim: "Bom dia, senhor. Perdoe-me por t-lo acordado. Ah, sim, estou ligando s para dizer que o TRANSLTR acaba de ficar obsoleto.  por conta de um algoritmo que minha equipe de criptgrafos altamente treinada e bem paga jamais chegou perto de programar." - Strathmore terminou a frase com um soco na mesa.
Susan ficou congelada, em completo silncio. Em dez anos, vira o chefe perder a calma pouqussimas vezes, mas nunca com ela.
Dez segundos depois, os dois continuavam em silncio. Finalmente Strathmore sentou-se, e Susan ouviu sua respirao pesada voltar gradualmente ao normal. Quando ele finalmente falou, sua voz tinha um tom frio, calmo e controlado.
- Infelizmente - disse Strathmore, em voz baixa -, o diretor se encontra na Amrica do Sul, em um encontro com o presidente da Colmbia. Como no haveria absolutamente nada que ele pudesse fazer de l, eu tinha duas opes: pedir que cancelasse seu encontro e voltasse ou ento lidar com isso por conta prpria. - Seguiu-se outro longo silncio. Strathmore finalmente olhou para Susan, visivelmente esgotado. Seu rosto se descontraiu, suavizando-se. - Susan, desculpe. Estou exausto. Tenho vivido um pesadelo desde ontem. Sei que voc est irritada por causa do David. No pretendia que voc descobrisse desta forma, realmente achei que ele j houvesse lhe contado.
Susan sentiu-se culpada.
- Acho que tambm exagerei um pouco e peo desculpas. David foi uma boa escolha.
Strathmore concordou, distante.
- Ele estar de volta esta noite.
Susan pensou em todas as coisas pelas quais o comandante estava passando: a presso de supervisionar o trabalho com o TRANSLTR, as longas jornadas sem nunca descansar e as infindveis reunies. Diziam que sua mulher, com quem era casado h 30 anos, estava querendo se separar. Alm disso, agora surgia o Fortaleza Digital, a maior ameaa aos servios de inteligncia que a NSA j havia encontrado em sua histria, e ele tinha que resolver tudo sozinho. Era razovel que parecesse estar prestes a ter um colapso nervoso.
- Considerando-se as circunstncias, eu acho que voc deveria chamar o diretor - disse Susan.
Strathmore sacudiu a cabea, o suor escorrendo pela testa.
- No estou disposto a colocar a segurana do diretor em perigo ou correr o risco de um vazamento de informaes se tentar contact-lo.  uma grande crise, mas no h nada que ele possa fazer.
Susan sabia que ele estava certo. Mesmo em momentos como aquele, Strathmore mantinha total clareza de pensamentos.
- Voc j pensou em falar com o presidente?
- Sim, mas tambm conclu que no era uma boa idia.
Susan havia chegado  mesma concluso. Os oficiais seniores da NSA tinham
o direito de lidar com emergncias comprovadas no setor de inteligncia sem conhecimento do executivo. A NSA era a nica organizao de inteligncia dos Estados Unidos que tinha carta branca para agir e completa independncia em relao  esfera federal. Strathmore muitas vezes se valia desse direito, pois preferia fazer suas "mgicas" sem a interferncia de outros.
- Comandante - argumentou ela -, essa crise  grande demais para que voc lide com ela sozinho. Voc deveria colocar mais algum a par do que est acontecendo.
- Susan, a existncia do Fortaleza Digital tem enormes implicaes em relao ao futuro de nossa organizao. No tenho a inteno de falar diretamente com o presidente, passando por cima do diretor. Temos uma crise e estou lidando com ela. Olhou fundo para Susan. - Eu sou o vice-diretor de operaes. - Um sorriso apagado surgiu em sua face. - E, alm disso, no estou sozinho. Conto com Susan Fletcher em minha equipe.
Susan lembrou-se por que respeitava tanto Strathmore. Durante 10 anos, nos momentos calmos ou nos difceis, ele sempre havia traado o caminho para ela. Com firmeza, sem hesitar. Era a sua dedicao que mais a impressionava, sua inabalvel lealdade a seus princpios, seu pas e seus ideais. O comandante Trevor Strathmore era um porto seguro em um mundo de decises impossveis.
- Voc est no meu time, no est? - perguntou ele. Susan sorriu.
- Sim, senhor, estou 100% ao seu lado!
- timo. Agora podemos voltar a trabalhar?

CAPTULO
12
David  Becker j tinha estado em funerais antes e visto defuntos, mas havia algo de particularmente incmodo em relao a este. No era um cadver imaculadamente limpo e penteado deitado em um caixo revestido. Esse corpo havia sido despido e jogado, sem a menor cerimnia, em uma mesa de alumnio. Os olhos ainda no possuam aquela expresso vazia, sem vida. Em vez disso, estavam virados para cima, olhando para o teto, congelados em uma expresso sinistra de terror e arrependimento.
- Dnde estn sus efectos? - perguntou Becker, em castelhano fluente.
- Onde esto seus pertences?
- All - respondeu o tenente de dentes amarelados, apontando para um balco onde estavam as roupas e outros objetos pessoais do morto.
- Es todo? Isso  tudo?
- S.
Becker pediu uma caixa de papelo para colocar as coisas. O tenente saiu rapidamente para procurar uma.
Era sbado  tarde e, oficialmente, o necrotrio de Sevilha estava fechado. O jovem tenente havia deixado Becker entrar por ordens diretas do chefe da Guardia de Sevilha - aparentemente o visitante americano tinha amigos influentes.
Becker vasculhou a pilha de roupas. Havia um passaporte, uma carteira e os culos, que estavam enfiados em um dos sapatos. Tambm encontrou uma pequena mochila que a Guardia tinha recolhido no hotel onde o homem estava hospedado. As ordens de Becker eram claras: No toque em nada. No leia nada. Traga tudo de volta. Tudo. No deixe nada de lado.
Ele olhou para a pilha e ficou imaginando o que a NSA queria com aquele monte de lixo.
O tenente voltou com uma pequena caixa, e Becker comeou a colocar as roupas dentro dela.
O policial bateu na perna do cadver.
- Quien es? Quem  ele?
- No fao idia.
- Parece chins.
Japons, pensou Becker.
- Pobre coitado. Ataque cardaco, no foi?
Becker assentiu, sem prestar ateno.
- Foi o que me disseram.
- O sol de Sevilha pode ser cruel. Tenha cuidado ao andar por a amanh. - Obrigado pelo conselho, mas voltarei para casa ainda hoje - disse Becker. O policial ficou surpreso.
- Mas voc acabou de chegar!
- Eu sei, mas o sujeito que est pagando minha viagem tem pressa de receber essas coisas.
O tenente ficou ofendido de uma forma que s um espanhol poderia ficar. - Voc quer dizer que no vai conhecer Sevilha?
- Estive aqui alguns anos atrs e gosto da cidade. Adoraria ficar.
- Voc j viu La Giralda?
Becker acenou que sim. Ele no chegara a subir na antiga torre moura, mas a visitara.
- E o Alcazar?
Becker balanou a cabea outra vez, lembrando-se da noite estrelada em que tinha ouvido Paco de Lucia tocar seu violo flamenco nos jardins da fortaleza do sculo XV. Gostaria de j ter conhecido Susan naquela poca.
- E, claro, h Cristvo Colombo - gabou-se o policial. - Ele est enterrado em nossa catedral.
Becker olhou para ele.
- Mesmo? Achei que estivesse enterrado na Repblica Dominicana.
- Ora, claro que no! Quem espalha essas besteiras por a? O corpo de Colombo est aqui, na Espanha! Pensei ter ouvido voc dizer que estudou na universidade.
Becker no lhe deu ateno.
- Devo ter perdido essa aula.
- A Igreja espanhola tem grande orgulho de suas relquias!
A Igreja espanhola. Becker sabia que havia apenas uma Igreja na Espanha, a Igreja Catlica Apostlica Romana. O catolicismo era mais forte l do que no prprio Vaticano.
-  claro que no temos todo o seu corpo - acrescentou o tenente. - Solo el escroto. Becker parou de empacotar as coisas e olhou com curiosidade para o homem. Solo el escroto? Procurou no fazer uma careta.
- Apenas o seu testculo?
- Sim. Quando a Igreja obtm os restos mortais de um grande homem, eles o consagram e depois distribuem as relquias por diversas catedrais para que todos possam admirar seu esplendor - contou, orgulhoso.
- E vocs ficaram com o... - Becker reprimiu um riso.
- Oye!  uma parte muito importante! - retrucou o oficial. - No  como se tivssemos uma costela ou um dedo, como aquelas igrejas da Galcia! Voc realmente deveria ficar em Sevilha e ver as relquias.
Becker assentiu, por polidez.
- Talvez eu passe por l quando estiver de partida.
- Mala suerte - respondeu o policial. - Que azar. A catedral estar fechada at a primeira missa de amanh cedo.
	- Ento vou deixar para a prxima - Becker sorriu, pegando a caixa. -  melhor eu ir andando. Meu vo est me esperando. - Deu uma ltima olhada ao redor.
	- Voc quer uma carona at o aeroporto? - perguntou o tenente.  Tenho uma moto Guzzi parada a em frente.
	- No, obrigado, posso pegar um txi.
	Na poca da faculdade, Becker quase morreu dirigindo uma motocicleta. Por isso, no tinha a menor inteno de subir em outra moto, no importava quem estivesse ao volante.
	- Como quiser - disse o outro, caminhando at a porta. - Vou apagar as luzes.
	Becker colocou a caixa sob o brao. Peguei tudo mesmo? Olhou uma ltima vez para o corpo. Estava completamente nu, de costas sobre a mesa, sob uma luz fluorescente. Nada podia estar escondido. Becker se pegou olhando novamente para a estranha deformao nas mos. Observou por alguns instantes, prestando ateno.
O policial apagou as luzes e a sala ficou escura.
- Espere um pouco - disse Becker. - Acenda as luzes de novo.
As luzes piscaram e se acenderam.
Ele deixou a caixa no cho e caminhou at o corpo. Agachou-se e apertou os olhos, fitando a mo esquerda do homem.
O policial tambm olhou.
- Bem feio, no?
Mas no era a deformidade que Becker olhava. Ele havia visto outra coisa.
Virou-se para o tenente e perguntou:
- Voc tem certeza de que todos os pertences esto nesta caixa?
- Sim, s recolhemos isso - ele confirmou.
	Becker ficou parado algum tempo, com as mos nos quadris. Depois pegou a caixa no cho, levou-a de volta ao balco e tirou que estava dentro. Examinou tudo cuidadosamente, revirando cada pea de roupa. Esvaziou os sapatos e bateu neles, como se tentasse remover uma pedrinha. Depois de repetir sua busca uma segunda vez, deu um passo para trs e ergueu as sobrancelhas.
- Algum problema? - perguntou o tenente. 
- Sim, algo est faltando.

CAPTULO
13

Tokugen Numataka estava em seu luxuoso escritrio de cobertura e olhava Tquio estender-se a seu redor. Seus empregados e competidores o conheciam como akuta same - o "tubaro assassino". Durante trs dcadas foi o melhor na hora de prever os movimentos do mercado, fez as melhores ofertas e investiu mais pesado em propaganda e marketing do que todos os seus competidores japoneses. Agora estava prestes a se tornar um gigante tambm no mercado internacional.
Estava quase fechando o maior negcio de sua vida, algo que faria da Numatech Corpo uma Microsoft do futuro. Seu sangue fervia com a adrenalina. Negcios eram guerra, e guerra era excitante.
Apesar das suspeitas iniciais, quando recebera o telefonema trs dias atrs, ele agora sabia que era para valer. Havia sido abenoado com myouri - boa sorte. Era o escolhido dos deuses.

- Tenho uma cpia da chave do Fortaleza Digital - disse seu interlocutor, com sotaque americano. - Quer compr-la?
Numataka quase caiu na gargalhada. Sabia que aquilo era alguma artimanha. A Numatech Corpo havia feito ofertas generosas para obter o novo algoritmo de Ensei Tankado. Agora, um de seus competidores estava armando alguma jogada, tentando descobrir o valor da oferta.
- Voc tem a chave? - disse Numataka, fazendo de conta que estava interessado.
	- Sim. Meu nome  North Dakota.
	Numataka segurou outra risada. Todos sabiam a respeito de North Dakota,
pois Ensei Tankado havia falado  imprensa sobre seu parceiro secreto. Ter escolhido um parceiro foi um movimento inteligente da sua parte. Mesmo no Japo, as prticas de negcios haviam se tornado desonrosas. Tankado no estava seguro. Mas, da forma como ele preparara tudo, qualquer movimento em falso de alguma empresa excessivamente ambiciosa faria com que a chave fosse publicada na web, prejudicando todo o mercado.
Numataka olhou a fumaa de seu charuto Umami subindo no ar e resolveu levar adiante aquela charada pattica.
- Ento voc quer vender sua chave? Mas que interessante. Posso saber o que Ensei Tankado pensa a respeito?
- No tenho nenhuma lealdade ao Sr. Tankado. Ele foi tolo ao confiar em mim. Essa chave vale centenas de vezes mais do que ele est me pagando para mant-la comigo.
- Lamento - disse Numataka. - A sua chave sozinha no vale nada. Quando Tankado descobrir o que voc fez, ele ir publicar a cpia dele, e todo o mercado ter livre acesso ao cdigo.
- Voc ir receber as duas chaves - disse a voz. - Tanto a de Tankado quanto a minha.
Numataka cobriu o telefone e riu. quela altura no podia deixar de perguntar... - Quanto voc est pedindo pelas duas chaves?
- Vinte milhes de dlares americanos.
Vinte milhes era quase exatamente o valor que Numataka havia oferecido. - Vinte milhes? - Ele engoliu em seco. - Isso  um ultraje!
- Eu vi o algoritmo. Posso assegur-lo de que vale mais do que isso.
No me diga, pensou Numataka. Vale dez vezes mais do que isso.
- Infelizmente - disse ele, cansando-se do jogo -, ns dois sabemos que Tankado jamais concordaria com isso. Pense nas repercusses legais que teria. Houve um silncio profundo do outro lado da linha.
- E se Tankado no estivesse mais na jogada?
Numataka quis rir, mas notou uma estranha determinao naquela voz.
- Se Tankado no estivesse mais na jogada? - Numataka pensou um pouco.
- Ento eu e voc fecharamos negcio.
- Tornarei a ligar - disse a voz. A linha ficou muda.

CAPTULO
14

Becker olhou para o cadver. Mesmo j tendo morrido h algumas horas, o japons continuava com um tom avermelhado em seu rosto pelo excesso de sol. O resto do corpo era de um amarelo plido, exceto uma pequena rea onde havia um hematoma de uma tonalidade mais escura, exatamente sobre seu corao.
Provavelmente por conta de uma tentativa de ressuscitao ou massagem cardaca, pensou Becker. Pena que no tenha funcionado.
Voltou a examinar as mos do cadver. Nunca vira nada igual antes. Cada uma tinha apenas trs dedos, todos eles retorcidos. Mas Becker estava olhando uma outra coisa.
- Ora, ora, quem diria... - disse o tenente do outro lado da sala. - Ele  japons, e no chins.
Becker olhou para ele. O policial estava folheando o passaporte do defunto.
- Preferia que voc no mexesse nisso - pediu Becker. No toque em nada. No leia nada.
- Ensei Tankado... nascido em janeiro...
- Por favor - disse Becker, com polidez -, coloque-o de volta.
O policial olhou para o passaporte por mais alguns instantes e depois jogou-o de volta na pilha de pertences.
- Esse cara tem um visto classe 3. Ele poderia ficar por aqui durante alguns anos. Becker bateu na mo da vtima com uma caneta.
- Talvez vivesse aqui.
- No pode ser. A chegada foi semana passada.
- Talvez estivesse de mudana para c - sugeriu Becker secamente.
- , pode ser. Foi um mau comeo. Insolao e ataque cardaco. Pobre coitado. Becker ignorou o policial e continuou estudando a mo.
- Voc tem certeza de que ele no estava usando nenhuma jia quando morreu? 
- Jias? - O policial olhou para ele, espantado.
- , venha ver isso.
O tenente atravessou o quarto. A pele da mo esquerda de Tankado estava queimada de sol, exceto em uma pequena faixa em torno do dedo menor. Becker apontou para aquela faixa.
- Voc v como a pele no est bronzeada aqui?  como se ele estivesse usando um anel.
O tenente parecia surpreso.
- Um anel? - Ficou confuso. Examinou o dedo do cadver. - Meu Deus  ele disse, rindo. - Ento a histria era verdadeira?
Becker teve um mal pressentimento.
- Como assim?
- O senhor que ligou para a emergncia. Era um turista canadense, acho eu.
Ficava balbuciando coisas no pior espanhol que j ouvi.
- E ele disse que o Sr. Tankado estava usando um anel?
- Isso. - Puxou do bolso um cigarro, olhou para o cartaz de PROIBIDO FUMAR, mas acendeu-o assim mesmo. - Talvez eu devesse ter falado a respeito antes, mas o sujeito parecia ser um louco completo.
Becker continuou olhando para ele, pensativo. As palavras de Strathmore ecoavam em seus ouvidos: Quero tudo que estava com Ensei Tankado. Tudo. No deixe nada para trs, nem mesmo um pequeno pedao de papel.
- E onde est o tal anel agora? - perguntou Becker.
O oficial deu um tragada profunda no cigarro.
-  uma longa histria.
Algo dizia a Becker que aquilo no era uma boa notcia.
- Vamos l, sou todo ouvidos.

CAPTULO
15

Susan Fletcher sentou-se em frente a seu terminal de computador dentro do Nodo 3. O Nodo 3 era a sala privada dos criptgrafos, acusticamente vedada e um pouco acima do salo principal. Uma ampla divisria de vidro espelhado de cinco centmetros de espessura dava aos criptgrafos um panorama do Departamento de Criptografia, ao mesmo tempo que impedia a viso de quem estivesse de fora.
Nos fundos da vasta sala do Nodo 3 havia 12 terminais dispostos em um crculo perfeito. A disposio circular era para encorajar o intercmbio intelectual entre os criptgrafos e para lembr-los de que faziam parte de uma equipe maior. Algo como os Cavaleiros da Tvola Redonda da Criptografia. Ironicamente, muitos segredos eram mantidos dentro do Nodo 3.
Apelidado de "Sala de Jogos': o Nodo 3 no tinha nada do ar asctico do restante da Criptografia. A sala foi projetada para fazer com que todos se sentissem em casa. Tinha carpetes macios, sistema de som de alta qualidade, uma geladeira sempre cheia, uma pequena cozinha e uma cesta de basquete em miniatura. A NSA tinha uma filosofia clara em relao  Criptografia: no invista bilhes de dlares em um computador para quebrar cdigos se voc no puder atrair os melhores crebros para us-lo.
Susan tirou seus sapatos Salvatore Ferragamo e afundou os ps no carpete macio. Os funcionrios do governo que recebiam altos salrios eram encorajados a manter certa discrio quanto s suas posses. Em geral, isso no era problema para Susan, que estava feliz com seu modesto duplex, seu sedan Volvo e suas roupas clssicas. Sapatos, contudo, eram outra histria. Mesmo na poca da faculdade ela economizava para comprar os melhores.
Sua tia uma vez lhe dissera: "Voc nunca ir alcanar as estrelas se seus ps estiverem doendo. E, quando voc chegar aonde quer,  melhor que esteja com uma boa aparncia:'	.
Susan alongou-se confortavelmente e ento se concentrou na tarefa que tinha em mos. Colocou na tela o seu tracer e preparou-se para configur-lo. Deu uma olhada rpida no endereo de e-mail que Strathmore havia lhe dado:

NDAKOTA@ara.anon.org

O homem que se intitulava North Dakota tinha uma conta secreta, mas seu anonimato no iria durar muito. O tracer passaria pelo ARA, seria remetido para North Dakota e ento mandaria de volta informaes contendo o verdadeiro endereo desse homem na Internet.
Se tudo corresse bem, o programa iria localizar North Dakota rapidamente, e Strathmore poderia confiscar a chave. Bastaria ento esperar por David. Quando ele encontrasse a chave de Tankado, ambas seriam destrudas. Assim, a pequena bomba-relgio de Tankado se tornaria incua - um explosivo mortfero, mas sem detonador.
Susan conferiu novamente o endereo na folha de papel e digitou os dados necessrios. Ela riu consigo mesma ao pensar que Strathmore tivera dificuldades para enviar o tracer. Aparentemente ele enviou o programa duas vezes e, nos dois casos, recebeu de volta o endereo de Tankado, em vez do endereo de North Dakota. Era um engano simples, pensou Susan: Strathmore provavelmente confundiu os campos de dados, e o tracer foi procurar a conta errada.
Susan terminou de configurar seu programa e apertou ENTER. O computador emitiu um bipe:

TRACER ENVIADO

Agora comeava o jogo de espera.
Susan expirou longamente. Sentia-se culpada por ter sido dura com o comandante. Se havia algum realmente preparado para cuidar dessa ameaa por conta prpria, era Strathmore. De alguma forma ele sempre se saa bem quando desafiado.
Seis meses atrs, quando a EFF divulgou uma notcia de que um submarino da NSA estava espionando cabos telefnicos, Strathmore deixou vazar, com toda a tranqilidade, uma histria conflitante de que o submarino estava, na verdade, enterrando ilegalmente lixo radioativo. A EFF e os ambientalistas passaram tanto tempo discutindo qual das verses era verdadeira que a mdia acabou se cansando da histria e esqueceu o assunto.
Todas as jogadas de Strathmore eram cuidadosamente planejadas. Ele contava com a ajuda de seu computador quando estava criando e revisando seus planos. Assim como muitos outros que trabalhavam na NSA, ele usava um software desenvolvido pela prpria agncia chamado BrainStorm - uma forma sem riscos de desenvolver cenrios hipotticos dentro do ambiente seguro de um computador.
BrainStorm era um programa experimental que usava inteligncia artificial para fazer aquilo que seus criadores descreviam como "simulao de causa e efeito': Ele foi idealizado originalmente para ser usado em campanhas polticas como uma forma de gerar modelagens, em tempo real, de um determinado ambiente poltico. Alimentado por enormes quantidades de dados, o programa criava uma rede de relacionamentos. Essa rede era um modelo hipottico de interaes entre as variveis polticas, incluindo as figuras pblicas de relevncia naquele momento, suas equipes, seus vnculos pessoais umas com as outras, tpicos polmicos e motivaes dos indivduos, com diferentes pesos atribudos a variveis como sexo, etnia, dinheiro e poder. O usurio poderia, ento, especificar qualquer evento imaginrio, e o BrainStorm iria predizer como este evento afetaria "o ambiente':
O comandante trabalhava sempre com o BrainStorm, mas no por motivos polticos. Usava-o como um dispositivo de TFM: Tempo, Fluxograma e Mapeamento. Nesse contexto, era um software preciso para delinear estratgias complexas e prever fraquezas. Susan suspeitava que, no computador de Strathmore, havia alguns estratagemas escondidos que poderiam mudar o mundo.
Sim, fui dura demais com ele. Seus pensamentos foram cortados pelo rudo suave das portas do Nodo 3 se abrindo. Strathmore entrou apressadamente.
- Susan, David acabou de ligar. Houve um imprevisto.

CAPTULO
16

- Um anel? - Susan parecia desconfiada.-Tankado estava usando um anel?
- Sim. Tivemos sorte por David ter notado. Ele foi realmente competente. - Mas voc est atrs de uma chave e no de jias.
- Claro, mas acho que so a mesma coisa - disse Strathmore.
Susan olhou para ele, sem entender.
-  uma longa histria.
Ela apontou para o tracer que estava em sua tela.
- Bem, no vou a lugar algum.
Strathmore suspirou profundamente e comeou a andar de um lado para o outro, enquanto explicava.
- Parece que havia testemunhas quando Tankado morreu. De acordo com o policial que estava no necrotrio, um turista canadense ligou para a Guardia esta manh, em pnico. Disse que um japons estava tendo um ataque cardaco no parque. Quando o policial chegou, chamou os para-mdicos pelo rdio, mas Tankado j estava morto. Depois que o corpo foi levado para o necrotrio, o policial tentou fazer com que o turista lhe contasse o que havia acontecido. Tudo o que o velho fez foi repetir algo sobre um anel que Tankado tinha lhe dado pouco antes de morrer.
Susan olhou para ele, ctica. - Tankado deu um anel?
- Sim. Na verdade, parece que ele quase enfiou o anel na cara desse senhor, como se estivesse implorando a ele que o guardasse. Creio que o velho pde ver o anel bem de perto. - Strathmore parou de andar e se virou. - Ele disse que o anel era entalhado, que continha algum tipo de inscrio.
- Uma inscrio?
- De acordo com ele, no era ingls. Strathmore fez uma pausa e olhou para ela. 
- Japons?
Ele sacudiu a cabea.
- Tambm foi a primeira coisa em que pensei. Mas, preste ateno nisso, o canadense disse que as letras no faziam sentido. Claro que os caracteres japoneses jamais seriam confundidos com nosso alfabeto latino. Ele disse que o que estava gravado se parecia com um gato se divertindo em uma mquina de escrever.

- Comandante, voc no acredita realmente que... 
Strathmore interrompeu-a.
- Susan, est na cara. Tankado gravou a chave do Fortaleza Digital em seu anel. O ouro  durvel. No importa se ele estivesse dormindo, tomando banho ou comendo, a chave estaria sempre com ele, pronta para ser divulgada a qualquer instante.
Susan continuava em dvida.
- No dedo dele? To abertamente assim?
- E por que no? A Espanha no  exatamente um centro mundial de criptografia. Ningum teria a menor idia do que aquelas letras significavam. Alm disso, se for uma chave-padro de 64 bits, mesmo em plena luz do dia ningum poderia ler e memorizar todos os caracteres.
Susan parecia perplexa.
- E Tankado deu esse anel a um completo estranho, pouco antes de morrer? Por qu?
- O que voc acha? - Strathmore olhou fundo para ela.
Levou apenas um instante para que Susan compreendesse. Seus olhos se arregalaram.
- Faz sentido, no? - disse o comandante. - Tankado estava tentando se livrar do anel. Achou que ns o havamos assassinado. Sentiu que estava morrendo e, logicamente, acreditou que fssemos os responsveis. O timing era muito perfeito para ser mera coincidncia. Achou que tnhamos conseguido atingi-lo usando veneno ou alguma substncia de ao lenta que provocasse uma parada cardaca. Ele tambm sabia que s ousaramos mat-lo se j tivssemos encontrado North Dakota.
Susan sentiu um frio na espinha.
- Naturalmente - disse em voz baixa. - Tankado achou que havamos neutralizado seu "seguro de vida': para que pudssemos mat-lo tambm.
As coisas estavam perfeitamente claras para Susan. A morte de Tankado era to conveniente para a NSA que, ao sofrer o ataque cardaco, ele presumiu que a agncia tinha tramado algo contra ele. Seu ltimo instinto foi o de vingana. Ensei deu seu anel como um ltimo esforo desesperado para tomar a chave pblica. Agora, inacreditavelmente, algum turista canadense possua, sem suspeitar, a chave para o mais poderoso algoritmo de encriptao da histria.
Susan respirou fundo, depois perguntou:
- E onde est o canadense agora?- 
- Este  o problema - Strathmore franziu o rosto. 
- O policial no sabe onde ele est?
- No sabemos ao certo. A histria do canadense era to absurda que o policial pensou que ele estivesse em estado de choque ou fosse meio maluco. Ento colocou o turista na carona de sua motocicleta para lev-lo de volta ao hotel. Mas o canadense devia estar meio tonto porque no se segurou na moto e caiu assim que eles partiram. Pelo relatrio, bateu com a cabea no cho e quebrou o pulso.
- O qu? - espantou-se Susan.
- O policial queria lev-lo para um hospital, mas o turista estava furioso e disse que preferia andar de volta at o Canad a subir de novo naquela motocicleta. Ento tudo que o policial fez foi andar com ele at uma pequena clnica pblica que ficava perto do parque e deix-lo l para ser tratado.
Susan mordeu os lbios.
- Suponho que no seja necessrio perguntar para onde David est indo agora.

CAPTULO
17

David Becker atravessou o calamento escaldante de tijolos da Plaza de Espaa. A sua frente, El Ayuntamiento - o antigo prdio da Cmara - erguia-se por entre as rvores em uma rea de 12 mil metros quadrados de azulejos azuis e brancos. Sua fachada trabalhada em espirais e entalhes mouriscos dava a impresso de que ele havia sido projetado com a inteno de ser um palcio, mais do que um prdio pblico. Apesar de seu histrico de golpes militares, incndios e enforcamentos pblicos, a maioria dos turistas ia at l porque os panfletos locais indicavam que era ali que tinha sido filmado o quartel-general dos ingleses em Lawrence da Arbia. Tinha sido bem mais barato para a Columbia Pictures filmar na Espanha do que no Egito, e a influncia moura na arquitetura de Sevilha era forte o suficiente para convencer os espectadores de que estavam vendo um prdio situado no Cairo.
Becker ajustou seu Seiko para o horrio local: 21hl0. Ainda era fim de tarde pelos padres locais: um espanhol que se preze jamais iria jantar antes do pr-do-sol, o que na Andaluzia dificilmente acontecia antes das 22h.
Mesmo no calor do incio da noite, Becker atravessou o parque a passos largos e rpidos. Strathmore parecera ainda mais preocupado desta vez do que pela manh. Suas novas ordens no deixavam nenhum espao para interrogaes: encontre o canadense, pegue o anel. Faa o que for necessrio, mas pegue aquele anel.
Becker tentou imaginar o que poderia haver de to importante em um anel entalhado. Mas Strathmore no deu nenhuma pista, e ele achou melhor no perguntar.
Era fcil encontrar a clnica. Ficava do outro lado da Avenida Isabela Catlica, com o smbolo universal de uma cruz vermelha dentro de um crculo branco pintado no teto. O policial da Guardia havia deixado o canadense l, horas atrs. Um pulso quebrado e uma batida na cabea. Com certeza quela altura o paciente j teria recebido alta. Becker estava torcendo para que a clnica tivesse guardado os dados de internao - alguma informao sobre onde o paciente poderia ser encontrado, um telefone ou algo assim. Com um pouco de sorte, Becker pensou que poderia achar o canadense, pegar o anel e retornar para casa sem maiores complicaes. Strathmore lhe dissera para usar o dinheiro que havia recebido para comprar o anel, se fosse preciso.
- Depois, eu irei reembols-lo - garantiu o comandante. - No  preciso - respondeu Becker.
Ele pretendia devolver tudo, de qualquer forma. No tinha ido  Espanha por dinheiro, mas por Susan. O comandante Trevor Strathmore era o mentor e guardio de Susan, e ela lhe devia muito. Um passeio de um dia era o mnimo que Becker podia fazer.
Infelizmente, as coisas naquela manh no haviam sado exatamente como David planejara. Ele achou que conseguiria falar com Susan pelo telefone para explicar-lhe tudo. Chegou a pensar em pedir ao piloto que chamasse Strathmore pelo rdio para que pudesse mandar uma mensagem para a namorada, mas no achou uma boa idia envolver o vice-diretor em seus problemas amorosos.
Becker j havia tentado falar com Susan trs vezes. Primeiro, enquanto estava no jato, usando seu celular, que infelizmente estava fora de rea. Depois, de um telefone pblico no aeroporto, e, finalmente, do necrotrio. Susan no estava em casa, e David no sabia onde ela poderia estar. A secretria eletrnica atendeu, mas ele no deixou mensagem. No dava para dizer o que queria para uma mquina.
Quando se aproximou da avenida, viu uma cabine perto da entrada do parque. Correu at l, pegou o fone e usou seu carto para fazer a chamada. Houve uma longa pausa enquanto a chamada internacional se completava. Finalmente o telefone comeou a tocar.
Vamos Susan, atenda.
Depois de cinco toques, a chamada foi atendida: "Oi. Voc ligou para Susan Fletcher. No estou em casa agora, mas se voc deixar seu nome..:'
Becker ficou ouvindo a mensagem. Onde  que ela est? A esta altura, Susan j entrou em pnico. Ela teria ido a Stone Manor sem mim?, pensou. Ouviu o bipe do outro lado.
"Oi. Sou eu, David:' Parou, sem saber muito bem o que dizer. Uma das coisas que mais detestava em secretrias eletrnicas era que, se voc parasse muito tempo para pensar, elas cortavam sua chamada. "Desculpe por no ter ligado antes, disse, bem a tempo. Pensou se deveria contar o que estava acontecendo, mas concluiu que no seria seguro. "Ligue para o comandante Strathmore. Ele ir lhe explicar tudo." O corao de Becker batia acelerado. Isso  absurdo, ele pensou. "Eu te amo'~ disse rapidamente e depois desligou.
Becker esperou que alguns carros passassem. Pensou que Susan provavelmente teria imaginado as piores coisas possveis, porque ele raramente deixava de ligar quando prometia. Atravessou a avenida de quatro pistas. Entrar e sair, falou baixinho para si mesmo. Entrar e sair. Estava preocupado demais para notar um homem usando culos de armao de metal que o observava do outro lado da rua.

CAPTULO
18

De p em frente  enorme janela de blindex de seu escritrio em Tquio, Numataka admirava a vista enquanto dava longas baforadas em seu charuto, sorrindo para si mesmo. Quase no acreditava em sua sorte. Havia falado com o americano novamente, e, se tudo estivesse correndo de acordo com o cronograma, Ensei Tankado j teria sido eliminado e sua cpia da chave recuperada.
Era irnico, pensou Numataka, que ele fosse ficar com a chave de Ensei Tankado. Tokugen Numataka havia encontrado Tankado uma vez, h muitos anos. Recm-sado da universidade, o jovem programador foi procurar emprego na Numatech Corpo Mas Numataka no quis contrat-lo. Ele no duvidara de que Tankado era de fato brilhante, porm, na poca, havia outras questes. Apesar das mudanas pelas quais o Japo estava passando, Numataka havia sido treinado segundo as regras da velha escola: vivia de acordo com o cdigo de menboko - honra e aparncias. Imperfeies no deveriam ser toleradas. Se ele contratasse um deformado, cobriria sua empresa de vergonha. Colocou de lado o currculo de Tankado sem pestanejar.
Numataka consultou novamente o relgio. O americano North Dakota j deveria ter ligado. Sentiu uma ponta de nervosismo. Esperava que nada tivesse sado errado.
Se as chaves fossem verdadeiras, conforme o prometido, iriam abrir o produto mais desejado da era da informtica - um algo ritmo de encriptao digital totalmente invulnervel. Numataka poderia embutir o algo ritmo em chips VLSI  prova de engenharia reversa, selados com spray, e depois comercializ-los em massa para todo o mundo: fabricantes de computadores, governos, indstrias e, talvez, at os mercados mais sombrios...
Numataka sorriu. Parece que ele havia mais uma vez cado nas graas das shichigosan - as sete divindades da boa sorte. A Numatech Corp. estava prestes a controlar a nica cpia da chave do Fortaleza Digital. Vinte milhes de dlares era muito dinheiro, mas, considerando-se o produto, era a barganha do sculo.

CAPTULO 19

- E se houver mais algum atrs do anel? - perguntou Susan, aflita. - David pode estar correndo perigo?
Strathmore sacudiu a cabea.
- Ningum mais sabe que o anel existe.  por isso que eu mandei David.
Queria que as coisas permanecessem secretas. Espies curiosos no costumam ficar seguindo pessoas que do aulas de espanhol.
- Ele  professor universitrio - corrigiu Susan, mas logo em seguida se arrependeu do comentrio. Algumas vezes ela tinha a sensao de que, para o comandante, David parecia no ser bom o suficiente, e que ele pensava, no fundo, que Susan poderia conseguir algum melhor do que um mero professor.
- Comandante - ela disse, continuando o assunto -, se voc deu instrues a David esta manh usando o telefone do carro, algum poderia ter interceptado a...
- Uma chance em um milho - interrompeu Strathmore, com um tom de voz tranqilizador. - Qualquer um que quisesse espionar a conversa precisaria estar bem prximo e saber exatamente o que estava procurando ouvir. - Colocou a mo no ombro dela. - Jamais teria enviado David se eu acreditasse que seria arriscado. - Ele sorriu. - Acredite em mim. Se houver qualquer sinal de perigo, envio uma equipe profissional.
As palavras de Strathmore foram pontuadas pelo som sbito de algum batendo no vidro do Nodo 3. Ambos se viraram.
Phil Chartrukian, o tcnico de SegSis, havia colado o rosto contra o vidro e estava batendo vigorosamente, enquanto fazia fora para enxergar atravs do vidro espelhado. Estava muito agitado e dizia algo que no podia ser ouvido em razo do isolamento acstico. Parecia ter visto um fantasma.
- Que diabos Chartrukian est fazendo aqui? - Strathmore rosnou.  Ele deveria estar de folga hoje.
- Acho que temos um problema - disse Susan. - Ele provavelmente viu a tela do ExeMon.
- Mas que droga! - disse o comandante, exasperado. - Eu dei ordens diretas ontem  noite para que o SegSis de planto no viesse!
Susan no estava surpresa. Cancelar o planto de um SegSis era completamente irregular, mas com certeza Strathmore queria privacidade total no domo. A ltima coisa de que ele precisava era um SegSis paranico revirando as entranhas do Fortaleza Digital.
- Melhor abortarmos o TRANSLTR - disse Susan. - Podemos dar reset no	ExeMon e dizer a Phil que ele est vendo coisas.
	Strathmore cogitou a possibilidade, depois balanou negativamente a cabea.
	- Ainda no. O TRANSLTR est lidando com o cdigo h 15 horas. Quero deix-lo rodando pelo menos durante 24 horas.
Isso fazia sentido para Susan. O Fortaleza Digital era a primeira implementao j feita de uma funo de mensagem clara circular. Talvez Tankado tivesse deixado escapar alguma coisa. Talvez o TRANSLTR pudesse quebrar o cdigo em 24 horas. Ainda assim, Susan tinha suas dvidas.
Chartrukian continuava a bater no vidro.
- Vamos inventar uma desculpa - disse ele em voz baixa. - Me d cobertura. O comandante respirou fundo e ento se dirigiu para as portas deslizantes de vidro. O mecanismo de abertura foi ativado e elas se abriram. Chartrukian quase caiu dentro da sala.
- Comandante, senhor, eu... Desculpe interromp-Io, mas o ExeMon... Eu executei uma varredura contra vrus e...
- Phil, acalme-se - disse o comandante, enquanto pousava a mo sobre o ombro de Chartrukian de forma tranqilizadora. - Mais devagar. Qual o problema?
Ouvindo o tom de voz calmo de Strathmore, ningum seria capaz de pensar que o mundo estava desabando ao seu redor. Ele deu um passo para o lado e fez sinal para que Chartrukian entrasse no santurio do Nodo 3. O SegSis entrou, hesitante, como um co bem treinado que conhece seus limites.
  Pela cara espantada de Chartrukian, era bvio que ele nunca tinha visto a sala por dentro. Fosse qual fosse o motivo de seu pnico, este ficou momentaneamente esquecido. Ele observou, impressionado, o interior luxuoso, os terminais privativos, os sofs, as estantes, a iluminao indireta. Quando deu de cara com a rainha suprema da Criptografia, Susan Fletcher, rapidamente desviou seus olhos. Susan o deixava absolutamente intimidado. A mente dela funcionava em outro plano. Ela era fantasticamente bela, e tudo que ele dizia soava confuso quando ela estava por perto. A aparente displicncia de Susan s tornava as coisas mais difceis.
- Ento, Phil, me diga, qual o problema? - repetiu Strathmore, abrindo a geladeira. - Quer beber algo?
- No, ... no, obrigado, senhor. - Sua lngua parecia estar grudada, e ele no tinha muita certeza se era bem-vindo ali ou no. - Senhor, creio que h um problema com o TRANSLTR.
Strathmore fechou a porta da geladeira e olhou para Chartrukian casualmente. -Ah, voc est falando do ExeMon?
Chartrukian ficou atnito.
- Quer dizer que o senhor j viu?
- Claro. Est rodando h cerca de 16 horas, se no me engano. Chartrukian no sabia bem o que dizer.
- Sim, senhor, 16 horas. Mas isso no  tudo, senhor. Eu executei uma varredura contra vrus e estou obtendo alguns resultados bem estranhos.
- ? - Strathmore parecia despreocupado. - Que tipo de resultados? Susan observava, impressionada com a habilidade do comandante. Chartrukian continuou, incerto.
- O TRANSLTR est processando algo muito avanado. Os filtros nunca
encontraram nada parecido. Estou preocupado imaginando que o TRANSLTR tenha encontrado um novo tipo de vrus.
- Um novo vrus? - Strathmore riu, de forma quase condescendente. - Phil, realmente admiro sua preocupao. Mas Susan e eu estamos executando um novo tipo de diagnstico, uma funo de loop, coisa bem avanada. Eu teria alertado voc, mas no sabia que estava no planto de hoje.

O SegSis tentou encobrir o que havia acontecido da melhor forma possvel. - Eu troquei com o novo tcnico. Fiquei com o planto de fim de semana dele. Strathmore olhou para ele, irnico.
- Curioso. Eu falei com ele ontem  noite. Eu lhe disse que no precisava vir hoje, mas ele no me contou nada sobre mudanas no planto.
Chartrukian sentiu um n na garganta. Houve um silncio tenso.
- Bem - prosseguiu Strathmore com um leve suspiro. - Parece que, lamentavelmente, houve algum engano. - Colocou novamente a mo no ombro do SegSis e levou-o em direo  porta. - A boa notcia  que voc pode voltar para casa. Eu e Susan ficaremos aqui durante todo o dia. Fique tranqilo, vamos
	tomar conta da casa. V e aproveite seu fim de semana.
Chartrukian no sabia como reagir.
- Comandante, eu realmente acredito que deveramos checar o...
- Phil - repetiu Strathmore de forma um pouco mais enftica -, o TRANSLTR est o.k. Se sua varredura encontrou algo estranho,  porque ns colocamos algo l. Agora, se voc nos d licena... - Strathmore afastou-se, e o SegSis entendeu o recado: seu tempo havia terminado.
Diagnstico, que nada!, murmurou Chartrukian enquanto voltava, furioso, para o laboratrio de SegSis. Que diabos de funo de loop  capaz de manter trs milhes de processadores ocupados durante 16 horas? Ele estava indeciso sobre se deveria ou no chamar o supervisor de SegSis. Malditos criptgrafos, pensou. So simplesmente incapazes de entender o que  segurana!
O juramento que havia feito quando se juntou  equipe de Segurana de Sistemas estava passando em sua mente. Tinha se comprometido a usar seus conhecimentos, seu treinamento e seu instinto para proteger o investimento bilionrio da NSA.
- Instinto - disse ele, em tom de desafio. No  preciso ser adivinho para saber que isso no  diagnstico algum!
Decidido, Chartrukian dirigiu-se a seu terminal e ativou o conjunto completo de software de diagnstico de sistema do TRANSLTR.
- Seu filhote est com problemas, comandante - resmungou ele. - Voc no confia em instintos? Pois ento vou encontrar uma prova.



CAPTULO
20

La Clnica de Salud Pblica na verdade era uma antiga escola primria que havia sido reformada, mas no lembrava em nada um hospital. Era um prdio longo, com apenas um andar, grandes janelas e brinquedos de playground enferrujados na parte de trs. Becker subiu pelas velhas escadarias.
L dentro estava escuro e barulhento. A sala de espera se resumia a uma linha de cadeiras dobrveis de metal dispostas ao longo da parede de um corredor comprido e estreito. Um cartaz de papelo, apoiado num cavalete, indicava OFICINA, com uma seta apontando para o fim do corredor.
Becker foi andando pelo corredor pouco iluminado. Parecia um cenrio fantasmagrico que havia sido montado para um filme de terror de Hollywood. Sentiu um cheiro de urina no ar. As luzes no final do corredor estavam queimadas, e tudo que se podia ver nos ltimos 10 ou 15 metros eram vultos indistintos: uma mulher sangrando, um casal de jovens chorando, uma pequena menina rezando. Becker chegou ao final do corredor. A porta  sua esquerda estava entreaberta, e ele entrou. A outra sala estava totalmente vazia.
Que timo, resmungou Becker, fechando a porta. Onde est a maldita recepo?
Ele ouviu vozes que vinham do corredor. Seguiu o som e chegou a uma porta de vidro translcido, atrs da qual parecia estar havendo uma discusso. Relutantemente, Becker abriu a porta. Era a recepo. Um caos completo, como ele temia.
A fila tinha cerca de dez pessoas, todas empurrando e gritando. Becker sabia que poderia passar a noite inteira ali, esperando pela ficha do canadense. Havia apenas uma secretria atrs da mesa, ouvindo as reclamaes dos pacientes irritados. Ele ficou parado algum tempo na entrada, avaliando as opes. Tinha uma idia melhor.
- Con permisso! - gritou um atendente. Uma maca passou rapidamente. Becker abriu passagem e lhe perguntou:
- Dnde est el telfono?
Sem diminuir o passo, o homem apontou para uma porta dupla e sumiu.
Becker caminhou na direo indicada e empurrou as portas. Entrou numa sala enorme - um antigo ginsio. O cho tinha uma cor verde desbotada e parecia entrar e sair de foco sob as luzes fluorescentes. Na parede, uma cesta de basquete pendia precariamente de seu suporte. Havia umas poucas dezenas de pacientes espalhados pelo cho em leitos baixos. No canto mais distante, logo abaixo de um placar queimado, havia um velho telefone pblico. Becker torceu para que funcionasse.
Enquanto andava at o telefone, procurou uma moeda em seus bolsos. Encontrou 75 pesetas em moedas de cinco. Era o troco do txi, o suficiente para duas chamadas locais. Ele sorriu educadamente para uma enfermeira que estava de sada e finalmente chegou ao telefone. Pegou o fone e discou para Informaes. Poucos segundos depois, tinha obtido o nmero da recepo da clnica.
Fosse qual fosse o pas, parecia haver uma verdade absoluta no que dizia respeito a recepcionistas: no podiam suportar o som de um telefone tocando sem que algum atendesse. Nunca importava quantas pessoas estavam esperando para serem atendidas, a secretria sempre iria deixar de lado o que estivesse fazendo para responder  chamada.
Becker digitou o nmero. Em breve seria atendido e, com toda a certeza, no seria difcil localizar a ficha de um canadense com um pulso quebrado e uma concusso. S deveria haver um caso assim naquele dia. Becker supunha que a secretria no fosse querer dar o nome e o endereo do canadense para um estranho ao telefone, mas ele tinha um plano.
O telefone comeou a tocar. Ele calculou que cinco toques seriam o suficiente, mas foram necessrios 19.
- Clnica de Salud Pblica - disse, esbaforida, a secretria.
Becker falou em espanhol, com um forte sotaque franco-americano.
- Aqui  David Becker. Trabalho na embaixada do Canad. Um cidado canadense foi atendido por vocs hoje. Gostaria de obter suas informaes pessoais para que a embaixada possa resolver as questes de pagamento.
- timo - disse a mulher. - Enviarei as informaes para a embaixada nesta segunda.
- Na verdade - insistiu Becker -, eu preciso delas neste instante.
- Impossvel, estamos muito ocupados - retrucou a mulher.
Becker tentou falar da forma mais oficial possvel.
-  um assunto urgente. Creio que o homem quebrou o pulso e machucou a cabea. Ele foi tratado hoje pela manh. Deve ser fcil encontrar sua ficha.
Becker acentuou seu sotaque: suficientemente claro para transmitir o que precisava, suficientemente confuso para ser irritante. As pessoas em geral se dispunham a quebrar as regras quando ficavam irritadas.
Contudo, em vez de quebrar as regras, a mulher amaldioou a arrogncia dos canadenses e bateu o telefone em sua cara.
Becker fechou a cara e desligou. Bola fora. A perspectiva de esperar durante
horas na fila no era nada animadora. O tempo continuava passando, e o canadense poderia estar em qualquer lugar. Talvez tivesse decidido voltar para o Canad. Ou talvez tivesse vendido o anel. Becker no podia ficar esperando horas e horas na fila. Com uma determinao renovada, ele pegou o fone e discou o mesmo nmero outra vez. Encostou-se na parede, enquanto a chamada era completada, e olhou para o ginsio onde estava. O telefone tocou uma vez, duas, trs...
Uma descarga de adrenalina percorreu seu corpo.
Colocando o fone de volta no gancho, olhou estupefato para o leito bem  sua frente. Ajeitado em uma pilha de velhos travesseiros, havia um senhor com o pulso direito recm-engessado.

CAPTULO
21

O americano que estava na linha privativa de Tokugen Numataka parecia muito ansioso.
- Sr. Numataka, tenho pouco tempo.
- Certo. Suponho que voc tenha conseguido as duas chaves.
- Houve um pequeno atraso - respondeu o americano.
- Isso no  aceitvel- bradou Numataka. - Voc disse que elas estariam em meu poder at o fim do dia!
- Ainda tenho que resolver um problema.
- Tankado est morto?
- Sim - disse a voz. - O agente que enviei matou o Sr. Tankado, mas no conseguiu pegar a chave. Tankado conseguiu pass-la para outra pessoa pouco antes de morrer. Um turista.
- Vergonhoso! - gritou Numataka. - Ento como voc pode me prometer acesso exclusivo a...
- Fique calmo - o americano tranqilizou-o. - Voc ter os direitos exclusivos, eu lhe dou essa garantia. Assim que a chave que est faltando for encontrada, o Fortaleza Digital ser seu.
- Mas a chave pode ter sido copiada!
- Qualquer um que tiver visto a chave ser eliminado.
Houve um longo silncio. Depois Numataka voltou a falar.
- Onde a chave est agora?
- Tudo que voc precisa saber  que ela ser encontrada. - Como voc pode estar to certo?
- Porque no sou o nico que est procurando por ela. A inteligncia americana tambm ouviu falar dessa chave. Por motivos bvios, eles no querem que o Fortaleza Digital venha a pblico. Enviaram um homem para procur-la. Seu nome  David Becker.
- Como voc sabe de tudo isso?
- No importa.
Numataka fez outra pausa.
- E se o Sr. Becker encontrar a chave?
- Meu agente ir tom-la dele.
- E depois?
- Voc no precisa se preocupar com isso - disse o americano, frio.
- Quando o Sr. Becker encontrar a chave, receber a recompensa que merece.

CAPTULO
22

David Becker aproximou-se do leito e inclinou-separa observar o senhor que estava dormindo. O pulso direito do homem, que tinha entre 60 e 70 anos, havia sido engessado. Seus cabelos brancos estavam repartidos cuidadosamente para o lado e, no centro de sua fronte, via-se um grande machucado que descia at o olho direito.
Uma pequena batida na cabea?, pensou, lembrando-se das palavras do tenente. Becker examinou os dedos do homem. No havia nenhum anel. Ento encostou no brao dele, sacudindo-o levemente para acord-lo.
- Senhor? Com licena... senhor?
O homem no se moveu. Becker tentou de novo, um pouco mais alto desta vez. - Senhor?
O homem se assustou.
- Qu'est-ce... quelle heure est... - Abriu os olhos lentamente, focalizando o rosto de Becker. Estava irritado por ter sido perturbado. - Qu' est-ce que vous voulez?
timo, pensou Becker, um franco-canadense! Becker sorriu para ele e disse: - Posso falar com o senhor por um instante?
Apesar de Becker falar francs perfeitamente, ele preferiu se dirigir ao velho em ingls, o idioma que esperava que fosse menos familiar para ele. Convencer um estranho completo a entregar-lhe um anel de ouro podia ser complicado. Becker achou que deveria usar qualquer vantagem que tivesse.
Houve um longo silncio enquanto o homem tentava se situar. Ele olhou em volta e levantou um dedo alongado para ajeitar o bigode branco e desalinhado.
	Finalmente falou.
- O que voc quer? - Seu ingls possua um sotaque anasalado.
- Senhor - disse Becker, pronunciando exageradamente as palavras, como se estivesse falando com um surdo -, preciso lhe fazer algumas perguntas.
O homem olhou para ele com estranheza.
- Voc tem algum problema?
Becker ficou aborrecido. O ingls do homem era impecvel. Parou de falar no tom condescendente que tinha tentado usar.
	- Perdoe-me por incomod-lo, mas o senhor por acaso esteve na Plaza de Espaa hoje?
Os olhos do homem estreitaram-se.
- Voc  da Prefeitura?
- No, na verdade eu...
- Secretaria de Turismo?
- No, eu sou...
- Olhe, j sei por que voc est aqui! - O velho comeou a se remexer, tentando se sentar. - Eu no vou me deixar intimidar! J disse isso uma vez e direi outras mil se for preciso! Pierre Cloucharde escreve sobre o mundo da forma que ele vive o mundo. Alguns guias de turismo poderiam varrer isso para baixo do tapete em troca de uma noite com tudo pago na cidade, mas o Montreal
	Times no est  venda! Me recuso!
- Perdoe-me, senhor. No acho que o senhor tenha compreen...
- Merde alors! Claro que entendi! - Sacudiu um dedo ossudo na direo de Becker, sua voz ecoando pelo ginsio. - Voc no  o primeiro! Tentaram o mesmo no Moulin Rouge, em Brown's Palace e no Golfino in Lagos! Mas quer saber o que foi publicado? A verdade! O pior fil Wellington que j comi! A banheira mais suja que j encontrei! E a praia mais cheia de pedregulhos em que j andei!  isso que meus leitores esperam!
Os pacientes em leitos prximos comearam a se virar para ver o que estava acontecendo. Becker olhou em volta, nervoso, para verificar se alguma enfermeira estava se aproximando. A ltima coisa de que precisava agora era ser colocado para fora.
Cloucharde estava furioso.
- Aquele imbecil que diz ser um policial trabalha para a sua cidade! Ele me fez subir naquela motocicleta! E olhe para mim agora! - Tentou levantar o pulso. - Me diga, quem vai escrever minha coluna agora?
- Senhor, eu...
- Nunca estive numa situao to desconfortvel em meus 43 anos de viagens! Olhe este lugar! Voc sabia que minha coluna  publicada em mais de...
- Senhor! - Becker levantou as duas mos, urgentemente pedindo uma trgua. - No estou interessado em sua coluna. Eu sou do consulado canadense. Estou aqui para verificar se o senhor est bem!
Subitamente um silncio profundo tomou conta do ginsio. O velho olhou pa
ra cima e examinou o intruso, desconfiado. Becker continuou, quase sussurrando:
- Estou aqui para saber se h algo que eu possa fazer para ajud-lo.  Como trazer um ou dois comprimidos de Valium, talvez...
Aps uma longa pausa, o canadense falou.
- Do consulado? - Seu tom de voz estava bem mais tranqilo.
Becker assentiu.
- Ento quer dizer que no  sobre minha coluna?
- No, senhor.
Foi como se uma bolha gigantesca explodisse para Pierre Cloucharde. Ele se reclinou novamente na pilha de travesseiros. Parecia desapontado.
- Achei que voc fosse da cidade, tentando me convencer a... - Ele ficou mudo e depois voltou a olhar para Becker. - Se no  sobre minha coluna, por que ento voc est aqui?
Essa era uma boa pergunta, pensou Becker, sonhando com as Smoky Mountains. - Apenas uma cortesia diplomtica informal- mentiu.
O homem se espantou.
- Cortesia diplomtica?
- Sim, senhor. Estou certo de que um homem de sua estatura est ciente de que o governo do Canad trabalha duro para proteger seus cidados das indignidades sofridas nesses, ah, digamos assim, pases menos refinados.
Os lbios finos de Cloucharde se abriram em um sorriso.
- Mas  claro, que boa surpresa.
- Voc  um cidado canadense, no ?
- Claro, claro. Que tolice a minha. Por favor, me desculpe.  que pessoas em minha posio so muitas vezes abordadas com interesses... bem, voc entende. - Sim, Sr. Cloucharde, certamente.  o preo que se paga pela celebridade. -  verdade. - Cloucharde soltou um suspiro melodramtico. Era um mrtir involuntrio obrigado a tolerar as massas. - Voc pode acreditar em um lugar to pavoroso quanto este? - Virou os olhos, percorrendo com o olhar o estranhssimo ginsio. -  uma brincadeira de mau gosto. E resolveram que eu deveria permanecer aqui durante toda a noite.
Becker tambm olhou em volta.
- Eu sei.  terrvel. Lamento que eu tenha levado tanto tempo para chegar at aqui.
Cloucharde continuava um pouco confuso.
- Mas eu nem sabia que voc viria.
- Parece que voc levou uma batida feia na cabea. Est doendo? - perguntou Becker, mudando de assunto.
- No, muito pouco. Eu sofri uma queda pela manh.  o preo que se paga por tentar ser um bom samaritano. O que est doendo mesmo  o pulso. Que Guardia mais estpida! Veja,  um absurdo! Colocar um homem da minha idade em uma motocicleta. Isso no  um procedimento adequado.
- H algo que eu possa trazer para voc?
Cloucharde pensou um pouco, feliz pela ateno que estava recebendo.
- Bem, na verdade... - Esticou o pescoo e virou a cabea para um lado e para o outro. - Gostaria de mais um travesseiro, se no lhe der trabalho.
- Nem um pouco. - Becker pegou um travesseiro de um leito prximo e ajudou Cloucharde a se posicionar de forma mais confortvel.
O velho soltou um suspiro de satisfao.
- Ah, bem melhor, obrigado.
Becker sorriu. Sentou-se na ponta da cama.
- Bem, se me permite, Sr. Cloucharde, gostaria de perguntar por que um homem como o senhor veio parar em um lugar desses. H hospitais bem melhores em Sevilha.
Cloucharde fechou a cara.
- Aquele maldito policial me derrubou da motocicleta e me deixou sangrando no meio da rua. Tive que vir andando at aqui.
- Ele no se ofereceu para lev-lo a um local mais adequado?
- Naquela motocicleta? No, obrigado!
- O que houve esta manh, exatamente?
- J contei tudo para o policial.
- Falei com ele e...
- Espero que voc tenha dado uma bronca nele! - interrompeu Cloucharde. - Fui extremamente severo. Meu escritrio ir acompanhar o desenrolar deste caso.
- Espero sinceramente que sim.
- Senhor Cloucharde, eu gostaria de apresentar uma reclamao formal s autoridades municipais. - Becker continuou, sorridente, pegando uma caneta no bolso do blazer. - Voc poderia ajudar? Um homem com sua reputao seria uma testemunha de grande valor.
Cloucharde parecia extasiado com a possibilidade de ver seu nome mencionado. Sentou-se.
- Sim, claro. Ser um prazer.
Becker retirou do bolso um pequeno bloco de notas.
- Est bem, vamos comear com os eventos desta manh. Conte-me sobre o acidente.
O velho suspirou.
- Foi realmente triste. Aquele pobre oriental caiu, de repente. Tentei ajud-lo, mas no pude fazer nada.
- Voc lhe aplicou uma massagem cardaca?
Cloucharde pareceu envergonhado.
- Infelizmente no sei como fazer isso. Chamei uma ambulncia.
Becker lembrou-se do machucado azulado no peito de Tankado.
- Ento os para-mdicos administraram uma massagem cardaca nele?
- Deus, no! No havia por qu. O homem j estava morto h tempos quando a ambulncia finalmente chegou. Examinaram seu pulso e o levaram em uma maca, deixando-me com aquele policial desgraado.
Isso  estranho, pensou Becker, imaginando de onde aquele hematoma teria surgido. Deixou isso de lado e voltou ao assunto principal.
- E o tal anel? - disse da forma mais casual possvel.
- O tenente lhe falou sobre o anel? - Cloucharde se surpreendeu.
- Sim, falou.
Cloucharde parecia realmente surpreso.
-  mesmo? No achei que ele tivesse acreditado em minha histria. Foi to rude, como se achasse que eu estivesse mentindo. Mas minha histria era absolutamente exata,  claro. Eu me orgulho de ser sempre fiel aos fatos.
- Onde est o anel? - Becker tentou ir direto ao ponto.
Cloucharde, contudo, pareceu no ter ouvido. Tinha um olhar longnquo e vago. - Era um objeto estranho, na verdade. Todas aquelas letras... No se pareciam com nenhum idioma que eu j tenha encontrado.
- Talvez fosse japons?
- No, definitivamente no.
- Voc teve a chance de v-lo de perto, ento?
- Por Deus, sim! Quando eu me ajoelhei para tentar ajud-lo, o homem no parava de enfiar o dedo na minha cara. Ele realmente queria me dar o anel. Foi 	estranho, horrvel. Suas mos eram disformes.
- E ento voc pegou o anel?
Cloucharde arregalou os olhos.
- Foi isso que o policial lhe disse, que eu peguei o anel? Becker se mexeu, pouco  vontade.
- Eu sabia que ele no estava ouvindo!  assim que os rumores comeam!
Eu disse a ele que o japons entregou o anel, mas no para mim! Jamais pegaria algo de uma pessoa morrendo! Santo Deus! No gosto nem de pensar nisso! - explodiu Cloucharde.
Beker pressentiu que teria problemas.
- Quer dizer ento que o anel no est com o senhor?
- Claro que no!
Sentiu uma dor na boca do estmago.
- Bem, quem ficou com ele, ento?
- O alemo! O alemo est com o anel! - Cloucharde gritou, indignado. Becker sentiu-se como se algum tivesse puxado o tapete debaixo de seus ps. - Alemo? Que alemo?
- O alemo que estava no parque. Eu contei ao policial sobre ele! Me recusei a ficar com o anel, mas aquele porco aceitou!
	Becker deixou de lado a caneta e o papel. A charada havia terminado. Agora estava com problemas.
	- Ento h um alemo com o anel? E para onde ele foi?
	- No tenho a menor idia. Corri para chamar a polcia e, quando voltei, ele
j tinha ido embora.
- Voc sabe quem ele era?
- Um turista qualquer.
- Voc tem certeza?
- Minha vida inteira gira em torno dos turistas - retorquiu Cloucharde.  Posso reconhecer um  distncia. Ele e sua amiga estavam passeando pelo parque. Becker estava ficando cada vez mais confuso.
- Uma amiga? Havia outra pessoa com o alemo?
- Uma acompanhante. Que linda ruiva. Meu Deus, como era bonita!
- Uma acompanhante? - Becker estava pasmo. - Quer dizer... uma prostituta? - Sim, se voc quiser usar essa palavra vulgar. - Cloucharde fez uma careta. - Mas... O policial no me disse nada sobre...
- Claro que no! Eu no falei sobre a moa - disse Cloucharde, calando Becker com um gesto da mo que no estava engessada. - No so criminosas, e  um absurdo que sejam perseguidas como se fossem bandidos comuns.
Becker continuava ligeiramente chocado.
- E havia mais algum?
- No, s ns trs. Estava quente.
- E voc tem certeza de que a mulher era uma prostituta?
- Toda certeza. Nenhuma mulher to linda quanto aquela ficaria com um homem daqueles se no estivesse sendo bem paga! Mon Dieu! O homem era gordo, gordo, gordo! Um alemo grosseiro, flcido e irritante! - Cloucharde sentiu uma forte pontada quando mudou de posio, mas ignorou a dor e continuou tagarelando. - Aquele homem era uma besta: tinha mais de 100 quilos. E ficava grudado na pobre moa como se ela fosse sair correndo - o que, no lugar dela, eu certamente faria. Sinceramente! Ficava apalpando a mulher o tempo todo. Era ele que deveria ter cado morto, no aquele pobre oriental. Cloucharde finalmente parou para respirar, e Becker aproveitou para intervir.
- Voc sabe o nome dele?
Cloucharde pensou um pouco, depois sacudiu a cabea.
- No tenho idia. - Fez outra careta de dor e recostou-se aos poucos em seus travesseiros.
Becker suspirou. O anel havia se evaporado bem na frente de seus olhos. O comandante Strathmore no iria gostar nem um pouco.
Cloucharde tocou levemente o machucado em sua cabea. Sua disposio havia se enfraquecido e ele estava voltando a se sentir mal.
Becker tentou outra abordagem.
- Sr. Cloucharde, eu gostaria de obter um depoimento do alemo e da acompanhante dele tambm. O senhor tem alguma idia no hotel onde possam estar hospedados?
Cloucharde fechou os olhos, perdendo as foras. Sua respirao estava se
enfraquecendo.
- Qualquer coisa de que o senhor se lembre? - insistiu Becker. - O nome da moa, talvez?
Houve um longo silncio. Cloucharde passou a mo no lado direito de sua testa. Parecia mais plido agora.
- Eu... eu... no. Acho que eu no... - Sua voz estava trmula.
- O senhor est bem? - Becker inclinou-se, chegando mais perto. Cloucharde acenou levemente.
- Sim, estou bem, s um pouco... talvez a excitao... - Depois no disse mais nada. - Pense, senhor Cloucharde,  importante - insistiu Becker em voz baixa.
Cloucharde fez outra careta de dor.
- No sei... a mulher... o homem a chamava de... - Fechou os olhos e gemeu. - Qual era o nome?
- Eu realmente no me lembro. - Cloucharde estava perdendo as foras.
- Pense - disse Becker mais uma vez. -  importante que a ficha do consulado seja to completa quanto possvel. Precisarei de declaraes das outras testemunhas para confirmar sua histria. Qualquer informao que o senhor puder me dar para localiz-las...
Mas Cloucharde no estava mais ouvindo. Ele agora esfregava sua testa com o lenol.
	- Lamento, talvez amanh. - Parecia estar enjoado.
	- Senhor Cloucharde,  importante que se lembre disso agora - disse Becker,
percebendo no meio da frase que estava falando alto demais. As pessoas nos outros leitos continuavam sentadas, observando o que estava acontecendo. Do outro lado da sala, uma enfermeira abriu a porta dupla e entrou, andando a passos firmes na direo deles.
- Qualquer coisa - Becker insistiu, tenso.
- O alemo chamava a mulher de...
Becker sacudiu levemente o canadense, tentando impedir que ele dormisse.
Cloucharde abriu os olhos por um instante.
- O nome era...
Vamos, meu amigo, no me deixe sozinho.
- Dew... - E depois fechou os olhos novamente. A enfermeira estava se aproximando rapidamente e parecia furiosa.
- Dew? - Becker sacudiu o brao de Cloucharde.
O velho resmungou.
- Ele a chamava de... - A voz de Cloucharde j soava distante, quase inaudvel. A enfermeira estava a menos de trs metros, gritando com Becker num
espanhol zangado. David no lhe deu ateno. Tinha os olhos fixos nos lbios do canadense e o sacudiu uma ltima vez antes que ela chegasse.
A enfermeira agarrou David pelo ombro e fez com que ele ficasse em p exatamente quando Cloucharde voltou a abrir levemente a boca. A nica palavra que saiu no foi pronunciada, era mais como um suspiro suave, uma distante lembrana sensual.
- Dewdrop...
Puxando Becker, a enfermeira tentou tir-Io dali.
Dewdrop? Gota de orvalho? Que diabo de nome  esse?, pensava Becker enquanto se livrava da mulher e se voltava uma ltima vez para Cloucharde.
- Dewdrop? Voc tem certeza?
Mas Cloucharde j havia cado no sono.

CAPTULO
23

Susan estava sentada sozinha na luxuosa sala do Nado 3. Brincava distrada com uma xcara de ch de ervas enquanto esperava o retorno de seu tracer.
Como criptgrafa snior, ela tinha o terminal com a melhor vista. Era na parte posterior do anel de computadores e ficava de frente para o salo da Criptografia. Da sua mesa, Susan tinha uma viso geral do Nodo 3. Podia ver tambm, do outro lado do vidro espelhado, o TRANSLTR bem no meio do salo.
Susan olhou para o relgio. Estava esperando havia quase uma hora. A Ametican Remailers Anonymous aparentemente estava bastante lenta em seu trabalho de encaminhar o e-mail para North Dakota. Suspirou profundamente. Apesar de seus esforos para se esquecer da conversa daquela manh com David, as palavras no paravam de voltar  sua mente. Ela sabia que tinha sido dura com ele e rezava para que as coisas estivessem correndo bem na Espanha.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo rudo sibilante das portas de vidro se abrindo. Ela olhou para a frente e viu o criptgrafo Greg Hale que acabara de entrar.
Greg Hale era alto e musculoso, com um cabelo louro cheio e uma cova profunda no queixo. Falava alto, era meio grosseiro e usava roupas sempre exageradamente chiques para a ocasio. Os outros criptgrafos haviam lhe dado o apelido de "Halita por conta do mineral. Hale sempre presumiu que se tratasse de alguma pedra preciosa, fazendo um paralelo com seu intelecto superior e seu corpo musculoso. Caso seu ego permitisse que ele consultasse uma enciclopdia, teria descoberto que se tratava de uma formao simples de NaCl, um resduo de sal que se formava em alguns lugares quando a gua do mar secava.
Como todos os criptgrafos da NSA, Hale ganhava muito bem. Mas era difcil para ele no alardear esse fato aos quatro ventos. Dirigia uma Ltus branca com teto solar e um sistema de som capaz de arrasar quarteires. Era um viciado em gadgets, e seu carro era uma espcie de salo de exposies. Nele, Hale tinha instalado um sistema computadorizado de posicionamento global (GPS), trancas de portas ativadas por voz, um bloqueador de radar de cinco bandas e um telefone/fax celular, de forma a poder acessar sempre seus servios de mensagens eletrnicas.
Greg Hale tinha sido resgatado de uma infncia repleta de pequenos delitos pelo U.S. Marine Corps, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Foi l que ele comeou a estudar informtica. Era um dos melhores programadores que os marines j tiveram e tinha tudo para seguir uma brilhante carreira militar. Porm, dois dias antes de completar sua terceira viagem a trabalho, seu futuro mudou. Hale matou acidentalmente um colega, em uma briga de bar. O tae-kwon-do, arte marcial coreana, mostrou-se uma eficaz forma de ataque, mais do que de defesa. Foi imediatamente retirado da ativa.
Aps um pequeno perodo na priso, Hale comeou a procurar emprego no setor privado como programador. Era sempre sincero a respeito do incidente durante o tempo em que serviu como fuzileiro naval e atraa potenciais empregadores oferecendo-lhes um ms de trabalho sem pagamento para provar do que era capaz. No foram poucos os que aceitaram e, quando os chefes descobriam o que ele podia fazer com um computador, no o deixavam partir.
 medida que seus conhecimentos de programao foram crescendo, Hale comeou a fazer contatos pela Internet em todo o mundo. Era um dos membros de um novo grupo de cyber-freaks que trocavam e-mails mais ou menos suspeitos com pessoas de vrios pases. Foi demitido de duas empresas por ter usado suas contas de trabalho para enviar fotos pornogrficas para alguns amigos.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntou Hale, parado entre as portas e olhando para Susan. Ele obviamente esperava passar o resto do dia sozinho no  Nodo 3.
Susan fez fora para parecer indiferente.
-  sbado, Greg. Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. - Mas Susan sabia o que Hale estava fazendo l. Ele era um grande viciado em computadores. Apesar da "regra" a respeito dos sbados de folga, ele muitas vezes entrava discretamente na Criptografia durante o fim de semana para usar o poderio computacional nico da NSA para rodar algum novo programa em que estivesse trabalhando.
- Vim apenas dar uma olhada em umas linhas de cdigo e ver meu e-mail - disse Hale. Ele olhou para ela, curioso. - O que foi mesmo que voc disse que tinha vindo fazer aqui?
- No disse nada - respondeu Susan.
Hale levantou uma sobrancelha.
- Ei, no precisa ficar na defensiva. No temos segredos dentro do Nodo 3, se lembra? Um por todos e todos por um.
Susan bebericou seu ch de ervas, ignorando-o. Hale desistiu do assunto e dirigiu-se para a despensa. Essa era sempre sua primeira parada. Enquanto atravessava a sala, suspirou profundamente, mantendo os olhos fixos nas pernas de Susan, alongadas sob o terminal. Sem nem olhar, ela recolheu as pernas e continuou trabalhando. Hale deu um sorriso malicioso.
Susan j havia se acostumado com as investidas de Hale. A frase predileta dele era algo como querer "interfacear com ela para verificar se o hardware era compatvel", o que a deixava enjoada. Era orgulhosa demais para queixar-se com Strathmore a respeito de Hale. Era bem mais simples ignor-lo.
Chegando  despensa, Hale abriu as portas de trelia violentamente. Pegou um Tupperware cheio de tofu que estava na geladeira e jogou alguns pedaos na boca. Depois debruou-se sobre o fogo e alisou as calas Bellvienne cinzas e a camisa bem passada.
- Voc vai ficar por aqui?
- A noite toda - respondeu Susan, friamente.
- Hmmm	- murmurou ele, ainda com a boca cheia. - Nada como um final de sbado tranqilo na Sala de Jogos, apenas ns dois.
	- Apenas ns trs - corrigiu Susan. - O comandante Strathmore est l em cima. Talvez voc queira sumir daqui antes que ele o veja.
	Hale sorriu.
	- Ele no parece se importar muito por voc estar aqui. Acho que ele real
mente gosta da sua companhia.
Susan se esforou novamente para permanecer em silncio. Hale riu para si mesmo e deixou de lado o tofu. Ento pegou um vidro de azeite de oliva e bebeu alguns goles. Era um natureba radical e dizia que o azeite ajudava a limpar seu organismo. Quando no estava tentando empurrar suco de cenoura para o restante da equipe, fazia sermes sobre as virtudes da limpeza intestinal.
Colocou de volta o vidro de azeite e foi para seu computador, que ficava no extremo oposto ao de Susan. Mesmo com toda a distncia que os separava, Susan podia sentir o cheiro da gua-de-colnia que ele usava. Ela torceu o nariz.
- Boa colnia, Greg. Virou a garrafa?
Hale ligou seu terminal.
- Especialmente para voc, querida.
Enquanto ele se sentava e esperava que o computador comeasse a funcionar, um mau pensamento passou pela mente de Susan. E se Hale acessasse o ExeMon do TRANSLTR? No havia nenhum motivo razovel para que ele fizesse isso, mas, de qualquer forma, Susan sabia que ele jamais iria engolir uma mentira qualquer sobre um diagnstico que estava sendo executado no TRANSLTR durante 16 horas. Rale iria exigir que lhe dissessem a verdade, mas isso era algo que Susan no tinha a menor inteno de fazer. Ela no confiava em Greg. Ele no era o tipo de pessoa que deveria estar na NSA. Susan fora contra sua contratao desde o incio, mas a agncia no teve escolha. Rale foi produto de um controle de danos.
O fiasco do projeto Skipjack.
Quatro anos antes, num esforo coordenado para criar um nico padro de encriptao por chave pblica, o Congresso norte-americano havia atribudo aos melhores matemticos da nao - os da NSA - a tarefa de escrever um novo superalgoritmo. O plano era que o Congresso criasse uma lei que tornasse esse algo ritmo um padro nacional, aliviando, dessa forma, os problemas de incompatibilidade que as corporaes estavam enfrentando por usarem diferentes algoritmos.
Claro que pedir  NSA que ajudasse a melhorar a encriptao por chave pblica era mais ou menos o mesmo que pedir a um condenado para construir a prpria forca. O TRANSLTR ainda no havia sido concebido, e um padro de encriptao iria apenas difundir o uso de mensagens codificadas, tornando assim o difcil trabalho da NSA ainda mais difcil.
A EFF percebeu esse conflito de interesses e fez um forte lobby dizendo que a NSA iria criar um algoritmo de qualidade inferior, ou seja: algo que ela pudesse quebrar com alguma facilidade. Em resposta, o Congresso anunciou que, quando o algo ritmo da NSA estivesse pronto, a frmula seria publicada para ser examinada por outros matemticos no mundo inteiro, a fim de assegurar sua qualidade.
Com natural relutncia, a equipe de Critptografia da NSA, liderada pelo comandante Strathmore, criou um algo ritmo batizado de Skipjack, que foi apresentado ao Congresso para aprovao. Matemticos de todo o mundo testaram o algoritmo e se declararam unanimemente impressionados. Relataram que era poderoso, irrepreensvel, e que seria um padro de encriptao formidvel. No entanto, trs dias antes de o Congresso votar a aprovao quase certa do Skipjack, um jovem programador trabalhando nos Bell Laboratories, chamado Greg Rale, chocou o mundo ao anunciar que havia descoberto uma back door escondida no algo ritmo.
A back door era constituda por algumas linhas astuciosas de cdigo que o comandante Strathmore havia inserido no algoritmo. O acesso oculto foi criado de uma forma to sutil que ningum, exceto Greg Hale, havia sido capaz de perceber. O acrscimo feito por Strathmore significava, na prtica, que qualquer cdigo escrito usando-se o Skipjack poderia ser decifrado por meio de :;ma senha secreta conhecida apenas pela NSA. Strathmore chegou bem perto de transformar a proposta para um padro de encriptao nacional no maior golpe que a inteligncia da NSA j havia perpetrado. A agncia teria a chavemestra para qualquer cdigo escrito nos Estados Unidos.
A comunidade de informtica ficou furiosa. A EFF caiu sobre o escndalo como uma guia, criticando severamente o Congresso por sua ingenuidade e proclamando que a NSA era a maior ameaa ao mundo livre desde Hitler. O padro de encriptao estava morto e enterrado.
No foi uma surpresa muito grande quando a NSA contratou Greg Hale dois dias depois. Strathmore achou que era melhor t-lo do lado de dentro, trabalhando para a NSA, do que do outro lado, trabalhando contra ela.
O comandante enfrentou o escndalo do Skipjack de frente. Defendeu suas aes de forma veemente perante o Congresso. Argumentou que o desejo do pblico em geral por mais privacidade ainda iria se voltar contra ele. Insistiu que a populao precisava de algum para cuidar do seu bem-estar. Precisava que a NSA continuasse quebrando cdigos para manter a paz. Grupos como a EFF viam a coisa de outra forma. E vinham lutando contra Strathmore e a NSA desde ento.

CAPTULO
24

David Becker estava em uma cabine telefnica do outro lado da rua onde ficava a Clnica de Salud Pblica. Ele acabara de ser expulso de l por ter perturbado o paciente nmero 104, o senhor Cloucharde.
As coisas se tornaram muito mais complicadas do que ele esperava. Seu pequeno favor para Strathmore - pegar alguns pertences pessoais - se transformou em uma alucinada caa ao tesouro atrs de um estranho anel.
Ele tinha acabado de ligar para Strathmore e lhe contado sobre o turista alemo. A notcia no foi muito bem recebida. Depois de pedir detalhes, Strathmore ficou em silncio por um longo tempo.
- David - ele finalmente disse, num tom muito grave -, encontrar esse anel  uma questo de segurana nacional. Estou colocando o assunto nas suas mos. No falhe. - Depois o telefone ficou mudo.
David ficou parado na cabine e suspirou. Pegou a Gua Telefnica toda rasgada e comeou a procurar nas pginas amarelas. L vamos ns, disse para SI mesmo.
Havia apenas trs servios de escort listados no catlogo, e ele no tinha muitas informaes com as quais trabalhar. Tudo que sabia era que a acompanhante do alemo tinha cabelos ruivos, o que era convenientemente raro na Espanha. Cloucharde, j meio delirante, havia se lembrado de que o nome da moa era Dewdrop. Becker continuava achando estranho: Dewdrop? Certamente no era seu nome de batismo. Cloucharde devia ter-se enganado.
Becker discou o primeiro nmero da lista.
- Servicio Social de Sevilla - respondeu uma charmosa voz feminina. Becker acrescentou um forte sotaque alemo a seu espanhol e disse:
- HaIa. HabIas AIeman?
- No. Mas falo ingls - respondeu a mulher.
Ele continuou com um ingls carregado de sotaque.
- Obrigado. Eu quererr saberr se a senhorra poderr ajudarr?
- O que o senhor deseja? - A mulher falava devagar, esforando-se para ajudar seu potencial cliente. - Talvez o senhor queira uma acompanhante?
- Sim, porr favorr. Hoje minha irmo Klaus, ele estarr com garrota muito bonita. Cabelo vermelho. Quererr o mesma. Parra amanh, porr favorr.
- Seu irmo Klaus vem aqui? - A voz soou animada, como se fossem velhos amigos.
- Sim, ele serr muito gorda. Voc lembrarr dele, non?
- Ele esteve aqui hoje, no foi?
Becker podia ouvir enquanto ela verificava os registros. No haveria nenhum Klaus registrado, claro, mas Becker pensou que os clientes dificilmente usavam seus nomes verdadeiros.
- Humm, no... desculpe... No vejo nada aqui. Qual o nome da garota com quem seu irmo estava?
	- Ela ter cabelo vermelho - disse Becker, fugindo da pergunta.
	- Cabelos vermelhos? - repetiu a mulher. Houve uma pausa. - Aqui  o Servicio Social de Sevilla. Voc tem certeza de que seu irmo esteve aqui?
	- Sim, eu terr certeza.
- Seor, no temos nenhuma ruiva. Temos apenas belas mulheres da Andaluzia. - Cabelo vermelho - repetiu Becker, sentindo-se meio idiota.
- Lamento, realmente no temos nenhuma ruiva, mas, se voc...
- O nome serr Dewdrop - disse Becker, sentindo-se ainda mais idiota.
O nome ridculo aparentemente no significava nada para a mulher. Ela se
desculpou, disse que Becker talvez estivesse fazendo confuso com outra agncia e desligou gentilmente.
Primeira tentativa.
Becker discou o prximo nmero. Atenderam rpido.
- Buenas noches, Mujeres Espaa. Em que posso ajud-lo?
Becker seguiu o mesmo roteiro, fazendo-se passar por um turista alemo disposto a pagar bem pela ruiva que havia ficado com seu irmo naquele dia.
Dessa vez a resposta veio em um alemo polido, mas, novamente, no havia ruivas.
- Keine Rotkopfe, lamento. - E desligou.
Segunda tentativa.
Becker olhou de novo para a lista telefnica. S havia mais um nmero. Suas esperanas estavam chegando ao fim.
Discou.
- Escortes Beln - respondeu um homem com um tom de voz afvel. Becker contou sua histria outra vez.
- Si, s, seor. Meu nome  seor Roldn. Temos duas ruivas muito charmosas. O corao de Becker se acelerou.
- Muito bonitas? - repetiu, usando seu sotaque alemo. - Cabelo vermelho? - Sim, qual  o nome de seu irmo? Irei lhe dizer quem foi sua acompanhante hoje, e veremos se ela est livre para voc amanh.
- Klaus Schmidt - Becker soltou um nome que ele havia visto em alguma antiga apostila.
	Houve uma longa pausa.
	- Bem, senhor, no estou encontrando nenhum Klaus Schmidt em nossos registros, mas talvez seu irmo tenha resolvido ser discreto... Um homem casado, talvez? - O homem soltou uma risada forada do outro lado da linha.
- Ah, sim, Klaus casado. Mas ele serr muito gorrda. Sua esposa no dormir com ele. - Becker viu seus prprios olhos refletidos na cabine. Se Susan pudesse me ouvir agora, pensou. - Eu tambm ser gorrdo e estarr sozinho. Quererr dormir com ela. Pagarr muito bem.
Becker estava se saindo muito bem, considerando-se que no era um profissional, mas tinha ido longe demais. A prostituio era ilegal na Espanha, e o seor Roldn era um homem muito cuidadoso. J havia sido flagrado por policiais da Guardia se fazendo passar por turistas. Quererr dormir com ela. Roldn sabia que era uma armadilha. Se fosse adiante, receberia uma pesada multa e, ainda por cima, seria forado a fornecer uma de suas melhores escorts para o comissrio de polcia, de graa, durante todo o fim de semana.
Quando Roldn tornou a falar, seu tom de voz j no era to amistoso.
- Senhor, aqui  Escortes Beln. Posso perguntar com quem estou falando? - Aahh... Sigmund Schmidt - inventou Becker apressadamente.
- E onde conseguiu nosso nmero?
- La Gua Telefnica.
- Sim, senhor, estamos listados a porque somos um servio de escort.
- Sim, eu quererr escort. - Becker sentiu que havia algo de errado.
- Senhor, Escortes Beln  um servio que agencia acompanhantes para homens de negcios em almoos e jantares.  por isso que estamos listados no catlogo. Nosso servio  inteiramente legal. O que o senhor est procurando  uma prostituta. - A palavra escorregou de sua lngua como se fosse uma
	doena asquerosa.
- Mas minha irmo...
- Senhor, se seu irmo passou o dia beijando uma garota no parque, no era uma das nossas. Temos regras escritas que regulam o contato entre clientes e acompanhantes.
- Mas...
- O senhor est nos confundindo com outra agncia. Temos apenas duas ruivas, Imaculada e Rodo, e nenhuma delas dormiria com um homem em troca de dinheiro. Isso se chama prostituio, e  ilegal na Espanha.
	Boa noite, senhor.
- Mas...
CLIQUE.
Becker xingou em voz baixa e colocou o telefone de volta no gancho. Tinha certeza de que Cloucharde dissera que o alemo tinha contratado a garota para todo o fim de semana.

Becker saiu da cabine telefnica na esquina da Calle Salado com Avenida Assuncin. Apesar do trnsito, o aroma doce das laranjas de Sevilha estava no ar. Era incio de noite - a hora mais romntica. Pensou em Susan. As palavras de Strathmore invadiram sua cabea: Encontre o anel. Becker jogou-se, cansado e desanimado, em um banco e pensou sobre seu prximo movimento.
Que movimento?

CAPTULO
25

Dentro da Clnica de Salud Pblica, o horrio de visitas havia terminado. As luzes do ginsio foram desligadas. Pierre Cloucharde estava mergulhado em sono profundo. No percebeu a figura que se curvou sobre ele. A agulha de uma seringa reluziu brevemente, antes de desaparecer dentro do tubo intravenoso colocado no pulso de Cloucharde. A seringa continha 30 centmetros cbicos de fluido de limpeza roubado do carrinho de um servente. Um polegar forte empurrou o mbolo para baixo, jogando o lquido azulado para dentro das veias do velho.
Cloucharde acordou por um breve momento. Teria gritado de dor se no houvesse algum tapando sua boca. Ele estava preso em seu leito, imobilizado por um peso aparentemente infinito. Podia sentir um ardor subindo ao longo de seu brao, produzindo uma dor insuportvel, espalhando-se pelo peito e, em seguida, como um milho de fragmentos de vidro, atingindo seu crebro. Cloucharde viu um flash brilhante de luz - e depois mais nada.
O visitante soltou-o e olhou, na escurido, para o nome escrito no pronturio afixado ao leito da cama. Depois sumiu silenciosamente.
Na rua, o homem com culos de armao de metal colocou a mo num pequeno dispositivo retangular, do tamanho de um carto de crdito, que carregava em seu cinto. Era o prottipo de um novo computador Monocle. Desenvolvido pela Marinha americana para ajudar tcnicos a registrar dados importantes no espao apertado dos submarinos, o computador em miniatura unia os ltimos avanos da microtecnologia e um modem celular. Seu monitor visual era uma tela de cristal lquido, colocada diretamente na lente esquerda de seus culos. O Monocle pertencia a uma nova era da informtica: o usurio podia, agora, olhar atravs de seus dados e, ao mesmo tempo, continuar interagindo com o mundo ao seu redor.
A grande novidade em relao ao Monocle, no entanto, no estava em sua tela miniaturizada, mas sim em seu sistema de entrada de dados. Um usurio podia digitar informaes atravs de pequenos contatos afixados s pontas de seus dedos. Quando tocava os contatos em conjunto seqencialmente, reproduzia uma escrita abreviada similar  estenografia usada nos tribunais. O computador, ento, traduzia os cdigos abreviados para o ingls.
O assassino apertou um pequeno boto, e a tela em seus culos deu sinal de vida. Com as mos discretamente colocadas ao lado do corpo, ele comeou a fazer pequenos e rpidos movimentos combinados com os dedos. Uma mensagem apareceu  sua frente.

ALVO: P. CLOUCHARDE - ELIMINADO.

Sorriu. Transmitir notificaes dos assassinatos era parte de sua misso. Mas incluir o nome das vtimas... isso, para o homem com culos de armao de metal, era elegncia. Seus dedos se moveram novamente, ativando a conexo do modem celular.

MENSAGEM ENVIADA.

CAPTULO
26

Sentado no banco, Becker pensava sobre o que deveria fazer agora. Suas ligaes para as agncias de escort no deram em nada. O comandante, preocupado com as comunicaes atravs de linhas pblicas noseguras, havia pedido a David que no tornasse a ligar at encontrar o anel.
Becker pensou em procurar a polcia local e pedir ajuda. Talvez eles tivessem algum registro sobre uma prostituta de cabelos vermelhos. Contudo, as ordens de Strathmore haviam sido estritas tambm em relao a isto: Voc  invisvel. Ningum deve saber que o anel existe.
Becker pensou se deveria visitar o bairro bomio de Triana  procura da misteriosa mulher. Ou talvez devesse percorrer os restaurantes da cidade procurando um alemo obeso. Qualquer das alternativas lhe parecia uma completa perda de tempo.
As palavras de Strathmore continuavam martelando em sua cabea: Uma questo de segurana nacional... voc precisa encontrar o anel.
No fundo de sua mente, uma coisa dizia a Becker que ele estava deixando de lado algum dado crucial. Ainda assim, por mais que tentasse, no conseguia descobrir o que era. Sou um professor, droga, no um maldito agente secreto! Ele estava comeando a questionar por que Strathmore no enviara um profissional.
Becker levantou-se e comeou a andar sem destino pela Calle Delicias, avaliando suas opes. Olhava a calada fora de foco enquanto andava. A noite estava caindo.
Dewdrop. Gota de orvalho.
Havia algo neste nome absurdo que ficava martelando na sua cabea.
Dewdrop. A voz suave do seor Roldn, da Escortes Beln, ecoava bem l no fundo: "S temos duas ruivas... Duas ruivas, Imaculada e Rodo... Rodo... Rodo..."
Becker parou, tomado por uma idia. E ainda me considero um especialista em lnguas? No acreditava que tinha deixado escapar essa.
Rodo era um dos nomes femininos mais populares na Espanha. Trazia todas as implicaes adequadas a uma jovem catlica - pureza, virgindade, beleza natural. As conotaes de pureza eram todas derivadas do sentido literal do nome - gota de orvalho.
Dewdrop. Rodo havia traduzido seu nome para o nico idioma que ela e seu cliente possuam em comum, o ingls. Excitado, Becker correu para o telefone mais prximo.
Do outro lado da rua, um homem usando culos de armao de metal o seguia, fora do alcance de sua vista.

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27

No salo da Criptografia as sombras estavam se alongando e se desfazendo. No teto, a iluminao automtica aumentava gradualmente para compensar. Susan ainda estava sentada  frente de seu terminal, esperando silenciosamente notcias de seu tracer. Estava levando mais tempo do que ela imaginara.
Sua mente flutuava entre pensamentos diversos. Sentia falta de David e queria que Greg Hale fosse embora. Greg no havia se mexido mais e, felizmente ficara quieto, concentrado em seja l o que estivesse fazendo em seu termin:h. Susan nem queria saber o que era, contanto que ele no acessasse o ExeMon. Coisa que ele obviamente no havia feito, do contrrio teria soltado um palavro ou coisa assim.
Susan estava bebericando a terceira xcara de ch quando finalmente seu terminal deu sinal de vida, emitindo um pequeno bipe. Seu pulso acelerou. Um cone de um envelope apareceu piscando na tela anunciando a chegada de um e-mail. Susan olhou rapidamente para Hale, que continuava mergulhado em seu trabalho. Ela prendeu a respirao e clicou duas vezes sobre o envelope.
North Dakota, pensou, vamos  ver quem  voc.
Quando o e-mail se abriu, continha uma nica linha, que Susan leu e releu.

JANTAR NO ALFREDO? S 20h?

Do outro lado da sala, Hale segurou uma risada. Susan olhou para o cabealho da mensagem.

DE: GHA.LE@cripto.nsa.gov

Ela sentiu um impulso de raiva, mas reprimiu-o. Apagou a mensagem.
- No tem graa, Greg.
- Ei, o carpaccio deles  timo! - disse Hale, sorrindo. - E ento? Depois podamos...
- Esquece.
- Convencida.
Hale suspirou e voltou a olhar para seu terminal. Esta era a tentativa nmero 89 com Susan Fletcher. A brilhante criptgrafa era uma frustrao constante para ele. Diversas vezes ele j havia fantasiado transar com ela: prens-la contra a carcaa curvada do TRANSLTR e transar ali mesmo, apoiados na sua casca de cermica preta. Mas Susan no queria nada com ele. Na cabea de Greg, as coisas eram ainda piores porque ela estava apaixonada por um professor universitrio que trabalhava horas a fio para ganhar uma misria. Seria uma pena se Susan fosse diluir seus genes superiores procriando com um otrio, especialmente quando tinha  sua disposio algum to fantstico quanto ele. Teramos filhos perfeitos, pensava Hale.

- Em que voc est trabalhando? - perguntou, tentando outra abordagem. Susan no respondeu.
- Como  bom trabalhar em equipe com voc. Posso ao menos dar uma olhada? - Rale levantou-se e comeou a andar na direo de Susan.
Ela sentiu que a curiosidade dele poderia causar srios problemas naquele dia. Tomou uma deciso rpida.
-  um diagnstico - disse, retomando  mentira contada pelo comandante. Rale parou no meio do caminho.
- Um diagnstico? - retrucou, em tom de dvida. - Voc no est realmente perdendo seu sbado com um diagnstico em vez de estar se divertindo com seu professorzinho?
- O nome dele  David.
- Que seja.
Susan olhou firme para ele.
- Voc no tem nada melhor para fazer?
- Voc est tentando se livrar de mim? - retrucou Rale.
- Na verdade, sim.
- Nossa, Sue, estou abalado.
Susan olhou para ele com raiva. Odiava ser chamada de Sue. Nada contra o apelido, mas Rale era o nico a us-lo.
- Por que no me sento e ajudo voc? - tentou Greg. Ele voltou a andar na direo dela. - Sou bom com programas de diagnstico. Alm disso, estou bem curioso para ver o que este em particular tem de to interessante para fazer a poderosa Susan Fletcher vir trabalhar num sbado.
Susan sentiu a adrenalina se espalhando por seu corpo. Olhou para o tracer em sua tela e pensou que no podia deixar que Rale o visse, pois ele faria perguntas demais.
- Est tudo sob controle, Greg.
Mas Rale continuava se aproximando, e Susan tinha que agir rpido. Ele estava a apenas alguns metros de distncia quando ela se levantou, fechando a passagem. O cheiro de colnia empesteava o ar. Ela o olhou bem nos olhos.
- J disse que no.
Rale ficou intrigado por esse sbito mpeto de privacidade. Decidiu brincar e deu um passo  frente. Greg no estava pronto para o prximo ato.
	Com absoluta calma, Susan estendeu o indicador e o colocou contra seu peito musculoso, bloqueando o caminho.
	Greg parou, surpreso, e recuou. Susan parecia estar levando a coisa toda muito a srio: ela nunca o havia tocado antes. No era exatamente o tipo de toque que ele tinha em mente para um primeiro contato, mas j era um comeo. Ele a olhou com curiosidade por alguns instantes, depois voltou para seu terminal. Sentou-se novamente, mas uma coisa estava bem clara em sua mente: a adorvel Susan Fletcher estava trabalhando em algo muito importante, e no era diagnstico algum.

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28

O seor Roldn estava sentado em sua mesa, na Escortes Beln, feliz por ter se esquivado to habilmente da mais recente e pattica tentativa da Guardia de apanh-lo em uma armadilha. Francamente, fazer com que um policial ligasse, fingindo ser alemo e pedindo uma acompanhante para passar a noite - aquilo s podia ser chamado de armadilha. O que eles iriam inventar depois dessa?
O telefone  sua frente tocou. O seor Roldn pegou o fone com ar confiante. - Buenas noches, Escortes Beln.
- Buenas noches - disse em espanhol a voz de um homem, falando muito
rpido. Soava meio anasalado, como se estivesse um pouco resfriado. - Gostaria de saber se esse nmero  de um hotel.
- No, senhor. Que nmero o senhor discou? - O seior Roldn no iria cair em nenhum outro truque naquela noite.
	- 34-62-10 - disse a voz.
	Roldn ficou pensativo. A voz lhe soava vagamente familiar. Tentou localizar de onde seria o sotaque. Burgos, talvez.
	- Voc discou o nmero certo - disse Roldn, apreensivo -, mas aqui  um servio de escort.
	Houve uma pausa na linha.
- Ah... Entendo. Desculpe. Algum anotou este nmero, e eu achei que poderia ser um hotel. Estou de passagem, vindo de Burgos. Bem, perdoe-me por incomod-lo. Boa...
- Espere! - O seor Roldn no podia deixar passar uma oportunidade, ele era um vendedor por natureza. Seria uma indicao? Um novo cliente vindo do norte? Ele no podia deixar que uma pequena parania estragasse uma venda em potencial.
- Amigo - disse Roldn apressadamente, no tom de voz tipicamente animado dos vendedores -, achei que tinha reconhecido um leve acento de Burgos em voc. Eu sou de Valncia. O que o trouxe a Sevilha?
- Vendo jias. Prolas de Mallorca.
- Mallorca! Mas que timo! Voc deve viajar muito. A voz tossiu do outro lado.
- Sim, viajo bastante.
- Est em Sevilha a negcios? - Roldn tentou puxar conversa. Esse cara com certeza no era da Guardia. Era um cliente com C maisculo. - Deixe-me adivinhar: foi um amigo que lhe deu nosso nmero? Ele disse para nos ligar quando estivesse em Sevilha)  isso?
- No, no  bem isso. - A voz estava claramente constrangida.
- No seja tmido, seor. Somos um servio de escort, no h do que se envergonhar. Temos garotas adorveis que lhe faro companhia durante um jantar...  s isso. Quem lhe deu nosso nmero? Talvez seja um de nossos clientes assduos. Posso lhe oferecer um preo camarada.
A voz pareceu um pouco agitada.
- Bem... Para ser sincero) no me deram esse nmero. Eu o encontrei dentro de um passaporte e estou tentando localizar o seu dono.
O entusiasmo de Roldn se esvaziou. Este homem no era um cliente, no final das contas.
- Voc encontrou o nmero,  isso?
- Sim, achei o passaporte de algum no parque hoje. Seu nmero estava em um pedao de papel dentro dele. Achei que talvez fosse o hotel onde o dono do passaporte estava hospedado e queria lhe devolver o documento. Mas foi um engano. Vou deix-lo em um posto da polcia quando eu estiver indo embora.
- Perdoe-me - interrompeu Roldn) nervosamente. - Posso lhe propor uma soluo mais simples? - Roldn orgulhava-se de ser muito discreto em seus negcios e sabia que visitas  Guardia tinham uma tendncia a transformar seus clientes em ex-clientes.  Veja, como nosso nmero est dentro do passaporte) o dono provavelmente  um de nossos clientes. Talvez possamos resolver isso de outra forma e evitar que o senhor perca seu tempo indo  polcia.
- No sei. Acho que eu provavelmente deveria apenas... - A voz hesitou.
- No seja precipitado, amigo. Tenho um pouco de vergonha em admitir
isso, mas a polcia aqui de Sevilha no  sempre to eficiente quanto a polcia do norte de nosso pas. Podem levar vrios dias at que o passaporte seja devolvido a seu dono. Se voc me disser o nome que est no documento, darei um jeito de devolver o passaporte imediatamente.
- Bem, talvez... Suponho que no haja nenhum problema... - Roldn ouviu o som de algumas folhas sendo viradas, e depois a voz retomou. -  um nome alemo. No sei se consigo pronunciar isso... Gusta... Gustafson?
Roldn no reconheceu o nome, mas tinha clientes vindos de todas as partes do mundo, e eles nunca davam seus nomes reais.
- Como ele ? Como  a foto? Talvez eu consiga reconhec-lo.
- Pela foto... Ele tem um rosto redondo, parece ser bem gordo.
Roldn sabia quem era. Lembrava-se claramente daquela cara obesa. Era o homem com Rodo. Estranho, pensou ele. Era a segunda ligao a respeito do alemo naquela noite.
- Ah, o Sr. Gustafson? - Roldn soltou uma risada forada. - Claro, eu o conheo bem. Se voc me trouxer o passaporte, farei com que ele o receba em seguida.
- Estou no centro, sem carro - interrompeu o homem. - Talvez voc pudesse vir peg-lo?
- Na verdade - esquivou-se Roldn -, no posso sair no momento. Mas no  muito longe, se voc...
- Desculpe, mas j  tarde para ficar andando por a. Creio que h uma delegacia da Guardia aqui perto. Vou deixar o passaporte l, e, quando voc encontrar o Sr. Gustafson, pode dizer a ele onde est o passaporte.
- No, espere! - disse Roldn, quase gritando. - Realmente no h necessidade de envolver a polcia nisso. Voc disse que est no centro, certo? Conhece o Hotel Alfonso XIII?  um dos melhores da cidade.
	- Sim, conheo o Alfonso XIII, fica aqui perto.
	- Fantstico! O Sr. Gustafson est hospedado l esta noite. Provavelmente
poder encontr-lo no hotel agora.
A voz hesitou outra vez.
- Entendo. Bem, eu... Est bom, no me custa nada passar l.
- timo! Ele est jantando com uma de nossas escorts no restaurante do hotel. - Roldn sabia que os dois provavelmente estariam na cama quelas alturas, mas precisava ser cuidadoso para no ofender a sensibilidade refinada do homem com quem falava no telefone. - Basta deixar o passaporte com o recepcionista. O nome dele  Manuel. Diga que fui eu que lhe pedi para ir at l. Pea que entregue o passaporte a Rodo, a acompanhante do Sr. Gustafson esta noite. Ela devolver o passaporte. Se desejar, deixe seu nome e endereo dentro, talvez o Sr. Gustafson queira lhe agradecer.
- Boa idia. Alfonso XIII. Est certo, deixarei o passaporte l esta noite. Agradeo sua ajuda.

Becker desligou o telefone. Alfonso XIII, sorriu. Basta saber como perguntar. Pouco depois uma figura silenciosa seguia Becker ao longo da Calle Delicias enquanto caa a noite na Andaluzia.

CAPTULO
29

Ainda irritada por conta da conversa com Hale, Susan olhou para fora atravs do painel de vidro do Nodo 3. O salo da Criptografia estava vazio. Hale ficara novamente silencioso, concentrado. Ela gostaria que ele se fosse.
Pensou se deveria chamar Strathmore. O comandante iria simplesmente coloc-lo para fora - afinal, era um sbado. Susan sabia, contudo, que, se Strathmore mandasse Hale se retirar, ele iria suspeitar de algo. Quando sasse, comearia a ligar para outros criptgrafos para saber o que estava acontecendo. Susan achou melhor deix-lo quieto no canto dele. Hale acabaria indo embora mais cedo ou mais tarde.
Um algoritmo impossvel de ser quebrado. Ela voltou a pensar no Fortaleza Digital. Era muito impressionante que um algo ritmo assim realmente pudesse ser criado. Ao mesmo tempo, a prova estava bem na frente dela, j que o TRANSLTR parecia ser completamente intil contra ele.
Susan pensou em Strathmore, suportando com dignidade o peso dessa situao penosa, fazendo o que fosse necessrio, absolutamente destemido em face do desastre.
Susan algumas vezes via um pouco de David em Strathmore. Ambos compartilhavam algumas qualidades: tenacidade, dedicao, inteligncia. Algumas vezes Susan pensava que Strathmore ficaria perdido sem ela. A pureza de sua paixo pela criptografia parecia ser um elo emocional vital para Strathmore, deslocando-o do mar de confuses polticas e fazendo com que se lembrasse do incio de sua carreira como "quebrador de cdigos".
Susan tambm dependia em parte de Strathmore. Ele lhe oferecia proteo em um mundo de homens sedentos por poder e cuidava da carreira dela, protegendo-a e, como dizia em tom de brincadeira, tornando todos os seus sonhos realidade. Havia alguma verdade nisso, ela pensou. Apesar de no ter sido intencional, o comandante foi o responsvel por seu primeiro encontro com David Becker na NSA. Susan sentiu saudades de David, e seus olhos automaticamente se voltaram para o porta-retrato ao lado de seu teclado com uma foto do namorado. Seus pensamentos foram interrompidos pelo som das portas automticas se abrindo. Strathmore entrou.
- Susan, alguma novidade? - O comandante viu Greg Hale e parou no mesmo instante. - Ora, boa tarde, Sr. Hale. - Franziu a testa, com um olhar interrogativo - Em pleno sbado! A que devemos a honra?
Hale sorriu inocentemente.
- Estou s terminando algumas tarefas que ficaram pendentes.
- Entendo - respondeu Strathmore, enquanto avaliava suas opes. Pouco depois, pareceu ter decidido que ele tambm no iria criar confuso com Hale. Virou-se para Susan e disse, secamente:
- Srta. Fletcher, poderia falar com voc um instante? L fora?
Susan hesitou.
- Ahn... Sim, senhor. - Ela olhou rapidamente para seu monitor, depois para
Greg, do outro lado da sala, e disse: - S um momento.
Pressionou rapidamente uma seqncia de teclas, ativando um programa chamado ScreenLock. Era um utilitrio instalado em todos os terminais do Nodo 3 para garantir a privacidade dos usurios. Como os terminais ficavam ligados permanentemente, o ScreenLock permitia que os criptgrafos sassem a qualquer momento de suas estaes de trabalho sabendo que ningum iria mexer em seus arquivos. Susan digitou seu cdigo pessoal de cinco dgitos e sua tela ficou preta. At que o cdigo correto fosse digitado, o terminal permaneceria assim.
Ela calou seus sapatos e seguiu o comandante para fora da sala.
- Que diabos ele est fazendo aqui? - perguntou Strathmore assim que saram do Nodo 3.
- O de sempre - respondeu Susan. - Nada.
Strathmore parecia preocupado.
- Ele disse alguma coisa sobre o TRANSLTR?
- No. Mas, se ele acessar o ExeMon e vir que est registrando 17 horas, ter algo a dizer.
Strathmore pensou.
- No h motivos para ele acessar o programa.
Susan olhou para o comandante.
- Voc quer mand-lo embora?
- No. Vamos deix-lo em paz. - Strathmore olhou na direo da sala de SegSis. - Chartrukian j foi embora?
- No sei. No o vi mais.
-  Droga - resmungou Strathmore. - Isso est virando um circo. - Passou a mo pela barba rala que havia crescido em seu rosto nas ltimas 36 horas.
- Alguma novidade do tracer? Estou me sentindo intil.
- At agora nada. Notcias de David?
Strathmore balanou a cabea.
- Pedi que ele no me ligasse at que estivesse com o anel.
- Por que no? E se ele precisar de ajuda? - Susan pareceu surpresa. Strathmore olhou-a, indiferente.
- No posso ajud-lo daqui, ele vai ter que resolver as coisas sozinho. Alm disso, prefiro no falar em linhas no-seguras s para garantir que no h ningum monitorando a conversa.
Susan arregalou os olhos, preocupada.
- O que isso quer dizer?
Strathmore fez uma cara simptica, desculpando-se, e deu um sorriso tranqilizador.
- David est bem. Estou apenas sendo precavido.
A uns 10 metros de distncia, ocultado pelo vidro espelhado do Nodo 3, Greg Hale estava de p em frente ao terminal de Susan. A tela estava preta. Hale olhou para o comandante e para Susan e depois pegou sua carteira. Tirou dela um pequeno carto e leu o que estava escrito.
Aps olhar outra vez para fora, para ter certeza de que Strathmore e Susan continuavam conversando, ele digitou cuidadosamente cinco caracteres no teclado de Susan. Um segundo depois o monitor deu sinal de vida.
 isso a, ele sorriu, maliciosamente.
Roubar os cdigos pessoais do Nodo 3 havia sido simples. Naquela sala, cada um dos terminais possua um teclado idntico e removvel. Hale simplesmente levou o seu para casa uma noite e instalou um chip que registrava cada tecla pressionada no teclado. Depois, chegou mais cedo, trocou seu teclado modificado pelo de outra pessoa e esperou. No final do dia, trocava os teclados de volta e verificava os dados registrados pelo chip. Apesar de haver dezenas de milhares de teclas pressionadas, encontrar o cdigo era simples. A primeira coisa que cada criptgrafo fazia pela manh era digitar o cdigo pessoal que desbloqueava seu terminal. Isso,  claro, tornou o trabalho de Hale trivial: o cdigo pessoal sempre aparecia como os cinco primeiros caracteres da lista.
No deixava de ser irnico, pensou Hale, enquanto olhava para o monitor de Susan. Ele havia roubado os cdigos s por diverso, mas agora estava feliz por ter feito isso. O programa na tela de Susan parecia importante.
Hale olhou para ele por algum tempo. Estava escrito em LIMBO, que no era uma de suas especialidades. Bastava olhar para o cdigo, contudo, para saber uma coisa: aquilo no era uma rotina de diagnstico. Na verdade, ele entendia apenas duas palavras, mas j bastava.

TRACER: PROCURANDO...

- Um tracer? - disse em voz alta. - Procurando o qu? - Hale sentiu-se desconfortvel. Sentou-se e pensou um pouco sobre o que havia na tela de Susan. Ento decidiu o que fazer.
Hale entendia o suficiente sobre a linguagem de programao LIMBO para saber que ela se baseava fortemente em duas outras linguagens, C e Pascal. Essas duas ele conhecia bem. Aps olhar mais uma vez para ter certeza de que Strathmore e Susan continuavam conversando l fora, decidiu improvisar. Digitou alguns comandos modificados de Pascal e apertou ENTER. A tela de status do programa respondeu exatamente como ele havia esperado.

TRACER: CANCELAR?
Rapidamente digitou: SIM.

VOC TEM CERTEZA?

Novamente: SIM.
O computador emitiu um bipe e mostrou a mensagem:

TRACER CANCELADO

Hale sorriu. O terminal acabara de enviar uma mensagem dizendo para o tracer de Susan que se auto destrusse naquele momento. Seja l o que for que ela estivesse procurando, teria que esperar.
Preocupado em no deixar nenhum rastro, Hale navegou com destreza pelo arquivo de registro de atividade do sistema de Susan e removeu todos os comandos que ele havia acabado de digitar. Em seguida, digitou novamente o cdigo pessoal de Susan.
O monitor ficou preto.
Quando Susan Fletcher retomou para o Nodo 3, Greg Hale estava sentado silenciosamente em seu terminal.

CAPTULO
30

O Alfonso XIII era um pequeno hotel de quatro estrelas prximo  Puerta de Jerez, circundado por uma cerca de ferro e canteiros de lilases. David subiu pelas escadarias de mrmore. Quando levantou a mo para abrir a porta, esta abriu-se inesperadamente, e um porteiro fez sinal para que entrasse.
- Bagagem, seor? Posso ajud-lo?
- No, obrigado. Preciso falar com o recepcionista.
O porteiro pareceu magoado, como se algo naquele encontro de dois segundos no houvesse sido satisfatrio.
- Por aqui, seor. - Levou Becker em direo ao saguo, apontou na direo da recepo e retornou a seu posto.
O saguo era primoroso, pequeno e elegantemente decorado. A Idade de Ouro da Espanha j havia terminado h tempos, mas, durante algumas dcadas, em meados do sculo XVII, aquela pequena nao havia governado o mundo. A sala era uma lembrana orgulhosa daqueles tempos - armaduras, brases militares e um antigo ba para lingotes de ouro que eram trazidos do Novo Mundo.
Pairando atrs do balco onde estava escrito CONSER]E um homem de aparncia impecvel sorria to entusiasticamente que parecia ter esperado toda a sua vida apenas para ajud-lo.
- En qu puedo servirlo, seor? Em que posso ajud-lo? - Falava de forma afetada e olhava Becker de alto a baixo.
Becker respondeu em espanhol.
- Preciso falar com Manuel.
A face bronzeada do homem abriu-se num sorriso ainda maior.
- S, s, seor. Eu sou Manuel. O que deseja?
- O seor Roldn, da Escortes Beln me disse que voc poderia...
O recepcionista fez sinal para que Becker se calasse e olhou nervosamente pelo saguo.
- Por que no conversamos aqui ao lado? - Ele direcionou Becker para o final do balco. - Agora, em que posso ajud-lo? - prosseguiu, praticamente
	sussurrando.
	Becker comeou tudo de novo, em um tom de voz mais baixo.
	- Preciso falar com uma das acompanhantes dele e acredito que ela esteja jantando aqui. Chama-se Rodo.
O recepcionista soltou um suspiro, como se estivesse apaixonado.
- Aaaah, Rodo, que coisa mais linda.
- Preciso v-Ia imediatamente.
- Mas, seor, ela est com um cliente.
Becker assentiu.
-  importante. - Uma questo de segurana nacional.
O recepcionista sacudiu a cabea.
- Impossvel. Talvez se voc deixasse uma...
- Vou levar apenas um instante. Ela est no restaurante?
O recepcionista sacudiu a cabea.
- Nosso restaurante fechou h meia hora. Creio que Rodo e seu acompanhante j se retiraram por esta noite. Se voc quiser deixar uma mensagem, posso entreg-la pela manh. - Mostrou o escaninho atrs dele, contendo fileiras numeradas de caixas de mensagem.
- Talvez ento eu pudesse apenas ligar para o quarto e...
- Lamento - disse o homem, sua polidez desaparecendo rapidamente.  O Alfonso XIII possui polticas rgidas em relao  privacidade de seus clientes.
	Becker no tinha a menor inteno de esperar dez horas at que um gordo e uma prostituta aparecessem para tomar o caf da manh.
- Entendo - disse. - Lamento perturb-lo. - Virou-se e andou de volta para o saguo. Dirigiu-se diretamente para uma escrivaninha de cerejeira de tampo corredio que chamara sua ateno quando entrou. Nela havia um grande nmero de cartes-postais e de papel de carta do Alfonso XIII, assim como canetas e envelopes. Becker selou uma folha de papel em branco dentro de um envelope e escreveu uma palavra na frente do mesmo.
ROCO.
Depois retomou ao recepcionista.
- Perdoe-me por incomod-lo novamente - disse Becker, aproximando-se constrangido. - Estou sendo um pouco tolo, devo admitir. Esperava poder dizer a Rodo, pessoalmente, o quanto apreciei o tempo que passamos juntos recentemente. Mas vou ter que partir esta noite, ento vou apenas deixar este bilhete para ela. - E deixou o envelope sobre o balco.
O recepcionista olhou para o envelope e sussurrou pesarosamente para si mesmo: Outro heterossexual desesperadamente apaixonado. Que desperdcio. Olhou para cima e sorriu.
- Sim, claro, senhor...?
- Buisn - disse Becker. - Miguel Buisn.
- Claro. Fique tranqilo que Rodo receber a mensagem pela manh.
- Obrigado. - Becker sorriu e virou-se na direo da sada.
O recepcionista, aps olhar discretamente para a bunda de David, pegou o envelope que estava sobre o balco e virou-se para os escaninhos numerados atrs dele. Ele tinha acabado de colocar o envelope em um deles quando Becker voltou-se com uma ltima pergunta.
- Onde  que eu poderia encontrar um txi?
O recepcionista virou-se e respondeu. Mas Becker no estava prestando ateno na resposta. O timing havia sido perfeito. A mo do recepcionista acabava de sair do escaninho da sute 301.
Becker agradeceu e foi saindo lentamente, enquanto procurava o elevador. Entrar e sair, repetiu para si mesmo.

CAPTULO
31

Susan retornou ao Nodo 3. Depois da conversa com Strathmore, ela ficou ainda mais preocupada com a segurana de David. No parava de imaginar coisas terrveis.
- Ento, o que  que Strathmore queria? Uma noite romntica a ss com a chefe da Criptografia? - exclamou Hale de seu terminal.
Susan ignorou o comentrio e sentou-se diante do terminal. Digitou seu cdigo pessoal e olhou para a tela. O programa tracer foi exibido. Ainda no havia retomado nenhuma informao sobre North Dakota.
Droga, pensou Susan. Por que est demorando tanto?
- Voc me parece tensa - disse Hale, inocentemente. - Algum problema com seu diagnstico?
- Nada srio - respondeu ela. Mas Susan tinha suas dvidas. O tracer estava demorando muito mais do que o esperado. Ficou pensando se tinha cometido algum erro no programa. Comeou a analisar as longas linhas de cdigo LIMBO na tela, procurando alguma coisa que pudesse estar atrasando a operao.
Do outro lado da sala, Hale a observava com ar arrogante.
- Eu estava querendo te perguntar uma coisa. O que voc acha daquele algo ritmo inquebrvel que Ensei Tankado disse estar escrevendo?
O estmago de Susan deu um n.
- Algoritmo inquebrvel? - tentou controlar-se. - No sei... Acho que li alguma coisa a respeito.
-  uma alegao impressionante.
- Com certeza - respondeu Susan, pensando por que Hale havia abordado esse assunto subitamente. - Pessoalmente, no acredito muito nisso. Todo mundo sabe que um algoritmo inquebrvel  uma impossibilidade matemtica.
Hale sorriu.
- ... o Princpio de Bergofsky.
- Isso e um pouco de senso comum tambm - completou ela.
- Mas... Quem sabe? - Hale soltou um suspiro exagerado. - H mais coisas entre o cu e a Terra do que pode supor a nossa v filosofia.
- O que voc disse?
- Shakespeare - retrucou Hale. - Hamlet.
- Voc leu muito enquanto estava na priso?
Hale sorriu ironicamente.
- Falando srio, Susan, voc alguma vez j pensou que seja realmente possvel que Tankado tenha escrito um algo ritmo inquebrvel?
Aquela conversa estava se tornando incmoda.
- Ns no conseguimos, no ?
- Talvez Tankado seja melhor do que ns.
- Talvez - disse Susan, aparentando indiferena.
- Tankado e eu trocamos alguns e-mails - prosseguiu Hale, como quem no quer nada. - Voc sabia disso?
Susan parou e olhou para ele, tentando ocultar sua surpresa.
-  mesmo?
- Sim. Depois que descobri a farsa do algo ritmo Skipjack, ele me escreveu dizendo que ramos irmos na luta global pela privacidade digital.
Susan mal podia conter seu espanto. Ento Hale conhece Tankado pessoalmente! Fez o melhor que pde para parecer desinteressada.
	Hale continuou.
	- Ele me felicitou por ter provado que o Skipjack tinha uma back door, dizendo que aquilo era um golpe contra os direitos civis  privacidade. Voc tem que admitir, Susan, que esconder um acesso de programador no Skipjack foi uma jogada suja, que permitiria  NSA ler todos os e-mails circulando pelo mundo. Na minha opinio, Strathmore e seu truque mereceram ser expostos.
- Greg - contestou Susan, lutando contra sua irritao -, aquele acesso secreto estava l para que a NSA pudesse decodificar e-mails que ameaassem a segurana dos Estados Unidos.
-  mesmo? - respondeu Hale, sarcstico. - Bisbilhotar a vida dos cidados comuns seria apenas um efeito colateral bem-vindo?
- No ficamos bisbilhotando os cidados comuns, voc sabe disso. O FBI pode grampear telefones, mas isso no significa que escutem todas as chamadas.
- Se tivessem pessoal suficiente, escutariam.
Susan ignorou a observao.
- Os governos devem ter o direito de levantar informaes para se defender de ameaas ao bem comum.
- Meu Deus! Voc soa como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral de Strathmore. Voc sabe muito bem que o FBI no pode escutar qualquer conversa que queira - eles precisam de um mandado. Um padro de encriptao adulterado daria  NSA o poder de monitorar as comunicaes de qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar.
- Sim, e deveramos poder fazer isso! -A voz de Susan tornou-se mais agressiva. - Se voc no tivesse descoberto o acesso de programador no Skipjack, poderamos desencriptar qualquer cdigo, em vez de nos limitarmos apenas aos que o TRANSLTR consegue desencriptar a tempo.
- Se eu no tivesse encontrado o acesso - argumentou Hale -, alguma outra pessoa teria. Eu salvei a reputao de vocs por ter descoberto aquilo na poca. Imagine quais seriam as conseqncias se o Skipjack estivesse em uso quando algum descobrisse o furo!
- De qualquer forma - Susan retrucou -, agora temos que lidar com uma EFF paranica que acha que colocamos acessos secretos em todos os nossos algoritmos.
- Mas no  exatamente o que fazemos? - perguntou Hale, com ironia. Susan lanou-lhe um olhar glido.
- Tudo bem - disse ele, esfriando os nimos -, de qualquer maneira a questo j foi resolvida. Vocs construram o TRANSLTR e agora possuem uma fonte instantnea de informaes. Podem ler o que quiserem, quando quiserem e ningum vai perguntar nada. Vocs venceram.
- Voc quer dizer ns vencemos, no? At onde me lembro, voc trabalha para a NSA.
- No por muito tempo - Hale respondeu, presunoso.
- No me faa promessas...
- Estou falando srio. Alguma hora vou cair fora daqui.
- Vou ficar arrasada.
Naquele momento, Susan percebeu que desejava culpar Hale por tudo que estava dando errado. Queria culp-lo pelo Fortaleza Digital, por seus problemas com David, pelo fato de que no estava no chal nas montanhas... Nada disso era culpa dele, contudo. Seu nico problema real era ser desagradvel. Susan precisava ser mais forte, condescendente. Era sua responsabilidade, como chefe da Criptografia, manter a paz, conduzir, educar. Hale ainda era jovem e inocente.
Susan olhou novamente para ele. Era uma pena, pensou, que Hale tivesse o talento necessrio para ser uma pea importante para a Criptografia, mas, ao mesmo tempo, ainda no tivesse entendido a magnitude do trabalho que a NSA realizava.
- Greg, estou muito estressada hoje - disse ela, com um tom de voz sereno. - Fico irritada quando voc fala da NSA como se fssemos voyeurs munidos de alta tecnologia. Esta organizao foi fundada com um propsito: tornar mais eficaz a segurana da nao. Algumas vezes  preciso perturbar a paz de todos para garantir que vamos descobrir as laranjas podres em meio s boas. Acho que muitos cidados ficariam felizes em sacrificar um pouco de sua privacidade para saber que os "viles" no podem agir livremente.
Hale permaneceu em silncio.
- Mais cedo ou mais tarde - continuou ela -, os cidados dessa nao tero que decidir em quem confiar. H muitas coisas boas por a, mas h tambm muitas coisas ruins misturadas. Algum precisa ter acesso a tudo isso para poder separar aquilo que est certo do que est errado. Esse  o nosso trabalho.  o nosso dever. No importa o que cada um de ns deseje, h um frgil por
	tal separando a democracia da anarquia. A NSA  a guardi desse portal.
Hale assentiu, pensativo.
- Quis custodiet ipsos custodes?
Susan olhou para ele, sem entender.
- Latim. Das Stiras, de Juvenal. Significa "Quem guardar os guardies?". - No entendo. Como assim, "guardar os guardies"?
- Sim. Se ns agimos como guardies da sociedade, ento quem ir nos vigiar para ter certeza de que no somos perigosos?
	Susan balanou a cabea, sem saber o que dizer.
Hale sorriu.
-  assim que Tankado assinava todas as suas mensagens para mim. Era sua mxima favorita.

CAPTULO
32

David Becker estava no corredor do terceiro andar, do lado de fora do apartamento 301. Ele olhava para a porta ricamente ornamentada e entalhada, procurando a campainha. Uma questo de segurana nacional.
Becker notou que havia movimento do outro lado da porta. Ouviu pessoas falando em voz baixa. Ele bateu. Uma voz grave respondeu em alemo.
-Ja?
Becker permaneceu em silncio.
-Ja?
A porta se entreabriu e o rosto arredondado do alemo apareceu na fresta. Becker sorriu educadamente. No sabia o nome do homem.
- Deutscher, ja? - perguntou ele. - Alemo, certo?
O homem concordou, cauteloso. Becker prosseguiu, em alemo fluente.
- Posso falar com voc por um instante?
- O que voc quer? - indagou o homem, estranhando aquela situao. Becker percebeu que devia ter se preparado melhor antes de bater na porta de um estranho. Procurou as palavras certas.
- Voc possui algo de que preciso.
Aparentemente, essas no eram as palavras certas. O alemo olhou fixamente para ele.
- Ein Ring. Du hast einen Ring. Voc possui um anel- disse Becker.
- V embora - grunhiu o alemo. Comeou a fechar a porta.
Sem pensar, Becker colocou o p na abertura, impedindo que a porta se fechasse. Ele logo lamentou ter feito isso.
O alemo arregalou os olhos, possesso.
- Was tust du? O que voc est fazendo? - perguntou.
Becker sabia que tinha passado dos limites. Olhou nervosamente para os dois lados do corredor. Ele j havia sido expulso da clnica e no queria que isso acontecesse de novo.

- Nimm deinen Fuss weg! - gritou o alemo. - Tire seu p da!
Becker olhou rapidamente para os dedos gorduchos do alemo, procurando o anel. Nada. Cheguei to perto, pensou.
- Ein Ring!- repetiu Becker, mas o alemo bateu a porta na sua cara.
David Becker permaneceu um longo tempo parado no corredor luxuosamente decorado. A rplica de um quadro de Salvador Dal estava pendurada perto dele. Muito adequado, pensou Becker. Surrealismo. Estou preso em um sonho surreal. Havia acordado naquela manh em sua prpria cama, mas, por algum motivo peculiar, tinha ido parar na Espanha e agora estava tentando entrar  fora no quarto de hotel de um estranho em busca de um anel "mgico".
A lembrana da voz seca de Strathmore o trouxe de volta  realidade. Voc precisa encontrar aquele anel.
Becker respirou fundo e silenciou a voz em sua mente. Tudo o que queria era voltar para casa. Olhou de novo para a porta do 301. Seu tquete para casa estava bem ali, do outro lado. Tudo o que precisava fazer era ir at l e pegar o anel.
Inspirou e expirou longamente, tentando relaxar. Ento dirigiu-se novamente para o 301 e bateu com firmeza na porta. Era hora de jogar pesado.
O alemo escancarou a porta e estava prestes a reclamar, mas Becker foi mais rpido. Puxou o carto do clube de squash de Maryland e vociferou:
- Polizei! - Forou a passagem, entrou no quarto e acendeu as luzes.
O alemo virou-se, em estado de choque.
- Was machst...
- Silncio! - Becker voltou a falar em ingls. - Voc est com uma prostituta aqui? - perguntou, enquanto olhava ao redor,  procura da mulher. Era o quarto de hotel mais suntuoso que j havia visto. Havia rosas, champanhe e uma grande cama com um dossel. Rodo no estava ali, mas notou que a porta do banheiro estava fechada.
- Prostitutiert? - O alemo olhou preocupado na direo do banheiro. Ele era maior do que Becker havia imaginado. Sua papada tripla se juntava ao peito cabeludo e depois seu contorno rotundo se ampliava ainda mais na barriga fenomenal. Estava usando um roupo branco do Alfonso XIII e a faixa mal conseguia contornar toda a sua cintura.
Becker encarou o gigante com o olhar mais ameaador que conseguiu fazer. - Qual o seu nome?
O alemo entrou em pnico.
- O que voc quer?
- Estou em uma operao conjunta com o Departamento de Relaes Tursticas da Guardia de Sevilha. H uma prostituta aqui?
O alemo no parava de olhar nervosamente para a porta do banheiro. Ele hesitou, mas finalmente admitiu.
- Ja.
- Voc sabia que essa atividade  ilegal na Espanha?
- No, no sabia - mentiu o outro. - Vou mand-la embora agora mesmo. - Lamento, mas  tarde demais para isso - disse Becker, em tom autoritrio.
Andou pelo quarto, como via os detetives fazerem nos filmes.
- Tenho uma proposta
-  Ein Vorschlag? guaguejou o alemo. - Uma proposta?
- Sim. Posso lev-lo para a delegacia agora mesmo... - Becker fez uma pausa dramtica e estalou os dedos.
- Ou? - perguntou o alemo, nervoso.
- Ou podemos fazer um acordo.
- Que tipo de acordo? - O alemo tinha ouvido muitas histrias sobre a corrupo na Guardia Civil espanhola.
- Voc tem algo que eu quero - disse Becker.
- Sim, claro! - disse o alemo, mais animado agora e dando um sorriso forado. - Foi at seu armrio pegar a carteira. - Quanto?
Becker lanou-lhe um olhar indignado.
- Voc est tentando subornar um oficial da lei?
- Oh! No, de forma alguma, apenas pensei que... - O alemo rapidamente ps sua carteira de lado. - Eu... eu... - O homem estava totalmente fora de si. Jogou-se em um canto da cama e entrelaou as mos olhando para baixo. A cama gemeu sob seu peso. - Eu lamento.
Becker tirou uma rosa do vaso que estava no centro do quarto e cheirou-a, displicente, antes de deix-la cair no cho. Virou-se subitamente e disparou. - O que voc pode me dizer sobre o assassinato?
O alemo ficou branco.
- Mord? Assassinato?
- Sim, sim, lembra-se? O oriental, hoje pela manh? No parque? Foi um assassinato: Ermordung. - Becker amava o termo alemo para assassinato: Ermordung. Era de arrepiar.
- Ermordung? Ele... ele foi...?
-Sim.
- Mas isso no  possvel- disse o alemo, com falta de ar. - Eu estava l. Ele teve um ataque cardaco. Eu vi. No havia sangue, nenhuma bala.
Becker balanou a cabea, complacente.
- As coisas nem sempre so o que parecem.
O alemo ficou ainda mais plido.
Becker sorriu internamente. Sua mentira havia surtido efeito. O pobre homem estava branco e suava em profuso.
- O que... o que voc quer? - balbuciou. - No sei de nada.
Becker comeou do incio.
- O homem que foi assassinado usava um anel de ouro. Preciso do anel. - N-no est comigo.
Becker suspirou, condescendente, e fez um gesto na direo do banheiro. - E Rodo? Dewdrop?
O homem, que j estava branco, ficou azul.
- Voc conhece Dewdrop? -- Limpou o suor que escorria por sua testa, molhando as mangas do roupo. Estava prestes a dizer algo quando a porta do banheiro se abriu.
Os dois olharam na mesma direo.
Rodo Eva Granada estava de p junto  porta. Uma viso e tanto. Seus cabelos ruivos eram longos e lisos. A pele era lisa e bronzeada, os olhos castanhos e a face longilnea. Tambm usava um roupo do hotel. A faixa estava perfeitamente apertada, ressaltando seus belos quadris. A parte superior do roupo se abria em um longo decote, revelando a pele bronzeada e deixando entrever os seios. Saiu do banheiro inteiramente segura de si.
- Posso ajud-lo? - perguntou, num ingls imperfeito.
Becker, do outro lado do quarto, olhou para aquela mulher estonteante, mas sequer piscou. Apenas disse, friamente:
- Preciso do anel.
- Quem  voc? - ela perguntou.
Becker voltou a falar espanhol, com um sotaque perfeito da Andaluzia.
- Guardia Civil.
Ela riu.
- Impossvel- respondeu, em espanhol.
Becker sentiu um n na garganta. Rodo claramente era mais dura na queda do que seu cliente.
- Impossvel? - repetiu ele, mantendo a calma. - Quer ir at a delegacia para que eu possa provar?
Rodo sorriu maliciosamente.
- Prefiro no aceitar a oferta, pois no gostaria de constrang-lo. Agora me diga, quem  voc?
Becker decidiu continuar na mesma linha.
- Trabalho para a Guardia de Sevilha.
Rodo moveu-se, provocante, em sua direo.
- Conheo todos os policiais da cidade. So meus melhores clientes. Becker sentiu aquele olhar cortante atravess-lo. Repensou sua estratgia. - Fao parte de uma fora tarefa especial para turistas. Me d o anel, ou terei que lev-la at o distrito e...
- E o qu? - perguntou ela, levantando uma das sobrancelhas, zombeteira, os olhos fixos em Becker.
Ele ficou em silncio. Havia passado do ponto, e agora o plano estava se voltando contra ele. Por que ela no est acreditando em minha histria?
Rodo aproximou-se ainda mais.
- Olhe, no sei quem voc  nem o que voc quer, mas, se no sair deste quarto agora, vou chamar a segurana do hotel, e a verdadeira Guardia ir prend-lo por se fazer passar por um policial.
Becker sabia que Strathmore poderia tir-lo da cadeia em cinco minutos, mas no seu ltimo telefonema havia ficado bem claro que ele deveria lidar com o assunto de forma extremamente discreta. Ser preso no fazia parte dos planos.
	Rodo parou bem perto de Becker. Continuava olhando fixamente para ele.
	- Est bem - disse Becker, com um suspiro, dando-se por derrotado. Deixou de lado seu perfeito sotaque de Sevilha e disse: - No estou trabalhando para a polcia de Sevilha. Uma organizao do governo dos Estados Unidos me enviou para localizar o anel.  tudo que posso dizer. Me autorizaram a pagar uma boa
	soma por ele.
Houve um longo silncio.
Rodo deixou as palavras de Becker suspensas no ar por alguns instantes antes de dizer, com um sorriso malicioso:
	- Ora, ora, no foi to difcil assim, no ? - sentou-se em uma cadeira e cruzou as pernas. - Quanto voc pode pagar?
	Becker sentiu-se aliviado. Ele no perdeu tempo e foi direto ao assunto.
	- Cinco mil dlares americanos. - Era metade do valor que levava com ele, mas provavelmente umas dez vezes mais do que o anel valia de fato.
Rodo ergueu as sobrancelhas.
- Isso  muito dinheiro.
- Sim. Podemos chegar a um acordo?
Rodo balanou a cabea.
- Gostaria de poder dizer que sim.
- Dez mil dlares? - Becker apressou-se em dizer. -  tudo que tenho.
- Nossa! - ela sorriu. - Americanos realmente no sabem negociar. Voc no iria durar um dia no mercado local.
- Dinheiro vivo, agora - disse Becker, pegando o envelope em seu bolso. S quero ir para casa.
Rodo sacudiu a cabea.
- No posso.
- Por que no? - respondeu Becker, rispidamente.
- O anel no est mais comigo - disse ela, se desculpando.


CAPTULO
33

Em seu escritrio, Tokugen Numataka andava de um lado para o outro, como um animal enjaulado. Ainda no tinha recebido notcias de seu contato, North Dakota. Malditos americanos! No tm a menor noo de pontualidade!
Ele mesmo teria ligado de volta para North Dakota, mas no sabia seu nmero. Numataka odiava fazer negcios dessa forma, quando outra pessoa estava no controle.
Desde o incio Numataka tinha suspeitado de que as chamadas de North Dakota podiam ser falsas. Talvez fosse um competidor japons se divertindo com ele, fazendo-o de tolo. Estava novamente pensando nisso. Numataka concluiu que precisava de mais informaes.
Saiu apressadamente de seu escritrio e entrou no primeiro corredor  esquerda. Seus funcionrios se curvavam em sinal de reverncia quando passava. Numataka tinha plena conscincia de que no faziam isso porque gostavam dele: a reverncia era uma cortesia meramente formal, e os funcionrios a fariam mesmo para o mais temvel chefe.
Numataka foi direto para a principal mesa telefnica da empresa. Todas as chamadas eram repassadas por uma nica telefonista atravs de uma Corenco 2000, uma central de 12 linhas. A operadora estava ocupada, mas levantou-se e fez uma mesura assim que viu Numataka entrar.
- Sente-se - ordenou. - Recebi uma chamada s 4h45 em minha linha pessoal hoje. Voc pode me dizer qual a origem? - Numataka se arrependera por no ter feito isso antes.
A telefonista respondeu, nervosa.
- No temos um identificador de chamadas nesta mquina, senhor. Mas posso falar com a companhia telefnica. Tenho certeza de que podem ajudar.
Numataka no tinha dvida de que poderiam ajudar. Nesta era digital, a privacidade havia se tornado uma coisa do passado - tudo estava registrado em algum lugar. As companhias telefnicas podiam dizer exatamente quem havia ligado e quanto tempo a chamada tinha durado.
- Fale com eles e depois me diga o que descobriu - ordenou.

CAPTULO
34

Susan estava sozinha no Nodo 3, ainda esperando pelo resultado de seu tracer. Hale havia decidido tomar um pouco de ar do lado de fora, o que a deixava feliz. Estranhamente, contudo, a solido do Nodo 3 no a reconfortava. Susan ainda estava pensando no que havia descoberto sobre Tankado e Hale.
Quem guardar os guardies?, repetia para si mesma. Quis custodiet ipsos custodes. As palavras giravam em sua mente. Susan forou-se a pensar em outra coisa. Lembrou-se de David. Ela continuava preocupada com seu bem-estar e ainda achava estranho que ele estivesse na Espanha. Quanto mais cedo encontrassem as chaves e terminassem com isso, melhor.
Susan havia perdido a conta de quanto tempo tinha ficado sentada ali, esperando o resultado do tracer. Duas horas? Trs? Olhou para fora, para o salo deserto da Criptografia, e torceu para seu terminal emitir algum som. Mas havia apenas silncio. O sol daquele final de vero j se pusera, e a iluminao automtica se acendera na sala e no domo. Susan sentiu que o tempo estava se esgotando.
Olhou para o tracer em sua tela, pensativa. Vamos l. Voc j teve tempo suficiente. Ela clicou o mouse para ativar a janela de status do tracer. H quanto tempo voc j est ativo?
Assim como a tela do ExeMon do TRANSLTR, a janela de status do tracer mostrava, em horas e minutos, h quanto tempo o programa estava sendo executado. Susan esperava ver uma contagem de uma ou duas horas, pelo menos. Em vez disso, viu uma mensagem totalmente diferente que fez seu sangue gelar nas veias.

TRACER CANCELADO

Cancelado?, ela disse em voz alta, perplexa. Por qu?
Num acesso de pnico, Susan olhou desnorteada para seu programa procurando qualquer comando que pudesse ter provocado o cancelamento do tracer. Sua busca foi em vo. Parecia que o prprio tracer interrompera sua execuo. Para Susan, isso s podia significar uma coisa: seu tracer tinha um bug, um erro de programao.	.
Susan considerava que os bugs eram a coisa mais irritante na programao de computadores. Como os computadores seguem ordens minuciosas de operao, qualquer erro mnimo geralmente traz enormes conseqncias. Pequenos erros - como, por exemplo, quando um programador digita uma vrgula em vez de um ponto - podem fazer sistemas inteiros parar. Susan sempre achou engraada a origem da palavra bug, que significa, literalmente, inseto.
O termo originou-se do primeiro computador do mundo, o Mark I, COllStrudo em 1944 em um laboratrio da Universidade de Harvard. Ocupava uma sala inteira e era um labirinto de cabos conectando vlvulas e circuitos eletromecnicos. Quando estava em operao, surgiu um erro persistente, e ningum conseguia descobrir a causa. Aps horas de pesquisas, um assistente de laboratrio finalmente solucionou o problema. Aparentemente uma mariposa havia pousado em uma das placas do computador e, tendo morrido pelo choque eltrico, criou um curto-circuito. A partir de ento, os erros de computador passaram a ser freqentem ente chamados de bugs.
No tenho tempo para isso, praguejou Susan.
Encontrar um bug em um programa  um processo que pode levar dias.
Milhares de linhas de cdigo de programao precisam ser investigadas para encontrar um erro minsculo - quase como inspecionar uma enciclopdia  procura de um erro de digitao.
Sua nica escolha era enviar o tracer novamente. Ela sabia, contudo, que o tracer provavelmente iria se deparar com o mesmo erro e abortar a operao novamente. Encontrar e corrigir o erro levaria tempo, e tempo era algo que ela e o comandante no tinham.
Contudo, enquanto Susan olhava para o tracer, pensando que erro ela poderia ter cometido, percebeu que havia alguma coisa que no fazia sentido. Ela tinha usado exatamente a mesma verso do tracer um ms atrs sem nenhum problema. Como seria possvel que surgisse um erro do nada?
Lembrou-se de um comentrio que Strathmore havia feito antes. Eu mesmo tentei enviar seu tracer, mas ele no parava de retornar dados sem sentido.
No parava de retornar dados, Susan pensou. Como aquilo era possvel? Que dados ele estava retornando?
Se Strathmore havia recebido dados de volta do tracer, ento o programa estava funcionando. Os dados no faziam sentido, presumiu Susan, porque o comandante havia digitado chaves de pesquisa incorretas. Ainda assim, o tracer estaria funcionando.
Susan repensou a questo e concluiu que havia uma explicao alternativa para o tracer ter abortado. Erros de programao no eram a nica coisa capaz de interromper um programa em andamento. Algumas vezes havia foras externas em ao, como variaes na energia, problemas em placas de circuito ou no cabeamento. Como o hardware do Nodo 3 era muito avanado, ela sequer tinha levado essas hipteses em conta.
Levantou-se e andou rapidamente na direo de uma grande prateleira cheia de manuais tcnicos. Pegou um fichrio rotulado de SYS-Op e percorreu o ndice. Achou o que queria, voltou para seu terminal com o manual e digitou alguns comandos. Ento esperou enquanto o computador vasculhava a lista dos comandos executados nas ltimas trs horas. Ela esperava que a pesquisa indicasse algum tipo de interrupo externa, como um comando de cancelamento gerado por alguma falha eltrica ou um chip defeituoso.
O terminal de Susan emitiu um bipe. Seu pulso se acelerou. Olhou para a tela, ansiosa.

CODIGO DE ERRO 22

Susan sentiu suas esperanas aumentarem. Aquilo era uma boa notcia. O fato de que a pesquisa havia retornado um cdigo de erro significava que o tracer estava funcionando bem. Aparentemente havia sido abortado por uma anomalia externa que dificilmente se repetiria.
CODIGO DE ERRO 22. Susan vasculhou a memria tentando lembrar o que aquele erro significava. As falhas de hardware eram to raras no Nodo 3 que ela no conseguia se lembrar dos cdigos numricos.
Ela abriu o manual de SYS-Op e comeou a ler a lista de erros.

19: PARTIO DE DISCO RGIDO CORROMPIDA
20: FLUTUAO DE ENERGIA
21: FALHA DE MEMRIA

Quando chegou no nmero 22, parou e ficou olhando, esttica, para o manual. Perplexa, conferiu mais uma vez a tela.

CDIGO DE ERRO 22

Susan voltou a olhar para o manual de SYS-OP. O que via no fazia sentido. O manual dizia apenas:

22: CANCELAMENTO MANUAL

CAPTULO
35

Becker  olhou para Rodo, atnito.
- O anel no est com voc?
- No - respondeu ela, os cabelos ruivos caindo sobre os ombros.
Becker desejou que fosse mentira.
- Mas o que aconteceu?
- Entreguei para uma garota, perto do parque.
Becker sentiu as pernas ficarem bambas. No  possvel!
Rodo sorriu timidamente e apontou para o alemo.
- l queria guardarlo. Ele queria que eu o guardasse, mas eu disse que no.
Tenho sangue cigano, e ns, alm de termos os cabelos vermelhos, somos muito supersticiosos. Um anel dado por um homem que est morrendo traz azar.
- Voc conhecia a garota? - perguntou Becker.
Rodo arregalou os olhos.
- Vaya. Voc realmente quer esse anel, no ?
Becker concordou, abatido.
- Para quem voc deu o anel?
O enorme alemo continuava sentado na cama, perplexo. Sua noitada romntica estava sendo arruinada, e ele no tinha idia do que estava acontecendo.
- Was passiert? O que est acontecendo? - perguntou, ainda nervoso. Becker ignorou-o.
- Tentei vend-lo, mas a garota no tinha dinheiro. Acabei dando o anel para ela. Claro que, se soubesse de sua generosa oferta, eu o teria guardado para voc.
- Por que voc saiu do parque? - perguntou Becker. - Uma pessoa tinha morrido. Por que voc no esperou pela polcia para entregar o anel para eles?
- H muitas coisas que desejo, senhor Becker, mas problemas no esto em minha lista. Alm disso, aquele velho parecia ter total controle da situao.
	- O canadense?
	- Sim. Ele chamou a ambulncia, ento decidimos partir. No vi motivos para me envolver ou deixar que meu cliente se visse envolvido com a polcia.
	Becker continuava aturdido. Ainda tentava digerir essa inesperada virada do destino. Ela deu o maldito anel!
- Tentei ajudar o homem que estava morrendo - explicou Rodo. - Mas ele no parecia querer ajuda. Comeou com essa histria do anel, no parava de empurr-lo em nossas caras. Seus dedos eram deformados, e ele ficava apontando para cima. Estendia sua mo em nossa direo, para que pegssemos o anel.
	Eu no queria, mas meu amigo aqui finalmente o pegou. Depois o sujeito morreu.
- E voc tentou uma massagem cardaca? - perguntou Becker.
- No. Ningum tocou nele. Meu amigo ficou assustado. Ele  grande, mas covarde. - Ela sorriu de forma sedutora para Becker. - No se preocupe, ele no fala .uma palavra de espanhol.
Becker contraiu o rosto. Continuava intrigado com a mancha azulada que havia visto no peito de Tankado.
- Os para-mdicos tentaram uma ressuscitao?
- No tenho idia. Como acabei de dizer, samos antes que chegassem.
- Voc quer dizer: saram aps roubar o anel- disse Becker, com desdm. Rodo olhou para ele, quase ofendida.
- No roubamos o anel. O homem estava morrendo. Suas intenes eram claras. Atendemos seu ltimo desejo.
	Becker relaxou um pouco. Rodo estava certa, ele provavelmente teria feito a mesma coisa.
	- Mas voc tinha que dar o anel para a primeira pessoa que encontrou?
	- J disse que aquele anel me deixava nervosa. A garota estava com um monte de jias, achei que iria gostar do anel.
	- E ela no viu nada de estranho nisso? Voc chegar do nada e lhe dar um anel?
	- No. Eu lhe disse que havia encontrado o anel no parque. Achei que fosse me oferecer dinheiro em troca, mas no me deu nada. No importava, eu s queria me livrar dele.
- A que horas foi isso?
- Hoje  tarde. Cerca de uma hora depois de termos pegado o anel.
Becker olhou para o relgio. Eram l1M8 da noite. A pista estava fria, j haviam se passado oito horas. Que diabo ainda estou fazendo aqui? Deveria estar descansando nas montanhas. Ele suspirou e fez a nica pergunta em que ainda podia pensar:
- Como era essa garota?
- Era uma punk - disse Rodo.
- Punk?
- Isso, uma punk. Mucha joyera. Muitas jias. Um brinco estranho em uma orelha. Acho que era uma caveira.
- H punks em Sevilha?
Rodo sorriu.
- Todo bajo el sol. Tudo que houver sob o sol. - Esse era o slogan do Ofcio de Turismo de Sevilha.
- Ela lhe disse seu nome?
-No.
- Disse para onde estava indo?
- No. Falava espanhol muito mal.
- Ento no era espanhola? - perguntou Becker.
- No. Talvez inglesa. Estava usando um cabelo estranho, pintado de vermelho, branco e azul.
Becker espantou-se, imaginando a figura bizarra.
- No poderia ser americana? - perguntou.
- Acho que no. Estava usando uma camiseta que se parecia com a bandeira da Inglaterra.
- Certo. Temos ento: cabelo vermelho, branco e azul, uma camiseta com a bandeira da Inglaterra e uma caveira como brinco. Mais alguma coisa?
- Nada, s uma punk normal.
Punk normal? De onde Becker vinha, quase todos usavam agasalhos com o emblema da universidade e cortes de cabelo tradicionais. Mal podia visualizar a figura que Rodo estava descrevendo.
- H mais alguma coisa de que voc possa se lembrar?
Rodo pensou por algum tempo.
- No, isso  tudo.
Nesse instante ouviram um rangido alto, vindo da cama. O cliente de Rodo estava inquieto. Becker virou-se para ele e falou, em alemo:
- Noch et was? Mais alguma coisa? Algo que possa me ajudar a encontrar a roqueira punk com o anel?
Houve um longo silncio, como se o gigante quisesse dizer algo, mas no soubesse muito bem como. Seus lbios comearam a se mover, depois pararam, e finalmente ele falou. As palavras que saram de sua boca definitivamente eram em ingls, mas quase no era possvel entend-las por baixo daquele forte sotaque alemo.
- Fock off.
Becker olhou para ele, surpreso. - Como?
- Fock off - repetiu o homem, batendo sua palma esquerda contra o rolio antebrao direito, uma aproximao grosseira do gesto italiano para "v se foder':
Becker estava cansado demais para se ofender com o que quer que fosse. Me foder? O que aconteceu com El Covardn? Virou-se para Rodo e disse, em espanhol:
- Acho que meu tempo se esgotou.
- No se preocupe com ele - disse ela rindo. - Est apenas um pouco frustrado. Mas ele vai receber aquilo que quer. - Ela sacudiu os cabelos e piscou.
- Mais alguma coisa? Qualquer coisa que possa me ajudar? - insistiu Becker. Rodo balanou a cabea.
- No. Mas voc nunca ir encontr-la. Sevilha  uma cidade grande, pode ser muito traioeira.
- Vou fazer o melhor possvel. -  uma questo de segurana nacional...
- Se no conseguir, volte aqui - disse Rodo, olhando para o grosso envelope no bolso de Becker. - Meu amigo estar dormindo, com toda a certeza. Bata devagar. Eu encontrarei um quarto extra onde possamos ficar. Voc ver um lado da Espanha que jamais ir esquecer - falou, maliciosamente.
Becker se esforou para retribuir com um sorriso gentil.
- Tenho que ir. - Pediu desculpas ao alemo por ter atrapalhado sua noite. O gigante sorriu, timidamente.
- Keine Ursache.
Becker saiu e puxou a porta. Sem problemas? O que aconteceu com o "v se foder"?

CAPTULO
36

Cancelamento manual? Susan olhava para sua tela, atnita.
Ela tinha certeza de que no havia digitado nenhum comando para um cancelamento manual, pelo menos no intencionalmente. Tentou pensar se teria digitado um comando por acidente.
Impossvel, murmurou. De acordo com o histrico, o comando para cancelamento fora enviado h menos de 20 minutos. A nica coisa que Susan havia digitado nesse intervalo era seu cdigo pessoal quando saiu para falar com o comandante, o que jamais poderia ser interpretado como um cancelamento.
Mesmo sabendo que era uma total perda de tempo, ela abriu o histrico de seu ScreenLock para verificar se o cdigo pessoal havia sido digitado corretamente. Obviamente que sim.
- Ento de onde - perguntou ela, irritada -, de onde essa coisa conseguiu tirar um cancelamento manual?Ainda irritada, fechou a tela do ScreenLock. Contudo, naquele pequeno instante em que a janela se fechava, uma coisa chamou sua ateno. Ela abriu novamente a janela e analisou os dados. No faziam sentido. Havia uma entrada para o lock - travamento - correspondente  hora em que ela deixou o Nodo 3, mas a hora do comando de unlock - destravamento - parecia estranha. Segundo os registros, havia uma diferena de apenas dois minutos entre as duas entradas. Susan tinha certeza de que a conversa com o comandante tinha demorado mais do que isso.
Ela continuou examinando a pgina e o que viu deixou-a desnorteada. Havia duas outras entradas, cinco minutos depois, de um lock seguido por um unlock. De acordo com o histrico, algum havia destravado seu terminal enquanto ela estava fora da sala.
"Impossvel!, exclamou Susan. A nica pessoa que ficou l foi Greg Hale, e Susan tinha certeza absoluta de que no tinha dado seu cdigo pessoal a ele. Seguindo os procedimentos adequados de criptografia, ela escolhera um cdigo aleatrio e nunca o escreveu em lugar algum. Era completamente impossvel que Hale tivesse adivinhado a seqncia alfanumrica correta - o nmero de combinaes possveis era 36 elevado  quinta potncia, ou seja, mais de 60 milhes de possibilidades.
Mas as entradas do histrico do ScreenLock eram bastante claras. Susan continuou olhando para a tela, pensativa. De alguma forma, Hale tinha usado seu terminal enquanto ela estava do lado de fora. S ele poderia ter dado um comando manual de cancelamento para o tracer.
As perguntas sobre como rapidamente deram lugar s perguntas sobre por qu? Hale no tinha nenhum motivo para invadir seu terminal. Nem mesmo sabia que Susan estava executando um tracer. E mesmo se soubesse, pensou, por que iria se importar com o fato de ela estar procurando um sujeito chamado North Dakota?
As perguntas sem resposta se multiplicavam em sua mente.
Melhor comear pelo comeo, pensou. Iria lidar com Hale em seguida. Concentrando-se no problema que tinha em mos, Susan enviou novamente seu tracer. O terminal emitiu um bipe e uma mensagem foi exibida no monitor:

TRACER ENVIADO

Susan sabia que o programa levaria algumas horas at retomar. Ela amaldioou Hale, tentando imaginar como ele teria obtido o cdigo pessoal dela e que interesse teria no tracer.
Susan levantou-se e foi rapidamente at o terminal de Hale. A tela estava preta, mas ela podia ver que o terminal no havia sido travado - o monitor exibia um leve brilho nas bordas. Os criptgrafos raramente travavam seus terminais, exceto quando deixavam o Nodo 3  noite. Em vez disso, simplesmente reduziam o brilho de seus monitores - uma conveno conhecida por todos e parte do cdigo de honra de que ningum deveria mexer no terminal.
Susan sentou-se em frente ao terminal de Hale.
Dane-se o cdigo de honra, pensou em voz alta. Que diabos voc est querendo? Olhando rapidamente para o salo deserto da Criptografia, Susan retomou ao normal o brilho do monitor de Hale. A tela, contudo, estava inteiramente vazia. Susan olhou para ela, pensativa. Sem saber muito bem como proceder, chamou um programa de pesquisa de dados e digitou:

PESQUISAR: "TRACER"

As chances de que isso funcionasse eram pequenas, mas, se houvesse qualquer referncia a seu tracer no computador de Hale, ela iria encontr-la. Poderia ajudar a explicar por que ele havia decidido abortar o programa. Segundos depois, o resultado foi exibido:

NENHUM ITEM ENCONTRADO

Susan pensou um pouco, sem nem mesmo saber exatamente o que esta,.. procurando. Tentou novamente.

PESQUISAR: "SCREENLOCK"

O programa retomou uma pequena lista de referncias sem importncia. Nada que indicasse que Rale tinha uma cpia do cdigo pessoal de Susan em seu computador.
Ela suspirou. Ento quais so os programas que ele esteve usando hoje? Foi at o menu de "aplicativos recentes" de Rale para ver qual o ltimo programa que ele havia usado. Era o programa de e-mail. Susan procurou no disco rgido de Rale e acabou encontrando sua pasta de e-mails discretamente escondida dentro de alguns outros diretrios. Ela a abriu e outras pastas surgiram. Aparentemente, Rale tinha diversas identidades e contas de e-mail. Susan notou, sem se surpreender, que uma delas era uma conta annima. Ela abriu o diretrio, clicou em uma das mensagens recebidas e leu o contedo.
Levou um susto. O texto da mensagem dizia:

PARA: NDAKOTA@ara.anon.org
DE: ET@doshisha.edu
GRANDES PROGRESSOS! FORTALEZA DIGITAL EST QUASE PRONTO.
ESSE PROGRAMA IR FAZER COM QUE A NSA VOLTE DCADAS ATRS!

Como se estivesse em um sonho, Susan leu a mensagem vrias vezes, sem acreditar. Depois, tremendo, abriu uma outra.

PARA: NDAKOTA@ara.anon.org
DE: ET@doshisha.edu
A FUNO DE MENSAGEM CLARA CIRCULAR FUNCIONA! 
CADEIAS DE CARACTERES MUTANTES SO A RESPOSTA!
Era impensvel. No entanto, l estava a prova. E-mails de Ensei Tankado. Ele havia escrito diversas vezes para Greg Rale. Os dois estavam trabalhando juntos. Susan ficou paralisada, defrontando-se com a terrvel verdade  sua frente, no terminal.
Greg Rale  NDAKOTA?

Os olhos de Susan se fixaram na tela. Sua mente tentava desesperadamente encontrar outra explicao, mas no havia nenhuma. Aquilo era uma prova, direta e sem recurso possvel. Tankado havia usado cadeias de caracteres mutantes para criar uma funo de mensagem clara circular e Hale havia conspirado com ele para acabar com a NSA.
No  possvel, pensou Susan. Mas sua conversa recente com Hale ecoava em sua mente: Tankado e eu trocamos alguns e-mails... Alguma hora vou cair fora daqui.
Ainda assim, Susan no podia aceitar o que estava vendo. Greg podia ser grosseiro e arrogante, mas isso no fazia dele um traidor. Ele sabia o que o Fortaleza Digital faria com a NSA. No  possvel que estivesse envolvido em uma trama para lan-lo na Internet!
Susan pensou, contudo, que no havia nada que o impedisse. Nada a no ser a honra e a decncia. Ela pensou no algoritmo Skipjack. Greg Hale j havia arruinado os planos da NSA daquela vez. O que o impediria de tentar novamente?
Mas Tankado, por que uma pessoa to paranica quanto ele iria confiar em algum to imprevisvel quanto Hale?
Nada daquilo importava naquele instante. O fundamental era falar com Strathmore. Por uma coincidncia irnica, o parceiro de Tankado estava bem ali, na frente deles. Ela ficou imaginando se Hale j sabia que Tankado estava morto.
Comeou a fechar rapidamente os e-mails de Hale para deixar o terminal exatamente como ele o havia encontrado. Ele no podia suspeitar de nada ainda no. A chave do Fortaleza Digital provavelmente estava ali mesmo, escondida naquele computador.
Exatamente quando Susan fechava os ltimos arquivos, uma sombra passou por fora da janela do Nodo 3. Ela olhou rapidamente para trs e viu que Hale se aproximava. Sentiu a .adrenalina aumentar. Ele estava quase na porta.
Mas que droga, pensou, irritada, calculando a distncia que a separava de sua cadeira. Sabia que no chegaria a tempo; Hale estava bem prximo.
Sua mente disparou, percorrendo o Nodo 3  procura de opes. As portas atrs dela fizeram um clique e em seguida o mecanismo de abertura entrou em ao. Seu instinto prevaleceu e, afundando os ps no tapete, deslizou em passos largos e rpidos na direo da despensa. Quando as portas se abriram, Susan havia chegado at a geladeira, abrindo-a com um puxo forte. Um jarro de vidro que estava em cima ameaou cair, balanou um pouco e parou no mesmo lugar.
- Com fome? - perguntou Hale, entrando no Nodo 3 e andando na direo dela. Sua voz era calma e levemente sedutora. - Quer dividir um pouco de tofu?
Susan expirou e virou-se para ele.
- No, obrigado. Acho que eu vou ... - mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Ela ficou branca.
Hale olhou-a, sem entender.
- O que h de errado?
Susan mordeu o lbio e encarou-o.
- Nada - conseguiu dizer. Mas era mentira. Um pouco mais  frente, a tela do terminal de Hale estava acesa. Ela se esquecera de reduzir o brilho.



CAPTULO
37

De volta ao saguo do Alfonso XIII, Becker, cansado, dirigiu-se at o bar. Um barman nanico colocou um guardanapo  sua frente.
- Qu bebe Usted? O que voc quer beber?
- Nada, obrigado - disse Becker. - Voc sabe se h algum clube na cidade para roqueiros punk?
O barman olhou para ele com estranheza.
- Clubes? Para punks?
- Sim. H algum lugar na cidade onde eles costumem se juntar?
- No lo s, seor. No sei. Mas certamente no seria aqui! - sorriu. - Ento, que tal uma bebida?
Becker teve vontade de sacudir o homem. Nada estava saindo da forma como ele havia planejado.
	- Deseja beber algo? - repetiu o barman. - Fino? Jerez?
Ao fundo ouvia-se msica clssica. Concerto de Brandenburgo, pensou Becker. Nmero quatro. Ele e Susan viram a orquestra de cmara da Academy of St. Martin in the Fields tocar os concertos de Brandenburgo na universidade, no ano anterior. Becker desejou que a namorada estivesse com ele naquele momento. Um leve sopro vindo de uma sada de ar-condicionado acima dele fez com que se lembrasse de como estava a temperatura l fora. Teria que andar pelas ruas infernais e cheias de drogados de Triana procurando uma punk usando uma camisa com a bandeira da Inglaterra. Pensou em Susan outra vez.
- Zumo de arndano - ouviu sua prpria voz dizer mecanicamente. - Suco de mirtilo.
O barman ficou confuso.
- Solo? - O suco de mirtilo era popular nos drinques da Espanha, mas tom-lo sozinho era inusitado.
- S. Solo.
- Echo un poco de Smirnoff? - insistiu o barman. - Um pouco de vodca?
-  No, gracias.
- Gratis? Por conta da casa?
Com o crebro latejando, Becker pensou nas ruas sujas de Triana, no calor sufocante e na longa noite que tinha pela frente.
- S, chame un poco de vodca - concordou.
O barman pareceu ter ficado feliz com a resposta e virou-se para preparar o drinque. Becker percorreu com os olhos o balco ornamentado do bar pensando se estava sonhando. Qualquer coisa faria mais sentido do que a verdade.
Sou um professor universitrio em uma misso secreta.
O barman retomou, fez um ligeiro floreio e lhe entregou o drinque.
- A su gusto, seor. Mirtilo com um pouco de vodca.
Becker agradeceu e pegou o drinque. Tomou um gole e engasgou-se. Isso  um pouco?

CAPTULO
38

Hale parou na metade do caminho para a despensa do Nodo 3 e ficou olhando para Susan.
- Algo de errado, Sue? Voc me parece estranha.
Susan lutou contra o medo que tomava conta dela. A trs metros de distncia, o monitor de Hale cintilava.
- Eu estou... estou bem - conseguiu dizer, trmula.
Hale continuava olhando para ela sem entender.
- Voc quer um copo de gua?
Susan no conseguiu responder e xingou a si mesma. Droga! Como pude me esquecer de reduzir o brilho daquele monitor? Se Hale percebesse que ela havia bisbilhotado seu terminal poderia suspeitar tambm de que ela conhecia sua verdadeira identidade: North Dakota. Tinha medo de que ele chegasse a extremos para manter aquela informao em segredo.
Susan pensou se deveria correr para a porta. Mas no pde sequer tentar. Subitamente algum comeou a bater no vidro. Ela e Hale se assustaram. Era Chartrukian. Estava socando o vidro novamente com as mos suadas. Pela sua expresso, parecia ter visto o fim do mundo.
Hale olhou com cara feia para o SegSis enlouquecido do outro lado do vidro, depois voltou-se para Susan.
	- J volto. Tome algo, voc parece plida. - Ele se virou e saiu.
	Susan se recomps e foi rapidamente at o terminal de Hale. Inclinou-se e ajustou os controles de brilho. O monitor voltou a ficar escuro.
Sua cabea latejava. Tentou ver o que estava acontecendo l fora, no salo da Criptografia. Pelo visto, Chartrukian no tinha ido para casa. O jovem SegSis parecia em pnico, contando o que descobrira para Greg Hale. Susan sabia que no importava, pois Greg j sabia de tudo.
Tenho que chegar at Strathmore, pensou. E rpido.

CAPTULO
39

No quarto 301, Roco Eva Granada estava nua em frente ao espelho. Aquele era o momento no qual tentara no pensar durante todo o dia. O alemo estava na cama esperando por ela. Ele era o cliente mais gordo que j havia atendido.
Relutantemente, pegou uma pedra gelo que estava no balde de champanhe e esfregou-a em seus mamilos, enrijecendo-os. Esse era seu dom: fazer os homens se sentirem desejados. Era isso que fazia com que eles voltassem. Percorreu com as mos seu corpo delineado e bronzeado. Esperava que ele agentasse os trs ou quatro anos que ainda precisava trabalhar antes que pudesse parar. O seor Roldn ficava com a maior parte de seu pagamento, mas, se no fosse por ele, ela sabia que acabaria como as outras prostitutas, pegando bbados em Triana. Ao menos seus clientes tinham dinheiro. Nunca batiam nela e se satisfaziam com pouco. Ela colocou sua lingerie, respirou fundo e abriu a porta do banheiro.
Quando Rodo entrou no quarto, o alemo arregalou os olhos. Ela estava usando um robe preto. Sua pele macia, cor de avel, parecia radiante na luz suave e seus mamilos protuberantes transpareciam sob o tecido leve.
- Komm doch hierher - disse ele, avidamente, retirando o roupo e deitando-se de costas.
Rodo deu um sorriso forado e foi em direo  cama. Olhou discretamente para o enorme alemo. Soltou um risinho de satisfao: ele tinha um pau pequeno.
Ele a segurou e arrancou fora o robe. Seus dedos gorduchos agarravam cada pedao de seu corpo. Ela se jogou por cima dele, gemendo e esfregando seu corpo, fingindo estar excitada. Quando ele se virou para ficar por cima dela, Rodo ficou com medo de ser esmagada. Tentava encontrar espao para respirar, torcendo para que aquilo terminasse logo.
- S, s - gemeu ela diante das investidas do alemo. Cravou as unhas nas costas dele para demonstrar desejo. Pensamentos aleatrios cruzavam sua mente: as faces dos muitos homens com quem j estivera, tetos que observara durante horas no escuro, o sonho de ter filhos...
Subitamente o corpo do alemo arqueou-se, enrijeceu-se e logo em seguida caiu por cima dela. Isso  tudo?, pensou, surpresa e aliviada.
	Tentou sair debaixo dele.
	- Querido - sussurrou -, me deixa ficar por cima. - Mas o homem no se movia.
	Ela moveu seus braos e empurrou seus ombros carnudos. .
	- Querido, eu... eu no estou conseguindo respirar! - Comeou a ficar tonta, sem ar. Sentiu uma presso enorme sobre seus quadris, como se fossem quebrar. - Despirtate! - Seus dedos instintivamente comearam a puxar os cabelos do homem. - Acorda, vamos!
Foi ento que ela sentiu um lquido quente e gosmento. Estava impregnado nos cabelos dele, escorria pelas bochechas dela, caindo em sua boca. Tinha um gosto salgado. Ela se remexeu vigorosamente sob o peso do homem. Acima dela, um estranho raio de luz iluminou o rosto contorcido do alemo. O buraco de bala em sua testa fazia o sangue jorrar sobre ela. Tentou gritar, mas no havia ar em seus pulmes. O peso do homem era esmagador. J meio delirante, ela se arrastou em direo ao raio de luz que vinha da porta. Viu uma mo. Uma arma com silenciador. Um claro. Depois no viu mais nada.

CAPTULO
40

Do lado de fora do Nodo 3, Chartrukian parecia desesperado. Estava tentando convencer Hale de que o TRANSLTR estava com problemas srios. Susan passou correndo por eles com uma nica coisa em mente encontrar Strathmore.
O SegSis, em pnico, segurou o brao de Susan.
- Senhorita Fletcher! Temos um vrus! Eu tenho certeza absoluta! Voc tem que...
Susan soltou seu brao com um puxo e olhou para ele, enfezada.
- Achei que o comandante tivesse dito para voc ir para casa.
- Mas e o monitor de execuo?! Est registrando 18 horas...
- O comandante Strathmore disse que voc deveria ir para casa!
- Foda-se Strathmore! - gritou Chartrukian, suas palavras ressoando pelo domo.
Uma voz grave ecoou, vinda de cima:
- Sr. Chartrukian?
Os trs funcionrios da Criptografia pararam, congelados. Strathmore estava de p na plataforma de metal que ficava do lado de fora e um pouco acima de seu escritrio.
Por alguns instantes, o nico som dentro do domo era o zumbido grave e cclico dos geradores abaixo do solo. Susan tentou desesperadamente atrair o olhar de Strathmore. Comandante! Hale  North Dakota!
Mas Strathmore olhava fixamente para o jovem SegSis. Ele desceu a escada sem piscar, encarando Chartrukian o tempo todo. Atravessou o salo da Criptografia e parou a 15 centmetros do tcnico, que agora tremia visivelmente.
- O que voc disse?
- Senhor, o TRANSLTR est com problemas - disse Chartrukian, gaguejando. 
- Comandante? - interrompeu Susan. - Ser que eu poderia... Strathmore fez sinal para que ela se calasse. Seus olhos continuavam fixos no SegSis.
Phil continuou, atrapalhando-se com as palavras:
- Temos um arquivo infectado, senhor. Eu tenho certeza!
O rosto de Strathmore ficou vermelho.
- Senhor Chartrukian, j tivemos essa conversa. No h arquivo algum infectando o TRANSLTR!
- Sim, h algo l! - insistiu o outro. - E se conseguir abrir caminho at o banco de dados principal....
- E onde est esse arquivo infectado? - rugiu Strathmore. - Mostre-me! Chartrukian hesitou:
- No posso.
- Claro que no! O arquivo no existe!
Susan fez outra tentativa.
- Comandante, eu preciso...
Novamente, Strathmore fez um sinal rspido para que se calasse.
Susan olhava para Hale, nervosa. Ele parecia estar observando tudo com um ar superior e distante. Faz sentido, pensou ela. Hale no estaria preocupado com um vrus. Ele sabe o que est acontecendo de fato dentro do TRANSLTR.
Chartrukian era persistente.
- O arquivo infectado existe, senhor. Mas o Gauntlet no o pegou.
- Se o Gauntlet no o pegou, como voc pode saber que ele existe?
- disse Strathmore, enfurecido.
	Chartrukian respondeu, agora mais confiante:
	- Cadeias de caracteres mutantes, senhor. Fiz uma anlise completa e encontrei cadeias de caracteres mutantes.
Susan podia entender agora por que o tcnico estava to preocupado. Cadeias de caracteres mutantes, pensou. Seqncias de cdigos de programao capazes de corromper dados de formas extremamente complexas. Eram muito comuns em vrus de computador, em particular nos vrus que alteravam grandes blocos de dados. Susan tambm sabia, pelo que Tankado havia dito no e-mail, que as cadeias de caracteres mutantes encontradas por Chartrukian eram inofensivas e faziam parte do cdigo do Fortaleza Digital.
O SegSis foi em frente.
- Quando encontrei as cadeias pela primeira vez, senhor, pensei que os filtros do Gauntlet haviam falhado. Mas ento executei alguns testes e descobri que... - ele fez uma pausa, sentindo-se bastante constrangido. - Eu descobri que algum havia ordenado manualmente que o Gauntlet fosse contornado.
Sua ltima declarao gerou um profundo silncio. O rosto de Strathmore ficou mais vermelho ainda. No havia dvida sobre quem Chartrukian estava acusando. Em toda a Criptografia, apenas o terminal de Strathmore possua o nvel de acesso necessrio para ordenar que os filtros do Gauntlet fossem	contornados.
Ento com voz glida e cortante, Strathmore falou:
- Senhor Chartrukian, isso definitivamente no  problema seu, mas fui eu que ordenei que o Gauntlet fosse contornado - continuou, no limite da irritao, quase perdendo o controle. - Como lhe disse antes, estou executando um diagnstico muito avanado. As cadeias de caracteres mutantes que voc est vendo no TRANSLTR so parte desse diagnstico. Esto l porque eu as coloquei l. O Gauntlet no permitiu que eu carregasse o arquivo, ento ordenei que seus filtros fossem contornados. - O olhar de Strathmore concentrou-se sobre Chartrukian como um par de lasers. - H algo mais que voc queira dizer antes de partir?
Agora tudo estava claro para Susan. Quando Strathmore baixou da Internet o algoritmo encriptado do Fortaleza Digital e tentou usar o TRANSLTR para decodific-lo, as cadeias de caracteres mutantes ativaram os filtros do Gauntlet. Ansioso para saber se o Fortaleza Digital era realmente indecifrvel ou no, Strathmore decidiu contornar os filtros.
Em uma situao normal, ordenar que o Gauntlet fosse contornado era impensvel. Naquele caso especfico, contudo, no havia perigo algum, pois o comandante sabia exatamente o que era o arquivo e de onde vinha.
- Com todo o respeito, senhor, nunca ouvi falar de um diagnstico que utilize cadeias de caracteres mutan... - protestou Chartrukian.
- Comandante, eu realmente preciso... - interrompeu Susan, ansiosa para ter uma oportunidade de conversar a ss com ele.
Desta vez suas palavras foram cortadas pelo som agudo do celular de Strathmore. O comandante pegou o aparelho.
- Quem ? - gritou. Depois ficou em silncio e ouviu o que estavam dizendo do outro lado da linha.
Susan esqueceu-se de Hale por alguns instantes. Ela desejava que fosse David ligando. Diga-me que ele est bem. Diga-me que encontrou o anel! Mas Strathmore viu seu olhar e balanou discretamente a cabea. No era David.
Susan sentiu-se desmoronar. Tudo que ela queria saber era se o homem que amava estava a salvo. Strathmore - ela supunha - estava impaciente por outras razes: se David demorasse muito, ele teria que mandar reforos: agentes da NSA. Era um jogo que ele certamente queria evitar.
- Comandante? - disse Chartrukian, com urgncia em sua voz. - Eu realmente acho que deveramos verificar...
- S um instante - disse Strathmore  pessoa do outro da linha. Cobriu o fone e lanou um olhar feroz para o jovem SegSis. - Sr. Chartrukian, esta discusso est terminada. Voc deve sair da Criptografia. Agora. Isto  uma ordem - vociferou.
Chartrukian ficou paralisado.
- Mas, senhor, as cadeias de caracteres mut...
- AGORA! - berrou Strathmore.
Chartrukian olhou para ele por um segundo, sem fala. Depois saiu furioso na direo do laboratrio de SegSis.
Strathmore ento virou-se e olhou para Hale com curiosidade. Susan entendeu por que o comandante estava to espantado. Hale havia ficado absolutamente quieto. Demasiadamente quieto, na verdade, embora soubesse muito bem que no havia nenhum diagnstico que usasse cadeias de caracteres mutantes, muito menos um que pudesse manter o TRANSLTR ocupado durante 18 horas. Ainda assim, Hale no havia emitido um som. Parecia completamente indiferente quela agitao toda. Strathmore obviamente estava pensando por qu. E Susan tinha a resposta.
- Comandante, se eu pudesse falar com o senhor - insistiu ela.
- Me d apenas um minuto - respondeu, ainda olhando para Hale com curiosidade. - Preciso responder a essa chamada. - Em seguida, foi para o seu escritrio.
Susan chegou a abrir a boca, mas as palavras ficaram presas na ponta da lngua. Hale  North Dakota! Ela ficou em p, dura, incapaz de respirar. Sentiu que Hale a olhava. Virou-se. Ele deu um passo para trs e fez um gesto gentil, apontando para a porta do Nodo 3.
- As damas primeiro, Sue.

CAPTULO
41

Dentro de um armrio de limpeza no terceiro andar do Alfonso XIII, uma arrumadeira jazia inconsciente no cho. O homem com culos de armao de metal estava recolocando uma chave-mestra no bolso dela. Ele no havia ouvido seu grito quando a atingiu, nem poderia: era surdo desde os 12 anos.
Ele colocou a mo no pequeno dispositivo retangular que carregava em seu cinto com uma espcie de reverncia. Aquela mquina, que tinha sido um presente de um cliente, havia mudado sua vida. Agora podia ser contactado em qualquer parte do mundo. Todas as comunicaes chegavam at ele instantaneamente e era impossvel rastre-las.
Ficou satisfeito quando ativou a unidade e a tela embutida em seus culos voltou a ser exibida. Mais uma vez seus dedos fizeram pequenos gestos no ar e ele comeou a inserir os dados.
Como sempre, havia anotado o nome de suas vtimas - era uma informao fcil de obter, bastava procurar dentro de uma carteira ou bolsa. As letras surgiram nas lentes de seus culos como se flutuassem no ar.

ALVO: ROCO EVA GRANADA - ELIMINADA
ALVO: HANS HUBER  ELIMINADO

L embaixo, David Becker pagou sua conta e andou pelo saguo do hotel, segurando o copo com o que sobrara do seu drinque. Foi at a varanda pegar um pouco de ar fresco. Entrar e sair, pensou consigo mesmo. As coisas no tinham acontecido como esperava. Tinha uma deciso a tomar: deveria desistir e voltar para o aeroporto? Uma questo de segurana nacional. Ele praguejou. Por que, ento, enviaram um professor universitrio?
Becker certificou-se de que o barman no podia v-lo e jogou o resto do drinque em um jarro com jasmins. A vodca o deixara ligeiramente tonto. A pessoa mais fcil de embebedar de todos os tempos, Susan costumava dizer. Encheu o pesado copo de cristal em um bebedouro e tomou um longo gole de gua.
Esticou-se algumas vezes, tentando expulsar o leve torpor que tomara conta dele. Ento deixou o copo em um canto e atravessou o saguo.
Quando passou pelo elevador, suas portas se abriram. Havia um homem dentro. Tudo que Becker viu foram culos de metal com grossas lentes. O homem pegou um leno e assoou o nariz. Becker sorriu educadamente e andou em direo  porta, saindo do hotel para o calor sufocante da noite de Sevilha.

CAPTULO
42

Dentro do Nodo 3, Susan andava freneticamente de um lado para o outro. Queria ter denunciado Hale quando teve oportunidade.
Ele sentou-se em seu terminal.
- O estresse mata, Sue. Voc quer desabafar?
Susan fez um esforo e sentou-se. Ela achava que, a essa altura, Strathmore j teria terminado a ligao e estaria vindo falar com ela, mas ele no apareceu. Olhou para o terminal, tentando manter a calma. O tracer ainda estava sendo executado. J no importava mais, pois ela sabia qual o endereo que o programa encontraria: GHALE@cripto.nsa.gov.
Susan olhou de relance para o terminal de Hale. Ela no podia esperar mais, era melhor interromper a ligao do comandante. Levantou-se e foi andando em direo  porta.
Hale pareceu no se sentir muito confortvel com esse comportamento estranho de Susan e tambm se levantou, chegando  porta antes dela. Cruzou os braos e ficou no meio do caminho, bloqueando a sada.
- Susan, me diga o que est acontecendo - ele perguntou. - Tem alguma coisa anormal aqui hoje. O que ?
- Deixe-me sair - disse Susan, da forma mais tranqila possvel, embora estivesse se sentindo ameaada.
- Vamos, me conte - insistiu Hale. - Strathmore praticamente demitiu Chartrukian por estar fazendo seu trabalho. O que est rodando dentro do TRANSLTR? No temos nenhum diagnstico que demore 18 horas. Isso  besteira e voc sabe disso. Ento me diga o que est acontecendo.
Susan olhou para Hale, possessa. Voc sabe muito bem o que est acontecendo! - Saia da frente, Greg - exigiu. - Preciso ir ao banheiro.
Hale sorriu ironicamente. Ficou parado por algum tempo, depois abriu caminho. - Est bem, Sue. S estou tentando entender...
	Susan abriu caminho e saiu do Nodo 3. Quando passou pela porta de vidro,
pde sentir os olhos de Hale acompanhando seus passos.
Contrariada, dirigiu-se ao banheiro. Seria preciso fazer um desvio antes de chegar at o comandante Strathmore.

CAPTULO
43

Chad Brinkerhoff tinha 45 anos. Bem-vestido, bem-cuidado e bem-informado, fazia o tipo dinmico e animado. Sua pele bronzeada, assim como o terno impecavelmente passado, no tinha uma ruga. Seus cabelos eram louros e cheios - todos seus! -, e seus olhos, de um azul brilhante, sutilmente realados pelo pequeno artifcio das lentes de contato coloridas.
Chad estava sentado, olhando para seu escritrio e pensando que sua carreira na NSA j tinha chegado ao auge. A sala dele ficava no nono andar, conhecido como Mahogany Row, a "ala de mogno': por seus escritrios luxuosos com mveis e estantes de madeira. A ala da diretoria.
Era sbado  noite, e Mahogany Row estava quase totalmente deserta. Seus executivos j tinham sado h muito tempo e deviam estar se divertindo com um desses passatempos que as pessoas influentes adoram. Brinkerhoff sempre sonhou com um cargo "de verdade" na agncia, mas acabou se tornando um "assistente pessoal': que era o nome oficial para o cargo de puxa-saco na impiedosa corrida pela ascenso poltica. O fato de estar trabalhando lado a lado com o homem mais poderoso de toda a comunidade de inteligncia americana no era grande consolo. Brinkerhoff havia se graduado com honras em Andover e Williams, mas l estava ele, na meia-idade, sem nenhum poder real, nenhum desafio verdadeiro. Passava seus dias organizando a agenda de outra pessoa.
Naturalmente o cargo de assistente pessoal do diretor lhe trazia alguns privilgios. Brinkerhoff tinha um escritrio luxuoso, bem como acesso a todos os departamentos da NSA e uma certa notoriedade por conta das pessoas com quem andava. Executava tarefas corriqueiras para aqueles que ocupavam os mais altos escales do poder. No fundo, Brinkerhoff sabia que havia nascido para ser assistente. Era suficientemente inteligente para anotar o que fosse importante, bonito o bastante para conduzir as entrevistas coletivas e adequadamente preguioso para se contentar com isso.
O suave toque de seu relgio marcou o fim de mais um dia de sua existncia pattica. Droga, pensou. Cinco da tarde de sbado. Que diabos estou fazendo aqui?
- Chad? - o rosto de uma mulher apareceu em sua porta.
Brinkerhoff olhou para ela. Era Midge Milken, a analista de segurana interna de Fontaine. Tinha 60 anos, era gordinha e, para espanto de Brinkerhoff, bastante sedutora. Uma eterna namoradeira, j tendo sido casada trs vezes, Midge transitava pelas seis salas da ala da diretoria com um ar atrevido. Era inteligente, tinha uma enorme intuio, trabalhava muito e diziam que nem mesmo Deus conhecia melhor o funcionamento interno da NSA.
Mas que coisa!, pensou Brinkerhoff, admirando o vestido de caxemira cinza que ela estava usando. Ou estou ficando mais velho ou ela parece mais jovem.
- Aqui esto os relatrios semanais - disse Midge, sorrindo e lhe mostrando um mao de papel. - Voc precisa conferir os valores.
Brinkerhoff percorreu o corpo dela com um olhar indiscreto.
- Observando daqui me parece que est tudo em cima.
- Fala srio, Chad - respondeu, rindo. - Eu poderia ser sua me.
Nem me faa lembrar disso, pensou ele.
Midge entrou e ficou de p ao lado de sua mesa.
- Estou de sada, mas o diretor quer que estes dados estejam compilados quando voltar da Amrica do Sul. Ou seja, segunda bem cedo. - Deixou as folhas impressas sobre a mesa.
- Ei, por acaso fui transferido para a contabilidade?
- No, querido, voc  um animador de cruzeiros martimos. Achei que j tinha percebido.
- Ento por que tenho que lidar com todos esses nmeros?
Ela passou a mo carinhosamente nos cabelos dele.
- Voc disse que queria ter mais responsabilidades. A esto elas.
Olhou-a com uma cara triste.
- Midge... minha vida  um grande vazio.
Ela apontou para o papel e disse:
- Esta  sua vida, Chad Brinkerhoff. - Depois olhou para ele e falou com uma voz meiga: - Mais alguma coisa que eu possa fazer antes de sair?
	Chad fez cara de cachorro abandonado e esticou o pescoo para um lado e para o outro.
- Meus ombros esto tensos, sabe?
- Voc quer uma aspirina? - Midge no se alterou.
- No vou ganhar uma massagem? - perguntou, amuado.
- A revista Cosmopolitan diz que dois teros das massagens nos ombros terminam em sexo - sacudiu a cabea.
Brinkerhoff respondeu, indignado:
- Mas as nossas nunca terminam!
- Exatamente - retrucou Midge com uma piscadela. - Este  o problema. 
- Midge...
- Boa noite, Chad - ela interrompeu, andando em direo  porta.
- Voc realmente vai embora?
- Voc sabe que eu ficaria, mas ainda tenho algum orgulho. Sabe, odeio servir de estepe. Sobretudo para uma adolescente.
	- Minha esposa no  uma adolescente! - defendeu-se Brinkerhoff.  Ela apenas age como se fosse uma.
Midge respondeu com um tom irnico:
- Ah, no estava falando de sua esposa. - Piscou os olhos para realar a ironia. - Estava falando de Carrrmen. - Pronunciou o nome com um forte sotaque porto-riquenho.
Brinkerhoff engasgou.
- Quem?
- Carmen. Aquela moa que trabalha na cantina.
Ele corou. Carmen Huerta era uma chef de 27 anos que trabalhava na canti
na da NSA. Brinkerhoff havia passado vrias horas - supostamente secretas divertindo-se com ela no estoque, aps o expediente.
Midge deu uma piscadela maldosa.
- Lembre-se, Chad... O Big Brother tudo sabe, tudo v.
Big Brother? Brinkerhoff engoliu em seco. Ento o Big Brother tambm vigia o estoque?
O Big Brother era um Centrex 333 que ficava em um canto ao lado da sala principal da ala dos diretores. Era o universo de Midge. Recebia dados de 148 cmeras de vdeo internas, 399 portas eletrnicas, 377 escutas telefnicas e 212 pontos de escuta espalhados por todo o complexo da NSA.
Os diretores da NSA haviam aprendido, da pior forma, que 26 mil funcionrios no eram apenas um grande trunfo, mas tambm um grande perigo. Todos os vazamentos de informao na histria da NSA tinham partido de dentro. Como analista de segurana interna, o trabalho de Midge era vigiar tudo que acontecia dentro da agncia. Inclusive, pelo que Chad acabara de descobrir, aquilo que acontecia dentro do estoque da cantina.
Brinkerhoff se levantou para tentar se defender, mas Midge j havia passado da porta e estava se preparando para ir embora.
- Mantenha as duas mos sobre a mesa - ela disse, sem se virar. - No faa nada estranho depois que eu sair. Lembre-se de que as paredes tm olhos.
Ele se sentou e ficou ouvindo o rudo dos saltos dela se afastando ao longo do corredor. Pelo menos sabia que Midge no iria contar a ningum. Ela tambm tinha suas pequenas fraquezas, incluindo algumas sesses de massagem nos ombros de Brinkerhoff.
Pensou em Carmen. Lembrou-se de seu corpo macio com pernas morenas e firmes e da salsa quente de San Juan que ela gostava de ouvir no rdio, no volume mximo. Ele sorriu. Quem sabe no fao uma boquinha quando terminar aqui?
Olhou para o primeiro relatrio impresso.

CRIPTOGRAFIA - PRODUO / GASTOS

Relaxou. Midge havia lhe dado um presente. O relatrio da Criptografia era sempre trivial. Tecnicamente, ele deveria compilar todos os dados, mas a nica coisa que interessava ao diretor era o CMD - Custo Mdio por Desencriptao. O CMD representava o valor estimado gasto pelo TRANSLTR para quebrar cada um dos cdigos. Contanto que esse nmero ficasse abaixo de mil dlares, Fontaine no se importava. Mil pratas por corrida. Brinkerhoff sorriu.  nosso dinheiro de impostos circulando.
Comeou a percorrer os nmeros, verificando os CMDs dirios, enquanto imagens de Carmen Huerta lambuzada de mel e acar de bolo comearam a passar em sua mente. Trinta segundos depois j estava quase no final. Os dados da Criptografia estavam perfeitos, como sempre.
Contudo, pouco antes de passar para o prximo relatrio, uma coisa chamou sua ateno. No final da folha havia um CMD bem estranho. O nmero era to grande que havia ultrapassado a largura da coluna e invadido a prxima, transformando a pgina em um caos visual. Brinkerhoff olhou para o valor, atnito.
999.999.999? Levou um susto. Um bilho de dlares? As imagens de Carmen se foram. Um cdigo de um bilho de dlares?
Brinkerhoff ficou sentado, paralisado, por alguns segundos. Depois, em um surto de pnico, saiu a toda pelo corredor.
- Midge, volte aqui!

CAPTULO
44

Phil Chartrukian havia voltado ao laboratrio de SegSis. Furioso, as palavras de Strathmore ecoavam em sua mente: Saia agora! Isto  uma ordem! Ele chutou uma lata de lixo e ficou praguejando no laboratrio vazio.
- Papo-furado essa histria de diagnstico! Desde quando o vice-diretor decide contornar os filtros do Gauntlet?
Os SegSis eram bem pagos para proteger os computadores na NSA, e Chartrukian tinha aprendido que s havia dois requisitos fundamentais para o cargo: ser absolutamente brilhante e completamente paranico.
Droga, continuou, irritado, isso no  parania! A merda do ExeMon j est em 18 horas!
Era um vrus. Seus instintos lhe diziam isso. Para ele, estava bem claro o que tinha acontecido: Strathmore havia cometido um erro ao contornar os filtros e agora estava tentando livrar sua cara com essa histria mal contada de "diagnstico':
Chartrukian no estaria to preocupado se o TRANSLTR fosse a nica coisa em jogo, mas no era. Apesar de sua imponncia, o grande gigante decodificador no estava sozinho. Ainda que os criptgrafos acreditassem que o Gauntlet havia sido construdo com o nico objetivo de proteger a mquina suprema da decodificao, os SegSis sabiam que a verdade era um pouco mais complexa. Os filtros do Gauntlet serviam a um deus muito superior: o banco de dados central da NSA.
Chartrukian tinha um fascnio particular pela histria por trs da construo do banco de dados. Apesar dos esforos do Departamento de Defesa para manter a Internet apenas para seu uso interno, no final dos anos 1970 ela era uma ferramenta to til que no podia deixar de atrair universidades e empresas. As universidades foram as primeiras a conseguir um espao na rede, e pouco depois vieram os servidores comerciais. Os portes se abriram e o pblico entrou em massa. No incio dos anos 1990, a Internet, que j havia sido uma rede segura do governo, havia se transformado em uma selva congestionada de e-mails, ciber-pornografia e sites pessoais.
Aps algumas invases no divulgadas, mas altamente desastrosas, aos computadores do Escritrio de Inteligncia Naval, ficou claro que os segredos do governo americano no estavam mais a salvo em computadores que estivessem conectados  sempre crescente Internet. O presidente dos EUA, em conjunto com o Departamento de Defesa, aprovou um decreto secreto para financiar uma nova rede governamental totalmente segura, destinada a substituir a j corrompida Internet e a funcionar como elo entre as agncias de inteligncia do governo norte-americano. Para prevenir novos furtos de segredos governamentais armazenados em computadores, todos os dados importantes foram transferidos para uma nica localizao altamente secreta: o recm-construdo banco de dados da NSA, o "Porte Knox" dos dados de inteligncia norte-americanos.
Literalmente, milhes de fotos, gravaes, documentos e vdeos secretos foram digitalizados e transferidos para essa imensa central de armazenamento e, depois, as cpias fsicas foram destrudas. O banco de dados era protegido por uma camada tripla de no-breaks, que garantiam energia permanente, e por um sistema com redundncia mltipla para manuteno de cpias de segurana dos dados. Para proteg-lo de campos magnticos e de possveis exploses, ele foi colocado em um subterrneo, 70 metros abaixo da superfcie. As atividades dentro da sala de controle eram designadas como Top Secret Umbra - o mais alto grau de segurana dos Estados Unidos.
Os segredos do pas estavam mais seguros do que nunca. Esse banco de dados inexpugnvel continha projetos de armas avanadas, listas do programa de proteo a testemunhas, codinomes dos agentes secretos, anlises militares e detalhes de propostas para operaes de inteligncia, entre outras coisas. No haveria mais invases de hackers que pudessem criar problemas para os servios de inteligncia americanos.
Por outro lado,  claro que os dados armazenados s tinham valor se pudessem ser acessados. O verdadeiro desafio em relao ao banco de dados da NSA no era concentrar e proteger os dados secretos, mas garantir que s pudessem ser acessados pelas pessoas certas. Todas as informaes armazenadas possuam uma classificao de segurana e, de acordo com o nvel da classificao, eram acessadas por membros do governo de forma compartimentalizada. Um comandante de submarino podia acessar os dados para ver as fotos mais recentes dos portos da Rssia, mas no teria acesso, por exemplo, aos planos de uma misso contra os cartis de drogas da Amrica do Sul. Os analistas da CIA poderiam acessar os dados de assassinos j fichados, mas no teriam acesso aos cdigos de lanamento de msseis nucleares, que eram exclusivos do presidente.
Os SegSis naturalmente no possuam acesso s informaes do banco de dados, mas eram responsveis por sua segurana. Como todos os bancos de dados - de companhias de seguros aos de universidades -, o da NSA estava constantemente sob ataque de hackers que tentavam acessar os segredos armazenados nele. Contudo, os programadores de sistemas de segurana da NSA eram os melhores do mundo. Ningum jamais havia invadido o banco de dados da agncia, e a NSA no acreditava que isso um dia fosse acontecer.
Dentro do laboratrio de SegSis, Chartrukian, angustiado, no conseguia decidir se devia ou no partir. Um problema com o TRANSLTR significava tambm um problema com o banco de dados, e a total falta de preocupao de Strathmore era perturbadora.
O TRANSLTR e o banco de dados central da NSA estavam intrinsecamente conectados. Uma vez decifrados, os cdigos eram enviados, atravs de um cabo de fibra tica de 400 metros, da Criptografia para o banco de dados da agncia, onde seriam armazenados. O local sagrado de armazenamento de dados tinha poucas portas de entrada e o TRANSLTR era uma delas. O Gauntlet era o guardio supostamente intransponvel deste portal. S que Strathmore havia aberto o portal.
Chartrukian podia sentir seu corao acelerado. O TRANSLTR est rodando o mesmo cdigo h 18 horas! A idia de que um vrus de computador pudesse entrar no supercomputador e percorrer livremente os pores da NSA era intolervel.
Tenho que relatar isso!, decidiu.
Em uma situao como essa, Chartrukian sabia que s havia uma pessoa para a qual ligar: o oficial snior de SegSis da NSA, o irritadio guru de informtica de 180 quilos que havia construdo o Gauntlet. Seu apelido era Jabba. Ele era um semideus na NSA: percorria os corredores, furioso, pondo fim a crises no mundo virtual e amaldioando a fraqueza de pensamento dos ineptos e ignorantes. Quando Jabba soubesse que Strathmore havia permitido que os filtros do Gauntlet fossem contornados, os portes do inferno iriam se abrir. Azar, pensou ele, esse  um trabalho que precisa ser feito. Pegou o telefone e discou para o celular de Jabba, ligado 24 horas por dia.

CAPTULO
45

David Becker vagou sem destino pela Avenida del Cid, tentando pensar. Chutava pedrinhas no cho enquanto andava. Ainda estava um pouco tonto por causa da vodca. Nada em sua vida parecia estar em foco naquele momento. No parava de pensar em Susan, sem saber se ela j teria ou no ouvido sua mensagem na secretria eletrnica.
Alguns metros  frente, um nibus de Sevilha parou ruidosamente em seu ponto. Becker levantou os olhos. As portas do nibus se abriram, mas ningum saiu. O motor a diesel voltou a roncar, mas, quando o nibus estava comeando a acelerar, trs adolescentes saram de um bar na rua e foram atrs dele gritando e gesticulando. O motorista parou e os garotos subiram rapidamente.
De onde estava, Becker observou, pasmo. Seus olhos estavam novamente focados, mas seu crebro insistia que aquilo que via era impossvel. Uma chance em um milho.
Estou alucinando.
Quando as portas do nibus se abriram, os rapazes se juntaram em torno dela para subir. Becker olhou de novo e, desta vez, teve certeza. Claramente iluminada pela luz de um poste ele viu a garota.
Os passageiros entraram e o motorista deu novamente a partida. Becker saiu em disparada com aquela estranha imagem fixada em sua mente - batom preto, sombra escura em torno dos olhos e o cabelo fixado com gel em trs pontas rgidas: vermelho, branco e azul.
O nibus comeou a se mover enquanto Becker corria alucinadamente pela rua envolto em uma nuvem de monxido de carbono.
- Espera! - gritou.
Os sapatos de Becker escorregavam no asfalto. Infelizmente, parecia ter perdido a incrvel habilidade que demonstrava no squash. Seu crebro estava tendo problemas para controlar os ps. Ele se desequilibrou. Amaldioou o barman do hotel e o jet lago
O nibus era um dos velhos modelos a diesel ainda em circulao e, para sorte de Becker, a primeira marcha era longa e penosa para o motor. Ele sentiu que estava se aproximando. Tinha que alcanar o nibus antes que o motorista passasse a segunda.
O cano de descarga cuspiu uma nuvem densa de fumaa quando o motorista acelerou, preparando-se para trocar de marcha. Becker tentou correr mais rpido. Quando estava quase tocando o pra-choque traseiro, moveu-se para a direita, ficando ao lado do nibus. Agora podia ver as portas traseiras. Como em quase todos os nibus de Sevilha, estavam abertas: ventilao barata.
Fixou os olhos na porta e ignorou a sensao de queimao nas pernas. Os pneus estavam a seu lado, girando cada vez mais rpido. Tentou agarrar a barra de segurana da porta, mas errou e quase caiu. Correu ainda mais rpido.
Ouviu o barulho da caixa de marchas sendo acionada.
Ele vai passar a segunda! No vou conseguir!
Mas, quando o giro do motor caiu enquanto a embreagem era pressionada, o nibus perdeu um pouco de velocidade. Becker pulou. O motorista soltou a embreagem pouco depois de ele ter conseguido segurar a barra metlica. O ombro de Becker quase foi deslocado quando o motor tomou fora novamente. Ele foi jogado para dentro do nibus.
Becker estava estirado no cho do nibus. Todo aquele esforo tinha feito com que a vodca se dissipasse em seu organismo. Sentia dores nas pernas e no ombro. Com dificuldade ficou de p e comeou a andar dentro do nibus escuro. Naquela multido de silhuetas, alguns assentos  frente ele podia ver o cabelo peculiar.
Vermelho, branco e azul. Consegui!
Imaginou o anel, o Learjet  sua espera e, no final disso tudo, Susan. Quando estava quase ao lado do assento da garota, pensando no que iria lhe dizer, o nibus passou por outro poste, iluminando o rosto dela por alguns instantes.
Becker ficou chocado. A maquiagem estava toda borrada. E no era uma garota, e sim um rapaz. Ele usava um piercing no lbio superior, uma jaqueta de couro preto e estava sem camisa.
- Que porra voc quer? - perguntou o adolescente, com uma voz grosseira. Seu sotaque era nova-iorquino.
Com a mesma sensao vertiginosa de estar caindo em um poo sem fundo, Becker olhou para os passageiros do nibus que haviam se voltado para encar-lo. Todos eram punks. Pelo menos a metade usava cabelos pintados de vermelho,	branco e azul.
- Sintate! Senta a! - gritou o motorista.
Becker estava demasiado zonzo para ouvir.
- Sintate! - gritou novamente o motorista.
David olhou, distrado, para o rosto zangado que aparecia no espelho retrovisor. Mas j tinha demorado demais.
Irritado, o motorista deu uma pisada forte no freio, fazendo com que Becker perdesse o equilbrio. Ele tentou segurar-se em um banco, mas no deu tempo. Por um breve instante pairou no ar. Logo em seguida, contudo, aterrissou com fora no cho spero.
Na Avenida del Cid, uma figura emergiu das sombras. Ajustou seus culos de armao de metal e olhou para o nibus que partia. David Becker havia escapado, mas no por muito tempo. De todos os nibus em circulao em Sevilha, ele havia tomado justamente o infame 27.
A linha 27 tinha um nico destino.

CAPTULO
46

Phil Chartrukian bateu o fone no gancho. A linha de Jabba estava ocupada. O chefe de SegSis dizia que os servios de chamada em espera eram uma jogada suja que havia sido inventada pela AT&T para aumentar seus lucros, porque permitiam que todas as chamadas fossem completadas. O msero tempo gasto com a mensagem "Estou em outra linha, ligarei mais tarde" gerava milhes para as companhias telefnicas a cada ano. A recusa de Jabba em manter um servio de chamada em espera era sua maneira de protestar contra a imposio da NSA de que andasse, o tempo todo, com um celular para atender s emergncias.
Chartrukian virou-se e olhou para o salo deserto da Criptografia. O zumbido dos geradores no subterrneo parecia mais alto a cada minuto. Ele sentia que o tempo estava se esgotando. Havia recebido ordens diretas para sair, mas o mantra dos SegSis comeou a ressoar em sua mente: aja primeiro, explique depois.
No campo de alto risco da segurana de sistemas, muitas vezes poucos minutos representavam a diferena entre salvar um sistema ou perd-lo. Raramente havia tempo para justificar um procedimento de defesa antes de implement-lo. Os SegSis eram pagos por sua experincia tcnica e por seus instintos.
Aja primeiro, explique depois. Chartrukian tinha tomado uma deciso e sabia que, quando a poeira assentasse, haveria apenas duas alternativas: ou ele seria o heri da NSA ou teria que procurar um novo emprego.
O SegSis no tinha dvida de que o venervel computador estava com um vrus. S havia, ento, uma escolha sensata a fazer: desligar a mquina.
Havia apenas duas formas de desligar o TRANSLTR. Uma era a partir do terminal pessoal do comandante, que estava trancado no escritrio dele e, portanto, fora de alcance. A outra era uma chave de desligamento manual localizada em um dos andares no subsolo da Criptografia.
Chartrukian engoliu em seco, pois odiava o subsolo. S tinha ido l uma vez durante o treinamento. Era uma espcie de cenrio de fico cientfica, com suas longas passarelas metlicas, dutos de fron e uma queda de 40 metros at os geradores no nvel mais baixo.
De todos os lugares possveis, aquele era o ltimo onde desejaria estar, e Strathmore era a ltima das pessoas que ele desejaria enfrentar; mas seu dever exigia ambas as coisas. Iro me agradecer amanh, pensou, apesar de duvida!seriamente dessa idia.
Tomou coragem e abriu o armrio dos SegSis seniores. Sobre uma prateleira onde havia algumas placas de computador soltas, oculta atrs de um roteador de rede e de um testador de cabos, estava uma caneca com a insgnia de Stanford. Sem tocar a borda, colocou a mo dentro dela e pegou a chave Medeco que estava l dentro.
 impressionante, pensou, o quanto o pessoal de Segurana de Sistemas no entende nada a respeito de segurana.

CAPTULO
47

- Um Cdigo de um bilho de dlares? - Midge falou, controlando-se para no rir, enquanto acompanhava Brinkerhoff de volta ao escritrio. - Preciso ver isso.
- Eu juro - respondeu ele.
Ela lanou-lhe um olhar dbio.
-  melhor que isso no seja alguma idia louca para me passar uma cantada... 
- Midge, eu jamais... - disse ele, na defensiva.
- Eu sei, Chad. No precisa me lembrar.
Poucos segundos depois, Midge estava sentada na cadeira de Brinkerhoff, estudando o relatrio da Criptografia.
- Est vendo? - ele disse, passando o brao por cima dela e apontando para o nmero em questo. -  este CMD aqui. Um bilho de dlares!
Midge riu.
- De fato parece estar ligeiramente acima do normal, no ?
- , ligeiramente - resmungou Chad.
- Me parece uma diviso por zero.
- Uma o qu?
- Uma diviso por zero - repetiu, enquanto verificava o restante dos dados.
- O clculo do CMD  feito dividindo-se a despesa total pelo nmero de cdigos decifrados.
- Sim, claro - assentiu Brinkerhoff, distante, esforando-se para no enfiar os olhos dentro do decote de Midge.
- Se o denominador for zero - continuou ela -, o resultado da diviso tende a infinito. E, como computadores odeiam "infinito': eles preenchem os espaos com uma fileira de noves. - Ela apontou para outra coluna. - Voc est vendo isso aqui?
- Sim - disse Brinkerhoff, concentrando-se novamente no papel.
-  o total bruto da produo de hoje. Olhe s o nmero de cdigos decifrados. Brinkerhoff seguiu obedientemente o dedo dela ao longo da coluna.

CDIGOS DECIFRADOS = O

Midge bateu com o dedo sobre o valor.
- Exatamente o que eu pensava.  uma diviso por zero.
Brinkerhoff olhava, espantado.
- Isso quer dizer que est tudo bem?
Ela deu de ombros.
- Quer dizer apenas que no quebramos nenhum cdigo hoje. O TRANSLTR deve estar de folga.
- De folga? - Brinkerhoff olhou para ela, pensando se aquilo era uma ironia. Ele estava trabalhando com o diretor h bastante tempo e sabia que "folgas" no faziam parte de seu vocabulrio. Especialmente quando se tratava do TRANSLTR. Fontaine pagou dois bilhes de dlares por aquela formidvel mquina de quebrar cdigos e queria o maior retorno possvel desse investimento. Cada segundo que o supercomputador ficasse parado era como queimar dinheiro.
- Midge, ns dois sabemos que o TRANSLTR no "tira folga". Ele trabalha dia e noite sem parar.
	Ela olhou para ele com uma expresso vaga e disse:
	- Talvez Strathmore no estivesse com vontade de trabalhar ontem  noite para preparar o lote de arquivos a serem processados no fim de semana. Provavelmente sabia que Fontaine estaria longe e resolveu sair mais cedo para ir pescar.
- Midge, v com calma. - Brinkerhoff olhou para ela srio. - Deixe o homem em paz.
Todos sabiam que Midge Milken no gostava de Trevor Strathmore. O comandante havia tentado uma jogada esperta ao reescrever o algoritmo Skipjack, mas acabou sendo pego no ato. Apesar de sua iniciativa corajosa e bem-intencionada, a NSA havia pago caro. A EFF ganhou fora, Fontaine perdeu credibilidade junto ao Congresso e, pior de tudo, a agncia saiu do anonimato. De um instante para outro surgiram donas-de-casa no interior do pas reclamando com seus provedores de Internet que a NSA poderia estar lendo seus e-mails. Como se a NSA estivesse preocupada com uma receita secreta para torta de ma.
O fiasco de Strathmore custou caro  NSA, e Midge se sentia responsvel por isso. No que ela pudesse ter previsto a jogada arriscada do comandante, mas porque uma ao no autorizada havia sido executada bem nas costas de Fontaine. E Midge era paga justamente para proteger essas costas. A atitude um pouco distante do diretor o tornava suscetvel, coisa que, por sua vez, deixava Midge tensa. Mas esse era o estilo de Fontaine: ele se afastava e deixava que pessoas com potencial trabalhassem cada uma do seu jeito. Era assim que lidava com Strathmore.
- Midge, voc sabe muito bem que Strathmore no est fazendo corpo mole - argumentou Brinkerhoff. - Ele trabalha como um condenado.
Midge assentiu. No fundo ela sabia que acusar Strathmore de negligncia no tinha sentido. O comandante era uma das pessoas mais dedicadas que ela conhecia. To dedicado, na verdade, que isso havia se tornado um defeito. Ele tomava todos os pecados do mundo como uma cruz pessoal. O plano da NSA para o Skipjack havia sido idia de Strathmore, uma tentativa extremada de mudar o mundo. Infelizmente, como tantas outras cruzadas divinas, essa tambm acabou em crucificao.
- Est certo - concordou. - Estou sendo um pouco mais dura do que deveria. - Um pouco? A fila de arquivos que Strathmore tem para processar  enorme. Ele definitivamente no iria deixar o TRANSLTR parado durante todo o fim de semana.
- Tudo bem, tudo bem. Falei bobagem. - Levantou a sobrancelha e ficou pensando por que o TRANSLTR no teria quebrado nenhum cdigo durante todo o dia. - Deixa eu ver uma coisa - disse ela, e comeou a vasculhar as pginas do relatrio. Encontrou o que estava procurando e examinou os nmeros. - Voc tem razo, Chad. O TRANSLTR est funcionando a pleno vapor. Na verdade o consumo de energia est um pouco acima do normal: j passamos de um milho de quilowatts/hora desde a meia-noite passada.
- Ento o que pode estar acontecendo?
- No sei, nada disso faz sentido - disse ela.
- Voc quer recalcular os dados?
Ela o olhou com ar de reprovao. Havia duas coisas a respeito de Midge Milken que no deviam ser questionadas. Uma delas eram seus dados. Brinkerhoff esperou enquanto Midge estudava os nmeros.
- Humm - resmungou ela, aps algum tempo. - As "estatsticas de ontem estavam normais: 237 cdigos foram quebrados. CMD, U$874. Tempo mdio por cdigo: cerca de seis minutos. Consumo de energia: na mdia. ltimo cdigo a ser enviado para o TRANSLTR... - ela parou.
- O que ?
- Estranho. O ltimo arquivo no histrico de ontem foi submetido s 23h3 7. - E da?
- E da que o TRANSLTR quebra um cdigo a cada seis minutos, aproximadamente. O ltimo arquivo de cada dia em geral  processado em torno da meia-noite. Definitivamente no parece que... - Midge parou no meio da frase, perplexa.
Brinkerhoff aproximou-se.
- O que foi?
Midge estava olhando para o relatrio, boquiaberta.
- Sabe o tal arquivo? O que foi submetido ao TRANSLTR ontem  noite? 
- Sim?
- Ainda no foi quebrado. Foi submetido s 23:37:08, mas no h nenhum horrio de decodificao. - Midge revirou algumas pginas. - Nem ontem nem hoje!
Brinkerhoff continuava sem entender.
- Talvez eles estejam rodando um diagnstico complexo.
Midge sacudiu a cabea.
- Complexo o suficiente para tomar 18 horas? Isso  bem difcil. Alm disso, o arquivo veio de fora. Temos que falar com Strathmore.
- Ligar para a casa dele? - assustou-se Brinkerhoff. - Numa noite de sbado?
- No. Se conheo Strathmore, ele est a par de tudo. Aposto um bom jantar como ele est aqui agora. Apenas um palpite. - Os palpites de Midge eram a outra coisa que nunca devia ser questionada. - Vamos - disse ela, levantando-se. - Vamos ver se estou certa.
Brinkerhoff seguiu Midge at sua sala, onde ela se sentou diante do Big Brother e comeou a digitar sobre os teclados como uma pianista. Ele olhou para a parede onde estavam embutidos monitores de vdeo com legendas.
Todas as telas mostravam agora o selo da NSA.
- Voc vai espionar a Criptografia? - perguntou, nervoso.
- Infelizmente no posso. A Criptografia  completamente selada. No temos vdeo nem som. Nada. Ordens de Strathmore. Tudo que tenho so estatsticas de entrada e coisas bsicas sobre o TRANSLTR. Na verdade temos sorte por ter ao menos isso. Strathmore queria isolamento total, mas Fontaine insistiu no bsico.
Brinkerhoff continuava um pouco perplexo.
- A Criptografia no tem monitorao por vdeo?
- Por qu? - perguntou ela, sem tirar os olhos de seu monitor. - Voc e Carmen esto procurando um local mais discreto?
Brinkerhoff resmungou algo incompreensvel, enquanto Midge digitava.
- Estou verificando os registros do uso do elevador de Strathmore.  Ela observou sua tela por alguns instantes e depois deu um tapinha na mesa com o dedo. - Ele est aqui - disse, confiante. - Est na Criptografia neste exato instante. Olha s. Isso  que  um planto... ele chegou ontem de manh, bem cedo, e no entrou de novo no elevador desde ento. No h qualquer registro do carto magntico dele no porto principal. Ento ele est l, com toda a certeza.
Brinkerhoff soltou um suspiro de alvio.
- Bem, se Strathmore est l, isso quer dizer que est tudo bem, certo? Midge pensou um pouco.
- Talvez.
- Como assim, "talvez"?
- Melhor ligarmos para verificar.
- Midge, ele  o vice-diretor. Com certeza tem a situao sob controle. No vamos nos precipitar e... - resmungou Brinkerhoff.
- Ora, Chad, deixe de ser infantil. Estamos apenas fazendo nosso trabalho. Temos um ponto fora da curva nas estatsticas e estamos verificando o que est acontecendo. Alm disso,  sempre bom lembrar a Strathmore que o Big Brother est vigiando. Isso talvez faa com que ele pense um pouco mais antes de planejar outra de suas aventuras insanas para salvar o mundo.
Midge pegou o telefone e comeou a discar. Brinkerhoff estava se sentindo desconfortvel com a situao.
	- Voc tem certeza de que deve perturb-lo?
	- Ah, eu no vou perturb-lo - disse Midge, passando o fone para ele.
- Voc vai.





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48

- O qu? - Midge bradou, incrdula. - Strathmore teve a ousadia de dizer que nossos dados esto incorretos?
Brinkerhoff disse que sim, enquanto colocava o fone de volta no gancho. - Ele negou que o TRANSLTR esteja parado em um nico arquivo durante as ltimas 18 horas?
- Na verdade ele foi bem simptico - Brinkerhoff sorria, feliz consigo mesmo por ter sobrevivido quele telefonema. - Ele me assegurou que o TRANSLTR est funcionando perfeitamente bem. Disse que continua quebrando cdigos a cada seis minutos, neste exato momento. E ainda me agradeceu por ter ligado para ver como ele estava.
- Est mentindo - retrucou Midge. - Tenho rodado essas estatsticas sobre a Criptografia nos ltimos dois anos. Os dados nunca saram errados.
- Bem, h sempre uma primeira vez para tudo, suponho - disse ele casualmente. Ela lanou-lhe um olhar furioso.
- Eu verifico todos os dados duas vezes.
- Sim, mas... voc sabe o que dizem sobre computadores, no? Mesmo quando erram, eles o fazem de forma consistente!
Midge virou-se e encarou-o de frente.
- Isso no  engraado, Chad. O vice-diretor acabou de contar uma mentira ridcula para o pessoal do diretor. E eu quero saber por qu!
Brinkerhoff comeou a questionar se tinha sido uma boa idia pedir que ela voltasse. A reao de Strathmore deixou Midge ainda mais intrigada. Desde a histria com o Skipjack, sempre que ela tinha a sensao de que algo suspeito estava acontecendo, deixava de ser levemente insinuante para se tornar completamente obsessiva. No havia nada que a fizesse parar enquanto no resolvesse o assunto, fosse o que fosse.
- Midge, e se os nossos dados estiverem incorretos? - perguntou Brinkerhoff, preocupado. - Pense bem: que tipo de arquivo poderia manter o TRANSLTR ocupado durante 18 horas? No faz sentido. V para casa, j est tarde.
Ela lhe devolveu um olhar altivo, colocando o relatrio sobre a mesa.
- Eu confio nos dados. Meus instintos dizem que esto corretos. Brinkerhoff fechou a cara. Nem mesmo o diretor questionava os instintos de Midge nos ltimos tempos - por algum estranho motivo, em geral ela estava certa.
- H algo de errado e pretendo descobrir o que  - declarou.

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49

Becker conseguiu se levantar do cho do nibus e se jogou em um assento vazio.
- Ei, mandou bem, seu merda. - O rapaz com o corte de cabelo com trs pontas para cima falou, zombando dele. Era o garoto que ele havia perseguido at o nibus. Olhou, desanimado, para o contingente de cabeleiras vermelhas. brancas e azuis.
- Por que esses cabelos? - perguntou Becker, percorrendo com os olhos o interior do nibus. - Esto todos usando...
	- Vermelho, branco e azul? - completou o garoto.
Becker tentou no ficar olhando para a perfurao infeccionada no lbio superior do rapaz.
- Judas Taboo - disse ele.
Becker no tinha idia de quem fosse.
O punk cuspiu no corredor, claramente desdenhando a ignorncia de Becker.
	- Quem  Judas Taboo? O maior punk desde Sid Vicious? Estourou os miolos aqui, h um ano.  seu aniversrio.
	Becker assentiu vagamente, sem compreender o que uma coisa tinha a ver com a outra.
- Taboo tinha pintado seu cabelo assim no dia em que resolveu pular fora. - O garoto cuspiu novamente. - Qualquer f que se preze est usando o mesmo cabelo hoje.
Durante algum tempo, Becker no disse nada. Lentamente, como se houvesse tomado uma injeo de tranqilizantes, virou-se e olhou para a frente, examinando o grupo que estava no nibus. Todos eram punks. A maioria olhava para ele.
Todos os fs esto usando o mesmo estilo de cabelo hoje.
	Becker levantou-se e puxou a corda que sinalizava ao motorista para parar.
Estava na hora de se mandar. Puxou novamente. Nada aconteceu. Puxou mais forte. Nada.
	- Eles desligam isso na linha 27. - O garoto cuspiu mais uma vez.  Assim no torramos o saco deles.
	Becker se virou.
	- Quer dizer que no posso descer?
O punk riu.
- S no final da linha.
Cinco minutos depois, o nibus seguia por uma estrada sem iluminao, j fora da cidade. David virou-se para o garoto que estava atrs dele.
- Essa coisa vai parar alguma hora?
- Faltam uns quilmetros ainda.
- Para onde estamos indo?
O rosto dele se abriu em um sorriso debochado.
- Voc no sabe?
Becker sacudiu os ombros.
O garoto comeou a rir histericamente.
- Puta merda, cara, voc vai adorar!

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50

A apenas alguns metros do TRANSLTR, Phil Chartrukian parou em cima de uma inscrio no cho, em letras brancas:

SUBSOLO DA CRIPTOGRAFIA
SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO

Ele definitivamente no era parte do "pessoal autorizado. Olhou rapidamente para o escritrio de Strathmore. As cortinas continuavam fechadas. Chartrukian havia visto Susan Fletcher saindo na direo dos banheiros, ento ela tambm no seria um problema. A nica questo era Hale. O SegSis olhou na direo do Nodo 3 pensando se o criptgrafo estaria observando.
Dane-se, pensou.
Sob seus ps, no cho, as bordas de um alapo de acesso eram quase invisveis. Chartrukian pegou a chave que tinha retirado do laboratrio de SegSis.
Ajoelhou-se, inseriu a chave em um buraco no cho e girou-a. A fechadura embaixo dele abriu-se com um dique. Ento girou a grande trava externa e desbloqueou o acesso. Olhando mais uma vez em volta, nervosamente, agachou-se e puxou a tampa do alapo. A porta era pequena, com cerca de um metro quadrado, mas pesada. Quando se abriu, o SegSis quase caiu para trs.
Uma lufada de ar quente saiu l de dentro. O ar tinha o odor peculiar do gs fron. Pequenas nuvens de vapor saam pela abertura, iluminadas pela luz vermelha de emergncia dos andares inferiores. O zumbido distante dos geradores passou a ser um rudo audvel. Chartrukian levantou-se e olhou para dentro da portinhola. Parecia mais um portal do inferno do que uma entrada de manuteno de um computador. Uma escada estreita conduzia at uma plataforma no subsolo. Abaixo desta havia outras escadas, mas tudo que ele podia ver era uma nvoa vermelha turbilhonante.
Greg Hale estava de p atrs do vidro espelhado do Nodo 3. Ficou observando enquanto Phil Chartrukian descia a escada em direo aos subnveis. De onde Hale estava olhando a cena, parecia que a cabea do tcnico havia sido cortada e deixada sobre o cho da Criptografia. Depois ela sumiu dentro da nvoa avermelhada.
Corajoso, esse rapaz, murmurou Hale. Sabia para onde Chartrukian estava indo. Um desligamento manual de emergncia do TRANSLTR era uma ao lgica a tomar se ele acreditava que havia um vrus. Infelizmente, tambm era uma forma de fazer com que a Criptografia se enchesse de tcnicos de SegSis cerca de dez minutos depois. Qualquer ao de emergncia iria disparar alertas no quadro de monitorao principal. E uma investigao da Criptografia pelo pessoal de SegSis era algo que Hale no podia permitir. Ele deixou o Nodo 3 e dirigiu-se para o alapo. Precisava impedir Chartrukian de levar a cabo sua tentativa.

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51

Jabba se parecia muito com um enorme girino. Assim como o personagem de cinema que lhe valera o apelido, o homem parecia uma esfera careca. Como anjo da guarda residente de todos os sistemas de computadores da NSA, Jabba marchava de um departamento para outro ajustando, fixando, reprogramando e reafirmando sua crena de que a preveno era o melhor remdio. Nenhum computador da NSA havia sido infectado durante o reinado de Jabba, e ele pretendia que as coisas permanecessem assim.
A base de Jabba era uma sala ligeiramente elevada de onde podia ver o banco de dados subterrneo e ultra-secreto da NSA. Era l que um vrus poderia causar o maior estrago e era l que ele passava a maior parte do tempo. Naquele exato instante, contudo, Jabba estava de folga, comendo calzones na cantina da NSA, aberta 24 horas por dia. Estava a ponto de atacar seu terceiro calzone quanto o celular tocou.
- Manda - ele disse, tossindo enquanto engolia de uma s vez o grande pedao que estava em sua boca.
- Jabba - falou carinhosamente uma voz feminina. -  Midge.
- Ei! A Rainha dos Dados! - respondeu o grandalho, animado. Ele tinha um carinho especial por Midge Milken. Ela era inteligente, alm de ser a nica mulher que Jabba j havia conhecido que flertava com ele. - Como vo as coisas?
- Tudo bem.
Ele limpou a boca. - Voc est na rea?
-Sim.
- Quer vir comer um calzone?
- Adoraria, Jabba, mas tenho que vigiar a cintura.
- Srio? - brincou. - Posso vigiar com voc?
- Mau menino...
- Voc nem faz idia!
- Que bom que achei voc, estou precisando de uns conselhos.
Ele tomou um longo gole de refrigerante.
- Manda ver.
- Pode no ser nada demais, mas tem algo de estranho nas estatsticas que chegaram da Criptografia. Voc talvez possa me ajudar.
- O que temos a? - disse, tomando outro gole.
- Um relatrio dizendo que o TRANSLTR est trabalhando sobre o mesmo arquivo h 18 horas e ainda no conseguiu decifr-la.
Jabba cuspiu refrigerante por cima do calzone.
- O qu?
- Alguma idia?
- Que relatrio  esse? - perguntou, enquanto tentava secar o calzone com um guardanapo.	- Relatrio de produo. Basicamente anlises de custo. - Midge explicou rapidamente o que ela e Brinkerhoff haviam encontrado.
- Vocs ligaram para Strathmore?
- Sim, e ele disse que est tudo bem por l. Segundo ele, nossos dados estc errados e o TRANSLTR est funcionando a pleno vapor.
Jabba passou um dedo em sua testa rechonchuda.
- Bom, qual o problema? Seu relatrio est errado. - Midge no respondeu.
Jabba entendeu o silncio. - Voc no acha que seja um erro no relatrio?
- Isso.
- Ento Strathmore estaria mentindo?
- No  isso - disse Midge, com diplomacia, sabendo que estava pisando num terreno delicado. - Mas essas estatsticas sempre foram exatas. Achei que seria bom ouvir outra opinio.
- Bem, no me sinto feliz por ter que te dar essa notcia, mas acho que seus dados esto equivocados.
-  o que voc pensa?
- Poderia apostar meu emprego. - Jabba mordeu uma grande fatia de calzone ainda molhado de refrigerante e continuou falando com a boca cheia.  O tempo mais longo que um arquivo conseguiu resistir dentro do TRANSLTR foi de trs horas. E isso inclui diagnsticos, testes de capacidade mxima, tudo o que voc possa imaginar. A nica coisa que poderia parar aquela mquina durante 18 horas seria um vrus.  a nica opo.
- Vrus?
- Sim, algum tipo de cdigo cclico. Algo que entrasse nos processadores, criasse um loop e basicamente parasse a mquina toda.
- Olha, Strathmore est na Criptografia h 36 horas, direto - prosseguiu ela.
- Voc acha que ele est tentando lidar com um vrus?
Jabba riu.
- Strathmore est l h 36 horas? Pobre coitado. A mulher dele provavelmente proibiu-o de voltar para casa. Me falaram que ela tem perturbado bastante o sujeito.
Midge pensou um pouco. Ela tambm tinha ouvido aquela fofoca. Ficou pensando se no estava sendo um pouco paranica.
- Midge, escuta. - Jabba respirou fundo e tomou outro longo gole. - Se o brinquedinho de Strathmore estivesse com um vrus, ele teria me ligado. O comandante  um crnio, mas no entende nada desse negcio de vrus. O TRANSLTR  tudo para ele. Ao primeiro sinal de problema, ele teria apertado o boto vermelho e, nessa rea, isso significa "eu". - Jabba puxou com a boca um pedao de mozarela. - Alm disso, no h a menor chance de que tenha entrado um vrus no TRANSLTR. O Gaundet  a melhor barreira de filtragem que eu j escrevi. Nada passa por ele.
Depois de um longo silncio, Midge suspirou.
-  Alguma outra possibilidade?
- Sim. Seus dados esto incorretos.
- Voc j disse isso.
- Certo.
Ela pensou.
- E voc no ouviu nenhum boato? Absolutamente nada? 
Jabba riu ruidosamente.
- Midge, olha aqui... Eu sei que aquela histria com o Skipjack foi pssima. Strathmore enfiou os ps pelas mos. Mas sai dessa, j passou, chega. - Houve um outro silncio longo na linha. Jabba percebeu que tinha ido longe demais. - Desculpe, Midge. Eu sei que sobrou para voc naquela histria. Strathmore fez besteira, e sei como voc se sente em relao a ele.
- Isso no tem nada a ver com o Skipjack - respondeu ela, rspida.
T bom, pensou Jabba.
- Olha, eu no tenho nada contra nem a favor de Strathmore. Para mim, o cara  apenas um criptgrafo e todos so um bando de boais egocntricos. Sempre precisam de tudo "para ontem': Cada um dos arquivos em que trabalham  o que vai salvar o mundo.
- Aonde voc quer chegar?
- S estou dizendo que Strathmore  to maluco quanto todos os outros. Mas tambm  um sujeito que ama o TRANSLTR acima de tudo, at mais do que a prpria mulher. Se houvesse um problema por l, ele teria me ligado.
Midge ficou em silncio um longo tempo. Finalmente ela suspirou e disse, relutante:
- Ento voc quer dizer que meus dados esto errados?
- Temos um eco a? - Jabba riu.
Ela tambm riu do outro lado da linha.
- Bom, faz o seguinte. Me manda uma ordem de servio. Na segunda-feira passo por l para verificar a mquina. At l, sugiro que voc v para casa. Hoje  sbado  noite! Arrume algum para sair ou algo assim.
Ela suspirou.
- Estou tentando Jabba, juro que estou.

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52

O Club Embrujo - "Feiticeiro" - ficava nos subrbios da cidade, no final da linha do nibus 27. Parecia-se mais com uma fortificao do que com um clube noturno. Era cercado por um muro alto de cimento no qual haviam sido embutidos cacos de garrafas de cerveja. Era um sistema de segurana primitivo que impedia qualquer um de entrar ilegalmente sem deixa; para trs um pedao da prpria carne.
Durante a viagem, Becker chegou  concluso de que havia falhado. Era hora de ligar para Strathmore e contar-lhe as ms notcias. A busca tinha sido em vo. Ele fez o melhor possvel, mas estava na hora de voltar para casa.
No entanto, ao olhar para a massa de adolescentes se empurrando para entrar no clube, Becker no tinha mais tanta certeza de que sua conscincia lhe permitiria abandonar a busca. Estava olhando para o maior grupo de punks que j vira. Havia cabelos vermelhos, brancos e azuis por toda parte.
Becker avaliou as opes possveis. Olhando para todos aqueles jovens, pensou: Onde mais ela poderia estar neste sbado  noite? Amaldioando sua sorte, desceu do nibus.
A entrada do Club Embrujo era por um corredor estreito de pedras. Assim que se aproximou, foi sugado pelo fluxo de adolescentes se comprimindo para entrar.
- Sai da frente, babaca! - disse uma alfineteira humana, abrindo caminho com uma cotovelada em Becker.
	- Ei, bonita gravata. - Algum deu um puxo na gravata de Becker.
	- E a, quer transar? - Uma adolescente olhou para ele, parecendo sada de A noite dos mortos-vivos.
A escurido do corredor se abriu em uma grande pista de dana de cimento impregnada pelo cheiro de lcool e suor. A cena era surreal - uma caverna na montanha dentro da qual centenas de corpos se moviam como um s. Pulavam para cima e para baixo, como uma onda humana, braos colados ao corpo, cabeas balanando como protuberncias sem vida no topo de espinhas rgidas. Os mais ensandecidos mergulhavam de um palco, caindo em um mar de corpos humanos. Corpos eram rolados de um lado para outro como se fossem bolas de praia. No teto, luzes estroboscpicas faziam com que a cena lembrasse um velho filme mudo.
Do outro lado da pista, torres de alto-falantes chacoalhavam com tanta intensidade que nem o mais corajoso dos punks conseguia ficar muito perto.

Becker tapou os ouvidos com os dedos e comeou a procurar em meio  multido. Para onde quer que olhasse havia outra cabea vermelha, branca e azul. Os corpos formavam uma massa to compacta que era impossvel discernir as camisas. No viu nada que se parecesse com uma bandeira da Inglaterra. Era bvio que ele no conseguiria se misturar  multido sem ser pisoteado. Algum comeou a vomitar perto dele.
Que timo, grunhiu Becker. Saiu em direo a um corredor cujas paredes estavam cobertas de grafites.
O corredor virou um estreito tnel espelhado que dava para um ptio com mesas e cadeiras. O ptio tambm estava cheio de punks, mas, para Becker, era como a entrada de Shangril. O cu de vero abriu-se sobre ele e o rudo ensurdecedor da msica ficou distante.
Sem dar ateno aos olhares curiosos, saiu andando em meio  multido. Afrouxou a gravata e deixou-se cair em uma cadeira na primeira mesa vazia que encontrou. Parecia que uma vida inteira havia se passado desde que Strathmore ligara pela manh.
Aps colocar no cho algumas garrafas de cerveja vazias que estavam na mesa, Becker pousou a cabea nas mos. Apenas alguns minutos, pensou.
A cerca de dez quilmetros dali, o homem de culos com armao de metal estava sentado no banco de trs de um txi, percorrendo uma estrada para fora da cidade.
- Embrujo - resmungou.
O motorista olhou para seu curioso passageiro pelo espelho retrovisor e concordou.
Embrujo, murmurou para si mesmo. A cada noite esse lugar fica mais estranho.

CAPTULO
53

Tokugen Numataka estava nu, deitado sobre uma mesa de massagem em seu escritrio. A massagista estava relaxando a musculatura tensionada de seu pescoo. Foi descendo com as palmas das mos pela musculatura tensa da coluna, lentamente, at chegar  toalha que cobria sua bunda. Suas mos deslizaram um pouco mais, para baixo da toalha. Numataka mal notou. Sua mente estava longe. Esperava que o telefone tocasse, mas ele continuava em silncio.
Algum bateu na porta.
- Entre - ordenou Numataka.
A massagista rapidamente tirou as mos debaixo da toalha.
A operadora da mesa telefnica entrou e fez uma reverncia.
- Honorvel presidente?
- Fale.
A operadora curvou-se novamente.
- Falei com a central telefnica local. A chamada veio do cdigo de rea 1. Estados Unidos.
Numataka sorriu. A chamada veio dos Estados Unidos. Era verdadeira.
- De que parte do pas?
- Ainda esto tentando descobrir, senhor.
- Muito bom. Me avise quando tiver novidades.
A operadora curvou-se novamente e saiu.
Numataka sentiu sua musculatura relaxar-se. Cdigo de rea 1. Enfim, uma boa notcia.

CAPTULO
54

Susan Fletcher andava impacientemente de um lado para o outro do banheiro da Criptografia e contava lentamente at 50. Sua cabea estava latejando. S mais um pouco, disse a si mesma. Rale  North Dakota!
Susan estava tentando imaginar quais seriam os planos de Hale. Ser que ele iria divulgar a chave? Ou seria ganancioso e tentaria vender o algo ritmo? Ela no podia mais agentar a espera. Era hora. Tinha que falar com Strathmore.
Cuidadosamente entreabriu a porta e olhou para o vidro espelhado do outro lado da Criptografia. No tinha como saber se Hale a estava observando. Ela precisava chegar o mais rpido possvel ao escritrio de Strathmore. Sem correr, pois no podia deixar que Hale suspeitasse que estava em seu encalo. Estava prestes a abrir a porta quando ouviu algo. Vozes masculinas.

As vozes estavam saindo de um duto de ventilao prximo ao cho. Ela soltou a porta e aproximou-se da sada de ar. As palavras chegavam abafadas pelo zumbido dos geradores no subsolo. Pelo som, parecia que a conversa estava vindo das plataformas do subsolo. Uma das vozes soava estridente e irritada. Parecia ser Phil Chartrukian.
- Ento voc no acredita em mim? Ouviu sons de discusso.
- Ns estamos com um vrus! Depois o som de um grito spero. Temos que chamar Jabba!
Ento ela ouviu sons de luta.
- Me solte!
O rudo que se seguiu mal parecia humano. Foi como um longo uivo agudo de horror, como um animal torturado que est prestes a morrer. Susan sentiu seu sangue gelar. O rudo cessou de forma to abrupta quanto havia comeado. E depois houve apenas silncio.
Um instante depois, como um evento cronometrado em um filme barato de horror, as luzes do banheiro enfraqueceram. Depois piscaram e se apagaram. Susan Fletcher viu-se em meio  escurido completa.


CAPTULO
55

- Ei, sai da! Voc est no meu lugar, imbecil.
Becker levantou a cabea, que havia recostado sobre a mesa. Ser que ningum fala espanhol neste pas?
De p ao lado dele estava um adolescente baixo, com espinhas no rosto e cabelo raspado. Metade de sua careca estava vermelha, a outra metade estava roxa. Parecia um ovo da Pscoa.
- Eu disse que voc est no meu lugar, idiota.
- , ouvi da primeira vez - disse Becker, levantando-se. No estava querendo brigar. Hora de partir.
- Onde foi que voc colocou as minhas garrafas? - gritou o garoto, raivoso.
Ele usava um alfinete de segurana no nariz.
Becker apontou para as garrafas vazias que havia colocado no cho.
- Esto todas vazias.
- Essas porras so as minhas garrafas vazias!
- Mil perdes - disse Becker, virando-se para ir.
O punk barrou seu caminho.
- Pegue as garrafas.
Becker olhou para ele, profundamente cansado.
- Voc est brincando, no? - Ele era uns dois palmos mais alto e provavelmente uns 30 quilos mais pesado que o rapaz.
- Eu l tenho cara de quem est brincando, porra?
Becker no disse nada.
- Pega essa merda!
Becker mais uma vez tentou passar, mas o garoto bloqueou seu caminho.
- J te disse pra pegar a porra das garrafas!
Nas mesas em volta, punks com os olhos vidrados comearam a se virar para observar a confuso.
	- Melhor parar com isso, garoto - disse Becker, tentando manter a calma.
	- T te avisando! - ameaou o outro. - Essa mesa  minha! Venho aqui toda noite. Agora pegue as garrafas!
	Becker perdeu a pacincia. Deveria estar nas montanhas com Susan. O que estava fazendo na Espanha discutindo com um adolescente alucinado?
	Com um golpe rpido, pegou o garoto por baixo dos braos, levantou-o no ar e jogou-o de costas sobre a mesa.
	- Olha aqui, seu baixote de nariz furado. Ou voc sai da minha frente agora ou vou arrancar esse alfinete do seu nariz e fechar a sua boca com ele.
	O garoto ficou lvido.
	Becker continuou segurando-o por alguns instantes, depois soltou-o. Sem tirar os olhos do rapaz apavorado, ele se agachou, pegou as garrafas e colocou-as
	de volta na mesa.
- J se resolveu?
O punk estava sem fala.
- No h de qu - retrucou Becker. Esse cara  uma propaganda viva a favor do controle de natalidade.
	- V pro inferno! - gritou o garoto, ao perceber que seus amigos estavam rindo dele. - Bundo!
	Becker no se moveu. Estava lembrando de uma coisa que o garoto havia dito: eu venho aqui toda noite. Becker pensou que ele talvez pudesse ajud-lo.
	- Desculpe, mas eu no ouvi seu nome...
	- Meio-a-Meio - sibilou, como se estivesse proferindo uma sentena de morte.
- Meio-a-Meio? - ironizou Becker. - Deixa eu adivinhar...  por causa da careca? 
- No me diga, Sherlock.
- Nome interessante. Foi voc quem inventou?
- Isso a - disse, orgulhoso. - Vou patentear.
Becker devolveu com sarcasmo.
- Voc quer dizer registrar os direitos?
O garoto olhou de volta, confuso.
- Voc precisa de direitos autorais para um nome, no uma patente.
- Ah, que se dane! - respondeu o punk, perdido na conversa.
A diversificada aglomerao de punks bbados ou drogados das mesas em volta ria histericamente. Meio-a-Meio levantou-se e confrontou Becker.
- Que porra voc quer de mim?
Becker pensou: Queria que voc lavasse a cabea, parasse de falar palavres e arrumasse um emprego. Concluiu que era coisa demais para pedir num primeiro encontro.
- Preciso de uma informao.
- Vai se danar.
- Estou procurando algum.
- Vi ele no.
- Eu no o vi. - Corrigiu Becker, enquanto fazia sinal para uma garonete que passava. Comprou duas cervejas Aguila e deu uma garrafa para Meio-a-Meio. O garoto no sabia bem o que fazer. Tomou um gole de cerveja e olhou para Becker, desconfiado.
- T dando em cima de mim,  cara?
Becker sorriu.
- Estou atrs de uma garota.
Meio-a-Meio deu uma risadinha histrica.
- No vai arrumar nada de interessante com essa roupa a.
Becker olhou para ele, srio.
- No estou querendo arrumar nada. S quero conversar com ela. Talvez voc pudesse me ajudar a encontr-la.
Meio-a-Meio colocou sua garrafa na mesa.
- Voc  tira?
- Cara, eu sou de Maryland. Se fosse um tira, estaria meio fora da minha jurisdio, no acha?
O garoto no sabia o que responder.
- Meu nome  David Becker - sorriu, estendendo a mo sobre a mesa.
O punk se afastou, enojado.
- No encosta em mim, seu veado.
Becker deixou o brao pender.
- Vou te ajudar, mas vai te custar uma grana - disse ele, com escrnio.
- E quanto seria isso?
- Mil pratas.
- Bom, eu s tenho pesetas - respondeu Becker.
- Que seja. Mil pesetas, ento.
Obviamente a converso de moedas no era um dos fortes de Meio-a-Meio. Mil pesetas equivaliam a pouco menos de dez dlares americanos.
- Fechado! - disse Becker, batendo com sua garrafa na mesa.
O garoto sorriu pela primeira vez.
- Fechado.
- Bom - prosseguiu Becker em um tom de voz mais baixo. - Acho que a garota deve estar por aqui. Ela tem cabelo vermelho, branco e azul. 
Meio-a-Meio riu.
- Ei, hoje  aniversrio de Judas Taboo. Todo mundo est usando...
- Ela tambm est usando uma camiseta com a bandeira da Inglaterra e tem uma caveira pendurada na orelha.
Uma vaga sensao de reconhecimento cruzou o olhar do rapaz. Becker percebeu e ficou animado. Mas, um segundo depois, Meio-a-Meio fechou a cara. Socou a mesa com a garrafa e agarrou Becker pela camisa.
- Ela est com o Eduardo, seu imbecil! Melhor se cuidar! Se voc encostar nela, ele te mata.

CAPTULO
56

Midge Milken entrou irritada na sala de reunies que ficava prxima ao seu escritrio. Alm da mesa de mogno de dez metros de comprimento com o selo da NSA entalhado na madeira, a decorao inclua trs aquarelas de Marion Pike, uma samambaia, um pequeno bar com bancada de mrmore e, naturalmente, o indefectvel bebedouro. Midge pegou um copo de gua, esperando que a ajudasse a se acalmar um pouco.
Enquanto bebericava, olhou pela janela. O luar passava pelos espaos entre as venezianas e traava contornos sobre a mesa. Ela sempre achou que essa sala seria mais adequada para o diretor do que o atual escritrio dele, na parte frontal do prdio. A sala de Fontaine dava para o estacionamento, enquanto da sala de reunies podia-se ver a maioria das instalaes da NSA, inclusive o domo da Criptografia, uma ilha de alta tecnologia separada do prdio principal, flutuando numa rea de 12 mil metros quadrados de florestas. Estrategicamente construda atrs da proteo natural proporcionada por uma alia de bordos, no era fcil avistar a Criptografia da maioria das janelas do complexo da NSA, mas a viso a partir da ala da diretoria era perfeita. Para Midge, a sala de reunies era o ponto estratgico ideal para que um rei supervisionasse seus domnios. Ela j havia sugerido a Fontaine que mudasse seu escritrio para l, mas o diretor respondera apenas: "Nos fundos, no:' Fontaine era o tipo de homem que no gostava de ficar por trs.
Midge abriu totalmente as persianas. Olhou para fora, para as montanhas. Com um suspiro de lamentao, virou-se na direo da Criptografia. Midge sempre havia achado reconfortante observar o domo, um feixe de luz brilhando, no importa qual fosse a hora. Naquela noite, contudo, quando olhou para fora, no havia nada de reconfortante. Em vez disso, encontrou apenas a escurido. Colou o rosto contra o vidro, assustada. A Criptografia havia desaparecido.

CAPTULO
57

Os banheiros da Criptografia no tinham janelas e, na mais completa escurido, Susan no conseguia ver nada. Ficou imvel por alguns instantes, tentando se orientar, ao mesmo tempo em que percebia o pnico crescente que tomava conta dela. Aquele grito horrvel sado do duto de ventilao parecia continuar ecoando  sua volta. Apesar de seus esforos para manter o controle, o medo era mais forte e apoderou-se dela.
Em total desespero, andou sem rumo pelo banheiro, tateando nervosamente as pias e portas dos sanitrios. Desorientada, moveu-se pela escurido, as mos erguidas  frente, tentando encontrar a porta. Derrubou uma lata de lixo e deu de cara contra uma parede. Seguindo a parede com a mo, andou aos tropeos at encontrar a porta e procurou nervosamente a maaneta. Abriu-a e saiu para o salo da Criptografia.
Tomou um segundo susto.
A Criptografia tambm estava s escuras e todas as luzes do teto, apagadas. Tudo o que se via era o contorno acinzentado do TRANSLTR destacando-se contra a plida luz do cu noturno que entrava pelo domo. Nem mesmo os teclados eletrnicos das portas estavam acesos.
Quando seus olhos se adaptaram  escurido, ela notou que a nica luz existente na Criptografia saa da portinhola aberta no cho. Era um leve brilho avermelhado das luzes de segurana do subsolo. Moveu-se nessa direo. O ar cheirava a oznio.
Quando chegou perto da portinhola, ajoelhou-se e olhou para baixo. As vlvulas de escape do fron deixavam sair uma nvoa atravessada pela luz vermelha. Pelo zumbido um pouco mais agudo vindo l de baixo, Susan percebeu que os geradores de emergncia tinham sido ativados e estavam alimentando o TRANSLTR. Atravs da nvoa esparsa, pde ver Strathmore de p na plataforma logo abaixo. Ele estava debruado sobre um corrimo, olhando para o fundo do poo de onde vinha o rudo dos geradores.
- Comandante!
Nenhuma resposta.
Susan comeou a descer pela escada, cuidadosamente. O ar quente que subia entrou por baixo de sua saia. Os degraus e o corrimo estavam escorregadios devido ao vapor. Ela chegou at a passarela logo abaixo.
- Comandante?
Strathmore no se virou. Ele continuava olhando para baixo, com uma expresso vazia, como se estivesse em transe. Susan aproximou-se e olhou na mesma direo, por sobre o corrimo. Inicialmente, pde ver apenas as nuvens de vapor. Subitamente, ela viu. Um corpo. Seis andares abaixo. Apareceu brevemente em meio  fumaa. Sumiu. Depois apareceu novamente. Uma massa disforme de membros retorcidos. Quarenta metros abaixo deles, Phil Chartrukian jazia sobre as barbatanas finas de ao do gerador. Seu corpo estava escuro e parecia queimado. Ao cair, havia provocado um curto no gerador principal da Criptografia.
A imagem mais apavorante, contudo, no era a do corpo de Chartrukian, mas a de um outro vulto, uma pessoa, a meio caminho na escadaria abaixo, agachado, escondendo-se nas sombras. Mesmo na escurido, o fsico atltico no deixava dvidas: era Greg Hale.

CAPTULO
58

O punk gritou para Becker:
- Megan est com meu amigo Eduardo! Fique longe dela!
- Onde ela est? - o corao de Becker estava acelerado.
- V se danar!
-  uma emergncia! - explodiu Becker, agarrando o garoto pela camisa.
- Ela est com um anel que me pertence. Eu pago por ele! E pago bem! Meio-a-Meio parou, atnito, depois teve um ataque de risos.
- Ei, quer dizer que aquele pedao de merda dourada, feio como o co,  seu? 
Becker arregalou os olhos.
- Voc o viu?
Meio-a-Meio balanou a cabea, concordando.
- Onde est agora? - perguntou Becker, ansioso.
- Menor idia. - Meio-a-Meio sorriu. - Megan esteve por aqui tentando ganhar alguma grana com aquele troo.
- Ela estava tentando vender o anel?
- , mas no se grila, ela se deu mal. Voc tem um gosto de merda em relao a jias.
- Tem certeza de que ningum o comprou?
- T brincando? Por 400 paus? Eu disse que dava 50, mas ela queria mais. Era para comprar uma passagem de avio.
Becker ficou branco, sentindo suas esperanas se frustrarem de novo.
- Para onde?
- Connecticut - respondeu Meio-a-meio.
- Connecticut?
- , porra. Vai voltar para a casa do papai e da mame. No suportou a famlia espanhola do intercmbio. Trs irmos hispanos sempre dando em cima dela. E sem gua quente.
Becker sentiu um n apertando a garganta.
- A que horas ela vai partir?
- Vai? - Ele riu. - J foi embora h muito tempo. Saiu para o aeroporto horas atrs. Melhor lugar para passar o anel, com os turistas ricos e tudo mais. Assim que conseguisse a grana, ela ia pegar o avio.
Uma onda de enjo percorreu o corpo de David. Isso s pode ser uma grande piada de mau gosto!
- Qual O sobrenome dela?
Meio-a-Meio pensou um pouco a respeito. Depois deu de ombros.
- Que vo ela ia pegar?
- O corujo do fim de semana: Sevilha, Madri e depois La Guardia. A galera gosta dele porque  barato. Acho que sentam l no fundo e ficam numa boa. 
Genial. Becker estava exausto. Passou a mo pelo cabelo, pensativo.
- A que horas sai o vo?
- Duas da madrugada, em ponto, todo sbado  noite. J deve estar no meio do Atlntico a esta altura.
Becker consultou seu relgio. Era lh45 da madrugada. Ele olhou para Meio a-Meio, sem entender nada.
- Voc disse que o vo sai s duas?
O punk balanou a cabea, rindo.
- , cara, parece que voc se ferrou.
Becker sacudiu o relgio na frente do garoto, irritado.
- Mas ainda faltam 15 para as duas!
Meio-a-Meio olhou para o relgio, perplexo. Depois soltou uma risada.
- Putz, que viagem. Em geral s fico to doido l pelas quatro da manh! 
- Qual o caminho mais rpido para o aeroporto? - perguntou David, apressado. 
- Pega um txi l na frente.
Becker pegou uma nota de mil pesetas e colocou na mo de Meio-a-Meio. 
- A, cara, valeu! - O punk falou, enquanto Becker saa correndo. - Se voc encontrar Megan, diz que eu mandei um beijo! - David j estava longe.
Meio-a-Meio tomou mais um trago e voltou, zonzo, para a pista de dana. Estava bbado demais para notar o homem usando culos com armao de metal que o seguia.
Do lado de fora, Becker olhou para o estacionamento, procurando um txi. No havia nenhum. Correu at um dos seguranas na entrada.
- Um txi!
O segurana sacudiu a cabea.
- Demasiado temprano. Cedo demais.
Cedo demais? Becker praguejou. J so duas da manh!
- Pdame uno! Chame um para mim!
O homem puxou um walkie-talkie do bolso. Disse alguma coisa, depois desligou. - Veinte minutos.
- Vinte minutos?! i Y el autobus?
O segurana fez uma expresso vaga e chutou.
- Uns 45 minutos.
Perfeito, pensou Becker, dando um tapa na prpria testa, irritado.
O rudo de um pequeno motor fez com que ele virasse a cabea. Parecia o som de uma motosserra. Um adolescente grandalho e sua acompanhante cheia de correntes pararam no estacionamento e desceram de uma Vespa 250. Becker correu at eles. No acredito que vou fazer isso, pensou. Odeio motocicletas. Gritou para o garoto:
- Eu te pago dez mil pesetas para me levar at o aeroporto.
O garoto ignorou-o e desligou a Vespa.
- Vinte mil! Eu preciso chegar at o aeroporto! - disse Becker, freneticamente. O rapaz olhou para ele.
- Scusi? - Era italiano.
- Aeroprto! Per favore. Sulla Vespa! Venti mille pesete!
O italiano olhou para sua pequena motoneta vagabunda e riu.
- Venti mille pesete? La Vespa?
- Cinquanta mille! Cinqenta mil! - Becker aumentou a oferta para cerca de 500 dlares.
O italiano riu, duvidando que ele estivesse falando srio.
- Dov'  la plata? Onde est o dinheiro?
Becker puxou cinco notas de dez mil pesetas do bolso e mostrou para ele. O italiano olhou para o dinheiro, depois para sua namorada. A menina pegou as notas e colocou dentro da blusa.
	- Grazie! - disse o italiano, sorridente. Jogou as chaves da Vespa para Becker.
Depois puxou sua namorada pela mo e saram correndo para dentro do prdio.
- Aspetta! Espere! - gritou Becker. - Eu queria uma carona!

CAPTULO
59

Susan segurou a mo do comandante Strathrnore, que a puxou para fora da escada, de volta ao salo da Criptografia. A imagem de Phil Chartrukian morto sobre os geradores estava gravada em sua mente e a idia de que Hale estava agora se escondendo nas entranhas da Criptografia a deixava tonta. A verdade era incontestvel: Hale havia empurrado Chartrukian.
Susan andou, cambaleante, em direo  porta principal da Criptografia - a mesma por onde havia entrado horas atrs. Batia freneticamente no teclado sem energia, mas a macia porta giratria no se movia. A Criptografia havia se transformado em uma priso, e Susan estava dentro dela. O domo era como um satlite a 100 metros do complexo principal da NSA, e a nica entrada era a porta principal. Como a Criptografia gerava sua prpria energia, o quadro de alarmes principal provavelmente nem teria sinalizado que estavam com problemas.
- A fora principal caiu - disse Strathmore, vindo em sua direo. - Estamos usando os geradores auxiliares.
O sistema de geradores auxiliares da Criptografia fora desenhado para que o TRANSLTR e seus sistemas de resfriamento tivessem precedncia sobre todo o resto, inclusive a iluminao e o controle das portas. Dessa forma, uma falta de energia no iria interromper o trabalho do TRANSLTR durante uma operao importante. Tambm significava que seu sistema de resfriamento a gs fron continuaria funcionando, o que impediria que o calor gerado pelos trs milhes de processadores atingisse nveis crticos, provocando um superaquecimento e queimando os circuitos em volta e as placas onde estavam instalados. Uma catstrofe inimaginvel.
Susan lutava para recuperar o controle e livrar-se do pnico. Seus pensamentos estavam presos  imagem do tcnico cado sobre os geradores. Ela se virou para o comandante e gritou:
- Interrompa a execuo!
Se o TRANSLTR parasse de procurar a chave do Fortaleza Digital, seus circuitos iriam consumir menos energia e haveria uma sobra suficiente para que as portas voltassem a funcionar.
- Calma, Susan - disse Strathmore, colocando a mo sobre seu ombro.
O gesto tranqilizador do comandante tirou-a de seu transe. Ela se lembrou do motivo pelo qual tinha sado para procur-lo. Em tom de urgncia, disse: 
- Comandante! Greg Hale  North Dakota!
Um profundo silncio tomou conta da escurido. Finalmente Strathmore respondeu. Soou confuso, mas no espantado.
- Do que voc est falando?
- Hale... - Susan falou, baixinho. - Ele  North Dakota.
Mais uma pausa enquanto Strathmore pesava as palavras de Susan.
- O tracer? - Ele parecia perturbado. - Ele apontou para Hale?
- O tracer no voltou. Hale abortou o programa!
Susan explicou a Strathmore que Hale havia interrompido a execuo do tracer e que ela tinha encontrado os e-mails de Tankado na conta de Greg. Outro longo silncio seguiu-se. Strathmore sacudiu a cabea:
- No  possvel que Hale seja o guardio de Tankado! Isso  absurdo! Tankado jamais confiaria em Hale.
- Mas, comandante, Hale j nos causou problemas uma vez com o Skipjack. Tankado confiava nele.
Strathmore no sabia o que dizer.
- Interrompa a execuo do TRANSLTR - pediu Susan outra vez. - J temos North Dakota. Chame a segurana interna. Vamos sair daqui.
Strathmore levantou a mo, pedindo silncio para que pudesse pensar por um instante.
Susan olhava, nervosa, na direo do alapo. A abertura estava fora do seu campo de viso, mas o brilho avermelhado se espalhava pela cermica polida como fogo sobre gelo. Vamos, chame a segurana. Interrompa o TRANSLTR. Nos tire daqui!
Strathmore finalmente decidiu o que fazer.
- Siga-me - ele disse, partindo em direo  portinhola. - Comandante! Hale  perigoso! Ele...
Mas Strathmore j havia sumido na escurido. Susan apressou-se para no perder sua silhueta de vista. O comandante deu a volta por trs do TRANSLTR e chegou at a abertura no cho. Examinou o poo enevoado. Silenciosamente, olhou em volta para o salo da Criptografia, mergulhado em escurido. Ento agachou-se e, com esforo, levantou a pesada tampa do alapo. Ela descreveu um arco curto e, quando ele a soltou, caiu ruidosamente sobre a abertura, fechando-a com um rudo seco. A Criptografia voltou a ser uma caverna silenciosa e escura. Aparentemente North Dakota estava aprisionado. Strathmore girou
a pesada tranca manual. A porta foi lacrada. O subsolo estava novamente isolado.
Nem ele nem Susan ouviram o leve rudo de passos na direo do Nodo 3.





CAPTULO
60

Meio-a-Meio foi na direo do corredor espelhado que servia como passagem entre o ptio e a pista de dana. Quando se virou para ver como estava seu alfinete de segurana no espelho, sentiu um vulto se aproximando por trs. Virou-se, mas era tarde. Um par de braos slidos como uma rocha colaram seu rosto contra o espelho na parede.
O punk tentou se virar.
- Eduardo? A, cara,  voc? - Meio-a-Meio sentiu uma mo pegando sua carteira pouco antes que o homem apertasse firmemente suas costas contra a parede. - Eddie! - gritou. - Deixa de sacanagem! Um cara esteve aqui procurando a Megan.
O outro sujeito o segurava firmemente.
- Ei, cara, me solta! - Mas, quando Meio-a-Meio conseguiu olhar pelo espelho, viu que o sujeito que o segurava no era nem de longe seu amigo.
O rosto era todo marcado de varola e coberto de cicatrizes. Dois olhos vidrados o fitavam, inexpressivos, por trs dos culos de armao de metal. O homem chegou mais perto, colocando a boca bem perto do ouvido de Meio-a-Meio. Uma voz estranha falou:
- Adnde fu? Para onde foi o americano? - As palavras soavam distorcidas. 
O rapaz ficou paralisado de medo.
- Para o aeroporto. Aeropuerto. - Meio-a-Meio gaguejava, sem ar.
- Aeropuerto? - repetiu o homem, observando atentamente os lbios de Meio-a-Meio pelo espelho.
O punk assentiu.
- Tena el anillo? Ele estava com o anel?
Morrendo de medo, Meio-a-Meio balanou a cabea.
- No.
- Viste el anillo? Voc viu o anel?
Meio-a-Meio pensou. Qual era a resposta certa aqui?
- Viste el anillo? - repetiu a voz.
Meio-a-Meio fez que sim, esperando que a honestidade fosse uma boa sada.
No era. Poucos segundos depois estava cado no cho, com o pescoo quebrado.

CAPTULO
61

Jabba estava de costas, enfiado at a metade do corpo em um mainframe - um computador de grande porte. Segurava uma pequena lanterna na boca, um ferro de soldar na mo e tinha um grande diagrama de circuitos aberto sobre sua barriga. Acabara de soldar um novo conjunto de chips em uma placa quando seu celular se manifestou.
- Merda! - praguejou, enquanto tentava pegar o aparelho em meio a um amontoado de cabos. - Jabba falando.
- Jabba,  Midge.
Ele abriu um sorriso.
- Puxa, duas vezes na mesma noite? As pessoas vo comear a notar.
- A Criptografia est com problemas. - A voz de Midge estava tensa.
- Olha, j discutimos isso, certo?
- Problemas de energia.
- No sou eletricista. Ligue para a Engenharia.
- O domo est todo escuro.
- Voc est vendo coisas. Vai pra casa. - Jabba voltou a ateno para seu dia
grama de circuitos.
- Est completamente s escuras! - ela gritou.
Ele suspirou e colocou sua lanterna de lado.
- Midge, em primeiro lugar, eles tm um gerador auxiliar por l. Jamais poderia estar completamente s escuras. Segundo, neste exato momento, Strathmore tem uma viso um pouco melhor da Criptografia do que eu. Por que voc no liga para ele?
- Porque isso tem a ver com ele. Est escondendo algo.
Jabba olhou para cima, impaciente.
- Querida, estou chafurdando em cabos aqui. Se estiver precisando de companhia, vou agora. Do contrrio, ligue para a Engenharia.
- Jabba, isso  srio. Eu posso sentir que .
Ela pode sentir? Confirmado, ento, pensou Jabba. Midge est mesmo em um de seus "dias.
- Se o Strathmore no est preocupado, eu tambm no estou.
- Mas que diabos, a Criptografia est toda escura!
- Talvez Strathmore esteja querendo ver as estrelas.
- Jabba! Estou falando srio!
- T bom, t bom - ele resmungou, apoiando-se num cotovelo. - Talvez um dos geradores tenha sofrido um curto. Assim que eu terminar aqui, dou uma passada pela Criptografia e...
	- E os geradores auxiliares? - continuou Midge, exasperada. - Por que os geradores de emergncia no esto fornecendo energia?
	- No sei. Talvez Strathmore esteja executando algo no TRANSLTR e toda a fora esteja sendo desviada para l.
	- Ento por que ele no interrompe a execuo? Talvez seja um vrus. Voc mesmo disse antes que podia ser um vrus.
- Que diabos, Midge! - Jabba perdeu a calma. - J te disse, no tem vrus nenhum na Criptografia. Ento vamos parar com essa parania!
Houve um longo silncio.
- Putz, que droga, Midge, me desculpe. Acho melhor eu explicar isso por partes. Primeiro, temos o Gauntlet. Nenhum vrus poderia passar por ele. Segundo, se houver uma queda de energia, tem que estar relacionada ao hardware. Um vrus no pode desligar a energia, ele ataca o software e os dados. Seja l o que for que est acontecendo na Criptografia, no  um vrus.
Silncio.
- Midge? Voc est a?
A resposta dela foi fria e seca.
- Jabba, eu tenho uma funo aqui e acho errado que algum grite comigo quando estou tentando fazer meu trabalho. Quando ligo para perguntar por que um prdio de alguns bilhes de dlares est no escuro, o mnimo que espero  uma resposta profissional.
- Sim, senhora.
- Basta dizer sim ou no.  possvel que o problema na Criptografia esteja relacionado a um vrus?
- Midge, eu j disse que...
- Sim ou no. O TRANSLTR pode estar com um vrus?
Jabba suspirou, resignado.
- No, Midge,  completamente impossvel.
- Obrigado.
Ele soltou um risinho forado e tentou esfriar os nimos.
- A menos, claro, que voc ache que o prprio Strathmore tenha escrito um e contornado meus filtros.
A linha ficou muda novamente. Quando Midge voltou a falar, sua voz tinha um tom soturno.
- Strathmore tem o poder de contornar o Gauntlet?
- Era uma brincadeira, Midge. - Mas Jabba sentiu que era tarde demais.

CAPTULO
62

O comandante e Susan estavam ao lado da porta principal, ainda fechada, discutindo sobre o que fazer a seguir.
- Phil Chartrukian est morto l embaixo - argumentou Strathmore.  Se pedirmos socorro, a Criptografia vai virar um pandemnio.
- O que voc prope ento? - perguntou Susan, que naquele momento s queria sair dali.
Strathmore pensou. Olhando para a portinhola que agora estava trancada, disse:
- No sei como isso aconteceu, mas parece que, acidentalmente, localizamos e neutralizamos North Dakota. - Ele sacudiu a cabea, sem acreditar. - Uma sorte incrvel, a meu ver. - Ainda parecia atnito com a idia de que Hale estivesse envolvido no plano de Tankado. - Suponho que Hale tenha escondido a chave em algum lugar de seu terminal e talvez tenha uma outra cpia em casa. De qualquer forma, ele est trancado l embaixo.
- Ento por que no chamamos a segurana e deixamos que o levem?
- Ainda no. Se o pessoal de segurana de sistemas olhar as estatsticas de tempo de execuo do TRANSLTR, teremos novos problemas. Quero que todos os rastros do Fortaleza Digital sejam apagados antes de abrirmos as portas.
Susan concordou relutantemente. Era um bom plano. Quando a segurana tirasse Hale do subsolo e o acusasse da morte de Chartrukian, ele provavelmente iria ameaar contar para todos sobre o Fortaleza Digital. Mas as provas j teriam sido apagadas, e Strathmore podia se fazer de bobo. O TRANSLTR estava processando um arquivo h 18 horas? Um algoritmo inquebrvel? Mas isso  um absurdo! Hale certamente conhece o Princpio de Bergofsky.
Strathmore delineou calmamente o seu plano:
- Vamos fazer o seguinte: primeiro apagamos toda a correspondncia de Hale com Tankado, depois todos os registros de minha ordem para que o Gauntlet fosse contornado, todas as anlises de SegSis feitas por Chartrukian, os registros do ExeMon, tudo. O Fortaleza Digital ter sumido do mapa. Nunca existiu, nunca esteve aqui. Damos sumio na chave de Hale e a temos que torcer para que David consiga encontrar a cpia de Tankado.
David, lembrou-se Susan. Fez fora para no pensar nele. Precisava se concentrar naquela situao complicada.
- Vou cuidar do laboratrio de SegSis - disse Strathmore. - As estatsticas do ExeMon, anlise de atividade de mutao, o que houver por l. Voc cuida do Nodo 3. Apague todos os e-mails de Hale. Qualquer registro da correspondncia com Tankado, qualquer coisa que diga respeito ao Fortaleza Digital.
- Ok - respondeu Susan, concentrando-se. - Vou apagar todo o disco de Hale. Reformatar tudo.
- No! - interrompeu Strathmore, bruscamente. - No faa isso. Hale provavelmente tem uma cpia da chave guardada l dentro. Eu quero essa cpia. Susan olhou para ele, aturdida.
- Voc quer a chave? Achei que a idia por trs de tudo era destruir as chaves! - Com certeza. Mas eu quero uma cpia. Quero abrir esse maldito arquivo e olhar o programa de Tankado.
Susan compartilhava da curiosidade de Strathmore, mas seus instintos lhe diziam que abrir o algo ritmo do Fortaleza Digital no era uma deciso sbia, no importava o quo interessante pudesse ser. No momento, o perigoso programa estava trancado, em total segurana, dentro de sua prpria encriptao. Era absolutamente incuo. Contudo, assim que fosse desencriptado...
- Comandante, tem certeza de que no seria melhor se ns...
- Eu quero a chave - respondeu.
Susan admitia que, desde que ouvira falar no Fortaleza Digital, havia sentido uma certa curiosidade profissional em saber como Tankado conseguira escrever o programa. Sua prpria existncia ia contra as regras mais bsicas da criptografia. Ela olhou para o comandante, sria.
- Voc ir apagar o algoritmo assim que o analisarmos?
- No vai sobrar nenhum vestgio.
Susan ficou tensa. Achar a chave de Hale no seria assim to rpido.
Localizar uma chave em um dos discos rgidos do Nodo 3 era como tentar encontrar uma pedra especfica em todo o Texas. Pesquisas em computadores s funcionam quando se sabe o que se est procurando, mas aquela chave era aleatria. Felizmente, como a Criptografia lidava exatamente com material aleatrio, Susan e outros criptgrafos tinham desenvolvido um processo conhecido como pesquisa de no-conformidade. Em termos genricos, a pesquisa pedia ao computador para analisar cada uma das cadeias de caracteres em seu disco, comparando-as com um enorme dicionrio e ento separando todas as cadeias que parecessem sem sentido ou aleatrias. Refinar os parmetros continuamente era um trabalho sutil, mas possvel.
Essa era, para Susan, a forma mais lgica para encontrar a chave. Ela suspirou, esperando no se arrepender de sua deciso.
- Se tudo correr bem, levarei cerca de uma hora.
- Ento vamos ao trabalho - disse Strathmore, colocando uma mo em seu ombro e conduzindo-a em meio  escurido de volta para o Nodo 3.
Acima deles, um cu estrelado cintilava sobre o domo. Susan pensou se David estaria vendo as mesmas estrelas em Sevilha.
Quando chegaram diante das pesadas portas de vidro do Nodo 3, Strathmore praguejou. O teclado do Nodo 3 estava apagado e as portas no se moveram.
	- Que droga! Sem energia, as portas no vo se abrir.
	O comandante observou as portas deslizantes de vidro. Colou as palmas de suas mos ao vidro, depois inclinou-se para o lado, tentando for-las a se abrirem. Suas mos estavam suadas e escorregaram. Ele secou-as nas calas e tentou de novo. Dessa vez as portas se moveram, deixando uma fresta.
Sentindo que poderia funcionar, Susan postou-se atrs de Strathmore e empurraram juntos. As portas correram cerca de cinco centmetros. Conseguiram segurar durante algum tempo, mas a presso era muito grande. As portas se fecharam de novo.
- Espere a - disse Susan, trocando de lugar e se posicionando dessa vez em frente de Strathmore. - Ok, vamos tentar de novo.
Fizeram fora juntos. Mais uma vez, as portas se abriram alguns centmetros. Uma leve luz azulada emanava de dentro do Nodo 3. Os terminais ainda estavam ligados. Como eram considerados crticos para a operao do TRANSLTR, estavam recebendo energia dos geradores auxiliares.
Susan fincou a ponta de seu sapato no cho e fez mais fora. As portas comearam a se mover. Strathmore mudou de posio para encontrar um ngulo melhor. Centrando suas palmas no painel esquerdo, ele empurrou diretamente para trs. Susan empurrava o painel direito na direo oposta. Lentamente, com grande esforo, as portas comearam a se abrir. Agora a abertura j tinha uns 30 centmetros.
	- No solte - disse Strathmore ofegante enquanto empurravam com mais fora ainda. - S mais um pouco.
Susan se ajeitou de forma que seu ombro estava apoiado na extremidade de uma das portas. Ela empurrou de novo, dessa vez com um ngulo melhor. As portas estavam pressionando, tentando fechar-se novamente.
Antes que o comandante pudesse det-la, ela conseguiu se enfiar dentro da abertura. Strathmore reclamou, mas ela estava decidida. Queria sair da Criptografia e conhecia Strathmore o bastante para saber que ela no iria a lugar algum enquanto a chave de Hale no fosse encontrada.
Colocou-se no meio da abertura e usou toda a sua fora. As portas pareciam estar empurrando de volta. Subitamente, Susan perdeu o ponto de apoio. As portas correram em sua direo. Strathmore lutou para segur-las, mas, sozinho, no tinha fora suficiente. Pouco antes de as portas se fecharem novamente, Susan conseguiu se enfiar pela abertura e caiu do outro lado.
O comandante fez fora para abrir uma fresta nas portas e, colocando o rosto na abertura, perguntou:
- Nossa, Susan. Voc est bem?
Ela se levantou e arrumou a roupa.
- Tudo bem.
Susan olhou em volta. O Nodo 3 estava deserto, iluminado apenas pelos monitores dos computadores. As sombras azuladas davam ao lugar uma aparncia fantasmagrica. Ela virou-se para Strathmore, que mantinha a cara na fresta entre as portas. Sua face parecia plida e doentia na luz azul.
- Susan, me d uns 20 minutos para apagar os arquivos no laboratrio de SegSis. Quando todas as pistas tiverem sido apagadas, vou at meu terminal e interrompo a execuo do TRANSLTR.
- Acho bom mesmo! - disse Susan, observando as pesadas portas de vidro. Enquanto o TRANSLTR no parasse de consumir a energia auxiliar, ela ficaria presa dentro do Nodo 3.
Strathmore soltou as portas e elas se fecharam. Susan ficou olhando atravs do vidro enquanto o comandante sumia na escurido da Criptografia.

CAPTULO
63

A Vespa recm-comprada por Becker ia aos trancos e barrancos pela via de acesso ao aeroporto de Sevilha. Durante toda a viagem, as juntas dos dedos de Becker estavam brancas, tamanha a presso que ele fazia. De acordo com seu relgio, passava um pouco de duas da manh no horrio local.
Quando se aproximou do terminal principal, subiu com a Vespa na calada e pulou da motoneta ainda em movimento. Ela quicou pelo cho e finalmente parou. Becker correu, com as pernas trmulas, e passou pelas portas giratrias. Nunca mais, ele jurou para si mesmo.
O terminal tinha uma aparncia estril e era mal iluminado. Exceto por um faxineiro encerando o cho, o lugar estava completamente deserto. Do outro lado do salo, uma funcionria estava fechando o balco da Iberia Airlines. Mau sinal, pensou Becker, correndo para falar com a moa.
- EI vuelo a los Estados Unidos?
A atraente espanhola do outro lado do balco olhou para ele e sorriu.
- Acaba de salir. Voc perdeu o vo. - Essas palavras ficaram flutuando no ar
por algum tempo.
Eu perdi o vo. Becker deixou cair os ombros, abatido.
- Havia algum assento vago?
- Vrios - disse a mulher, ainda sorrindo. - Estava quase vazio. Mas amanh h um outro vo s oito da manh que tambm...
Preciso saber se uma amiga conseguiu embarcar nesse vo.
- Lamento, senhor, mas temos a obrigao de manter a privacidade de... 
-  muito importante - insistiu Becker, em tom de urgncia. - S preciso saber se ela conseguiu pegar o avio. S isso.
A mulher inclinou ligeiramente a cabea, atenciosa:
- Problemas amorosos?
Becker pensou por um instante. Depois fez cara de tmido, deu um sorrisinho e disse:
- Est to na cara assim?
Ela piscou um olho.
- Qual o nome dela?
- Megan - disse ele, com tristeza na voz.
A moa no balco sorriu.
- Voc poderia me dar o sobrenome?
Becker expirou lentamente. Sim, se eu ao menos soubesse!
- Olha, na verdade a situao  meio complicada. Voc me disse que o avio estava quase vazio. Talvez voc pudesse...
- Sem um sobrenome eu realmente no...
- Desculpe, mas... - Becker fez uma pausa, tendo pensado em outra coisa.
- Voc ficou de planto a noite inteira?
- Sim, estou de planto desde ontem  tarde.
- Ento  possvel que voc a tenha visto.  uma garota, deve ter 15 ou 16 anos. Seu cabelo... - Antes de completar a frase, ele percebeu seu erro.
A moa fechou a cara.
- Sua namorada tem 15 anos?
- No! - Becker se engasgou. - Quero dizer... Merda!, falou para si mesmo.
- Se voc puder me ajudar,  realmente importante.
- Lamento - disse a atendente, rspida.
- No  o que parece. Se voc pudesse apenas...
- Boa noite, senhor. - A mulher puxou a grade de metal que fechava o balco e sumiu dentro de uma sala nos fundos.
Becker soltou grunhidos de raiva. Perfeito, David, perfeito. Ele olhou em volta procurando algum no saguo do aeroporto. Nada. Ela deve ter conseguido vender o anel e embarcou no vo. Foi na direo do faxineiro.
- Has visto a una nina? - gritou por cima do barulho da enceradeira.  Voce viu uma garota?
O homem se abaixou e desligou a mquina.
- Eh?
- Una nina? Pelo rojo, azul y blanco. Cabelo vermelho, azul e branco.
O faxineiro riu.
- Qu fea. Parece feia. - Sacudiu a cabea e voltou a trabalhar.
David Becker ficou parado no meio do saguo do aeroporto deserto, pensando no que faria a seguir. A noite havia sido uma comdia de erros. As palavras de Strathmore ressoavam em sua mente: No ligue enquanto no tiver o anel. Uma profunda exausto tomou conta dele. Se Megan tivesse mesmo vendido o anel e tomado o avio, no havia como saber quem estaria com ele agora.
Becker fechou os olhos e tentou se concentrar. O que vou fazer agora? Decidiu pensar no assunto com calma. Primeiro precisava urgentemente fazer algo que estava adiando h algum tempo: ir ao banheiro.
CAPTULO
64

Susan estava sozinha no silncio do Nodo3, iluminado apenas pelos monitores. Sua tarefa era clara: acessar o terminal de Hale, localizar sua chave e depois apagar todos os vestgios de comunicao com Tankado. No podia sobrar qualquer pista do Fortaleza Digital.
No entando, Susan continuava perturbada com a idia de guardar a chave e desencriptar o Fortaleza Digital. Ela se sentia desconfortvel, achava que no deviam brincar com a sorte. Estavam se saindo bem at o momento. North Dakota tinha aparecido milagrosamente ao lado deles e fora aprisionado. A nica questo em aberto era David: ele precisava encontrar a outra chave. Susan desejou que ele estivesse bem.
Enquanto andava lentamente pelo Nodo 3, ela tentou clarear sua mente. Era peculiar se sentir desconfortvel em um espao to familiar. Tudo no Nodo 3 parecia diferente no escuro. Mas havia alguma coisa ali. Susan hesitou, momentaneamente, e olhou para as portas fechadas. No havia como fugir. Vinte minutos, pensou.
Quando se virou na direo do terminal de Hale, notou um estranho cheiro, algo penetrante e que definitivamente no pertencia ao Nodo 3. Pensou se seria algum problema com o desionizador, que poderia estar parado. O cheiro era vagamente familiar e trazia consigo uma lembrana incmoda. Pensou em Hale trancado l embaixo em sua enorme cela, cheia de vapor. Ser que ele colocou fogo em alguma coisa? Olhou para os dutos de ventilao e tentou identificar o cheiro, que parecia vir de um lugar prximo.
Ela olhou para as portas de trelia da quitinete. Reconheceu o cheiro quase instantaneamente. Era colnia... e suor.
Curvou-se sobre si mesma, instintivamente, mas no estava preparada para o que viu a seguir. Por trs das trelias, dois olhos a encaravam. Deparou-se, ento, com a terrvel verdade. Greg Hale no estava trancado no subsolo: ele estava ali, dentro do Nodo 3! Devia ter subido pela escada antes que Strathmore fechasse a tampa do alapo. Tivera fora suficiente para abrir as portas sozinho.
Susan j tinha ouvido dizer que, em estado de completo terror, as pessoas geralmente ficam paralisadas. Descobriu que aquilo era um mito. No mesmo instante em que compreendeu o que estava acontecendo, comeou a se mover. Saiu aos tropees no escuro com um nico pensamento: fugir.
O rudo de madeira se quebrando atrs dela veio quase ao mesmo tempo. Hale, que estivera sentado em silncio sobre o fogo, empurrou suas pernas como duas marretas. As portas voaram longe. Ele saltou para o cho e saiu correndo na direo de Susan com passadas largas.
Susan derrubou uma luminria no caminho, tentando fazer com que Hale tropeasse, mas sentiu que ele pulou por cima do obstculo sem dificuldade aproximando-se rapidamente.
Quando seu brao direito agarrou a cintura de Susan por trs, ela se sentiu como se tivesse batido em uma barra de ferro. Ficou sem ar, por conta da pancada. Os bceps de Hale puxaram-na pelo quadril.
Susan tentou resistir e comeou a se debater ferozmente, acertando o nariz de Hale com o cotovelo. Ele a soltou e caiu de joelhos no cho, as mos segurando o nariz.
- Sua filha da... - gritou, com dor.
Susan correu at as portas, com uma esperana v de que Strathmore restaurasse a energia naquele momento e as portas se abrissem  sua frente. Contudo, isso no aconteceu, e ela ficou socando inutilmente o vidro.
Hale se moveu pesadamente em sua direo, com o nariz cheio de sangue. Em pouco tempo agarrou-a de novo, uma das mos prendendo-a firmemente na altura do peito esquerdo e a outra segurando sua cintura. Puxou-a para longe da porta.
Ela gritou, com a mo esticada em uma tentativa ftil de impedi-lo.
Ele puxou-a para trs, com a fivela de seu cinto machucando sua coluna. Susan estava assustada com sua fora. Ele arrastou-a pelo carpete, e os sapatos dela saram. Com um gesto gil, Hale levantou-a no ar e jogou-a no cho perto de seu terminal.
Susan estava agora com as costas apoiadas no cho, a saia levantada at a metade de suas coxas. O boto superior de sua blusa tinha aberto durante a briga e seu peito arfava pesadamente sob a luz azulada do monitor. Ela olhou apavorada quando ele se lanou sobre ela, prendendo-a entre suas pernas. No conseguia decifrar o que estava por trs dos olhos dele. Parecia medo, mas podia igualmente ser raiva. Quando Hale percorreu com os olhos seu corpo, Susan sentiu uma nova onda de pnico invadi-la.
Hale sentou-se firmemente sobre sua cintura, encarando-a com um olhar glido. Susan tentava se lembrar de tudo que havia aprendido sobre autodefesa. Tentava lutar, mas estava presa, sem ao. Fechou os olhos.
Ai, meu Deus, por favor, no!

CAPTULO
65

Brinkerhoff andava de um lado para o outro no escritrio de Midge. 
- Ningum pode contornar o Gauntlet.  impossvel!
- Engano seu. Acabei de falar com Jabba. Ele disse que instalou um dispositivo para contorno manual no ano passado.
Brinkerhoff estava confuso.
- Nunca tinha ouvido falar disso.
- Ningum ouviu. Foi tudo feito s escondidas.
- Midge, Jabba  obsessivo no que diz respeito  segurana!  Brinkerhoff argumentou. - Ele jamais instalaria um dispositivo de contorno para...
- Strathmore fez com que fosse instalado - ela disse, interrompendo. Brinkerhoff quase podia ouvir a mente dela maquinando.
- Voc lembra, no ano passado, quando o comandante estava trabalhando no caso daquele grupo terrorista anti-semita da Califrnia?
Brinkerhoff lembrava. Havia sido uma das aes mais bem-sucedidas de Strathmore no ano anterior. Usando o TRANSLTR para decifrar um cdigo interceptado, ele descobriu um plano para colocar uma bomba em uma escola judaica de Los Angeles. Decodificou a mensagem dos terroristas apenas 12 minutos antes da exploso e, com alguns telefonemas urgentes, salvou 300 crianas que estavam na escola.
- Agora oua isso - disse Midge, abaixando o tom de voz, como se algum pudesse ouvi-los. - Jabba disse que Strathmore havia interceptado o cdigo dos terroristas seis horas antes que a bomba explodisse.
- Mas, ento, por que ele esperou...
- Porque no conseguia fazer com que o TRANSLTR desencriptasse o arquivo. Ele tentou, mas o Gauntlet o rejeitava sucessivamente. Estava encriptado com um novo algoritmo de chave pblica que os filtros ainda no haviam encontrado. Jabba levou quase seis horas para ajust-los.
Brinkerhoff ficou atnito.
	- Strathmore, obviamente, ficou furioso. Ento fez com que Jabba instalasse um dispositivo para contornar o Gauntlet, caso algo do gnero acontecesse novamente.
	- Nossa - Brinkerhoff assobiou, impressionado. - Eu no sabia dessa.
- Depois olhou para ela, curioso. - Onde exatamente voc quer chegar?
	- Acho que Strathmore usou o dispositivo hoje para processar um arquivo
que o Gauntlet havia rejeitado.
- Qual o problema?  para isso que serve o dispositivo, certo?
Midge sacudiu a cabea.
- No se o arquivo em questo for um vrus.
- Um vrus? E quem falou em vrus?
-  a nica explicao - disse ela. - Jabba disse que um vrus seria a nica coisa capaz de parar o TRANSLTR durante tanto tempo, ento...
- Espere a! Strathmore nos disse que estava tudo bem por l!
- Ele est mentindo.
Brinkerhoff no estava entendendo.
- Voc quer dizer que Strathmore deixou um vrus entrar no TRANSLTR de propsito?
- No! No acho que ele soubesse que fosse um vrus. Acho que foi enganado. 
Brinkerhoff no sabia o que dizer. Definitivamente, o que Midge Milken dizia no estava fazendo muito sentido.
- Isso explicaria muita coisa! - insistiu ela. - Explicaria, por exemplo, o que ele est fazendo l a noite toda.
	- Colocando novos vrus em seu prprio computador?
	- No! - disse ela, irritada. - Tentando encobrir o erro que cometeu. E agora no pode interromper a execuo do TRANSLTR e restaurar a fora porque o vrus est bloqueando os processadores.
	Brinkerhoff revirou os olhos. Midge j tinha tido alguns "ataques" no passado, mas no como este agora. Ele tentou acalm-la.
- Jabba no me parece muito preocupado.
- Jabba  um tolo - disse ela, entredentes.
Brinkerhoff ficou surpreso. Ningum jamais havia chamado Jabba de tolo.
Talvez j tivessem dito que era porco, mas nunca tolo.
	- Voc est dando mais importncia  sua intuio feminina do que  enorme experincia de Jabba em tcnicas de programao defensiva?
Ela lhe lanou um olhar fulminante.
O assistente levantou as mos, dando-se por vencido.
- Ok, eu retiro o que disse. - Ele no queria ouvir outro monlogo sobre a inusitada habilidade de Midge para perceber desastres iminentes. - Eu sei que voc odeia Strathmore, mas...
- J disse que isso no tem nada a ver com Strathmore! - Midge estava soltando fumaa. - A primeira coisa que precisamos fazer  confirmar se Strathmore ordenou que o Gauntlet fosse contornado. Depois entramos em contato com o diretor.
	- Otimo - resmungou Brinkerhoff. - Vou ligar para o comandante e pedir que nos envie uma declarao com sua assinatura.
- No - ela retrucou, ignorando o sarcasmo da resposta. - Strathmore j nos contou uma mentira hoje. - Ela sondou seus olhos. - Voc tem as chaves do escritrio de Fontaine?
- Claro. Sou seu assistente.
- Preciso delas.
Brinkerhoff ficou parado.
- Midge, no vou deixar voc entrar no escritrio de Fontaine de forma alguma.
- Mas  necessrio! - exigiu. Ela se virou e comeou a digitar no teclado do Big Brother. - Estou pedindo um relatrio dos comandos enviados ao TRANSLTR. Se Strathmore ordenou um contorno manual, ir aparecer no relatrio.	.
- E o que isso tem a ver com o escritrio do Fontaine?
- Essa listagem s pode ser enviada para a impressora de Fontaine. Voc sabe disso!
-  porque ela  secreta, Midge!
- Estamos em meio a uma emergncia. Eu preciso ver essa listagem. 
Brinkerhoff colocou suas mos nos ombros dela.
- Por favor, sente-se e acalme-se. Voc sabe que no posso...
Ela virou-se novamente para o teclado.
- Estou mandando imprimir a listagem. Vou entrar, peg-la e sair. Agora me d as chaves.
- Midge.
Ela terminou de digitar e encarou-o.
- Chad, o relatrio leva apenas 30 segundos para ser impresso. Vamos fazer um acordo. Voc me d a chave. Se Strathmore de fato tiver ordenado um contorno do Gauntlet, chamamos a segurana. Se eu estiver errada, vou embora e voc pode ir brincar de passar mel em Carmen Huerta. - Ela lhe lanou um olhar malicioso e estendeu a mo para pegar as chaves. - Estou esperando.
Brinkerhoff grunhiu, arrependido de t-la chamado de volta para verificar o relatrio da Criptografia. Ele olhou para a mo dela.
- Voc est me pedindo para lhe dar acesso a informaes secretas dentro da sala do diretor. Voc tem idia do que acontecer se formos pegos?
	- O diretor est na Amrica do Sul.
	- Me desculpe. No posso fazer isso. - Brinkerhoff cruzou os braos e saiu andando em direo a seu escritrio.
	Midge olhou enfurecida para ele.
	- Ah, mas voc pode sim - ela murmurou. Depois voltou-se para o Big Brother e acessou os arquivos de vdeo.
Midge vai superar isso, pensou Brinkerhoff, sentando-se em sua mesa para olhar os outros relatrios. Ela no podia esperar que ele lhe desse as chaves da sala do diretor toda vez que tivesse um de seus acessos de parania.
Ele tinha acabado de verificar as anlises de COMSEC quando sua concentrao foi interrompida pelo som de vozes vindas da outra sala. Deixou o relatrio na mesa e caminhou at a porta.
A sala principal estava escura, exceto por um pequeno brilho de luz acinzentada que saa da porta semi-aberta de Midge. Ele escutou com ateno. As vozes persistiam. Pareciam animadas.
- Midge?
Nenhuma resposta.
Atravessou o corredor escuro at chegar  sala de Midge. As vozes lhe eram familiares. Abriu a porta. A sala estava vazia e no havia ningum na cadeira de Midge. O som vinha de cima. Brinkerhoff olhou na direo dos monitores de vdeo e sentiu um enorme mal-estar. A mesma imagem estava sendo exibida em cada uma das 12 telas, numa espcie de bal perversamente coreografado. Brinkerhoff apoiou-se nas costas da cadeira de Midge e ficou olhando, horrorizado.
- Chad? - a voz soou atrs dele. Ele se virou e apertou os olhos para enxergar na escurido. Midge estava sentada em um canto, do outro lado da recepo da ala principal, em frente s portas duplas do diretor. Sua mo continuava estendida. - As chaves, Chad.
Brinkerhoff ficou vermelho. Virou-se para os monitores, tentando bloquear as imagens, mas no conseguiu. Ele estava nas telas, gemendo de prazer enquanto acariciava avidamente os pequenos seios cobertos de mel de Carmem Huerta.




CAPTULO
66

Becker atravessou o saguo em direo aos banheiros, mas, ao chegar  porta onde estava escrito CABALLEROS, viu que estava bloqueada por um cone amarelo e um carrinho de limpeza cheio de detergentes e panos. Olhou para o lado. DAMAS. Foi at l e bateu na porta com fora.
- Hola? - disse alto, abrindo ligeiramente a porta do banheiro das mulheres.
- Con permiso?
Silncio.
Entrou.
O banheiro era tpico: perfeitamente quadrado, cermica branca, uma lmpada incandescente no teto. Como sempre, havia um reservado e um urinol. O fato de um urinol ser ou no til em um banheiro feminino era irrelevante. Coloc-lo l fazia com que os empreiteiros economizassem a construo de um reservado adicional.
Becker olhou, enojado, para o resto do banheiro. Estava sujo. A pia estava entupida e cheia de uma gua marrom e fedorenta. Havia toalhas de papel sujas espalhadas por toda parte. O cho estava molhado. O velho secador de mos eltrico na parede estava todo sujo e com marcas esverdeadas de dedos.
Becker foi at o espelho e suspirou. Seus olhos, que normalmente demonstravam uma clareza aguda, pareciam fora de foco naquela noite. H quanto tempo estou andando por esta cidade?, pensou. Era incapaz de fazer as contas. Por puro hbito, ajeitou o n de sua gravata sobre o colarinho. Depois foi at o urinol.
Enquanto estava l, ficou pensando se Susan j teria voltado para casa. Onde ser que ela foi? Para Stone Manor, sem mim?
- Ei! - disse uma voz feminina atrs dele, zangada.
Becker se assustou.
- Eu, eu... - balbuciou, tentando fechar o zper rapidamente. - Desculpe, eu...
Virou-se para olhar a garota que tinha acabado de entrar. Era uma jovem sofisticada e parecia ter sado de uma revista de moda para adolescentes. Usava calas de tecido quadriculado com pregas e uma blusa branca sem mangas. Carregava uma bolsa de lona da marca L.L. Bean e seu cabelo louro tinha um penteado perfeito.
- Mil desculpas - Becker murmurou, enquanto abotoava o cinto. - O sanitrio masculino estava... enfim... estou saindo.
	- Porra de maluco!
Becker olhou de novo. O palavreado no combinava muito com o resto. Mas, enquanto Becker olhava para ela, percebeu que no era to fina quanto tinha achado de incio. Seus olhos estavam inchados e vermelhos e a pele do antebrao direito, arroxeada.
Deus, pensou Becker, drogas intravenosas. Quem diria. 
- Saia daqui! - gritou. - Saia j!
	Por alguns instantes Becker deixou de lado a histria do anel, a NSA, tudo.
Ficou de corao partido com a jovem. Seus pais certamente a haviam enviado para a Espanha com uma bolsa de estudo e um carto de crdito, e ela tinha ido parar ali, sozinha em um banheiro, no meio da noite, se drogando.
- Voc est bem? - perguntou ele, enquanto ia em direo  porta. 
- Estou. - A voz tinha um tom de desprezo. - Saia, agora.
Becker virou-se para sair. Lanou um ltimo olhar entristecido para o ante-brao da garota. No h nada que voc possa fazer, David. Deixe-a a.
- Agora! - ela gritou.
Ao passar pela porta, Becker virou-se uma ltima vez, deu um sorriso tristonho e disse:
- Cuide-se.

CAPTULO
67

- Susan? - Hale estava ofegante, com o rosto prximo ao dela.
Ele estava sentado, com as pernas por cima dela, todo o peso de seu corpo jogado sobre o abdmen de Susan. A bacia de Hale estava dolorosamente apoiada no pbis dela atravs do tecido fino da saia. O nariz dele pingava sangue. Ela sentiu um gosto de vmito no fundo da garganta. As mos dele estavam sobre seu peito.
Em seguida, no sentiu mais nada. Ele est me bolinando? Levou algum tempo para que Susan compreendesse que Hale estava abotoando sua blusa e ajeitando sua roupa.
- Susan - Hale continuou, sem ar. - Voc tem que me tirar daqui.
Ela parecia estar em transe. Nada fazia sentido.
- Voc precisa me ajudar! Strathmore matou Chartrukian! Eu vi tudo!
As palavras entravam por seus ouvidos, mas o crebro ainda tentava encaixar uma coisa na outra. Strathmore matou Chartrukian? Hale com certeza no sabia que Susan o vira no subsolo.
- Strathmore sabe que eu o vi! - continuou Hale, apressado. - Ele vai me matar tambm!
Se no estivesse com tanto medo, teria rido na cara dele. Ela reconheceu a ttica de dividir para conquistar tpica de um ex-marine. Inventar mentiras, jogar seus inimigos um contra o outro.
-  verdade! - ele gritou. - Temos que pedir ajuda! Acho que ambos corremos perigo!
	Ela no acreditava em nada do que ele dizia.
	A perna musculosa de Hale estava sem circulao e ele mudou de posio para se apoiar na outra perna. Abriu a boca para continuar falando, mas no teve tempo.
Assim que Hale levantou um pouco o corpo, Susan sentiu o sangue voltar s suas prprias pernas. Antes que soubesse o que acontecera, com um reflexo instintivo deu a joelhada mais forte que pde no saco de Hale. Sentiu seu joelho esmagando o tecido fino entre as pernas dele.
Hale gemeu de dor e jogou-se para o lado, contorcendo-se. Susan foi em direo  porta, sabendo que jamais conseguiria abri-la. Tomando uma deciso rpida, ela se posicionou atrs da mesa de reunies de madeira e enfiou seus ps fundo no carpete. Felizmente a mesa tinha rodas. Reunindo todas as suas foras, empurrou a mesa  sua frente na direo da parede de vidro curvo. Graas s rodas, a mesa corria bem sobre o carpete. Na metade do caminho j tinha tomado uma boa velocidade.
A pouco mais de um metro de distncia do vidro, Susan empurrou a mesa com fora e soltou-a. Jogou-se no cho e cobriu a cabea. Aps um estalo forte, a parede explodiu em uma chuva de pequenos cacos de vidro. Os sons do salo da Criptografia entraram no Nodo 3 pela primeira vez desde sua construo.
Susan abriu os olhos. Pelo buraco irregular, ela podia ver a mesa correndo pelo salo e girando sobre si mesma at desaparecer na escurido. Ela enfiou o p de volta em seu Ferragamo, j bastante torcido, deu uma ltima olhada para Greg Hale, que continuava no cho, e saiu correndo pelo mar de cacos para a Criptografia.





CAPTULO
68

- Ento, no foi fcil? - disse Midge, em tom zombeteiro, quando Brinkerhoff lhe entregou as chaves do escritrio de Fontaine.
Ele estava arrasado.
- Vou apagar as fitas antes de sair - prometeu Midge. - A menos, claro, que voc e sua mulher as queiram para sua coleo pessoal.
- Entre l e pegue a maldita impresso - respondeu ele, irritado.  E depois saia!
- S, seor - ironizou Midge. Ela piscou e dirigiu-se para as portas duplas que davam acesso ao escritrio de Fontaine.
A sala de Leland Fontaine no se parecia nem um pouco com o restante da ala da diretoria. No havia pinturas, nem cadeiras sofisticadas, vasos com fcus ou relgios antigos. Todo o espao tinha sido projetado para o mximo de eficincia. A mesa com tampo de vidro e a cadeira de couro preto ficavam em frente  sua enorme janela panormica. Em um canto, perto de uma pequena mesa com uma cafeteira francesa, havia trs gavetes de arquivos. A lua estava bem alta no cu de Fort Meade e sua luz suave entrando pela janela acentuava o ascetismo funcional da decorao do diretor.
Estou ferrado, pensava Brinkerhoff.
Midge correu at a impressora e agarrou a listagem. Ela forou os olhos para enxergar na escurido da sala.
- No consigo ler direito. Acenda as luzes!
- Voc vai ler isso l fora! Ande, vamos.
Mas Midge aparentemente estava se divertindo bastante. Ela brincou com Brinkerhoff, indo at a janela e posicionando o papel para conseguir ler melhor. - Midge...
Ela continuava lendo.
Brinkerhoff olhava nervosamente de um lado para o outro, de p junto  porta.
- Vamos, Midge. Essa  a sala do diretor.
- Est aqui, eu sei que est aqui - murmurou, estudando a listagem.
- Strathmore contornou o Gauntlet, tenho certeza. - Moveu-se para mais perto da janela.
Brinkerhoff comeou a suar. E Midge continuou lendo.
Poucos instantes depois, ela gritou:
- Eu sabia! Strathmore mentiu! Ele realmente ordenou um contorno! Que idiota! - ela brandia o papel. - Olha aqui, ele contornou o Gauntlet!
Brinkerhoff ficou parado um instante, incrdulo, depois atravessou correndo o escritrio do diretor. Juntou-se a Midge em frente  janela. Ela estava apontando para o final da listagem.
Ele leu, perplexo.
- Mas que diabos?
A listagem mostrava os ltimos 36 arquivos processados pelo TRANSLTR.
Depois de cada arquivo vinha um cdigo de permisso do Gauntlet. Contudo, o ltimo no possua cdigo algum. Apenas trazia a seu lado as palavras: CONTORNO MANUAL.
Meu Deus, pensou Brinkerhoff. Midge acertou de novo.
- Que idiota! - disse Midge, eufrica. - Olhe isso! Gauntlet rejeitou o arquivo duas vezes! Tinha cadeias de caracteres mutantes! E ainda assim ele ordenou um contorno. O que Strathmore estava pensando?
Brinkerhoff sentiu que suas pernas estavam trmulas. Ficou pensando como  que Midge sempre acertava essas coisas. Em meio  excitao, nenhum dos dois notou o reflexo que apareceu na janela ao lado deles. Uma figura imponente estava parada na porta do escritrio de Fontaine.
- Uau! Voc acha que  um vrus? - disse Brinkerhoff.
Midge suspirou.
- No pode ser outra coisa.
- Talvez seja algo que no diga respeito a nenhum de vocs - falou uma voz estrondosa atrs deles.
Midge bateu com a cabea na parede. Brinkerhoff perdeu o equilbrio, esbarrou na cadeira do diretor e andou em direo  voz. Ele sabia de quem era aquela silhueta.
- Senhor diretor! - engasgou-se Brinkerhoff. Aproximou-se e estendeu a mo. - Bem-vindo, senhor.
	O enorme homem ignorou-o.
	- Eu... Eu pensei que... - gaguejou Brinkerhoff, soltando o brao.  Pensei que o senhor estivesse na Amrica do Sul.
	Leland Fontaine olhou de cima a baixo seu ajudante, com um olhar fulminante.
- Sim, e agora estou de volta.

CAPTULO
69

- Ei, senhor!
Becker tinha sado do banheiro e se dirigia a uma fileira de telefones pblicos. Parou e virou-se. Atrs dele vinha a garota que ele encontrara no banheiro.
Ela fez sinal para que ele esperasse.	.
O que ela quer agora?, resmungou Becker para si mesmo. Vai me acusar de invaso de privacidade?
A garota puxava sua bolsa na direo de Becker. Quando chegou at ele, estava com um grande sorriso.
- Me desculpe por ter gritado l no banheiro.  que voc me assustou.
- Sem problemas - disse Becker, intrigado. - Digamos que eu estava no lugar errado.
- Olha, isso vai parecer meio louco, mas... - ela disse, piscando os olhos avermelhados. - Voc por acaso no teria algum dinheiro para me emprestar?
Becker olhou para ela, surpreso.
- Dinheiro? Para qu? - No vou financiar suas drogas, se  isso que voc est querendo.
- Estou tentando voltar para casa - disse a loura. - Voc pode me ajudar?
- Perdeu o vo?
Ela fez que sim.
- Perdi meu tquete e no me deixaram entrar. Essas companhias areas so um saco. No tenho grana para comprar outra passagem.
- E seus pais? - perguntou Becker.
- Nos Estados Unidos.
- Voc no pode falar com eles?
- No. J tentei. Acho que foram passar o fim de semana no iate de algum. Becker fez uma rpida inspeo visual nas roupas de grife que ela usava.
- E voc no tem um carto de crdito?
- Tenho, mas meu pai cancelou. Ele acha que estou tomando drogas.
- Voc est tomando drogas? - perguntou Becker, a seco, olhando para o antebrao machucado.
A garota lanou um olhar feroz.
- Claro que no! - Becker pensou se ela no estaria querendo us-lo.
- Puxa, voc parece um cara cheio de dinheiro. No d para me dar uma grana para eu voltar para casa? Eu devolvo depois.
Becker pensou que qualquer dinheiro que desse para a garota iria acabar nas mos de um traficante de drogas em Triana.
- Olha, para comear, no sou rico, sou um professor. Mas tem uma coisa que eu posso fazer... - Posso ver se voc est blefando,  isso que vou fazer.
- Por que voc no deixa que eu compre a passagem para voc?
A loura olhou para ele, desconcertada.
- Uau! Voc faria isso? - Seus olhos brilhavam. - Voc compraria uma passagem de volta para mim? Puxa vida, obrigada!
Becker ficou sem fala. Aparentemente ele havia julgado mal a situao. A moa abraou-o.
- Esse vero foi uma merda - ela soluou, quase chorando. - Puxa vida, obrigada, eu tenho que dar o fora daqui.
Ele devolveu o abrao sem muita convico. Quando a garota se afastou um pouco, Becker voltou a olhar para o brao dela. Ela seguiu o olhar dele at a marca azulada na pele.
- Feio, n?
- Achei que voc tinha dito que no estava tomando drogas.
-  marcador permanente! Quase tive que arrancar a pele tentando fazer essa coisa sumir. A tinta se espalhou - explicou a garota, rindo.
Becker olhou mais de perto. Sob a luz fluorescente do aeroporto, ele podia ver, borradas sob a mancha avermelhada no brao dela, as linhas tnues de algumas palavras rabiscadas no brao.
- Mas os seus olhos... - disse Becker, que comeava a se sentir um idiota.
- Esto vermelhos!
- Eu estava chorando. J disse, perdi meu vo.
Becker tentou ler as palavras que estavam no brao dela.
- Ah... Acho que ainda d para ler, no ? - ela franziu o rosto, envergonhada. Becker chegou ainda mais perto. Quando conseguiu ler as palavras esmaecidas, as ltimas 12 horas passaram diante de seus olhos.
Era como se David estivesse de volta ao quarto do Alfonso XIII. O alemo obeso estava batendo no prprio antebrao e falando em ingls precrio: Fock off.
- Voc est bem? - perguntou a garota, olhando para Becker, que havia entrado em uma espcie de transe.
Sem pestanejar, continuou olhando para o brao dela. Ele estava zonzo. As palavras borradas traziam uma mensagem simples: Fuck off. V se foder.
A garota olhou para o prprio brao, constrangida.
- Pois , foi um amigo que escreveu esse troo.  meio idiota, no?
Ele continuava sem fala. Fock off. Agora fazia sentido. O alemo no estava tentando insult-lo, pelo contrrio, queria ajud-lo. Becker levantou o rosto devagar e examinou a garota. Sob a luz fluorescente do saguo, ele podia ver um resto de tinta vermelha e azul nos cabelos louros.
- Voc... ah... - Becker titubeava, observando as orelhas dela, que no eram furadas. - Voc por acaso usa brincos?
Ela o encarou meio espantada. Pegou um pequeno objeto que estava em seu
bolso e segurou-o. Becker olhou para a caveira que balanava entre os dedos dela.
	- Um brinco de presso?
- Putz, . Nunca tive coragem de furar as orelhas.





CAPTULO
70

David Becker sentiu as pernas ficarem trmulas. Sabia que sua busca havia terminado. A garota tinha lavado os cabelos e mudado de roupa - talvez na esperana de conseguir vender o anel -, mas no chegou a partir para Nova York.
Becker tentou se manter calmo. Sua jornada alucinada estava chegando ao fim. Ele olhou para os dedos dela, mas ela no estava usando nenhum anel. Ento olhou para a bolsa. Tem que estar a dentro, pensou. Tem que estar!
Ele sorriu, mal disfarando sua animao.
- Isso vai soar um pouco estranho, mas eu acho que voc tem algo de que preciso.
- ? - Megan ficou insegura.
Becker pegou a carteira.
- Claro que eu irei pagar. - Ele olhou para baixo e comeou a contar as notas.
Enquanto ele contava o dinheiro, Megan estremeceu, interpretando mal as intenes de Becker. Olhou, apavorada, para a porta de sada do aeroporto. Mediu a distncia, cerca de 50 metros.
- Posso lhe dar dinheiro suficiente para voc comprar sua passagem para casa se...
- No precisa dizer - cortou Megan, com um sorriso forado. - Acho que sei exatamente do que voc precisa. - Ela se inclinou e comeou a revirar a bolsa.
David ficou esperanoso. Ela est com o anel! No sabia como a garota poderia saber que ele estava atrs do anel, mas estava cansado demais para se preocupar com isso. Todos os msculos de seu corpo relaxaram. Visualizou-se entregando o anel ao sorridente vice-diretor da NSA. Ento ele e Susan iriam se deitar na enorme cama com dossis do Stone Manor e recuperar o tempo perdido.
A garota finalmente encontrou o que estava procurando: seu PepperGuard, um spray de pimenta feito de uma poderosa mistura de pimenta-de-caiena com chili. Com um gesto rpido, disparou um jato direto nos olhos de Becker, pegou sua bolsa e saiu correndo em direo  porta. Quando se virou para olhar, Becker estava cado no cho, segurando o rosto e gemendo de dor.

CAPTULO
71

Tokugen Numataka acendeu seu quarto charuto seguido e continuou andando de um lado para o outro. Pegou o telefone e discou o ramal da telefonista.
- E ento? Alguma novidade sobre aquele nmero de telefone?  perguntou antes mesmo que a telefonista pudesse dizer algo.
- Nada ainda, senhor. Est levando mais tempo do que espervamos. A chamada veio de um celular.
Um celular, pensou Numataka. Tpico. Felizmente para a economia japonesa os americanos tinham um apetite insacivel por aparelhos eletrnicos.
- A estao receptora est situada no cdigo de rea 202. Mas ainda no temos o nmero - acrescentou a telefonista.
- 202? Onde fica isso? - Em que parte do vasto territrio americano esse misterioso North Dakota est se escondendo?
- Algum lugar prximo a Washington, D. C., senhor.
Numataka arregalou os olhos.
- Me ligue assim que tiver o nmero.
CAPTULO
72

Susan Fletcher saiu tropeando pelo salo escuro da Criptografia na direo das escadas que levavam ao escritrio do comandante. Era o lugar mais distante de Hale que poderia encontrar dentro do complexo ainda trancado.
Quando chegou ao topo da escada de estrutura metlica encontrou a porta do escritrio entreaberta, j que a fechadura eltrica havia sido desativada pela falta de energia. Ela entrou.
- Comandante? - A nica luz vinha da tela dos monitores de Strathmore.
- Comandante? - Ela chamou mais uma vez. - Comandante!
S ento Susan lembrou-se de que Strathmore estava no laboratrio de SegSis. Andou em crculos pela sala vazia, ainda em pnico por sua luta recente com Hale. Tinha que sair da Criptografia. Com ou sem Fortaleza Digital, era hora de agir. Era preciso interromper a execuo do TRANSLTR e fugir. Olhou para os monitores do chefe e correu em direo  mesa. Colocou a mo sobre o teclado. Interromper o TRANSLTR! A tarefa era simples agora que ela estava em um terminal com autorizao. Susan chamou a janela de comando e digitou:

INTERROMPER EXECUO

Ia apertar a tecla ENTER quando ouviu uma voz, gritando da porta.
- Susan! - Passou por alguns segundos de pnico achando que fosse Hale, mas era Strathmore. Ele estava de p, plido e fantasmagrico, sob a luz dos monitores, respirando pesadamente. - Que diabos est acontecendo?
- Com... Comandante! - Susan ainda estava sem ar. - Hale est no Nodo 3! Ele acabou de me atacar!
	- Como?  impossvel! Ele est trancado l embaixo.
	- No, no est! Ele se soltou! Precisamos que a segurana venha para c agora! Estou interrompendo a execuo do TRANSLTR. - Moveu novamente sua mo em direo ao teclado.
	- NO TOQUE NISSO! - Strathmore pulou na direo do terminal e tirou as mos de Susan de perto do teclado.
	Susan se retraiu, assustada. Olhou para o comandante e, pela segunda vez naquele dia, no o reconheceu. Sentiu uma solido profunda.
Strathmore viu as manchas de sangue na blusa de Susan e arrependeu-se de ter sido to agressivo.
- Meu Deus, est tudo bem?
Ela no respondeu.
Ele lamentou ter pulado sobre ela sem necessidade. Seus nervos estavam em frangalhos, pois estava lidando com problemas demais ao mesmo tempo. Havia muitas coisas que apenas ele sabia, coisas que no contara para Susan e esperava nunca ter que contar.
- Peo desculpas - disse, mais calmo. - Me diga o que aconteceu.
Ela lhe deu as costas.
- No importa. O sangue no  meu. Apenas me tire daqui.
- Voc est machucada?  Strathmore colocou a mo sobre seu ombro. Ela se contraiu, afastando-se ligeiramente. Ele deixou cair o brao e olhou para baixo. Quando voltou a encarar Susan, ela estava olhando sobre seus ombros para algo na parede.
Ali, em meio  escurido, um pequeno teclado numrico brilhava intensamente. Strathmore seguiu o olhar dela e franziu a testa. Ele esperava que ela no notasse o painel iluminado que controlava seu elevador privativo. Strathmore e seus convidados das altas esferas do poder usavam aquele elevador para entrar e sair da Criptografia sem serem vistos pelo restante da equipe. Ele descia 50 metros abaixo do domo da Criptografia e depois se movia lateralmente por uns 100 metros, atravs de um tnel subterrneo reforado, saindo no subsolo do complexo principal da NSA. O elevador recebia energia do complexo central e, portanto, estava funcionando apesar da falta de luz na Criptografia.
O comandante sabia o tempo todo que ele estava funcionando, mas, mesmo quando Susan estivera socando a sada principal l embaixo, ele no disse nada. Strathmore no podia deixar que Susan sasse; ainda no. Ponderou o quanto teria que lhe contar para fazer com que ela se dispusesse a ficar.
Susan o empurrou e correu para a parede onde estava o elevador. Apertou  furiosamente os botes  iluminados.
	- Por favor, vamos - ela implorou. Mas a porta no se abriu.
	- Susan, esse elevador requer uma senha - disse Strathmore, ainda com voz baixa e controlada.
- Uma senha? - repetiu ela, com raiva, olhando para os controles. Abaixo do teclado numrico principal havia um segundo teclado, menor, com botes pequenos. Cada um deles estava marcado com uma letra do alfabeto. Susan voltou-se para o comandante. - Me diga qual  a senha!
Strathmore pensou um pouco e depois suspirou pesadamente.
- Susan, sente-se.
Ela olhou para ele perplexa, sem acreditar no que estava ouvindo.
- Sente-se - repetiu ele, com voz firme.
- Deixe-me sair daqui! - disse Susan, olhando preocupada para a porta da sala, que permanecia aberta.
Strathmore percebeu o estado de pnico de Susan e calmamente se dirigiu at a porta do escritrio. Deu um passo para fora e olhou para o salo da Criptografia. Hale no estava em nenhum lugar visvel. O comandante voltou ao escritrio e puxou a porta. Colocou uma cadeira encostada contra ela para mant-la fechada. Foi at sua mesa e pegou algo em uma gaveta. Na plida luz azulada dos monitores, Susan viu o que ele estava segurando e ficou lvida. Era uma arma.
Strathmore puxou duas cadeiras para o meio da sala. Virou-as de forma que ficassem de frente para a porta fechada do escritrio. Depois sentou-se. Apontou a pistola Beretta para a porta e estabeleceu uma mira firme. Colocou a arma em uma posio conveniente no seu colo.
Voltou a falar, agora de forma solene.
- Susan, estamos seguros aqui. Precisamos conversar. Se Hale decidir atravessar essa porta... - deixou a frase terminar em silncio.
	Susan estava imvel. Strathmore olhou para ela sob a luz tnue de seu escritrio e deu uns tapinhas na cadeira a seu lado.
- Por favor, sente-se. Eu tenho que lhe contar uma coisa. - Ela no se moveu. - Quando eu terminar, lhe dou a senha para o elevador. Voc decidir, ento, se quer ou no sair.
	Houve um longo silncio. Em um transe, Susan sentou-se ao lado do comandante.
- No fui inteiramente honesto com voc - disse Strathmore.

CAPTULO
73

David Becker sentia o rosto pegando fogo, como se tivesse sido encharcado com terebintina e incendiado. Rolou pelo cho, tentando enxergar alguma coisa. Com o pouco da viso central que lhe sobrara, viu a garota a meio caminho da porta de sada. Ela estava correndo, assustada, arrastando a bolsa. Becker tentou levantar-se, mas no conseguia. Estava praticamente cego, os olhos ardiam como se estivessem em brasas. Ela no pode fugir! Tentou gritar, mas no tinha ar em seus pulmes, sentia apenas uma dor terrvel.
- No - ele tossiu. O som mal saiu de seus lbios.
Becker sabia que, se ela atravessasse aquela porta, iria desaparecer para sempre. Tentou cham-la de novo, mas sua garganta parecia seca e incapaz de emitir qualquer som.
A garota estava quase chegando at a porta. Becker conseguiu ficar de p, tonto e sem ar. Saiu tropeando atrs dela. Ainda puxando a bolsa, a moa se atirou no primeiro segmento da porta giratria. Uns 20 metros atrs, Becker caminhava cegamente na mesma direo.
- Espere, espere... - disse, com a voz engasgada.
A loura empurrou a porta furiosamente, mas, depois de girar um pouco, ela emperrou. Assustada, a garota virou-se e viu que a bolsa tinha ficado presa na abertura. Ajoelhou-se e puxou-a com toda a fora para tentar solt-la.
Becker fixou sua viso tnue no tecido que saa pela porta. Quando se jogou no cho, tudo que conseguia ver era o nilon vermelho saindo pela fresta. Voou em direo a ele com os braos esticados.
Caiu no cho, sua mo a apenas alguns centmetros de distncia, mas a bolsa deslizou pela abertura e sumiu. Seus dedos se fecharam sobre o nada e a porta girou. A garota saltou para a rua carregando a bolsa.
- Megan! - Becker gritou, deitado no cho. Sentia-se como se seus olhos estivessem sendo perfurados por agulhas. Sua viso ficou completamente negra e uma nova onda de nusea o invadiu. Sua voz ecoou na escurido. Megan!
David Becker no tinha idia de quanto tempo passara no cho antes que percebesse o zumbido das lmpadas fluorescentes acima dele. Tudo mais estava em silncio e, em meio ao silncio, havia uma voz. Algum estava chamando. Tentou levantar a cabea. O mundo parecia estar fora de foco e torto. Mais uma vez, ouviu a voz. Entreabriu os olhos e, a cerca de 20 metros de distncia no saguo, viu um vulto.
- Senhor?
Becker reconheceu a voz. Era a garota. Ela estava novamente dentro do aeroporto, em outra porta, mais  frente, segurando com fora a mochila contra o peito. Parecia ainda mais assustada agora do que antes.
- Senhor? - ela perguntou novamente, com a voz trmula. - Eu nunca lhe disse meu nome. Como voc sabe meu nome?

CAPTULO
74

O diretor Leland Fontaine tinha 63 anos e era um homem corpulento. Usava os cabelos bem curtos, no estilo militar, e tinha uma postura rgida no trabalho. Seus olhos pretos pareciam carvo em brasa quando ficava irritado, O que queria dizer "quase sempre. Ele havia subido na hierarquia da NSA  custa de muito trabalho, de um bom planejamento e do respeito que seus antecessores tinham por ele. Era o primeiro diretor negro da NSA, mas ningum mencionava isso. A conduta de Fontaine era absolutamente neutra no que dizia respeito  raa, e sua equipe agia da mesma forma.
Fontaine deixou Midge e Brinkerhoff de p enquanto executava um silencioso ritual de preparar uma caneca de caf forte. Depois sentou-se diante da escrivaninha, ainda deixando-os de p, e interrogou-os como se fossem crianas no gabinete do diretor da escola.
Midge falou, explicando a seqncia inusitada de eventos que os levara a violar a privacidade do escritrio de Fontaine.
- Um vrus? - questionou o diretor, secamente. - Os dois acham que temos um vrus?
Brinkerhoff estremeceu.
- Sim, senhor - respondeu prontamente Midge.
- Isso porque Strathmore mandou contornar o Gauntlet?  perguntou Fontaine, olhando para a impresso  sua frente.
- Sim - ela disse. - E h um arquivo sendo executado no TRANSLTR h mais de 20 horas, sem que tenha sido decodificado.
Fontaine franziu a testa.
- Ou pelo menos  o que seus dados dizem.
Midge ia contra-argumentar, mas segurou a lngua. Em vez disso, deu outra informao:
- H um apago na Criptografia.
Fontaine olhou-a, surpreso.
Ela confirmou com um aceno curto de cabea.
- Toda a energia caiu. Jabba acredita que talvez...
- Voc falou com Jabba?
- Sim, senhor, eu...
- Com Jabba? - Fontaine levantou-se, furioso. - Por que diabos voc no ligou diretamente para Strathmore?
- Ligamos! - Midge defendeu-se. - Mas ele disse que estava tudo bem. Fontaine se levantou. Prosseguiu, friamente:
- Ento no temos razo para duvidar dele, no ? - Havia um leve tom de intimidao em sua voz. Sentou-se e tomou um gole de caf. - Agora, se me derem licena, preciso terminar um trabalho.
Midge no estava acreditando.
- Como?
Brinkerhoff caminhou em direo  porta, mas Midge continuou parada no mesmo lugar.
- Eu disse "boa noite", senhorita Mi1ken - repetiu Fontaine. - Vocs esto dispensados.
	- Mas, mas senhor... - ela hesitou. - Eu devo protestar. Creio que...
	- Voc deve protestar? - O diretor bateu a caneca de caf na mesa.  Eu protesto! Protesto contra sua presena em minha sala. Protesto contra suas insinuaes de que o vice-diretor desta agncia est mentindo. Protesto contra...
	- Temos um vrus, senhor. Meus instintos me dizem...
	- Seus instintos esto errados desta vez, senhorita Mi1ken! Uma vez na vida, esto errados!
	- Mas, senhor! O comandante Strathmore mandou contornar o Gauntlet! - Midge respondeu rapidamente.
	Fontaine levantou-se e andou at ficar bem em frente a Midge, mal contendo sua raiva.
- Isso  prerrogativa dele! Eu pago voc para vigiar analistas e o pessoal de apoio. No para espionar meu vice-diretor! Se no fosse por ele, ainda estaramos quebrando cdigos usando lpis e papel! Agora saia! - Virou-se para Brinkerhoff, que estava parado na porta, plido e trmulo. - Vocs dois, saiam!
- Com o devido respeito, senhor - insistiu Midge. - Gostaria de recomendar que envissemos uma equipe de SegSis para a Criptografia s para termos certeza de que...
- No vamos enviar equipe alguma.
Houve uma pausa tensa. Finalmente, Midge concordou.
	- Sim, senhor. Boa noite, senhor. - Virou-se e saiu. Quando passou por Brinkerhoff, ele pde ver em seus olhos que ela no tinha a menor inteno de deixar o assunto morrer. Pelo menos enquanto sua intuio no estivesse satisfeita.
O assistente olhou para o chefe, do outro lado da sala, imponente e irritado atrs de sua mesa. No era esse o diretor que ele conhecia. Fontaine normalmente era apegado a detalhes e gostava de ver as coisas esclarecidas. Sempre encorajava sua equipe a examinar e passar a limpo quaisquer inconsistncias nos procedimentos mais triviais. Ainda assim, ele acabara de pedir que esquecessem uma srie de coincidncias particularmente estranhas.
O diretor obviamente estava escondendo algo, mas Brinkerhoff era pago para apoiar e no para questionar. Fontaine havia demonstrado diversas vezes que sempre lutava pelo bem-estar de todos. Se, naquele momento, apoi-lo significava fazer vista grossa, ento que fosse. Infelizmente, Midge era paga para questionar, e Brinkerhoff temia que ela tivesse se encaminhado para a Criptografia a fim de fazer justamente isso.
Melhor atualizar meu currculo e procurar outro emprego, Brinkerhoff pensou enquanto se virava para sair.
- Chad! - gritou Fontaine, que tambm notara o olhar de Midge ao sair.
- No a deixe sair deste prdio.
Brinkerhoff assentiu e saiu correndo atrs de Midge.
Fontaine suspirou e apoiou a cabea entre as mos. Seus olhos estavam pesados. Havia sido uma longa e inesperada viagem de volta. Durante todo o ltimo ms ele tinha vivido uma intensa expectativa. Naquele momento estavam acontecendo muitas coisas dentro da NSA que iriam mudar a Histria e, ironicamente, o diretor s as havia descoberto recentemente por sorte.
Trs meses atrs, Fontaine havia sido informado de que a mulher do comandante Strathmore estava pedindo o divrcio. Tambm lhe relataram que o vicediretor estava trabalhando um nmero enorme de horas e parecia prestes a sucumbir ao estresse. Apesar das divergncias entre eles, Fontaine sempre teve grande estima e respeito por Strathmore. Ele era brilhante, um dos melhores vice-diretores que a NSA j tivera. Ao mesmo tempo, desde o fracasso do Skipjack, Strathmore vivia sob grande estresse. Isso deixava Fontaine em uma posio desconfortvel, pois o comandante tinha muitas atribuies e prestgio na NSA. O diretor, por sua vez, tinha que proteger a agncia.
Fontaine precisava de algum que mantivesse Strathmore sob constante observao, para ter certeza de que ele estava bem.  claro, contudo, que isso no era simples. O comandante era um homem poderoso e orgulhoso. Fontaine precisava encontrar uma forma de vigi-lo sem arruinar sua confiana ou credibilidade.
Acabou decidindo, em grande parte por respeito a Strathmore, que ele mesmo faria o trabalho. Fez com que um "grampo" invisvel fosse instalado na conta do vice-diretor na Criptografia, de forma que podia acessar seu e-mail, sua correspondncia interna, os planos desenvolvidos no BrainStorm, absolutamente tudo. Assim, se Strathmore de fato fosse perder o controle, o diretor perceberia os indcios monitorando seu trabalho. No entanto, em vez de descobrir sinais de um colapso nervoso iminente, Fontaine se deparou com um intenso trabalho de preparao para um dos mais impressionantes planos de inteligncia que j havia visto. No era surpresa que o comandante estivesse se matando de trabalhar - se realmente conseguisse executar seu plano, o ganho seria centenas de vezes mais significativo do que as perdas resultantes do fracasso do Skipjack.
Fontaine acabou concluindo que Strathmore estava muito bem, trabalhando a 110% - esperto, inteligente e patritico como sempre fora. A melhor coisa que o diretor poderia fazer era abrir caminho e deixar que ele fizesse o trabalho do seu jeito. O comandante havia elaborado um plano, e Fontaine no tinha a menor inteno de interromp-lo.

CAPTULO
75

Strathmore passou os dedos na Beretta que estava em seu colo. Apesar de estar furioso, havia sido treinado para pensar com clareza. O fato de que Greg Hale ousara tocar em Susan Fletcher o deixava revoltado, mas saber que tinha sido por sua culpa s tornava as coisas piores. Afinal, a idia de deixar Susan sozinha no Nodo 3 tinha sido dele. Strathmore era experiente o bastante para compartimentalizar suas emoes. Elas no podiam, de forma alguma, interferir em sua estratgia para lidar com o Fortaleza Digital. Ele era o vice-diretor da NSA. E seu trabalho, naquele dia, era ainda mais crtico do que de costume.
Strathmore controlou sua respirao.
- Susan - sua voz soava eficiente e clara. - Voc chegou a apagar o e-mail de Hale? 
- No - respondeu ela, confusa.
- Conseguiu a chave?
Ela balanou a cabea.
O comandante contraiu o rosto, tenso. Sua mente vasculhava as possibilidades. Ele tinha um dilema em suas mos. Poderia muito bem dar a senha de seu elevador, e Susan iria embora. Mas precisava dela para encontrar a chave de Hale. Obter a chave era muito mais que uma questo de interesse acadmico - era um imperativo absoluto. Strathmore acreditava que podia executar a pesquisa de no-conformidade e encontrar a chave por conta prpria, mas ele j tivera problemas antes ao tentar executar o tracer. No queria se arriscar a cometer o mesmo erro de novo.
- Susan - respirou fundo, pensando qual rumo tomar. - Gostaria que me ajudasse a encontrar a chave de Hale.
- Como? - Ela se levantou, os olhos arregalados.
Strathmore lutou contra o desejo de levantar-se tambm. Conhecia bem as tcnicas de negociao e sabia que a posio de poder era sempre de quem estava sentado. Esperou que Susan se sentasse novamente, mas ela no o fez.
- Sente-se, por favor.
Ela o ignorou.
- Sente-se. - Era uma ordem.
Susan permaneceu de p.
- Comandante, se voc ainda tem algum profundo desejo de saber o que est dentro do algoritmo de Tankado, pode continuar sozinho. Eu estou fora.
Strathmore deixou a cabea pender e respirou profundamente. Estava claro que seria necessrio explicar algumas coisas. Ela merece as explicaes, pensou. Tomou uma deciso: era hora de contar tudo para Susan. Esperava no estar cometendo um grande erro.
- Susan, eu no esperava ter que chegar a este ponto. H algumas coisas que eu no lhe contei. Algumas vezes, um homem em minha posio deve... - O comandante hesitou, como se estivesse fazendo uma confisso difcil. - Algumas vezes, um homem em minha posio  forado a mentir para as pessoas que ama. Hoje foi assim. - Olhou para ela com uma expresso triste. - Vou lhe contar algo que eu no esperava ter que dizer... nem para voc, nem para ningum.
	Susan sentiu um arrepio. O comandante estava com uma expresso sria. Estava claro que havia alguma coisa em seus planos que ela ignorava. Sentou-se.
	Seguiu-se uma longa pausa. Strathmore olhou para o teto, tentando colocar em ordem seus pensamentos. Depois prosseguiu, com a voz abatida:
- No tenho mais famlia - voltou a olhar para ela. - No tenho mais casamento. Minha vida tem sido meu amor por este pas. Minha vida tem sido meu trabalho aqui na NSA.
	Susan ouvia, em silncio.
	- Como voc deve ter percebido, eu planejo me aposentar em breve. Mas queria me aposentar de forma digna. Queria me aposentar sabendo que de fato fiz uma diferena.
	- Mas  claro que fez! - interrompeu Susan quase involuntariamente.  Voc construiu o TRANSLTR.
	Strathmore continuou, imerso em seus pensamentos.
	- Nos ltimos anos, nosso trabalho aqui na NSA ficou cada vez mais difcil. Temos enfrentado inimigos completamente inesperados. Estou falando de nossos prprios cidados. Os advogados, os fanticos pelos direitos civis, a EFF, todos eles contriburam, mas vai alm disso. So as pessoas. Elas perderam a f. Tornaram-se paranicas. Subitamente passaram a nos ver como se fssemos o inimigo. Pessoas como voc e eu, que realmente do valor quilo que  mais importante para a nao, subitamente tm que lutar pelo direito de servir ao pas. No somos mais guardies da paz. Somos bisbilhoteiros, voyeurs, violadores dos direitos civis. - Strathmore suspirou. - Infelizmente h muita gente ingnua neste mundo, que no pode imaginar os horrores que enfrentaria se no estivssemos aqui para intervir. Eu acredito, honestamente, que  nosso dever salvar essas pessoas de sua prpria ignorncia.
Susan esperou que ele conclusse seu pensamento. O comandante olhou para o cho, desgastado, e depois continuou.
- Oua o que tenho a dizer. - Falou, sorrindo de forma carinhosa para ela. - Oua at o fim, por mais estranho que soe. H dois meses eu venho desencriptando o e-mail de Tankado. Como voc pode imaginar, fiquei chocado quando li as primeiras mensagens para North Dakota a respeito de um algoritmo indecifrvel chamado Fortaleza Digital. No acreditei que fosse possvel. Contudo, a cada nova mensagem que eu interceptava, Tankado parecia mais convincente. Quando li que ele havia usado cadeias de caracteres mutantes para escrever uma chave circular, percebi que estava anos-luz  nossa frente. Era uma abordagem que nenhum de ns havia tentado.
- E por que teramos tentado? - perguntou Susan. - A coisa toda mal faz sentido. 
Strathmore levantou-se e andou de um lado para o outro, mantendo-se atento  porta.
- H algumas semanas, quando ouvi falar no leilo do Fortaleza Digital, aceitei o fato de que Tankado estava falando srio. Claro que, se vendesse o algoritmo para uma empresa de software japonesa, estaramos acabados, ento pensei em formas de det-lo. Poderia mandar mat-lo, mas, com toda a publicidade em torno do algo ritmo e suas recentes alegaes pblicas sobre a existncia do TRANSLTR, seramos os principais suspeitos. Foi ento que mudei de perspectiva. - Virou-se para Susan. - Compreendi que no deveria tentar deter a criao do Fortaleza Digital.
Susan olhou para ele, sem entender muito bem aonde queria chegar.
- Subitamente percebi que essa poderia ser uma oportunidade nica. Com algumas mudanas, o Fortaleza Digital poderia trabalhar para ns e no contra ns.
Ela estava achando aquilo completamente absurdo. O Fortaleza Digital era indecifrvel. Poderia destru-los.
- Se... - continuou Strathmore - se eu pudesse fazer uma pequena alterao no algoritmo antes que fosse lanado... - deu uma piscadela marota para ela.
O comandante notou que os olhos de Susan se iluminaram. Continuou a explicar seu plano, entusiasmado.
- Se eu pudesse obter a chave, poderia desencriptar nossa cpia do Fortaleza Digital e inserir uma modificao.
- Uma back door, um acesso de programador! - disse Susan, deixando de lado as mentiras que o comandante j lhe contara antes. Uma onda de excitao a invadiu. - Exatamente como no caso do Skipjack.
- Poderamos substituir o arquivo de Tankado disponvel na Internet por nossa verso alterada. Como o Fortaleza Digital  um algo ritmo japons, ningum iria suspeitar de que a NSA poderia ter mexido nele. Bastaria fazer a troca - explicou Strathmore.
Susan compreendeu que o plano no era apenas engenhoso. Era puramente... Strathmore. Ele planejava possibilitar o lanamento e disseminao de um algo ritmo que a NSA poderia quebrar!
- Teremos acesso absoluto - prosseguiu ele. - O Fortaleza Digital se tornar o padro global de encriptao imediatamente.
- Imediatamente? - perguntou Susan. - Como assim? Mesmo se o Fortaleza Digital estiver disponvel gratuitamente para todos, muitos usurios iro continuar usando seus algoritmos antigos apenas por convenincia. Por que todos iriam usar o Fortaleza Digital?
Strathmore sorriu, maquiavlico.
- Bem, vamos supor que haja um vazamento "acidental" de informaes, e as pessoas descubram que a NSA tem o TRANSLTR...
Susan deixou cair o queixo.
-  tudo muito simples, Susan. Basta deixarmos que a verdade se espalhe.
Contaremos ao mundo que a NSA possui um computador capaz de quebrar todos os algoritmos existentes. Todos, exceto o Fortaleza Digital.
Susan estava realmente impressionada.
- Sim, os usurios passariam a usar o Fortaleza Digital sem saber que somos capazes de decifr-lo!
- Exato! - Houve um longo silncio. - Lamento ter mentido para voc, mas foi necessrio. Tentar reescrever o Fortaleza Digital  uma aposta alta e no queria que voc estivesse envolvida. Mentir era a nica forma de deix-la fora do circuito.
- Eu... eu entendo - respondeu lentamente, ainda impressionada com a genialidade do plano.- E quantas pessoas sabem disso?
- Estamos todos aqui.
Susan sorriu pela primeira vez em uma hora.
- Foi o que pensei. - Strathmore tambm sorriu. - Quando o Fortaleza Digital estiver "pronto, vou falar com o diretor.
Susan estava maravilhada. O plano de Strathmore era um golpe na comunidade de inteligncia de todo o planeta, com uma magnitude nunca antes tentada. Ele tinha cuidado de tudo sozinho e ainda assim era provvel que se sasse bem. A senha estava logo ali, na outra sala. Tankado estava morto e seu parceiro havia sido localizado.
Foi neste ponto que Susan parou.
Tankado est morto. Continuava soando um pouco conveniente demais. Pensou em todas as outras mentiras que o comandante j havia lhe contado e sentiu um arrepio desagradvel. Olhou desconfiada para ele e perguntou:
- Voc matou Ensei Tankado?
Strathmore pareceu surpreso. Balanou a cabea.
- Claro que no. No havia motivos para isso. Na verdade, seria melhor se ele estivesse vivo. Sua morte pode lanar alguma suspeita sobre o Fortaleza Digital. Queria que esta alterao no algo ritmo fosse feita da forma mais tranqila e discreta possvel. O plano original era fazer a troca e deixar que Tankado vendesse sua chave.
Fazia sentido, pensou Susan. Tankado no teria razo para suspeitar de que o algoritmo na Internet no era o original. Ningum mais tinha acesso a ele, a no ser o prprio Tankado e North Dakota. A menos que Tankado resolvesse analisar novamente o algoritmo depois do seu lanamento, jamais descobriria o acesso de programador. Ele j havia trabalhado no Fortaleza Digital durante tanto tempo que provavelmente nunca mais teria vontade de revisar a programao.
Ela deixou as coisas se assentarem em sua mente. Entendeu por que o comandante precisava tanto manter a privacidade na Criptografia. A tarefa que ele tinha em mos era delicada e requeria tempo. Escrever um acesso de programador oculto em um algo ritmo complexo e fazer uma troca na Internet sem deixar rastros no eram tarefas simples. No deixar rastros da operao era essencial. A mera suposio de que o Fortaleza Digital havia sido alterado arruinaria o plano do comandante.
Somente ento ficou claro por que ele havia decidido deixar o TRANSLTR executando a tarefa durante todo aquele tempo. Se o Fortaleza Digital vai ser o novo brinquedo da NSA, Strathmore quer ter a certeza de que o algoritmo  impossvel de ser quebrado.
- Voc ainda quer ir embora? - ele perguntou.
Susan olhou para ele. Enquanto esteve sentada ali, envolta na escurido, ao lado do grande Trevor Strathmore, seu medo desaparecera. Reescrever o Fortaleza Digital era uma chance de entrar para a Histria, uma chance de fazer um grande bem, e ela certamente podia ajudar. Relutantemente, Susan forou um sorriso e perguntou:
- Qual nossa prxima jogada?
Strathmore se aproximou e colocou a mo sobre o ombro dela.
- Obrigado - sorriu, voltando logo em seguida a pensar na estratgia que usaria. - Vamos descer juntos. Voc ir fazer a pesquisa no terminal de Hale. Eu ficarei l para lhe dar cobertura - disse, segurando a Beretta.
Susan ficou tensa diante da idia de voltar l para baixo.
- No podemos esperar que David obtenha a cpia de Tankado?
- No. Quanto mais cedo fizermos a troca, melhor. Nem mesmo temos uma garantia de que David conseguir achar a outra cpia. Se, por algum incidente, a outra chave cair em mos erradas por l, prefiro que j tenhamos trocado os algoritmos. Dessa forma, quem quer que obtenha a chave ir fazer o download da nossa verso do algoritmo. - Strathmore colocou o dedo no gatilho da arma e ficou de p. - Precisamos encontrar a chave de Hale.
Susan ficou em silncio. O comandante tinha razo, precisavam daquela chave j. Quando se levantou, suas pernas estavam bambas. Arrependeu-se de no ter batido em Hale com mais fora. Olhou para a arma na mo de Strathmore e sentiu-se mal. - Voc realmente pretende atirar em Hale?
- No - respondeu Strathmore srio, dirigindo-se para a porta. - Mas vamos torcer para que ele acredite que vou.

CAPTULO
76

Um txi estava parado do lado de fora do aeroporto de Sevilha com o taxmetro rodando. O passageiro, usando culos de armao de metal, observava a cena que se desenrolava do lado de dentro do terminal iluminado. Havia chegado a tempo.
Ele podia ver uma garota loura. Ela estava ajudando David Becker a sentarse em uma cadeira. Aparentemente ele estava com dores. Ele ainda no sabe o que  dor, pensou o passageiro.
A jovem tirou um pequeno objeto de dentro do bolso e entregou-o a David, que o examinou contra a luz e o colocou em um de seus dedos. Ele pegou um mao de notas em seu bolso e pagou a garota. Conversaram por mais alguns minutos. Depois ela abraou-o, despedindo-se, colocou a bolsa no ombro e saiu andando pelo saguo.
Finalmente, pensou o homem no txi. Finalmente.

CAPTULO
77

Strathmore saiu de seu escritrio com a arma em punho. Susan o seguia bem de perto, pensando se Hale ainda estaria no Nodo 3.
Vindo por trs, a luz do monitor de Strathmore criava sombras fantasmagricas de seus corpos pela plataforma gradeada. Susan se aproximou ainda mais do comandante.
 medida que se afastaram da porta, a luz foi diminuindo at eles mergulharem na escurido. A nica claridade no salo da Criptografia vinha das estrelas acima e da leve luminosidade que saa pela janela quebrada do Nodo 3.
Strathmore avanava com cautela, procurando o local onde a escadaria estreita comeava. Passando a arma para a mo esquerda, segurou o corrimo com a direita. Calculou que sua mira provavelmente seria igualmente ruim com a mo esquerda e precisava da direita para apoiar-se. Uma queda daquela escada poderia deixar algum paraltico, e os sonhos de Strathmore para sua aposentadoria no incluam uma cadeira de rodas.
Sem enxergar nada devido  escurido no domo, Susan descia as escadas com a mo no ombro de Strathmore. Mesmo a meio metro de distncia, ela no conseguia ver a silhueta do comandante. Ao pisar em cada degrau de metal, movimentava levemente o p procurando a extremidade.
J estava arrependida de ter aceitado voltar ao Nodo 3 para obter a senha de Hale. O comandante insistia que Hale no teria coragem de atac-los, mas ela no tinha tanta certeza. Ele estava desesperado e tinha apenas duas opes: escapar da Criptografia ou ir para a priso.
Uma voz interior no parava de dizer que deveriam esperar pelo chamado de David e usar a senha dele, mas no havia garantias de que ele seria capaz de encontr-la. Tentou imaginar a razo pela qual David estava demorando tanto. Controlando sua tenso, Susan seguiu em frente.
Strathmore descia silenciosamente. No queria alertar Hale. Perto do final da escada, Strathmore reduziu o passo, tateando com o p para encontrar o ltimo degrau. O salto de seu sapato bateu na superfcie rgida do assoalho de cermica. Susan sentiu-o contrair o ombro. Haviam chegado na zona perigosa. Hale poderia estar em qualquer lugar.
Do outro lado, agora escondido por trs do TRANSLTR, estava o ponto de destino, o Nodo 3. Susan rezou para que Hale ainda estivesse l, deitado no cho, gemendo de dor como o co desprezvel que era.
Strathmore soltou o corrimo e passou a arma de volta para a mo direita. Moveu-se na escurido no mais absoluto silncio. Susan segurou firme em seu ombro. Se ela se perdesse, a nica forma de encontr-Io seria chamando-o, e Hale poderia ouvi-Ios.  medida que se moviam para longe da segurana das escadas, Susan lembrou-se das brincadeiras de pique-esconde, tarde da noite, quando era criana. Ela havia deixado a base e estava em terreno aberto. Vulnervel.
O TRANSLTR era a nica ilha na vasta escurido. Strathmore avanava alguns passos, depois parava e ouvia atentamente, arma em punho. O nico som, contudo, vinha dos geradores abaixo deles. Susan desejou pux-Io de volta, retomar segurana da base. Para onde quer que olhasse, parecia haver rostos na escurido.
A meio caminho em direo ao TRANSLTR, o silncio da Criptografia foi quebrado. Em algum lugar na escurido, aparentemente acima deles, um bipe agudo rasgou a noite. Strathmore virou-se e Susan perdeu o contato. Com medo, ela tateou ao seu redor, tentando encontr-Io. Mas o comandante tinha sumido. Havia apenas espao vazio em torno dela. Ela deu mais alguns passos incertos para a frente.
 O bipe intermitente continuava. Estava prximo. Susan avanou na escurido. Ouviu um rudo de tecido sendo remexido, depois o bipe cessou. Susan congelou. Um instante depois, como algo que se materializasse de seus piores sonhos da infncia, uma viso surgiu. Uma face se materializou bem  frente dela, fantasmagrica e verde. Era a face de um demnio, com sombras cortantes projetando-se por cima da feio deformada. Ela saltou para trs. Tentou correr, mas seu brao foi agarrado.
- No se mexa! - disse a voz.
Susan pensou ter visto Hale naqueles olhos demonacos. A voz, contudo, no era a dele. E o toque era suave demais. Era Strathmore. Um objeto brilhante que ele havia retirado do bolso estava iluminando seu rosto por baixo. Ela soltou um suspiro profundo de alvio. Sentiu o ar retomando a seus pulmes. O objeto que o comandante segurava tinha um visor eletrnico que era a fonte da luz esverdeada.

- Diabos - Strathmore amaldioou em um murmrio. - Meu novo pager. - Olhou irritado para o SkyPager em sua mo. Ele tinha comprado o dispositivo em uma loja de produtos eletrnicos prximo ao trabalho. Pagou em dinheiro, pois sabia o quo bem a NSA vigiava seu prprio pessoal, e as mensagens digitais enviadas e recebidas por aquele pager eram algo que Strathmore definitivamente precisava manter em segredo.
Susan tentou enxergar alguma coisa  sua volta, nervosa. Se Hale no tivesse percebido at aquele momento que eles estavam se aproximando, agora ele sabia.
Strathmore apertou alguns botes e leu a mensagem. Resmungou. Ms notcias vindas da Espanha. No de David Becker, mas da outra fonte que ele havia enviado para Sevilha.
A cinco mil quilmetros de distncia, uma van de vigilncia mvel cruzava em alta velocidade as ruas de Sevilha  noite. Tinha sido requisitada pela NSA sob o cdigo de segurana Umbra e partido de uma base militar em Rota. Os dois homens no seu interior estavam tensos. No era a primeira vez que recebiam ordens urgentes de Fort Meade, mas as ordens em geral no vinham de algum to alto na hierarquia.
- Localizou nosso homem? - o agente ao volante perguntou ao parceiro. Sem tirar os olhos do monitor da cmera com grande-angular posicionada no teto, o parceiro respondeu:
- No, vamos em frente.

CAPTULO
78

Jabba estava suando, enfiado sob uma maaroca de cabos. Ainda estava de costas no cho, segurando uma pequena lanterna entre os dentes. Tinha se acostumado a trabalhar durante os fins de semana. Esses dias mais calmos na NSA eram freqentemente as poucas vezes em que podia fazer manuteno no hardware. Movia-se com enorme cuidado enquanto manipulava o ferro de soldar em brasa nos espaos exguos do labirinto de cabos acima dele. Se o revestimento isolante de um cabo fosse danificado, seria desastroso.
S mais alguns milmetros... A tarefa estava demorando mais do que ele previra. Quando estava colocando a ponta do ferro contra a ltima gota de solda, seu telefone celular tocou abruptamente. Jabba assustou-se e um pingo de solda caiu em seu brao. Chumbo lquido.
- Merda! - Deixou cair o ferro de soldar e praticamente engoliu a pequena lanterna. - Merda! Merda! Merda!
Esfregou vigorosamente o brao queimado. O pingo de chumbo deixara uma grande marca. O chip que ele estava tentando soldar caiu da placa e foi bater em sua cabea.
- Mas que droga!
O telefone de Jabba continuava tocando. Ignorou-o.
- Midge - vociferou. Que se dane! A Criptografia est bem!
O telefone continuou tocando. Jabba retomou  sua tarefa de fixar o chip na placa. Pouco depois o chip j estava no lugar, mas o celular no parava de tocar. Mas que coisa, Midge! Esquea isso! O telefone tocou mais alguns segundos e finalmente parou. Jabba suspirou, aliviado.
Um minuto depois o intercomunicador da sala onde estava entrou em ao. "Pedimos que o chefe do Departamento de Segurana de Sistemas entre em contato com a central telefnica."
Jabba estava achando que aquilo era um pouco demais. Ela realmente no vai desistir? Ignorou o chamado.



CAPTULO
79

Strathmore colocou seu pager de volta no bolso e olhou, no escuro, em direo ao Nodo 3.
- Vamos - disse ele, esticando o brao para pegar a mo de Susan.
O gesto, contudo, foi interrompido.
Um longo grito gutural ecoou na escurido. Como um trovo, uma silhueta se materializou, um blido sem freios sado do nada. Logo em seguida houve um choque, e Strathmore saiu rolando pelo cho.
Era Hale. O pager havia denunciado a presena deles.
Susan ouviu a arma cair. Por alguns instantes ficou esttica, sem saber para onde correr ou o que fazer. Seus instintos diziam que ela deveria fugir, mas no tinha o cdigo do elevador. Seu corao dizia que deveria ajudar Strathmore, mas como? Enquanto tentava pensar, desesperada, esperava ouvir os rudos de uma luta de vida ou morte no cho, mas nada aconteceu. Havia apenas silndo. Como se Hale tivesse acertado o comandante e depois desaparecido novamente dentro da noite.
Susan esperou, forando os olhos para tentar ver algo na escurido e torcendo para que Strathmore no estivesse ferido. Depois do que pareceu ser uma eternidade, chamou em voz baixa:
- Comandante?
Enquanto pronunciava a palavra, percebeu seu erro. No instante seguinte sentiu o cheiro de Hale prximo a ela. Virou-se, mas era tarde. Estava presa, quase sufocando, a cabea prensada em uma chave de brao contra o peito de Hale.
- Voc no tem idia do quanto seu chute ainda di - disse ele, arfando em seu ouvido.
Os joelhos de Susan se dobraram. As estrelas no domo giravam em sua cabea.

CAPTULO
80

Hale segurou firme o pescoo de Susan e gritou:
- Comandante, estou com sua queridinha. Quero sair daqui!
A resposta foi o silncio. Hale apertou ainda mais.
- Vou quebrar o pescoo dela!
Uma arma foi engatilhada diretamente atrs deles. A voz de Strathmore estava calma e segura.
- Solte-a.
Susan gritou em meio  dor.
- Comandante!
Hale virou o corpo de Susan na direo do som.
- Se voc atirar, vai atingir sua querida Susan. Quer mesmo arriscar?
A voz de Strathmore aproximou-se.
- Solte-a.
- No. Voc ir me matar.
- No vou matar ningum.
- Ah, ? Diga isso para Chartrukian!
Strathmore aproximou-se ainda mais.
- Chartrukian est morto.
- No me diga!  claro, voc o matou. Eu vi!
- Desista, Greg - Strathmore insistiu, com a mesma voz calma.
Hale puxou Susan e sussurrou em seu ouvido:
- Strathmore empurrou Chartrukian. Eu juro!
- Ela no vai cair em sua tcnica de dividir para conquistar. Solte-a  disse Strathmore, ainda mais perto.
Hale falou, sarcstico, dirigindo-se  escurido em volta:
- Chartrukian era s um garoto! Por que voc fez aquilo? Para proteger seu segredo?
Strathmore manteve a calma.
- E que segredo seria esse?
- Voc sabe perfeitamente bem de que merda de segredo estou falando! O Fortaleza Digital!
- Ora, ora... - Strathmore resmungou condescendente, a voz fria como um iceberg. - Ento quer dizer que voc sabe que o Fortaleza Digital existe? Eu estava comeando a pensar que voc iria negar at mesmo isso.
- V se danar!
- Mas que defesa brilhante.
- Voc  um tolo - disparou Hale. - No percebeu que o TRANSLTR est superaquecendo?
	-  mesmo? - respondeu Strathmore, em tom gozador. - Deixe-me adivinhar: devo abrir as portas e chamar a equipe de SegSis?
- Isso mesmo. Seria muito burro de sua parte no faz-lo - Hale retrucou. 
Dessa vez Strathmore soltou uma gargalhada.
- Ento essa  sua carta na manga? O TRANSLTR est superaquecendo, abra as portas e nos deixe sair?
	- Mas que diabos,  verdade! Eu estive no subsolo! A energia auxiliar no est conseguindo bombear gs fron suficiente.
- Obrigado pela dica. Mas o TRANSLTR possui um sistema de desligamento automtico. Se ele estiver superaquecendo, o Fortaleza Digital ser interrompido automaticamente.
	Hale respondeu desdenhosamente:
	- Voc est louco. Estou pouco me lixando se o TRANSLTR vai queimar ou no. Essa mquina maldita deveria ser proibida de qualquer forma.
Strathmore suspirou.
- Greg, Greg, psicologia infantil s funciona com crianas. Vamos, solte-a. 
- Para que voc possa atirar em mim?
- No vou atirar em voc. S quero a senha.
- Que senha?
Strathmore suspirou fundo dessa vez.
- A que Tankado lhe deu.
- Mas do que voc est falando?
- Mentiroso! - gritou Susan, liberando um pouco o pescoo para conseguir respirar melhor. - Eu vi os e-mails de Tankado em sua conta.
Hale ficou paralisado. Girou o corpo de Susan em sua direo.
- Voc entrou na minha conta?
- E voc cancelou meu tracer - ela respondeu rispidamente.
Hale sentiu sua presso sangunea subir. Achou que tinha apagado todas as pistas: No imaginava que Susan sabia o que tinha feito. Por isso ela no estava acreditando em nada do que ele dizia. Sentiu as paredes se fechando sobre ele. Sabia que no conseguiria negociar uma sada, no a tempo. Desesperado, sussurrou novamente no ouvido dela:
- Susan, Strathmore matou Chartrukian!
- Deixe-a ir - repetiu o comandante, com voz firme. - Ela no acredita em voc.
- E por que deveria? - revidou Hale. - Voc  um canalha, um mentiroso! Fez uma lavagem cerebral em Susan! Voc no conta a ela nada alm daquilo que lhe interessa! Ela por acaso sabe o que voc realmente planeja fazer com o Fortaleza Digital?
- E o que seria isso? - provocou Strathmore.
Hale sabia que a prxima coisa que dissesse seria seu tquete para a liberdade ou sua sentena de morte. Respirou fundo e colocou suas cartas na mesa.
- Voc est planejando colocar uma back door no Fortaleza Digital.
Suas palavras provocaram perplexidade. Hale sabia que havia acertado em cheio.
A notria frieza do comandante estava sendo testada.
- Quem lhe disse isso? - perguntou, com uma ponta de tenso na voz.
- Eu mesmo li - respondeu Hale, em tom desafiador, tentando se aproveitar da mudana no equilbrio de foras. - Estava em uma das suas brainstorms. 
- Isso  impossvel. Nunca imprimo minhas brainstorms.
- Claro que no. Li diretamente em sua conta.
Strathmore pareceu hesitar.
- Voc entrou em meu escritrio?
- No, entrei na sua conta a partir do Nodo 3. - Hale soltou um risinho sarcstico. Precisaria de todas as tcnicas de negociao aprendidas com os militares para sair vivo da Criptografia.
Strathmore aproximou-se mais um pouco, a Beretta em ponto de mira na escurido.
- Como voc sabe a respeito de meu acesso de programador?
- J lhe disse, bisbilhotei sua conta.
- Impossvel.	
Hale deu um sorriso zombeteiro.
- Este  um dos problemas de contratar os melhores, comandante. Algumas vezes eles so melhores que voc.
- Meu jovem - bradou Strathmore -, no sei onde voc conseguiu essa informao, mas j passou dos limites. Solte a senhorita Fletcher agora ou irei chamar a Segurana e coloc-lo na cadeia para o resto de sua vida.
- No, voc no far isso - disse Hale, firme. - Chamar a Segurana agora iria arruinar seus planos. Eu contaria tudo para eles. - Hale fez uma curta pausa.
- Mas deixe-me sair disso limpo e ningum ouvir nada sobre o Fortaleza Digital.
- Nada feito - Strathmore respondeu. - Eu quero a senha.
- J lhe disse que no tenho droga de senha nenhuma!
- Chega de mentiras! - esbravejou Strathmore. - Onde est a senha? Hale apertou o pescoo de Susan.
- Deixe-me sair ou ela morre!
Trevor Strathmore j havia passado por um bom nmero de negociaes de alto risco em sua vida para saber que Hale se encontrava em um estado mental muito perigoso. O jovem criptgrafo estava encurralado, e oponentes acuados eram sempre perigosos - tornavam-se desesperados e imprevisveis. Strathmore sabia que seu prximo movimento seria crtico. A vida de Susan dependia dele, assim como o futuro do Fortaleza Digital.
A primeira coisa a fazer era dissipar a tenso. Pensou por algum tempo e ento disse, num tom de voz relutante:
	- Tudo bem, Greg. O que devo fazer?
	Silncio. Hale foi pego de surpresa e no sabia como lidar com o tom colaborativo do comandante. Afrouxou ligeiramente a chave de brao com que segurava Susan.
- Bem... eu... - Greg hesitava. - Primeiro quero que me d sua arma. Vocs dois vm comigo.
- Refns? - Strathmore riu friamente. - Greg, voc precisa de um plano melhor. H pelo menos 10 guardas armados entre ns e o estacionamento.
- No sou tolo! - retrucou. - Vou usar seu elevador. Susan vem comigo! Voc fica! - Odeio lhe dizer isto, mas o elevador est sem energia.
- Mentira! - reagiu Hale. - O elevador funciona com energia do prdio principal! Eu vi a planta.
- J tentamos - disse Susan, sem ar, tentando ajudar. - Est parado.
- Vocs so dois grandes mentirosos. Se o elevador est mesmo parado, ento vou interromper a execuo do TRANSLTR e restaurar a energia.
- O elevador necessita de uma senha - disse Susan, irritada.
- E da? - Hale riu, ironizando. - Estou certo de que o comandante ficar feliz em nos dar a senha. No  comandante?
- Sem chances - vociferou Strathmore.
Hale estourou.
- Agora escute bem, Strathmore. A minha proposta  esta: voc deixa que eu saia com Susan pelo elevador. Irei dirigir durante algumas horas, depois eu a deixo em algum lugar.
Strathmore sentiu que as apostas estavam aumentando. Havia colocado Susan no jogo e agora precisava tir-la daquela situao. Sua voz permaneceu firme e fria.
- E os meus planos para o Fortaleza Digital?
Hale riu.
- Voc pode reescrev-lo com seu acesso de programador. No direi nada. Fez uma pausa e continuou com voz ameaadora. - Mas se algum dia eu achar que voc est me caando, vou direto para a imprensa contar a histria toda. Direi a eles que o Fortaleza Digital est corrompido e irei acabar com esta organizao de merda.
Strathmore avaliou a oferta de Hale. Era simples e clara. Susan viveria e o Fortaleza Digital seria reescrito com o acesso secreto. Enquanto o comandante no mandasse uma equipe atrs de Hale, ele ficaria em silncio. Strathmore sabia que Hale no seria capaz de se manter em silncio durante muito tempo. Ainda assim, o conhecimento sobre o Fortaleza Digital era a nica segurana que Hale teria. Talvez ele se comportasse. De qualquer forma, Strathmore sabia que poderia mandar apagar Hale mais tarde, se necessrio.
- Vamos, resolva logo isso! - bradou Hale. - Podemos sair ou no? Seus braos apertaram Susan como um torniquete.
Strathmore sabia que, se pegasse o telefone agora e ligasse para a Segurana, Susan no correria riscos. Podia apostar a prpria vida nisso. O cenrio estava claro em sua mente: o telefonema pegaria Hale de surpresa. Ele entraria em pnico e, no final das contas, frente a um pequeno exrcito, seria incapaz de agir. Aps um breve impasse, acabaria se entregando. Mas, se eu chamar a Segurana, pensou Strathmore, meu plano estar arruinado.
Hale apertou com mais fora. Susan gritou de dor. - E ento? Devo mat-la?
Strathmore continuava avaliando as opes. Se deixasse Hale sair da Criptografia com Susan, no haveria garantia alguma. Greg poderia afastar-se alguns quilmetros, parar o carro em algum bosque... Provavelmente tinha uma arma e poderia obrig-la a... O estmago de Strathmore ficou embrulhado. No havia como prever o que iria acontecer antes que Hale libertasse Susan. Se ele a libertasse. Tenho que chamar a Segurana, decidiu Strathmore. O que mais posso fazer? Imaginou Hale na corte, dizendo tudo o que sabia sobre o Fortaleza Digital. Droga! Meus planos seriam arruinados. Deve haver alguma outra sada.
	- Decida-se! - gritou Hale, puxando Susan na direo da escadaria.
	Strathmore no estava prestando ateno. Se salvar Susan significava arruinar seus planos, era uma perda necessria. A vida dela vinha antes de todo o resto. Susan Fletcher era um preo que Strathmore se recusava a pagar.
	Hale segurava um dos braos de Susan torcido atrs das costas dela ao mesmo tempo que mantinha seu rosto virado para o lado.
	-  sua ltima chance, comandante! Me d essa arma!
	A mente de Strathmore continuava processando um turbilho de idias, procurando outras opes. H sempre outras opes! Finalmente falou em voz baixa, quase triste.
- No, Greg, lamento. No posso deix-lo fugir.
- O qu? - Hale tremia.
- Vou chamar a Segurana.
- Co... comandante! No! - gaguejou Susan.
Hale segurou-a ainda mais fortemente.
- Se voc chamar a Segurana, ela morre!
Strathmore pegou o celular em seu cinto e ativou-o.
- Greg, voc est blefando.
- Voc jamais faria isso! - Hale gritou, descontrolado. - Vou contar tudo! Vou arruinar seus planos! Voc est a poucas horas de seu sonho! Controlar todos os dados do mundo! No haver mais o TRANSLTR, no haver mais limites: s informao livre.  uma chance nica na vida! Voc no vai deix-la passar!
A voz de Strathmore cortou o ar como uma espada de ao.
- Olhe bem.
- Mas... e Susan? - Hale balbuciou. - Se voc ligar, ela morre!
Strathmore manteve-se firme.
-  um risco que tenho que assumir.
- Mentira! Voc tem mais teso por ela do que pelo Fortaleza Digital! Eu sei disso! Voc no vai arriscar nada!
Susan, irritada, tentou dizer algo, mas Strathmore falou primeiro.
- Hale, voc me conhece pouco e mal! Minha vida  s isso: correr riscos. Se voc quer jogar duro, vamos l! - Comeou a digitar em seu telefone. - Voc me julgou mal, amigo! Ningum ameaa a vida de meus subordinados e sai limpo! - Levantou o telefone e gritou no aparelho:
- Operadora! Me passe para a Segurana! Hale comeou a torcer o pescoo de Susan. - Eu, eu vou mat-la... Eu juro!
- No vai matar ningum! - disse Strathmore, resoluto. - Matar Susan s iria piorar as coi... - Interrompeu a frase e enfiou a boca no telefone. - Segurana! Aqui fala o comandante Trevor Strathmore. Temos uma situao com refns na Criptografia! Mandem alguns homens para c! Sim, imediatamente! Tambm temos uma falha no gerador. Quero que redistribuam energia de todas as fontes externas disponveis. Quero todos os sistemas operacionais em cinco minutos! Greg Hale matou um de meus tcnicos. Ele est mantendo minha criptgrafa snior como refm. Vocs tm permisso para usar gs lacrimogneo em todos ns se necessrio! Se Hale no cooperar, posicionem atiradores de elite e atirem para matar. Assumo toda a responsabilidade. Movam-se agora!
Hale ficou parado, completamente perplexo. Soltou ligeiramente Susan. Strathmore fechou seu telefone e colocou-o de volta no cinto com um gesto firme. 
- Sua vez, Greg.




CAPTULO
81

Becker estava de p ao lado da cabine telefnica no saguo do aeroporto, os olhos ainda turvos. Seu rosto continuava queimando e sentia um ligeiro enjo, mas seu estado de nimo no poderia ser melhor. Estava tudo acabado. Realmente acabado. Em breve voltaria para casa. O anel em seu dedo era o graal que procurava. Levantou a mo contra a luz e olhou para o anel. No podia focar o suficiente para ler a inscrio, mas no parecia ser em ingls. O primeiro smbolo era um Q, um O ou um zero... Seus olhos ainda doam muito para que pudesse diferenciar uma letra da outra. Tentou ler os outros caracteres, mas no faziam sentido. Isso  uma questo de segurana nacional?
Becker fazia fora para ignorar o que restara da ardncia em seus olhos. Megan lhe dissera que esfregar os olhos apenas faria com que a dor piorasse, embora ele no conseguisse entender como podia ficar pior que aquilo. Pensou em telefonar para Strathmore, mas no dava para esperar nem mais um segundo: seus olhos estavam ardendo muito e precisava lav-los. Meio s cegas, caminhou novamente na direo dos banheiros.
A imagem borrada do carrinho de limpeza ainda estava na frente do banheiro masculino, ento Becker foi novamente em direo ao feminino. Achou que tinha ouvido um som l dentro. Bateu na porta.
- Hola? Silncio.
Talvez seja Megan, pensou. Ela ainda tinha cinco horas pela frente antes que seu vo partisse e lhe dissera que iria lavar o brao at que o restante daquela inscrio sasse.
- Megan? - chamou. Bateu outra vez. Nenhuma resposta. Becker abriu a porta.
	- Ol? - Entrou. O banheiro parecia estar vazio. Caminhou em direo  pia.
A pia continuava suja, mas a gua estava fria. Becker sentiu um grande alvio quando jogou gua nos olhos. A dor comeou a melhorar, e a nvoa que encobria sua viso aos poucos se dissipou. Olhou-se no espelho. Parecia ter passado os ltimos dias chorando.
Ele secou o rosto na manga de seu blazer e ento se lembrou de algo fantstico. No meio de toda aquela agitao, esqueceu que estava no aeroporto! Em algum lugar prximo havia um hangar e um Learjet 60 esperando para lev-lo para casa. O piloto havia dito claramente: 'Tenho ordens para ficar aqui at que voc volte."
Era difcil de acreditar, pensou Becker, que depois de tudo tivesse voltado exatamente ao lugar onde comeara aquela estranha aventura. O que estou esperando? - riu consigo mesmo. Tenho certeza de que o piloto poder enviar uma mensagem pelo rdio para Strathmore!
Ainda rindo, David olhou-se novamente no espelho e ajeitou a gravata. Estava prestes a sair quando um reflexo atrs dele chamou sua ateno. Virou-se. Parecia ser uma ponta da bolsa de Megan aparecendo por debaixo da porta entreaberta de um dos reservados.
- Megan? - chamou novamente. Nenhuma resposta. - Megan??
Becker foi at l. Bateu com a mo na lateral do reservado, mas tambm no houve resposta. Empurrou a porta devagar e ela se abriu.
Ele conteve um grito de horror. Megan estava sentada na privada, os olhos revirados para cima. Bem no meio da testa a marca de uma perfurao  bala deixava um rastro de sangue escorrer pelo seu rosto.
- Meu Deus! - exclamou Becker, em choque.
- Est muerta - uma voz quase inumana sussurrou atrs dele.  Ela est morta.
Como em um sonho, Becker virou-se.
- Seor Becker? - disse a voz fantasmagrica.
Perplexo, Becker examinou o homem que havia entrado no banheiro. Ele lhe parecia estranhamente familiar.
- Eu sou Hulohot - o assassino falou. As palavras distorcidas pareciam vir do interior de suas entranhas. Hulohot estendeu a mo. - EI anillo. O anel.
Becker olhou para ele ainda em choque. O homem enfiou a mo no bolso e tirou uma arma. Mirou na cabea de Becker.
	- O anel.
Em um momento de clareza, Becker sentiu algo que lhe era inteiramente desconhecido. Como se obedecessem a um instinto de sobrevivncia, todos os msculos de seu corpo se tensionaram ao mesmo tempo. Ele voou pelo ar quando a arma foi disparada e foi cair em cima de Megan. Uma bala abriu um buraco na parede atrs dele.
	- Merda! - grunhiu Hulohot. De alguma forma, no ltimo instante possvel, Becker conseguiu mergulhar para fora de sua mira. O assassino avanou. Becker levantou-se, deixando para trs o corpo inerte da adolescente. Ouviu passos se aproximando. Uma respirao. A arma sendo engatilhada.
	- Adis - murmurou o homem, investindo rpido como uma pantera, com a arma apontada para o reservado.
Disparou novamente. Um borro vermelho cruzou o ar. No era sangue. Um objeto havia se materializado do nada, voando para fora do reservado e acertando o assassino no peito. Isso fez com que sua arma disparasse um milsimo de segundo antes. Era a bolsa de Megan.
Becker saltou para fora do reservado. Empurrou o ombro contra o peito do homem e jogou-o de encontro  pia. Houve um choque violento. Um espelho se espatifou, e o assassino soltou a arma. Os dois homens caram no cho.
Becker se desvencilhou e correu para a sada. Hulohot pegou a arma no cho, virou-se e disparou. A bala acertou a porta do banheiro quando ela se fechava.
O vasto salo do aeroporto se descortinava  frente de Becker como um deserto intransponvel. Suas pernas impulsionavam seu corpo muito mais rpido do que ele imaginava ser capaz.
Enquanto deslizava pela porta giratria, ouviu outro tiro, vindo de trs. O painel de vidro  sua frente explodiu em milhares de fragmentos. Becker empurrou a moldura da porta com o ombro e saiu, desequilibrado, na calada do lado de fora.
Havia um txi esperando.
- Djame entrar! - gritou Becker, socando a porta trancada. - Me deixa entrar! - O motorista, contudo, se recusou. Seu cliente, o homem de culos de armao de metal, havia pedido que esperasse. Becker virou-se e viu Hulohot em disparada pelo saguo, arma em punho. Olhou ento para sua pequena Vespa, ainda jogada sobre a calada. Sou um homem morto.
Hulohot atravessou a porta giratria exatamente quando Becker tentava em vo dar partida em sua Vespa. Ele riu e levantou a arma.
O afogador!, Becker mexeu nos manetes sob o tanque de gasolina. Pulou sobre o pedal de partida novamente. A Vespa engasgou e morreu.
	- El anillo - a voz estava prxima.
	Becker olhou para cima. Viu o tambor da arma. A cmara estava rodando. Enfiou o p no pedal de partida mais uma vez.
O tiro de Hulohot por pouco no acertou a cabea de Becker, mas a motoneta pegou a tempo e saiu em disparada. Becker segurou-se como pde enquanto a moto trepidava, descendo aos trancos um aterro gramado e depois virando, trpega, em um canto do edifcio e indo para a pista de decolagem.
Furioso, Hulohot correu na direo do txi que o esperava. Segundos depois, o motorista estava jogado na calada, zonzo, vendo seu txi sumir em uma nuvem de poeira.



CAPTULO
82

As implicaes do telefonema do comandante para a Segurana comearam a se encaixar no crebro de Hale, ainda atordoado, e ele se sentiu tomado por uma onda de pnico. A Segurana est vindo! Susan tentou se soltar, mas Hale puxou-a de volta.
- Me solta! - ela gritou.
A mente de Hale estava a mil. O telefonema o deixara sem ao. Strathmore ligou para a Segurana! Ele vai sacrificar seus planos para o Fortaleza Digital!
Hale jamais poderia imaginar que o comandante iria deixar passar a chance que o Fortaleza Digital representava. Sua back door era uma chance nica na vida.
Tomado pelo pnico, Hale comeou a imaginar coisas. Via a Beretta de Strathmore onde quer que olhasse. Comeou a girar, segurando Susan contra seu corpo, tentando evitar que o comandante tivesse ngulo para atirar. Com medo, dirigiu-se cegamente em direo s escadas. Dentro de cinco minutos as luzes iriam se acender, as portas se abririam e uma equipe da SWAT iria entrar.
- Voc est me machucando! - gemeu Susan. Ela tentava respirar, presa pelo brao de Hale em uma gravata apertada, esperneando em meio a seus movimentos desesperados.
Hale chegou a pensar em libert-la e correr como um louco para o elevador de Strathmore, mas era suicdio. Ele no tinha a senha. Alm disso, uma vez do lado de fora da NSA, sem um refm, estaria morto. Nem mesmo sua possante Lotus seria mais rpida que os helicpteros da NSA. Susan  a nica coisa que pode me salvar de Strathmore.
- Susan - disse Hale, desesperado, puxando-a em direo s escadas. - Venha comigo! Prometo que no irei machuc-la!
Susan continuava se debatendo, e Hale percebeu que tinha outros problemas pela frente. Mesmo que encontrasse uma forma de entrar no elevador privativo e levar Susan junto, ela provavelmente iria se debater durante todo o caminho de sada do prdio. Ele sabia muito bem que aquele elevador s parava em um lugar, na "Estrada Subterrnea", um labirinto de tneis de acesso restrito, atravs dos quais o alto escalo da NSA se movia em segredo. Hale no pretendia ficar perdido nos corredores do subsolo da agncia com uma refm hostil. Era uma armadilha mortal. Alm disso, mesmo que sassem, ele no estava armado. Como faria para atravessar o estacionamento com Susan? Como iria dirigir?
A voz de um dos professores de estratgia militar de Hale, em seu perodo como marine, ecoou na mente de Hale: Tente dobrar um brao e ele resistir. Mas convena uma mente a pensar como voc deseja e ter conquistado um  aliado.
- Susan, Strathmore  um assassino! Voc est em perigo aqui! - Hale disse, as palavras saindo de sua boca de forma quase automtica.
Susan no lhe deu ateno. Hale sabia que era uma tentativa ftil: o vice-diretor jamais iria machucar Susan e ela sabia disso.
Hale forou os olhos, tentando descobrir onde o comandante estava escondido. Strathmore havia ficado em silncio, o que s aumentava o pnico de Greg. A Segurana iria chegar em poucos instantes.
Com fora renovada, o criptgrafo abraou a cintura de Susan usando os dois braos e puxou-a vigorosamente para cima da escada. Ela enganchou seus saltos no primeiro degrau e resistiu, mas no adiantou, pois Hale era bem mais forte.
Cuidadosamente, ele foi subindo a escada de costas, puxando Susan pela cintura. Empurr-la para cima seria mais fcil, mas a plataforma do lado de fora do escritrio de Strathmore estava levemente iluminada pelas telas de computador. Se Susan estivesse na frente, o comandante teria um ngulo perfeito para atirar nele pelas costas. Da maneira como estava procedendo, Susan servia como escudo humano entre ele e o salo da Criptografia.
Pouco antes da metade do caminho, Hale sentiu um movimento na base da escada. Strathmore est se preparando para agir!
- No tente nada, comandante! - rosnou. - Qualquer movimento em falso e Susan morre.
Hale esperou um pouco, mas no ouviu nada. Prestou bastante ateno. Nada. A base da escada estava imvel. No sabia se estava imaginando coisas, mas no importava. Strathmore jamais se arriscaria a atirar enquanto ele estivesse mantendo Susan  sua frente.
Continuou subindo a escada, puxando Susan, quando um fato inesperado aconteceu. Ouviu um leve rudo na plataforma que estava acima e atrs dele. Hale parou. Sua adrenalina estava no mximo. Pensou se Strathmore teria conseguido chegar ao topo da escadaria. O instinto lhe dizia que o vice-diretor tinha que estar l embaixo. Mas, subitamente, ouviu de novo o mesmo som, mais alto desta vez. Claramente aquilo era um passo na plataforma superior.
Aterrorizado, Hale percebeu que havia cometido um erro. Strathmore est na plataforma atrs de mim! Ele tem uma mira limpa para as minhas costas! Desesperado, trocou de posio com Susan e comeou a descer a escada de volta.
Quando chegou no ltimo degrau, olhou furiosamente para a plataforma e gritou:
- Afaste-se, comandante! Afaste-se ou irei quebrar o...
Na base da escada, a coronha da Beretta desceu violentamente, acertando Hale na cabea. Susan desvencilhou-se de Hale, que havia cado no cho com a pancada, e tentou equilibrar-se, ainda meio desnorteada. Strathmore pegou-a e puxou-a em sua direo, abraando seu corpo trmulo.
- Shhh... Est tudo bem, sou eu. Voc est segura - disse ele, acalmando-a.
Susan continuava tremendo.
- Com... comandante... - ela balbuciava, desorientada. - Pensei que... Eu pensei que voc estivesse l em cima... Eu ouvi...
- Calma, fique calma - sussurrou. - Voc ouviu o som dos sapatos que eu joguei em cima da plataforma.
Susan comeou a rir e a chorar ao mesmo tempo. O comandante tinha salvado sua vida. Ao seu lado, na escurido, ela se sentiu tomada por um enorme alvio. Contudo, tambm se sentia culpada: a Segurana estava vindo. Ela havia deixado que Hale a tomasse como refm e fora usada contra Strathmore. O comandante teve que pagar caro para salv-la.
- Me desculpe - ela disse.
- Por qu?
- Seus planos... o Fortaleza Digital... est tudo perdido agora.
Strathmore sorriu e balanou a cabea.
- Nada disso.
- Mas o que vamos fazer com o pessoal da Segurana? Eles estaro aqui em instantes. No teremos tempo para...
- A Segurana no vir, Susan. Temos todo o tempo do mundo.
Susan ficou desnorteada. A Segurana no vir?
- Mas ouvi quando voc ligou...
Strathmore deu um sorriso malicioso.
- O truque mais velho do mundo. Simulei aquela ligao.





CAPTULO
83

A Vespa de Becker era ,sem dvida alguma, o menor veculo que j havia percorrido a pista do aeroporto de Sevilha. Na sua velocidade mxima de 80 km/h, soava mais como uma motosserra do que como uma motocicleta e, infelizmente para Becker, estava bem abaixo da potncia necessria para decolar.
Pelo espelho lateral, Becker viu o txi surgindo na pista escura, 400 metros atrs dele. Aproximava-se rapidamente. Ele olhou para a frente. Cerca de 800 metros adiante, o contorno dos hangares das aeronaves delineava-se contra o cu noturno. Becker tentou calcular se o txi conseguiria alcan-lo na distncia que restava. Susan certamente conseguiria fazer as contas em dois segundos e ainda estimaria suas chances. Becker nunca tinha sentido tanto medo em toda a sua vida.
Abaixou a cabea e girou o acelerador at o limite. A moto j estava dando seu mximo. Ele calculou que o txi atrs dele estava a pelo menos 140 km/h, quase o dobro de sua velocidade. Olhou fixamente para os trs hangares que cresciam  sua frente. O do meio.  onde o Learjet est. Ouviu um tiro.
A bala foi bater na pista, alguns metros atrs dele. Becker olhou para trs. O assassino estava debruado na janela, mirando nele. Becker jogou a Vespa para o lado, pouco antes de seu espelho lateral explodir com um tiro. Pde sentir o impacto da bala estremecendo o guido da motoneta. Meu Deus, no vou conseguir!
O asfalto da pista estava ficando mais claro  sua frente agora. O txi se aproximava mais e seus faris iluminavam a pista. Outro tiro. Desta vez a bala ricocheteou no metal da Vespa.
Becker lutava para no desviar e seguir em outra direo. Tenho que chegar ao hangar! Torcia para que o piloto do Learjet estivesse vendo que ele se aproximava. Ser que ele est armado? Ele ter tempo de abrir as portas da cabine? Mas, quando Becker viu o interior iluminado dos hangares, percebeu que suas perguntas eram em vo. O Learjet no estava l. O hangar estava vazio. Onde foi parar o maldito avio?
Os dois veculos entraram a toda a velocidade dentro do hangar vazio, enquanto Becker procurava desesperadamente uma sada. No havia sada alguma. A parede nos fundos do hangar, fechada com folhas de zinco, no tinha nem portas nem janelas. O txi emparelhou com ele, e Becker olhou  esquerda a tempo de ver Hulohot levantar a arma.
Agindo por puro reflexo, Becker freou abruptamente. Quase no fez diferena. O cho do hangar estava sujo de leo, e a Vespa continuou deslizando na mesma trajetria.
Ouviu o rudo estridente do txi ao seu lado, freios travando as rodas e os pneus carecas deslizando pela superfcie oleosa. O carro perdeu o controle e comeou a girar em uma nuvem de fumaa e de borracha queimada a poucos centmetros da moto de Becker.
Lado a lado, os dois veculos escorregavam em rota de coliso contra a folha metlica da parte posterior do hangar. Becker tentava desesperadamente bombear os freios, mas tinha perdido completamente a trao e era como dirigir sobre o gelo.  sua frente, a parede de zinco se aproximava rapidamente. Com o txi girando ao seu lado, ele fechou os olhos e se encolheu, esperando o impacto.
Ouviu-se um rudo ensurdecedor de ao se chocando contra o zinco, mas David no sentiu dor alguma. Em vez disso, quando abriu os olhos, viu que estava a cu aberto, ainda sobre sua Vespa, quicando sobre um gramado. Era como se a parede do hangar houvesse desaparecido  sua frente. O txi ainda estava a seu lado, varando o campo. Sobre sua capota, ondulante, uma das folhas de zinco pairava acima da cabea de Becker.
Com o corao em disparada, Becker acelerou e seguiu noite adentro.



CAPTULO
84

Jabba soltou um suspiro de alegria quando terminou seu ltimo ponto de solda. Desligou o ferro de soldar, colocou a lanterna no cho e ficou deitado por algum tempo na escurido, sob o mainframe. Ele estava exausto. Seu pescoo doa. Trabalhar dentro de uma mquina era sempre complicado, sobretudo para um homem de seu tamanho.
E no param de diminuir o tamanho dessas coisas, pensou.
Fechou os olhos, tentando relaxar um pouco, mas algum do lado de fora comeou a puxar suas botas.
- Jabba! Saia j da! - gritou uma voz feminina.
Droga, Midge me encontrou, resmungou.
- Vamos, Jabba, saia da.
Relutantemente, deslizou o corpo para fora.
- Pelo amor de Deus, Midge! Eu j lhe disse que... - Mas no era Midge. Jabba olhou para cima, surpreso, e viu Soshi.
Com apenas 45 quilos, Soshi Kuta tinha o pavio curto. Era o brao direito de Jabba, sua assistente, uma tcnica perspicaz formada pelo MIT. Muitas vezes ficava trabalhando at tarde com Jabba e, de todas as pessoas de sua equipe, parecia ser a nica que no se deixava intimidar por ele. Ela o olhou e perguntou:
- Por que diabos voc no atendeu minha chamada? Nem ligou de volta para a central?
	- Sua chamada? - repetiu Jabba. - Eu achei que fosse...
	- Deixa pra l. Tem alguma coisa estranha acontecendo no banco de dados central.
Jabba olhou para o relgio.
- Estranha? - agora estava ficando preocupado. - Voc pode ser mais objetiva? Dois minutos depois Jabba estava correndo pelo hall em direo ao banco de dados.

CAPTULO
85

Greg Hale estava curvado no cho do Nodo 3. Strathmore e Susan haviam acabado de arrast-lo atravs do salo da Criptografia e tinham atado seus ps e suas mos usando alguns cabos grossos removidos de equipamentos do Nodo 3.
Susan ainda estava impressionada com a manobra que o comandante executara. Ele simulou a ligao! No final das contas, Strathmore conseguiu capturar Hale e salvar Susan, tudo isso sem perder sua chance de reescrever o Fortaleza Digital.
Susan olhou para o criptgrafo amarrado no cho, perturbada. Ele estava respirando pesadamente. Sentado no sof, com a Beretta pousada em sua perna, Strathmore no o perdia de vista. Susan voltou sua ateno para o terminal de Hale e continuou sua busca pela chave de North Dakota.
Mais uma vez sua pesquisa no gerou nenhum resultado.
- No conseguimos nada ainda - suspirou. - Talvez tenhamos que esperar que David encontre a cpia de Tankado.
Strathmore olhou para ela, preocupado.
- Se David falhar e a chave de Tankado cair em mos erradas...
Ele no precisava terminar a frase. Susan compreendeu. At que o arquivo do Fortaleza Digital que estava na Internet fosse substitudo pela verso modificada de Strathmore, a chave de Tankado continuaria sendo um problema.
- Depois que fizermos a troca, no me importa quantas chaves estejam soltas por a. Na verdade, quanto mais, melhor. - Fez sinal para que ela continuasse pesquisando. - At l, contudo, estamos lutando contra o relgio.
Susan ia acrescentar alguma coisa, mas suas palavras foram abafadas por um som ensurdecedor. O silncio da Criptografia foi interrompido por sirenes de alarme vindas dos subnveis. Susan e Strathmore trocaram olhares espantados.
- O que  isso? - gritou Susan, no intervalo do rudo das sirenes.
- O TRANSLTR! - Strathmore gritou de volta, visivelmente preocupado.
- Est superaquecendo. Creio que Hale estava falando srio quando disse que a energia auxiliar no estava bombeando fron suficiente.
- E o sistema de autodesativao?
Strathmore pensou por um segundo, depois gritou:
- Deve ter havido algum curto-circuito.
- A luz de emergncia da Criptografia entrou em ao, iluminando seu rosto.
-  melhor interromper a execuo! - gritou Susan.
Strathmore assentiu. No havia como saber o que iria acontecer se os trs milhes de microprocessadores superaquecessem e pegassem fogo. Ele precisava subir at sua sala, acessar o terminal e interromper a execuo do Fortaleza Digital. Precisava fazer isso rpido, antes que algum do lado de fora da Criptografia notasse a confuso e resolvesse intervir.
O comandante olhou de relance para Hale, ainda inconsciente. Deixou a Beretta em uma mesa perto de Susan e gritou acima do barulho das sirenes:
- Eu j volto! - Foi andando na direo do buraco na parede de vidro do Nodo 3, mas antes de sair virou-se e falou:
	- Enquanto isso, d um jeito de encontrar essa chave!
	Susan olhou para os resultados nem um pouco produtivos de sua pesquisa pela chave e torceu para que Strathmore conseguisse abortar o processo rpido. Com o rudo e as luzes, a Criptografia parecia um stio de lanamento de msseis.
No cho, Hale comeou a se mover lentamente. A cada toque da sirene, ele piscava. Com um gesto automtico, Susan pegou a Beretta. Hale abriu os olhos e viu Susan de p, sobre ele, com a pistola mirando sua virilha.
- Onde est a chave? - perguntou Susan.
Hale estava com dificuldades para entender a situao.
- O que... o que aconteceu?
- Voc estragou tudo, foi isso que aconteceu. Agora me diga onde est a chave!
	Hale tentou mover os braos, mas percebeu que estava amarrado. Entrou em pnico.
- Deixe-me sair!
- Preciso da chave - repetiu Susan, friamente.
- No tenho a chave! Me deixa sair! - Hale tentou levantar-se. Mal conseguia girar o corpo no cho.
Susan gritou, entre os apitos da sirene.
- Sei que voc  North Dakota e que Ensei Tankado lhe deu uma cpia da chave. Eu preciso dessa cpia, preciso dela agora!
	- Voc est louca! - disse Hale, exasperado. - No sou North Dakota!
	- Lutou para libertar-se dos cabos que o amarravam, mas no conseguia.
	Susan se abaixou um pouco e continuou a discusso, nitidamente irritada.
	- No minta para mim! Por que diabos todos aqueles e-mails para North Dakota esto em sua conta, ento?
	- J lhe disse! - falou Hale, implorando, enquanto as sirenes continuavam a todo o volume. - Eu estava espionando Strathmore! Aqueles e-mails em minha conta foram mensagens que copiei da conta de Strathmore! So mensagens de Tankado interceptadas pelo COMINT!
- Mas que besteira! Voc nunca seria capaz de espionar a conta do comandante!
- Voc no entende, no ? - gritou Hale. - Algum j estava espionando a conta de Strathmore. - Hale soltava as palavras nos intervalos entre as sirenes. - Outra pessoa havia colocado um grampo l. Acho que foi o diretor Fontaine! Eu apenas me aproveitei desse grampo. Voc tem que acreditar em mim! Foi assim que descobri o plano de reescrever o Fortaleza Digital! Eu li todas as estratgias que Strathmore desenvolveu no BrainStorm.
Susan parou. Strathmore com certeza havia traado seus planos para o Fortaleza Digital usando seu software. Se algum de fato houvesse espionado sua conta, toda a informao estaria disponvel...
- Reescrever o Fortaleza Digital  doentio! - continuou Hale, gritando a plenos pulmes. - Voc sabe muito bem quais so as implicaes: acesso completo para a NSA! - O som estridente das sirenes abafou suas palavras, mas Hale estava possudo e continuou. - Voc acha que est pronta para assumir esta responsabilidade? Voc acha que algum est?  uma idia de louco! Voc diz que nosso governo s est interessado em cuidar do que  melhor para o povo? Genial! Mas o que acontecer se algum futuro governo no estiver preocupado com os interesses do povo?? Essa tecnologia  eterna!
Susan mal podia ouvi-lo. O barulho na Criptografia era ensurdecedor. Hale continuava lutando para livrar-se dos cabos. Olhava fixamente para Susan e continuava a gritar.
- Como os civis vo poder se defender de um estado totalitrio se o sujeito que estiver no poder tiver acesso a todas as suas linhas de comunicao? Como iro planejar uma revolta?
Susan j ouvira esse argumento muitas vezes. A reclamao a respeito de "governos futuros" era uma constante nos questionamentos da EFF.
- Strathmore precisava ser detido! - gritou Hale, em meio s sirenes. - Jurei que eu iria faz-lo. E foi por isso que passei o dia aqui, observando sua conta, esperando que ele fizesse o movimento final para que eu pudesse gravar a alterao sendo feita. Eu precisava de provas - uma evidncia de que ele tinha escrito uma back door. Foi por isso que copiei todo o seu e-mail em minha conta. Era a evidncia de que ele estava vigiando o Fortaleza Digital. Meu plano era apresentar as informaes  imprensa.
O corao de Susan sobressaltou-se. Subitamente as coisas que estava ouvindo se encaixavam no perfil de Greg Hale. Seria verdade? Se Hale de fato soubesse do plano de Strathmore para lanar uma verso adulterada do Fortaleza Digital, ele poderia esperar at que todo mundo estivesse usando o algoritmo e ento soltar sua bomba, com todas as provas.
Susan imaginou as manchetes nos jornais: Criptgrafo Greg Hale revela plano secreto dos Estados Unidos para obter controle global das informaes!
O que era aquilo, uma reprise do Skipjack? Descobrir um novo acesso de programador criado pela NSA tornaria Greg Hale mais famoso do que ele jamais teria imaginado. Tambm seria o fim da NSA. Ela ficou pensando se Hale estaria contando a verdade. No, decidiu-se. Claro que no!
Hale continuou com sua ladainha.
- Eu interrompi seu tracer porque achei que voc estava me procurando! Pensei que voc suspeitasse de que Strathmore estava sendo espionado. No queria que encontrasse o grampo e descobrisse que estava ligado  minha conta!
Plausvel, mas improvvel.
- Ento por que matar Chartrukian? - retrucou Susan.
- Mas no o matei! - gritou Hale, em meio ao caos das sirenes.  Strathmore o empurrou! Eu vi tudo de onde estava, no subsolo! Chartrukian estava prestes a chamar o pessoal de SegSis e arruinar os planos do comandante de reescrever o algoritmo.
Hale  hbil, pensou Susan. Tem respostas para tudo. 
- Deixe-me sair! - implorou Hale. - No fiz nada!
- No fez nada? - gritou Susan, preocupada porque Strathmore estava demorando tanto. - Voc e Tankado estavam mantendo a NSA como refm. Pelo menos at voc resolver tra-lo. Vamos, conte-me, Tankado realmente morreu de ataque cardaco ou voc pediu a um de seus amigos que o tirassem do caminho?
- Voc  to cega! - gritou Hale. - No d para ver que no estou envolvido?
Me solte antes que a Segurana chegue!
- A Segurana no vir - ela respondeu, secamente.
Hale ficou branco.
- O qu?
- Strathmore apenas fingiu aquele telefonema.
Os olhos de Hale se esbugalharam. Ele ficou paralisado por um instante. Depois comeou a contorcer-se histericamente.
- Strathmore vai me matar! Ele vai me matar! Eu sei demais!
- Calma, Greg.
As sirenes soaram outra vez, enquanto Hale gritava.
- Mas sou inocente!
- Voc est mentindo! E eu tenho a prova! - Susan andou pelo crculo de terminais. - Voc se lembra do tracer que interrompeu? - ela perguntou, em frente a seu prprio terminal. - Eu o reenviei! Vamos ver se ele nos diz algo de interessante?
De fato, na tela de Susan um cone piscava indicando que o tracer havia retornado. Ela moveu o mouse e abriu a mensagem. Esses dados iro selar o destino de Hale, pensou. Hale  North Dakota. A caixa de texto se abriu na tela. Hale ...
Susan parou. O tracer exibiu seu resultado, e ela ficou olhando, perplexa, em silncio. Devia haver algum engano. O tracer havia apontado para outra pessoa, algum bastante improvvel.
Susan apoiou-se na mesa, em frente ao terminal, olhando fixamente para a janela de texto  sua frente. Era a mesma informao que Strathmore disse que tinha recebido quando ele rodou o programa! Susan achou que o vice-diretor tivesse cometido algum engano, mas ela sabia que tinha configurado seu programa corretamente.
Ainda assim, a informao na tela era impensvel:

NDAKOTA = ET@DOSHISHA.EDU

ET?, Susan se perguntou, sua cabea dando voltas. Ensei Tankado  North Dakota? Aquilo era inconcebvel. Se os dados estivessem corretos, Tankado e seu parceiro eram a mesma pessoa. Os pensamentos de Susan foram, mais uma vez, interrompidos pela irritante sirene. Por que Strathmore no desliga logo essa droga?
Hale remexia-se no cho, tentando encontrar uma posio de onde pudesse ver Susan.
- Ento? O que o programa retomou? Me diga!
Susan varreu Hale e todo o caos em volta de sua mente. Ensei Tankado  North Dakota...
Ela estava revirando as peas do quebra-cabea, tentando fazer com que se encaixassem. Se Tankado era North Dakota, ento ele estivera enviando e-mails para si mesmo... O que significava que North Dakota no existia. O parceiro de Tankado era uma farsa.
North Dakota  um fantasma. Um jogo de fumaa e espelhos, pensou Susan. A trama era brilhante. Strathmore aparentemente estivera assistindo a apenas um lado de uma partida de tnis. Como a bola sempre voltava, havia presumido que tinha algum do outro lado da rede. Mas Tankado estivera jogando contra uma parede. Durante todo aquele tempo tinha anunciado as virtudes do Fortaleza Digital em e-mails que enviava para si mesmo. Escrevia as mensagens, depois as encaminhava para uma empresa de envio de e-mails annimos e, poucas horas depois, essa mesma empresa mandava os e-mails de volta para ele.
Pensando no esquema agora, tudo parecia bvio para Susan. Tankado queria que o comandante o vigiasse. Queria que lesse suas mensagens. Ensei Tankado criou uma aplice de seguro imaginria sem nunca ter que confiar em outra pessoa para guardar sua chave. Claro que, para fazer com que toda a farsa parecesse autntica, ele usou uma conta secreta. Ou, pelo menos, secreta o bastante para afastar qualquer suspeita de que tudo no passava de armao. Tankado era seu prprio parceiro. North Dakota no existia. Ensei Tankado criou uma operao de um homem s.
Um homem s.
Um pensamento aterrador tomou conta de Susan. Tankado poderia ter usado sua falsa correspondncia para convencer Strathmore de praticamente qualquer coisa.
Ela se lembrou de sua primeira reao quando Strathmore havia lhe contado sobre o algoritmo inquebrvel. Ela tinha dito que era impossvel. A insegurana criada por aquela situao estava perturbando-a profundamente. Que prova eles tinham de que Tankado havia realmente criado o Fortaleza Digital? Apenas ele mesmo, se vangloriando em seus e-mails. E, claro, o TRANSLTR. O computador tinha ficado travado em um loop sem fim durante as ltimas 24 horas, ou quase. No entanto havia outros programas que poderiam manter a mquina em loop durante todo esse tempo, programas que eram bem mais fceis de criar do que um algoritmo inquebrvel.
Vrus.
Um arrepio desceu pela espinha de Susan. Mas como um vrus poderia entrar no TRANSLTR? Como uma voz retornando da tumba, Phil Chartrukian lhe deu a resposta: Strathmore contornou o Gauntlet!
Em uma revelao aterrorizante, Susan compreendeu o que acontecera. Strathmore fez o download do arquivo do Fortaleza Digital de Tankado e tentou envi-lo para que o TRANSLTR o decifrasse. Mas o Gauntlet havia rejeitado o arquivo, porque continha perigosas cadeias de caracteres mutantes. Normalmente Strathmore teria ficado preocupado, mas ele tinha lido o e-mail de Tankado: Cadeias de caracteres mutantes so a sada! Convencido de que era seguro carregar o Fortaleza Digital, Strathmore contornou os filtros do Gauntlet e enviou o arquivo para o TRANSLTR.
Susan mal podia falar.
- No h Fortaleza Digital nenhum - ela disse, trmula, enquanto as sirenes continuavam gritando. Lentamente, dolorosamente, inclinou-se sobre seu terminal. Tankado saiu  caa de tolos, e a NSA mordeu a isca.
Vindo l de cima, ela ouviu um longo grito angustiado. Era Strathmore.

CAPTULO
86

Strathmore estava curvado sobre sua mesa quando Susan chegou, sem flego,  sua porta. Tinha colocado a cabea entre os braos, num gesto de desespero, e pingava de suor. As sirenes continuavam tocando.
Susan correu at a mesa.
- Comandante?
Ele no se moveu.
- Comandante! Temos que desligar o TRANSLTR! Ns estamos com um... 
- Ele nos pegou - disse Strathmore, sem levantar a cabea.  Tankado enganou a todos...
Ela percebeu, pelo tom soturno de sua voz, que ele j havia entendido. Tudo que Tankado disse sobre o algoritmo inquebrvel, o leilo da senha, tudo havia sido um jogo, uma charada. Tankado enganou a NSA, fez com que espionassem sua conta de e-mail, acreditassem que tinha um parceiro e, finalmente, induziu-os a carregarem um arquivo muito perigoso.
- As cadeias de caracteres mutantes... - continuou Strathmore, quase incapaz de falar.
- Eu j sei.
O comandante levantou lentamente a cabea.
- O arquivo que eu peguei na Internet... Era um...
Susan estava tentando permanecer calma. Todas as peas haviam mudado de posio no tabuleiro. Nunca houve um algoritmo inquebrvel, nunca houve um Fortaleza Digital. O arquivo que Tankado colocou na rede era um vrus encriptado, provavelmente protegido por um algoritmo de encriptao comercialmente disponvel, mas forte o suficiente para manter todo mundo longe do vrus - todos, exceto a NSA. O TRANSLTR havia quebrado o cdigo protetor e libertado o vrus.
- As cadeias de caracteres mutantes... - repetiu Strathmore. - Tankado disse que faziam parte do algoritmo. - Strathmore jogou-se para trs em sua cadeira.
Susan podia compreender o estado de desespero em que o comandante se encontrava. Ele havia sido completamente enganado. Tankado nunca quisera que uma empresa de software comprasse seu algoritmo, porque no havia um algoritmo. Tudo no passava de uma farsa. O Fortaleza Digital era uma grande isca criada com o nico propsito de despertar a curiosidade da NSA. A cada movimento de Strathmore, Tankado estava por trs das cortinas movendo os fios como se ele fosse uma marionete.
- Eu ordenei que o Gauntlet fosse contornado.
- Mas voc no tinha como saber.
Strathmore bateu com o punho na mesa.
- Eu tinha que saber! Por Deus, olhe para o apelido que ele usou! NDAKOTA! Preste ateno!
- O que voc quer dizer?
- Ele est nos gozando!  um maldito anagrama!
Susan olhou, pensativa. Um anagrama? Mentalizou as letras e comeou a fazer permutaes. Ndakota... Kado-tan... Oktadan... Tandoka... Sentiu seu corpo fraquejar. Strathmore estava certo, estava na cara deles. Como no tinham visto aquilo antes? North Dakota no era uma referncia a um dos estados norteamericanos, mas Tankado esfregando sal na ferida! Ele chegara ao cmulo de mandar um aviso  NSA, uma pista bvia de que ele mesmo era NDAKOTA - TANKADO. Mas os melhores decifradores de cdigo do mundo no haviam percebido, exatamente como ele planejara.
- Ele estava zombando de ns! - disse Strathmore.
- Voc tem que interromper a execuo do TRANSLTR!
Strathmore continuou olhando para a parede, estarrecido.
- Comandante! Desligue a mquina! Ningum sabe o que pode estar acontecendo l dentro!
- J tentei - Strathmore respondeu, soturno.
- Como assim, tentou?
Strathmore no disse nada. Apenas virou sua tela na direo de Susan. Seu monitor exibia uma estranha cor marrom. No final da tela, uma caixa de dilogo mostrava diversas tentativas de desligar o TRANSLTR. Todas eram seguidas pela mesma resposta:

IMPOSSVEL INTERROMPER A EXECUO
IMPOSSVEL INTERROMPER A EXECUO
IMPOSSVEL INTERROMPER A EXECUO

Susan sentiu um frio na barriga. Impossvel interromper a execuo? Por qu? Ela temia j saber a resposta. Ento essa  a vingana de Tankado? Destruir o TRANSLTR! Durante anos, ele quisera que todos soubessem da existncia do TRANSLTR, mas ningum acreditou nele. Ento decidiu destruir o gigante por conta prpria. Lutou at a morte por seus ideais: o direito dos indivduos  privacidade.
L embaixo, as sirenes continuavam berrando.
- Temos que cortar toda a energia - pediu Susan. - J!
Sabia que, se corressem, poderiam salvar o supercomputador. Todos os computadores do mundo, dos PCs mais baratos at os sistemas de controle de satlite da NASA, possuam alguma forma de desligamento manual. No era uma sada elegante, mas sempre funcionava: "puxar a tomada.
Se desligassem toda a energia que ainda havia na Criptografia, forariam o TRANSLTR a ser desligado tambm. Depois poderiam remover o vrus. Essa parte seria simples, pois bastaria reformatar os discos rgidos do TRANSLTR. Uma reformatao iria apagar completamente tudo que houvesse no computador - dados, programas, o vrus, tudo. Muitas vezes, reformatar os sistemas era uma soluo invivel, pois levava  perda de milhares de arquivos, algumas vezes meses de trabalho. Mas com o TRANSLTR era diferente. Aquela mquina podia ser reformatada sem perda alguma. Supercomputadores com processamento paralelo eram projetados para fazer contas, no para armazenar dados. Quase nada era gravado dentro do TRANSLTR. Quando ele quebrava um cdigo, enviava os resultados para o banco de dados central da NSA para que...
Susan congelou. Em um relance, percebeu a extenso da tragdia. Colocou a mo na boca e abafou um grito.
	- O banco de dados central!
	Strathmore mantinha o mesmo olhar vago para a escurido. Ele j havia chegado  mesma concluso. Falou com uma voz mecnica.
	- Sim, Susan. O banco de dados. Tankado usou o TRANSLTR para colocar um vrus em nosso banco de dados central.
Strathmore apontou, trmulo, para sua tela. Susan apoiou-se na parede e olhou novamente para algumas palavras que estavam logo abaixo da caixa de texto que ela havia visto antes.

DIVULGUEM A EXISTNCIA DO TRANSLTR
APENAS A VERDADE PODER SALV-LOS

Susan sentiu o sangue gelar. As informaes mais secretas dos Estados Unidos estavam armazenadas na NSA: protocolos de comunicaes militares, a identidade de espies no exterior, planos de armas em desenvolvimento, documentos digitalizados, acordos de comrcio... A lista era enorme.
- Tankado no faria isso! - respondeu ela. - Corromper todos os registros secretos de nosso pas?
Nem mesmo Ensei Tankado seria capaz de atacar o banco de dados da NSA, pensava Susan. Olhou para a mensagem novamente.

APENAS A VERDADE PODER SALV-LOS

- A verdade? A respeito de qu?
Strathmore respondeu, respirando pesadamente.
- O TRANSLTR - disse, com voz fnebre. - A verdade sobre o TRANSLTR. Susan concordou. Tankado estava forando a NSA a divulgar a existncia do TRANSLTR. Era uma forma de chantagem. Havia dado duas escolhas  agncia: confessar que o supercomputador existia ou perder seu banco de dados. Ela olhou, aturdida, para o texto  sua frente. Na ltima linha da tela, uma mensagem piscava de forma ameaadora.

DIGITE A SENHA
Olhando para as palavras que piscavam, Susan repassou toda a trama em sua mente: o vrus, a chave, o anel de Tankado, a engenhosidade da chantagem. A chave no tinha relao alguma com a desencriptao de um algoritmo: era um antdoto que servia para interromper a ao do vrus. Susan j havia estudado vrus como aquele: programas destrutivos que incluam um mecanismo interno de desativao, uma senha secreta que podia ser usada para interromper sua execuo.
Tankado nunca planejou destruir o banco de dados da NSA! Apenas queria que contssemos a verdade sobre o TRANSLTR! Depois iria nos dar a senha para que pudssemos interromper a ao do vrus.
Estava claro para ela, tambm, o quo errado o plano de Tankado havia sado. Ele no planejara morrer. Certamente pensou em ficar sentado num bar na Espanha, ouvindo o noticirio da CNN a respeito do computador americano ultra-secreto para decifrar cdigos. Ento provavelmente ligaria para Strathmore e leria os dgitos da chave, salvando o contedo do banco de dados no ltimo instante. Aps umas boas gargalhadas, ele desapareceria, tornando-se um heri para a EFE.
Susan socou a mesa.
- Precisamos encontrar o anel!  a nica chave!
Como no havia North Dakota algum, tambm no havia uma segunda chave. Mesmo que a NSA resolvesse revelar a verdade sobre o TRANSLTR, Tankado no poderia mais ajud-los.
Strathmore permaneceu em silncio.
A situao era mais sria do que Susan havia imaginado. Ela estava chocada por Tankado ter permitido que as coisas chegassem a esse ponto. Ele sabia o que aconteceria se a NSA no conseguisse o anel. Ainda assim, em seus ltimos segundos de vida, ele havia dado o anel para estranhos. Havia deliberadamente tentado mant-Io fora do alcance deles. Por outro lado, pensou Susan, o que se esperaria que Tankado fizesse se achasse que a NSA havia mandado mat-lo?
Ainda assim, Susan no acreditava que Tankado fosse permitir que isso acontecesse. Ele era um pacifista. No queria provocar destruio, queria apenas deixar as coisas claras. Sua luta dizia respeito ao TRANSLTR. Dizia respeito ao direito das pessoas de manterem um segredo. O que ele desejava  que todos soubessem que a NSA estava ouvindo. Apagar o banco de dados da agncia era um ato de agresso que Ensei Tankado no cometeria, pensou Susan.
As sirenes a trouxeram de volta  realidade. Ela olhou para o comandante, arrasado. No apenas seus planos de inserir um acesso oculto no Fortaleza Digital haviam sido destrudos, como tambm seu descuido havia deixado a NSA muito prxima do que poderia ser o pior desastre para a segurana nacional em toda a histria dos Estados Unidos.
- Comandante, isso no  culpa sua! - insistiu ela, tentando superar o rudo. das sirenes. - Se Tankado no houvesse morrido, teramos como barganhar, teramos opes!
Mas Strathmore no estava ouvindo mais nada. Sua vida estava acabada. Passara trinta anos servindo seu pas. Aquele deveria ser seu momento de glria, seu grand finale: uma back door colocada no padro mundial de encriptao. Em vez disso havia deixado um vrus entrar no banco de dados central da Agncia de Segurana Nacional. No havia como deter o vrus, ao menos no sem desligar a energia e apagar todos os bilhes de bytes de dados irrecuperveis. Apenas o anel poderia salv-los, e se David no havia encontrado o anel at agora...
- Preciso desligar o TRANSLTR! - disse Susan, tomando as rdeas da situao. - Vou ao subsolo desligar o disjuntor principal.
Strathmore virou-se lentamente e olhou para ela. Era um homem derrotado, arrasado.
- Eu vou - disse em voz baixa. Levantou-se, tropeando ao tentar sair de trs de sua mesa.
Susan foi at ele e fez com que se sentasse novamente.
- No - disse em tom autoritrio. - Eu vou. - No deixou espao para discusses. 
Strathmore apoiou o rosto entre as mos.
- Est bem. ltimo nvel. Ao lado das bombas de gs fron.
Susan virou-se e dirigiu-se para a porta. A meio caminho, olhou para trs e gritou: - Comandante, isso ainda no acabou. No fomos derrotados ainda. Se David puder encontrar o anel a tempo, podemos salvar o banco de dados!
Strathmore no respondeu.
- Ligue para o pessoal do banco de dados! - ordenou Susan. - Avise-os a respeito do vrus! Voc  o vice-diretor da NSA. Voc  um sobrevivente!
Em cmara lenta, Strathmore olhou para ela. Como algum que toma a deciso mais penosa de sua vida, assentiu pesarosamete.
Cheia de determinao, Susan partiu em meio  escurido.

CAPTULO
87

A Vespa se arrastava pela pista para veculos lentos da Carretera de Huelva. Estava quase amanhecendo e j havia bastante trfego: jovens de Sevilha retomando de suas noitadas festivas na praia. Uma van cheia de adolescentes passou por ele buzinando. A motoneta de Becker parecia um brinquedo na estrada.
Cerca de 500 metros atrs, um txi semidestrudo surgiu na estrada, com pedaos de metal soltos arrastando no cho e soltando fascas. Sem muito controle, jogou um Peugeot 504 para o gramado central.
Becker passou por uma placa onde estava escrito: SEVILLA CENTRO - 2 KM. Se ele pudesse encontrar abrigo no centro da cidade, talvez tivesse uma chance. O velocmetro marcava 60 km/h. Dois minutos at a sada. Ele sabia que no teria tanto tempo assim. Em algum ponto atrs dele, o txi avanava rapidamente. Becker olhou para as luzes do centro de Sevilha e rezou para chegar vivo at l.
Estava a meio caminho da sada quando o som de metal riscando a pista se fez ouvir atrs dele. Curvou-se sobre a Vespa, puxando o acelerador ao mximo. Ouviu o som abafado de um tiro e o assobio da bala que errou o alvo. Jogou-se para a esquerda, cortando as pistas de um lado para o outro, na esperana de conseguir um pouco mais de tempo. Era intil. A rampa de sada ainda estava a uns 300 metros quando o txi encurtou a distncia entre eles e ficou cerca de dois ou trs carros atrs. Becker sabia que, em poucos segundos, levaria um tiro ou seria atropelado. Ele olhou  frente, procurando alguma alternativa, mas a estrada era cercada de ambos os lados por encostas ngremes cobertas de pedregulhos. Ouviu outro tiro. Hora de tomar uma deciso.
Com a moto zunindo e soltando fascas no asfalto, jogou-se  direita e saiu da estrada. Os pneus da motoneta chegaram  base da encosta. Becker lutava para manter o equilbrio sobre a Vespa, que jogava para trs uma nuvem de pedrinhas, a roda traseira patinando enquanto galgava a montanha. O pequeno motor roncava de forma pattica e as rodas giravam em falso enquanto a moto subia o terreno acidentado. Becker fazia o possvel para ajudar, esperando que o motor no engasgasse. No teve coragem de olhar para trs, certo de que, a qualquer momento, o txi iria parar com uma freada brusca e balas voariam em sua direo.
Contudo, nenhuma bala foi disparada.
A Vespa chegou at o topo, e Becker pde ver,  sua frente, o centro. As luzes da cidade descortinavam-se  sua frente como um cu estrelado. Passou a toda por alguns arbustos e saiu em uma rua. Tinha a impresso de que sua motocicleta andava mais rpido agora. A Avenida Luis Montoto parecia fugir sob os pneus. O estdio de futebol passou rpido  sua esquerda. Estava a salvo.
Foi ento que Becker ouviu o rudo familiar de metal sendo arrastado pelo concreto. Cerca de 100 metros  frente, o txi surgiu em alta velocidade na rampa de sada, derrapando ao entrar na Luis Montoto e depois acelerando na direo de David.
Desta vez ele manteve-se indiferente. Sabia para onde estava indo. Virou  esquerda na Menndez Pelayo e acelerou. A Vespa atravessou um pequeno parque e depois saiu na Rua Mateus Gago, uma ruela de mo nica que dava no portal do bairro de Santa Cruz.
S mais um pouco,  pensou.
O txi seguia em seu encalo, cada vez mais perto. Entrou atrs de Becker no arco de Santa Cruz, perdendo um dos espelhos laterais ao passar pelo arco estreito. Becker sentiu que tinha vencido: Santa Cruz era uma das partes mais antigas de Sevilha. No havia ruas largas entre os prdios, apenas um labirinto de vielas estreitas construdas na poca dos romanos. Ali s era possvel andar a p ou de motoneta. Anos atrs, Becker havia passado algumas horas perdido naquelas ruelas.
Ao acelerar no trecho final da Mateus Gago, a catedral gtica de Sevilha, do sculo XI, cresceu como uma montanha diante de seus olhos. Logo a seu lado estava a torre da Giralda, projetando-se 127 metros para cima contra as primeiras luzes do amanhecer. A segunda maior catedral do mundo ficava em Santa Cruz, que era tambm local de residncia de algumas das mais antigas e devotas famlias catlicas de Sevilha.
Becker cruzou a praa com calamento de pedras. Ouviu um nico tiro, mas era tarde. Ele e sua motoneta j haviam desaparecido por uma pequena viela, a Callita de La Virgen.

CAPTULO
88

O farol da Vespa de Becker desenhava sombras ntidas nas paredes das pequenas vielas. Ele brigava com a embreagem enquanto a moto roncava entre o casario branco, acordando um pouco mais cedo alguns moradores de Santa Cruz naquela manh de domingo.
Haviam se passado menos de 30 minutos desde que Becker fugira do aeroporto. Estava sendo perseguido desde ento e tinha muitas perguntas em sua mente: Quem est tentando me matar? Por que este anel  to especial? Onde est o jatinho da NSA? Lembrou-se de Megan morta no banheiro, e a sensao de nusea voltou.
A idia inicial de Becker era atravessar o bairro e sair do outro lado, mas Santa Cruz era um desnorteante labirinto de vielas. Em toda parte havia caminhos falsos e ruas sem fim. Becker perdeu o rumo rapidamente. Tentou encontrar a torre da Giralda para se situar, mas as paredes a seu redor eram altas demais e s deixavam que visse um pouco do cu acima dele, com a manh surgindo.
Ficou pensando onde poderia estar o homem com os culos de armao de metal. J tinha percebido que ele no desistiria assim to fcil. O assassino provavelmente havia descido do carro para persegui-lo a p. Becker se concentrava em manobrar a Vespa pelas esquinas apertadas. O rudo do motor ecoava ao longo das ruelas, e ele sabia que era um alvo fcil de ser encontrado no silncio de Santa Cruz. Naquele momento, tudo que tinha a seu favor era a velocidade. Tenho que chegar ao outro lado!
Aps uma longa srie de curvas e retas, Becker parou em uma interseo de trs vias, a Esquina de los Reyes. Sabia que estava com problemas: j tinha passado por ali antes. Apoiou um p no cho para segurar a moto enquanto pensava para onde iria, mas o motor engasgou e parou. O medidor de gasolina indicava que o tanque estava vazio. De forma quase cronometrada, uma sombra surgiu em uma viela  sua esquerda.
A mente humana  o computador mais rpido que existe. Em uma frao de segundos, Becker registrou o formato dos culos do homem, pesquisou algo similar em sua memria, encontrou o que buscava, registrou "perigo" e requisitou que tomasse uma atitude. A deciso foi rpida: largou a motoneta intil e saiu correndo o mais rpido que pde.
Infelizmente para Becker, dessa vez Hulohot estava de p e imvel, e no se sacudindo dentro de um txi. Levantou calmamente sua arma e disparou.
A bala atingiu Becker de raspo, pouco antes que ele virasse uma esquina e sasse da linha de mira. Deu cinco ou seis passos antes que a sensao comeasse a se propagar. Primeiro parecia uma contrao muscular, pouco acima do quadril. Depois tornou-se uma pontada. Becker viu o sangue. No havia dor alguma: apenas uma corrida desesperada atravs do labirinto de vielas de Santa Cruz.
Hulohot correu atrs de sua presa. Tinha pensado em atirar na cabea, mas era um profissional e sabia calcular seus riscos. Becker era um alvo mvel e mirar em seu torso lhe dava maior margem de erro, tanto na vertical quanto na horizontal. Seus clculos tinham dado certo. Becker havia se movido na ltima hora e, em vez de errar sua cabea, Hulohot acertou de raspo prximo  cintura. Sabia que a bala mal tinha arranhado Becker e que no faria grandes danos, mas o tiro tinha servido a seu propsito. Ele havia feito contato. A presa tinha sido tocada pela morte. Era outro jogo agora.
Becker corria, cegamente. Virando. Andando em ziguezague. Mantendo-se fora das vias mais abertas. Os passos atrs dele pareciam incansveis. Becker no pensava em mais nada. No queria saber onde estava ou quem estava atrs dele. Havia sobrado apenas instinto, autopreservao. Nenhuma dor, apenas medo e energia pura.
Um tiro atingiu um azulejo pouco atrs dele. Pequenos fragmentos voaram de encontro  sua nuca. Jogou-se para a esquerda, em outra ruela. Ouviu sua prpria voz gritando por socorro, mas, a no ser pelo som dos passos e de sua respirao acelerada, o ar da manh permanecia morbidamente silencioso.
O ferimento estava ardendo. Becker temia estar deixando um rastro de sangue pelo piso claro. Procurava desesperadamente uma porta aberta, um porto, qualquer sada daquele labirinto sufocante. Nada. A viela se estreitava.
- Socorro! - a voz de Becker era quase inaudvel.
As paredes se comprimiam contra ele. Becker virou uma esquina. Procurou um cruzamento, uma bifurcao, qualquer tipo de sada. A rua se estreitava. Portas trancadas. Estreitando-se ainda mais. Portes fechados. Passos se aproximando. Estava em uma passagem reta que se transformava em uma ladeira. Cada vez mais ngreme. Becker sentiu que suas pernas fraquejavam. Estava perdendo velocidade.
Ento chegou ao fim.
Como uma estrada inacabada, a ladeira terminou. Havia uma parede alta, um banco de madeira e nada mais. Nenhuma sada. Becker olhou para o topo do prdio ao seu lado, trs andares acima, depois virou-se e comeou a voltar pela longa viela. Deu apenas alguns passos e parou abruptamente.
Uma figura surgiu na base da ladeira. O homem moveu-se na direo de Becker com uma determinao calculada. Em uma das mos a arma reluzia sob os primeiros raios de sol.
Becker sentiu uma enorme lucidez apoderando-se dele enquanto recuava em direo  parede. Sentiu nitidamente a dor do ferimento. Colocou os dedos sobre a ferida e a examinou. Havia sangue em seus dedos e sobre o anel de ouro de Ensei Tankado. Sentiu-se tonto. Olhou para o anel, perplexo. Tinha esquecido que o estava usando. No se lembrava por que viera a Sevilha. Voltou a observar a figura que se aproximava. Depois olhou novamente para o anel. Tinha sido por isso que Megan morrera? Seria por isso que ele morreria?
A sombra avanava pela ruela inclinada. Becker via paredes subindo a seu redor. Sem sada. Conseguia ver alguns corredores fechados por portes, mas era tarde demais para gritar por socorro.
Encostou-se no muro e naquele momento podia sentir cada minscula pedrinha sob a sola de seus sapatos, cada mnima rugosidade na parede atrs dele. Seus pensamentos voltaram no tempo para sua infncia, para seus pais... e para Susan.
Meu Deus... Susan.
Pela primeira vez desde que era criana, Becker rezou. No para se livrar da morte: no acreditava em milagres. Rezou para que a mulher que iria deixar encontrasse foras, para que ela soubesse sem dvida alguma que fora amada. Fechou os olhos. As lembranas o invadiram como um turbilho. No eram lembranas de reunies no departamento ou de assuntos da universidade, nem tampouco das coisas que preenchiam 90% de sua vida. Eram lembranas dela. Memrias simples, como o dia em que a ensinara a usar os hashi, ou quando velejaram em Cape Cod. Eu te amo, pensou. Saiba disso... para sempre.
Era como se cada defesa, cada fachada, cada insegurana de sua vida tivessem sido arrancadas. Ele estava ali em carne e osso perante Deus. Fechou os olhos enquanto o homem de culos de armao de metal andava em sua direo. Em algum lugar prximo, um sino comeou a tocar. Becker esperou, na escurido, pelo som que poria fim  sua vida.

CAPTULO
89

O sol estava comeando a se levantar sobre os telhados de Sevilha e brilhava em suas ruas. Os sinos no alto da Giralda anunciavam a primeira missa do dia. Esse era o momento pelo qual os moradores do bairro esperavam. Portas se abriam e de todos os lados famlias surgiam nas ruelas. Como sangue sendo bombeado pelas veias da velha Santa Cruz, fluam em direo ao corao de seu pueblo, em direo ao centro de sua histria, seu Deus, sua catedral.
No interior da mente de Becker, um sino tocava. Estou morto? Hesitante, abriu os olhos e contraiu as sobrancelhas, ofuscado pelos raios de sol. Sabia onde estava. Levantou os olhos e procurou seu agressor na viela. Contudo, o homem e seus culos no estavam l. Em vez disso havia muitos outros. Famlias espanholas em roupas de domingo, saindo de seus portes gradeados para as ruas, falavam e riam.
Na base daquela ruela, oculto da viso de Becker, Hulohot xingava em voz baixa. Primeiro surgira um nico casal separando-o de sua presa. Hulohot esperou que partissem. Mas o som dos sinos continuou reverberando, tirando outras pessoas de suas casas. Surgiu um segundo casal, com crianas. Cumprimentaram o outro casal, falando, rindo, beijando-se trs vezes no rosto. Depois surgiu outro grupo, e Hulohot j no podia mais ver sua vtima. Agora, enfurecido, corria em meio  multido que aumentava rapidamente. Tinha que chegar at David Becker!
O assassino tentou abrir caminho at o fim da ruela, mas se viu perdido em meio a um mar de gente: casacos e gravatas, vestidos, mantas sobre as costas curvadas de senhoras idosas. Todos pareciam ignorar a presena de Hulohot. Moviam-se sem pressa, todos de preto, uma massa compacta que bloqueava seu caminho. Hulohot conseguiu atravessar o povaru e subiu correndo a ladeira, a arma engatilhada. Becker, contudo, havia sumido. Frustrado, Hulohot soltou um grito inumano e abafado.
Becker tropeava e ia cortando caminho atravs da multido. Siga a multido, pensava. Eles sabem onde fica a sada. Ele virou  direita em uma interseo e foi dar em uma rua mais larga. Em toda parte, portes se abriam e pessoas saam para as ruas. Os sinos tocavam mais alto.	.
O ferimento de Becker ainda ardia, mas podia sentir que o sangramento tinha parado. Apressou-se. Em algum lugar atrs dele, aproximando-se rapidamente, havia um homem armado.
David ia entrecortando os grupos de pessoas que se dirigiam  missa, tentando manter sua cabea baixa. No estava muito longe, ele podia sentir isso. De repente a multido ficou mais densa e a ruela se alargou. No estava mais em um pequeno afluente, aquele era o rio principal. Quando passou por uma curva, Becker pde v-las, crescendo  sua frente: a catedral e a torre da Giralda.
O rudo dos sinos era ensurdecedor, ecoando pelas paredes da praa cercada por muros altos. Os diferentes fluxos de pessoas convergiam, todas de preto, atravessando a praa em direo s portas da catedral de Sevilha. Becker tentou sair dali e ir em direo  Mateus Gago, mas estava preso, ombro a ombro, passo a passo com a multido compacta. Becker estava encaixado entre duas mulheres corpulentas, ambas caminhando de olhos fechados, deixando-se levar pela massa. Rezavam em voz baixa e seguravam contas de rosrios em suas mos.
Quando o povo se aproximou da enorme estrutura de pedra, Becker tentou mais uma vez sair para o lado esquerdo, mas a corrente humana estava ainda mais forte agora. Pessoas se comprimiam, em expectativa, avanando s cegas, murmurando oraes. Virou-se, tentando abrir caminho na direo oposta. Era impossvel, como tentar remar contra a mar. Desistiu. As portas da catedral ficavam cada vez mais perto, como a entrada para alguma atrao macabra de um parque de diverses que ele preferia ter evitado. David Becker subitamente percebeu que iria  igreja.

CAPTULO
90

As sirenes da Criptografia continuavam tocando. Strathmore no sabia h quanto tempo Susan partira. Tinha ficado sentado sozinho nas sombras, o murmrio do TRANSLTR chamando-o. Voc  um sobrevivente... Voc  um sobrevivente...
Sou um sobrevivente, ele pensou, mas a sobrevivncia de nada vale sem a honra. Prefiro morrer do que viver em desgraa.
Certamente a desgraa era aquilo que esperava por ele. Havia ocultado informaes do diretor e deixado um vrus entrar no computador mais seguro do pas. No restavam dvidas de que iriam tirar o seu couro. Suas intenes tinham sido patriticas,  certo, mas nada sara conforme planejara. Ocorreram mortes e traies que acabariam em julgamentos, acusaes, indignao pblica. Tendo servido seu pas com honra e integridade durante tantos anos, no podia permitir que as coisas terminassem dessa forma.
Sou um sobrevivente, pensou. Voc  um mentiroso, responderam seus pensamentos.
De fato era um mentiroso. Tinha mentido para muitas pessoas. Susan Fletcher era uma delas. Havia muitas coisas que no tinha contado para ela, coisas das quais se envergonhava agora. Durante anos ela foi sua iluso, sua fantasia viva. Sonhava com ela  noite, dizia seu nome em meio aos sonhos. No podia evitar. Era a mulher mais inteligente e mais bela que podia imaginar. No incio, sua mulher tentou ser paciente, mas, quando finalmente encontrou Susan, perdeu as esperanas. Bev Strathmore nunca recriminou seu marido por seus sentimentos. Tentou suportar a dor pelo tempo que foi possvel, mas h alguns meses aquela vida havia se tornado impossvel. Bev disse ao marido que o casamento terminara: no podia passar o restante de seus dias  sombra de outra mulher.
Aos poucos as sirenes tiraram Strathmore de seus devaneios. Analisou a situao, buscando alguma outra sada. Sua mente confirmou, relutantemente, aquilo que seu corao suspeitara. Havia apenas uma sada, uma nica soluo.
Strathmore olhou para o teclado e comeou a digitar. Deixou o monitor como estava, virado para a porta, onde no podia ver o que estava escrevendo. Apenas digitou as palavras, lenta e decididamente.
	Queridos amigos, vou tirar minha prpria vida hoje...
	Desta forma, ningum teria dvida. No fariam perguntas. No haveria acusaes. Ele iria contar, palavra por palavra, o que acontecera. Muitos j haviam morrido, mas era necessrio sacrificar uma ltima vida.

CAPTULO
91

Em uma catedral  sempre noite. O calor do dia se transforma em frescor mido. O rudo do trnsito  completamente abafado pelas grossas paredes de granito. Nenhuma quantidade de candelabros seria suficiente para iluminar aquele amplo espao. Os detalhes da arquitetura gtica projetam sombras em toda parte. Apenas os vitrais, colocados no alto das paredes, filtram as imperfeies do mundo externo em raios esmaecidos de vermelho e azul.
A catedral de Sevilha, como todas as grandes catedrais da Europa, possui o formato de uma cruz. O sacrrio e o altar ficam na nave central, um pouco acima da interseo dos dois eixos da cruz. Bancos de madeira ocupam todo o eixo vertical, ao longo de impressionantes 100 metros que vo do altar at a base da cruz. De ambos os lados do altar o transepto abriga confessionrios, tmulos sagrados e mais bancos.
Becker se viu cercado no meio de um longo banco mais ou menos na metade posterior da nave. Acima dele, no enorme espao vazio, um incensrio de prata do tamanho de uma geladeira descrevia enormes arcos, preso por uma velha corda, deixando um rastro de incenso. Os sinos da Giralda continuavam tocando, gerando um murmrio grave na estrutura de pedra da catedral. Becker olhou para a parede ornamentada atrs do altar. Tinha muito a agradecer. Estava respirando. Estava vivo. Era um milagre.
O celebrante se preparava para iniciar a missa. Becker olhou para seu ferimento. Havia uma mancha em sua camisa, mas o sangramento cessara. A ferida era pequena, mais prxima de um corte do que de uma perfurao. Ele recolocou sua camisa para dentro e soltou o pescoo. Ouviu as portas sendo fechadas atrs dele. Se houvesse sido seguido, estava agora aprisionado. A catedral de Sevilha possua uma nica entrada, um projeto arquitetnico popular nos tempos em que as igrejas eram usadas como fortalezas, um local seguro para proteo contra invases mouras. Dessa forma s havia uma porta a ser protegida com barricadas.
As portas ornamentadas de sete metros de altura fecharam-se com um rudo forte. Becker estava trancado na casa de Deus. Fechou os olhos e escorregou para baixo no banco. Era o nico, em toda a catedral, que no estava vestido de preto. Em algum lugar, vozes entoaram um cntico.
Tambm no lado de dentro da igreja, um vulto se movia lentamente ao longo do corredor lateral, mantendo-se nas sombras. Havia chegado pouco antes que as portas se fechassem. Ele sorriu consigo mesmo. A caada estava ficando mais interessante. Becker est aqui... posso senti-lo. Movia-se metodicamente, uma fileira de cada vez. Um bom lugar para morrer, pensou Hulohot. Espero ter a mesma sorte.
Becker ajoelhou-se sobre o assoalho frio da catedral e abaixou a cabea, para se esconder. O homem sentado ao seu lado olhou para ele: aquele era um comportamento muito estranho na casa de Deus.
- Enfermo - desculpou-se Becker. - Estou doente.
Becker tinha que ficar agachado. Ele vislumbrara uma silhueta que lhe era familiar movendo-se em direo ao altar pelo corredor lateral.  ele! Est aqui!
Apesar de estar no meio de uma enorme comunidade de fiis, ele temia ser um alvo fcil - seu blazer cqui era um farol naquele mar de preto. Tinha cogitado tirar o blazer, mas a camisa branca que usava por baixo no iria ajudar em nada. Em vez disso, abaixou-se ainda mais.
O homem ao seu lado fez uma cara feia.
- Turista - grunhiu. Depois disse em voz baixa: - Devo chamar um mdico? Becker olhou para a face cheia de verrugas do velho.
- No, gracias. Estoy bien.
O homem lhe devolveu um olhar irritado.
- Pues sintate! Ento sente-se! - Algumas pessoas em volta fizeram sinais para que se calassem, e o velho decidiu morder a lngua e voltar-se para o altar.
Becker fechou os olhos e abaixou-se ainda mais, pensando em quanto tempo a missa iria durar. Protestante, sempre tivera a impresso de que os catlicos tinham uma cerimnia muito demorada. Rezava para que fosse verdade, pois, assim que a missa terminasse, seria forado a levantar-se e deixar que os outros sassem. Vestido de cqui, estaria morto.
Naquele momento ele no tinha outra alternativa. Simplesmente deixou-se ficar ajoelhado no cho de pedra fria da grande catedral. O homem ao seu lado acabou se esquecendo dele. A congregao estava agora de p, cantando um hino de louvor. Becker continuava abaixado. Suas pernas comearam a ficar dormentes. No havia espao para estic-las. Pacincia, pensou. Pacincia. Fechou os olhos e respirou profundamente.
Ficou abaixado, tentando pensar numa sada. Concentrado, no percebeu o tempo passar e espantou-se quando sentiu que algum o cutucava com os ps. Olhou para cima. O velho estava  sua direita, esperando impacientemente para deixar o banco.
Becker entrou em pnico. Ele j quer ir embora? Vou ter que me levantar! Fez sinal para que o homem passasse por cima dele. O velho mal podia controlar sua irritao. Segurou as abas de seu casaco preto, puxou-as para baixo com veemncia, depois curvou-se para trs, mostrando a Becker a fileira de pessoas que esperavam para sair. David olhou para seu lado esquerdo e viu que a mulher que estava sentada ali havia sado. Todo o banco  sua esquerda estava vazio at a alia central.
A missa no pode ter terminado!  impossvel!
Contudo, quando Becker viu o coroinha no fim da fila e as duas filas indianas se movendo em direo ao altar, entendeu o que estava acontecendo.
Comunho! - resmungou. Eu tinha me esquecido da comunho!

CAPTULO
92

Susan desceu a escada que dava no subsolo. Havia uma grossa camada de vapor quente em torno do TRANSLTR. O gradeado da escada e os corrimos estavam midos devido  condensao. Olhou em volta, pensando quanto tempo mais o computador agentaria. As sirenes continuavam emitindo seu aviso intermitente. A cada dois segundos, as luzes de emergncia completavam uma volta. Trs andares abaixo, os geradores auxiliares vibravam no limite de sua potncia. Em algum lugar, no fundo daquela nvoa obscurecida, estava o disjuntor que Susan procurava. Sabia que seu tempo estava se esgotando.
L em cima, Strathmore segurava a Beretta. Leu seu bilhete novamente e deixou-o no cho da sala. Estava prestes a cometer um ato covarde e no tinha dvidas disso. Sou um sobrevivente, pensou. Pensou no vrus no banco de dados da NSA, pensou em David Becker na Espanha, pensou em seus planos para o acesso de programador. Havia contado mentiras demais; era culpado de muitas coisas. Aquela era a nica forma de evitar a culpa, de evitar a vergonha. Apontou a arma cuidadosamente. Depois fechou os olhos e puxou o gatilho.
Susan havia descido apenas seis lances de escada quando ouviu o som do tiro. Vinha de longe e fora abafado pelo barulho dos geradores to prximos. Nunca havia ouvido um tiro, a no ser na televiso, mas no tinha dvida.
Parou na hora, o som ressoando em seus ouvidos. Tomada de choque, temeu pelo pior. Em sua mente surgiram as imagens dos sonhos do comandante, o acesso oculto no Fortaleza Digital e as imensas possibilidades que isso abriria. Depois, as imagens do vrus no banco de dados, o casamento arruinado, seu olhar de desamparo h poucos minutos. Tropeou e segurou-se no corrimo para no cair. Comandante! No!
Ficou paralisada por instantes, sua mente em branco. O eco do tiro parecia sobrepujar todo o caos que a cercava. A intuio lhe dizia que devia continuar descendo, mas as pernas se recusavam. Comandante! Logo em seguida, viu-se subindo a escada aos tropees, alheia ao perigo que a cercava.
Subia s cegas, escorregando no metal dos degraus. Acima dela, a umidade parecia quase chuva. Quando chegou  escada que dava acesso ao piso da Criptografia, tentou subir correndo, mas tropeou no ltimo degrau. Rolou no cho da Criptografia e sentiu o ar fresco a seu redor. Sua blusa estava grudada na pele, inteiramente molhada.
Estava escuro. Ela parou, tentando se orientar. O som do tiro continuava ecoando em sua cabea, sem cessar. O vapor quente saa da portinhola como gases saindo de um vulco prestes a explodir.
Susan amaldioou-se por ter deixado a Beretta com Strathmore. Ou ser que ela tinha ficado no Nodo 3? Seus olhos se ajustavam  escurido e ela olhou na direo do buraco na parede do Nodo 3. O brilho dos monitores era fraco, mas, ao longe, podia ver Hale deitado, imvel, no cho, no mesmo lugar onde ela o deixara. Nenhum sinal de Strathmore. Aterrorizada com o que iria encontrar, voltou-se para a sala do comandante.
Comeou a andar. Contudo, algo lhe pareceu estranho. Deu alguns passos para trs e olhou novamente para o Nodo 3. Na luz plida ela podia ver o brao de Hale. No estava mais ao seu lado, e ele tambm no estava mais amarrado como uma mmia. Seu brao estava jogado por cima de sua cabea e ele estava esparramado no cho, de bruos. Ser que ele tinha se libertado? No viu movimento algum. Hale estava imvel como um cadver.
Susan olhou para o escritrio de Strathmore, no alto. - Comandante?
Silncio.
Hesitantemente, comeou a mover-se em direo ao Nodo 3. Sob a luz dos monitores, um objeto brilhava na mo de Hale. Susan aproximou-se devagar, bem devagar. Quando chegou mais perto pde ver o que Hale estava segurando. Era a Beretta.
Susan engoliu em seco. Seguindo o arco do brao de Hale, chegou  sua face. O que viu era grotesco. Metade do rosto dele estava encharcado de sangue. A mancha escura se alastrava pelo carpete.
Meu Deus! Susan recuou, trmula. No era o comandante quem ela tinha ouvido atirar, mas Hale.
Como em um pesadelo, ela aproximou-se do corpo. Aparentemente, Hale havia conseguido soltar-se. Os cabos usados para amarr-lo estavam jogados no cho a seu lado. Devo ter deixado a arma no sof, ela pensou. O sangue que saa do buraco em seu crnio ficava preto sob a luz azul. .
No cho, ao lado de Hale, havia um pedao de papel. Susan foi at l e pegou-o, trmula. Era um bilhete.
Queridos amigos, vou tirar minha prpria vida hoje, em penitncia por meus pecados...
Susan olhou para o bilhete incrdula. Leu-o devagar. No fazia o menor sentido, no era o estilo de Hale... Uma lista de crimes. No bilhete, ele confessava tudo: ter descoberto que NDAKOTA era uma farsa, ter contratado um mercenrio para matar Ensei Tankado e pegar o anel, ter atirado Phil Chartrukian sobre os geradores e planejado vender o Fortaleza Digital.
Susan chegou  ltima linha. No estava preparada para o que viria a seguir. As ltimas palavras do bilhete foram um duro golpe.
	Sobretudo, lamento por David Becker. Perdoem-me, fiquei cego pela ambio.
	Susan tremia, olhando para o corpo de Hale. Ouviu passos, algum se aproximando correndo por detrs dela. Em cmara lenta, virou-se. Strathmore apareceu na janela quebrada, plido e sem flego. Olhou para o corpo de Hale, aparentando estar chocado.
	- Meu Deus! - ele disse. - O que aconteceu?

CAPTULO
93

Comunho.
Hulohot avistou Becker rapidamente. O blazer cqui era facilmente localizvel, especialmente com uma pequena mancha de sangue em um dos lados. O blazer estava se movendo em direo ao altar, pelo corredor central, em meio a um mar de pessoas de preto. Ele provavelmente no sabe que estou aqui, pensou o assassino, sorrindo.  um homem morto.
Acariciou os pequenos contatos metlicos na ponta de seus dedos, vido para enviar boas notcias a seu contratante nos Estados Unidos. Em breve, muito em breve.
Como um predador cercando sua caa, Hulohot seguiu o fluxo dos fiis, caminhando para os fundos da igreja. Depois comeou sua aproximao, subindo diretamente o corredor central. Ele no estava com a menor vontade de caar Becker em meio  multido que sairia da igreja ao final da missa. Sua vtima no tinha como escapar agora, fora uma virada conveniente nos acontecimentos. Hulohot s precisava encontrar uma forma de elimin-lo sem fazer barulho. Seu silenciador, o melhor que havia, deixava escapar apenas um ligeiro barulho abafado. Isso bastaria.
Hulohot se aproximou do blazer cqui sem ouvir os murmrios de reclamao das pessoas que ia empurrando em seu caminho. Os fiis podiam at entender o desejo daquele homem de receber a bno de Deus, mas, ainda assim, havia regras estritas que todos seguiam: fila indiana, duas filas paralelas.
Hulohot continuava movendo-se. Aproximava-se rapidamente. Colocou a mo na arma que estava no bolso da jaqueta. O momento havia chegado. David Becker tivera uma sorte enorme at ento, mas tudo tinha limites.
O blazer cqui estava apenas dez pessoas  frente, dirigindo-se para o altar. O assassino repassou as prximas aes mentalmente. Era claro como um filme: chegaria por trs de Becker, mantendo a arma baixa e imperceptvel, e faria dois disparos contra suas costas. Ele cairia e Hulohot o seguraria, levando-o para um dos bancos, como um amigo preocupado. Depois Hulohot sairia rapidamente da igreja, como se fosse buscar ajuda. Na confuso, desapareceria antes que algum notasse o que havia acontecido.
Cinco pessoas. Quatro. Trs.
Hulohot colocou o dedo no gatilho, mantendo a arma baixa. Iria atirar da altura de seus quadris para cima, na espinha de Becker. Dessa forma, a bala iria acertar a dorsal ou o pulmo antes de atingir o corao. Mesmo que a bala errasse o corao, Becker morreria. Uma perfurao no pulmo quase sempre era fatal.
Duas pessoas... uma. Hulohot chegou a seu alvo. Como um danarino executando uma coreografia ensaiada, virou-se para a direita. Colocou a mo no ombro do blazer cqui, apontou a arma e atirou. Dois rudos secos e abafados.
O corpo ficou rgido no mesmo instante. Depois comeou a cair. Hulohot segurou sua vtima por baixo dos ombros. Em um nico gesto, girou o corpo e colocou-o em um banco antes que as manchas de sangue se espalhassem pelas costas. A seu redor, as pessoas se viravam. Ele no lhes deu ateno. Em um instante, teria sumido.
Apalpou os dedos do morto procurando o anel. Nada. Apalpou de novo. No havia anel algum. Irritado, Hulohot examinou as feies do homem. Ficou ainda mais furioso quando viu que aquele no era Becker.
Rafael de La Maza, um bancrio que morava nos subrbios de Sevilha, morreu quase instantaneamente. Ainda segurava nas mos as 50 mil pesetas que um americano esquisito havia lhe dado em troca do blazer preto que estava usando.

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Midge Milken estava ao lado do bebedouro prximo  entrada da sala de reunies. Que diabos Fontaine est fazendo? Amassou seu copinho e jogou-o com raiva dentro da lixeira. Alguma coisa est errada na Criptografia! Eu posso sentir! S havia uma maneira de provar que ela estava certa: iria at a Criptografia ela mesma. Se necessrio, arrastaria Jabba. Virou-se e dirigiu-se para a porta.
Brinkerhoff apareceu, como se tivesse sado do nada, barrando seu caminho. - Para onde voc vai?
- Para casa! - mentiu.
Ele se recusou a deix-la passar.
Midge fulminou-o com o olhar.
- Fontaine lhe disse para no me deixar sair, no foi?
Brinkerhoff olhou em volta, sem jeito.
- Chad, h alguma coisa acontecendo l na Criptografia. Algo grande. No sei por que Fontaine est se fazendo de tolo, mas sei que o TRANSLTR est com problemas. Algo est errado por l esta noite.
- Midge - ele disse em tom calmo, andando em direo s janelas da sala de conferncia, fechadas por venezianas -, vamos deixar que o diretor cuide disso.
	Midge continuava olhando fixamente para ele.
	- Voc tem alguma noo do que pode acontecer ao TRANSLTR se o sistema de resfriamento falhar?
	Brinkerhoff olhou para ela, indiferente, e continuou andando em direo  janela.
	- Provavelmente j restauraram a energia a esta altura. - Ele abriu as venezianas e olhou para fora.
	- Ainda. s escuras? - perguntou Midge.
	Brinkerhoff no respondeu. Estava siderado. A cena l embaixo, no domo da Criptografia, era inimaginvel. Pela cpula transparente dava para ver as luzes de alarme piscando e as nuvens de vapor. Perplexo, Brinkerhoff cambaleou em frente ao vidro. Depois, tomado pelo pnico, saiu correndo e gritando:
- Diretor! Diretor!

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O sangue de Cristo... o clice da salvao...
As pessoas estavam se juntando ao redor do corpo cado no banco. Acima deles, o incensrio balanava pacificamente. Hulohot ia e vinha pelo corredor central, procurando Becker desesperadamente por toda a igreja. Ele tem que estar aqui! Virou-se e foi em direo ao altar.
Trinta fileiras  frente, a sagrada comunho prosseguia tranqilamente. O celebrante, padre Gustaphes Herrera, olhou com curiosidade para a pequena agitao em torno de um dos bancos centrais, mas no se preocupou com isso. Muitas vezes, alguns de seus fiis mais idosos eram tomados pelo Esprito Santo e desmaiavam. Em geral um pouco de ar fresco resolvia tudo.
O assassino continuava sua busca frentica. Becker no parecia estar por perto. Havia cerca de 100 pessoas ajoelhadas no longo altar, recebendo a comunho. Hulohot pensou se Becker seria uma delas. Inspecionou cuidadosamente as costas de cada uma. Estava pronto para atirar, a cerca de 50 metros de distncia, e sair correndo para pegar o anel.
El cuerpo de Jesus, el pan del cielo.
O jovem padre que estava dando a comunho a Becker lanou-lhe um olhar de censura. Ficava contente que aquele fiel quisesse expressar sua f ardorosa, mas isso no era motivo para furar a fila.
Becker abaixou a cabea e recebeu a hstia. Sentiu que havia algo de errado acontecendo atrs dele - algum tipo de confuso. Pensou no homem de quem havia comprado o blazer e torceu para que houvesse levado a srio seu aviso para que no usasse o blazer cqui. Comeou a se virar para olhar, mas ficou com medo de que os culos de armao de metal estivessem  espreita l atrs. Agachou-se um pouco mais, esperando que o blazer preto estivesse cobrindo inteiramente suas calas cqui. No estava.
O clice estava sendo passado em sua direo, vindo da direita. As pessoas estavam tomando seu gole de vinho, fazendo o sinal-da-cruz e levantando-se para sair. Mais devagar! Becker no estava com a menor pressa de sair do altar. Mas, com duas mil pessoas esperando pela comunho e apenas oito padres para servi-las, era considerado falta de educao demorar muito para tomar um gole de vinho.
O clice estava quase chegando a Becker quando Hulohot, finalmente viu as calas cqui sob o blazer preto. Voc  um homem morto, sibilou para si mesmo. Hulohot andou pelo corredor central em direo ao altar. J havia dispensado qualquer sutileza. Dois tiros nas costas, depois pegaria o anel e sairia correndo. O maior ponto de txi de Sevilha estava apenas a meio quarteiro na Mateus Gago. Ele pegou a arma. Adeus, senhor Becker.
Lo sangre de Cristo, la copa de la salvacin.	.
O rico aroma do vinho tinto tomou conta de Becker quando padre Herrera abaixou o clice de prata polido  mo. Um pouco cedo para beber, pensou Becker, enquanto se inclinava para a frente. Mas, quando a prata polida ficou na altura de seus olhos, Becker entreviu um movimento atrs dele. Algum se aproximava rpido, a forma distorcida pelo reflexo no clice.
Becker viu, por um curto instante, um reflexo metlico, uma arma. Instintivamente, como um corredor que se lana ao ouvir o tiro de largada, ele saltou para frente. O padre caiu para trs, horrorizado, enquanto o clice voou para cima e o vinho tinto caiu sobre o mrmore branco. Padres e coroinhas se afastavam, alvoroados, enquanto Becker mergulhava para trs da grade do altar. O silenciador cuspiu um nico tiro. Becker caiu do outro lado e o tiro explodiu contra o cho de mrmore. Um segundo depois ele estava correndo escada abaixo para dentro do valle, uma estreita passagem pela qual os clrigos entravam, dando a impresso de que surgiam no altar como que elevados pela divina graa.
No final da escada, ele tropeou e caiu. Escorregou sem controle pela superfcie lisa de pedra polida. Uma dor pontiaguda percorreu suas entranhas quando bateu de lado no cho. Logo depois estava novamente de p, correndo atravs de uma passagem fechada por uma cortina e descendo por uma escadaria de madeira.
Dor. Becker continuou correndo e chegou ao que parecia ser a sacristia. Estava escuro. Ouviu gritos vindos l de cima, do altar. Em seguida, passos vigorosos correndo a seu encalo. Becker atravessou uma srie de portas duplas e foi sair em uma espcie de saleta. Era escura, com moblia em mogno ricamente ornamentada. Na parede dos fundos havia um crucifixo em tamanho natural. Ele parou, hesitante. No havia sada. Estava encurralado e podia ouvir os passos de Hulohot se aproximando rapidamente. Becker olhou para o crucifixo e amaldioou sua m sorte. Mas que diabos!, praguejou.
Ouviu um som de vidro se quebrando do seu lado esquerdo. Virou-se. Um homem usando uma batina vermelha engoliu em seco e olhou para ele, assustado. Como um gato pego com o canrio na boca, o santo padre limpou a boca com a batina e tentou disfarar escondendo os cacos da garrafa de vinho da santa comunho que estava quebrada a seus ps.
- Salida! - gritou Becker. - Salida! Onde fica a sada?
O cardeal Guerra no pensou duas vezes. Um demnio havia entrado em seus aposentos santificados e gritava para ser libertado da casa de Deus. Guerra iria satisfazer seu desejo, imediatamente, at porque o demnio chegara em um momento muito inoportuno.
Lvido, o cardeal apontou para uma cortina na parede  sua esquerda. Havia ali atrs uma porta oculta que ele tinha mandado instalar h trs anos. Levava diretamente para o ptio l fora. O cardeal se cansara de sair da igreja pela entrada principal como um pecador qualquer.

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Molhada e sentindo calafrios, Susan se encolheu no sof do Nodo 3. Strathmore colocou seu palet sobre os ombros dela. O corpo de Hale estava no cho, a alguns metros de distncia. As sirenes continuavam tocando. Como gelo rachando em um lago congelado, o revestimento do TRANSLTR emitiu um rudo seco e alto.
- Vou l embaixo cortar a fora - disse Strathmore, colocando sua mo protetora sobre os ombros de Susan. - J volto.
Susan observou o comandante, com um olhar ausente, enquanto ele corria pelo cho da Criptografia. No era mais o homem catatnico que ela havia visto dez minutos atrs. O velho comandante Strathmore estava de volta: lgico, controlado, fazendo o que fosse preciso para levar a cabo seu trabalho.
As ltimas palavras do bilhete de suicdio de Hale se repetiam na mente de Susan: Sobretudo, lamento por David Becker. Perdoem-me, fiquei cego pela ambio.
O mais terrvel pesadelo de Susan havia sido confirmado. David estava em perigo... ou pior. Talvez j fosse tarde demais. Lamento por David Becker.
Olhou para o bilhete mais uma vez. Hale nem mesmo havia assinado, apenas digitou seu nome no final, Greg Hale. Ele contou tudo, imprimiu a nota e deu um tiro na cabea. Simples assim. Hale havia jurado que jamais voltaria para a priso. Mantivera seu voto: escolheu a morte em vez disso.
- David... - ela soluou. - David!
Naquele momento, alguns metros abaixo do cho da Criptografia, o comandante Strathmore desceu da escada e pisou na primeira plataforma. O dia tinha sido uma sucesso de fracassos. Aquilo que comeara como uma misso patritica acabou saindo completamente de controle. O comandante tinha sido forado a tomar decises impossveis e a cometer atos medonhos. Atos dos quais nunca achou que fosse capaz.
Era uma soluo! Era a nica soluo possvel!
Antes de tudo, estava o dever: a ptria e a honra. Strathmore sabia que ainda havia tempo. Desligaria o TRANSLTR. Poderia usar o anel para salvar o banco de dados mais valioso da nao. Sim, pensou, ainda h tempo.
Olhou em volta, observando a cena catica a seu redor. Os sprinklers haviam sido ativados. O TRANSLTR parecia estar gemendo. As sirenes tocavam. As luzes giravam como helicpteros se aproximando em meio a uma nvoa densa. A cada passo podia ver Greg Hale olhando para ele, implorando com os olhos e, depois, o tiro. A morte de Hale fora pelo pas, pela honra. A NSA no podia se envolver em outro escndalo. Strathmore precisava de um bode expiatrio. Alm disso, Greg Hale era uma bomba pronta para explodir.
Os pensamentos de Strathmore foram interrompidos pelo som de seu celular, quase inaudvel em meio s sirenes e ao rudo sibilante de vapor que saa dos dutos. Sem parar de andar, pegou o aparelho.
- Fale.
- Onde est minha chave? - exigiu uma voz que lhe soou familiar.
- Quem est falando? - gritou Strathmore, em meio ao estrondo.
- Numataka! - berrou de volta o homem, irritado. - Voc me prometeu uma chave.
Strathmore continuou andando.
- Quero o Fortaleza Digital! - urrou o outro.
- No h Fortaleza Digital algum! - retrucou Strathmore.
- O qu?
- No existe nenhum algoritmo inquebrvel.
- Mas  claro que existe! Eu o baixei na Internet! Meus programadores esto tentando desbloque-lo h dias!
	-  um vrus encriptado, seu tolo. E vocs tm sorte de no terem sido capazes de desbloque-lo.
	- Mas...
	- Nosso acordo est desfeito! - gritou Strathmore. - No sou North Dakota. No existe North Dakota algum! Esquea que um dia falou comigo! - Colocou o celular em modo silencioso, colocou-o em modo silencioso e enfiou-o de volta no cinto. No haveria mais interrupes.
A 20 mil quilmetros de distncia, Tokugen Numataka olhava perplexo atravs de sua enorme janela. Seu charuto Umami estava quase caindo de sua boca. O maior negcio de sua vida acabava de se desintegrar  sua frente.
Strathmore continuava descendo. O acordo est desfeito. A Numatech Corpo jamais teria seu algoritmo inquebrvel, e a NSA no teria sua back door.
O vice-diretor havia gasto muito tempo planejando seu sonho. Escolheu a Numatech com cuidado. A empresa tinha muito dinheiro e era uma das provveis vencedoras do leilo da chave. Ningum acharia estranho se a chave terminasse em suas mos. Era conveniente, tambm, porque dificilmente poderiam suspeitar que aquela companhia estivesse em conluio com o governo norte-americano. Tokugen Numataka simbolizava o antigo Japo: a morte antes da desonra. Ele odiava americanos. Odiava sua comida, seus hbitos e, sobretudo, odiava seu domnio sobre o mercado global de software.
A viso de Strathmore havia sido ousada. Um padro de encriptao global com um acesso de programador para a NSA. H muito tinha desejado compartilhar essa viso com Susan, levar seus planos adiante com ela a seu lado, mas sabia que seria impossvel. Mesmo que a morte de Ensei Tankado pudesse salvar milhares de vidas no futuro, Susan jamais concordaria com isso: era uma pacifista. Eu tambm sou um pacifista, pensou Strathmore. Apenas no posso me dar ao luxo de pensar como um.	.
Foi fcil escolher quem iria matar Tankado. Tankado estava na Espanha, o que significava Hulohot. O mercenrio portugus de 42 anos era um dos profissionais preferidos do comandante. Trabalhava para a NSA h anos. Nascido e criado em Lisboa, ele havia executado trabalhos para a NSA em toda a Europa. Em nenhuma dessas ocasies suas aes foram conectadas com Fort Meade. O nico problema  que Hulohot era surdo e, portanto, contatos telefnicos eram impossveis. Recentemente Strathmore providenciara para que ele recebesse o mais novo brinquedo da NSA, o computador Monocle. Strathmore ento comprou um SkyPager e programou-o para a mesma freqncia. A partir daquele momento, sua comunicao com Hulohot tinha se tornado no apenas instantnea, mas tambm impossvel de ser interceptada.
	A primeira mensagem que Strathmore enviou para Hulohot foi bem clara. J haviam discutido o assunto. Matar Ensei Tankado. Obter a senha.
Strathmore nunca perguntava que mtodos Hulohot usava para fazer suas mgicas, mas de alguma forma ele havia conseguido novamente. Ensei Tankado estava morto, e as autoridades estavam convencidas de que ele sofrera um ataque cardaco. Uma morte perfeita, exceto por um detalhe. Hulohot calculou mal o local do assassinato. Aparentemente, fazer Tankado morrer em um local pblico era uma parte importante da iluso. Inesperadamente, porm, o pblico entrou em cena mais cedo do que o esperado. O assassino teve que se esconder antes que pudesse revistar o corpo de Tankado e encontrar a senha. Quando a poeira assentou, o corpo j estava a caminho do necrotrio de Sevilha.
  ]Strathmore ficara possesso. Pela primeira vez, Hulohot havia falhado em uma misso, e o momento no poderia ser pior. Obter a chave de Tankado era uma questo crtica, mas o comandante sabia que enviar um assassino surdo para o necrotrio de Sevilha era uma misso suicida. Havia analisado as outras opes. Um segundo esquema comeara, ento, a se formar em sua cabea. Strathmore percebeu que tinha em mos uma chance de vencer em duas frentes. Uma chance de realizar dois sonhos. Naquela manh, s 6h36, ele ligou para David Becker.
  
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Fontaine entrou correndo na sala de reunies. Brinkerhoff e Midge vinham logo atrs.
- Olhe! - disse Midge, apontando freneticamente para a janela.
Fontaine olhou pela janela e viu as luzes piscando dentro do domo da Criptografia. Arregalou os olhos. Aquilo, definitivamente, no estava nos planos. Brinkerhoff balbuciou:
- Aquilo l parece uma discoteca sada do inferno!
O diretor tentou entender o que estava acontecendo. Desde que o TRANSLTR entrou em operao, aquilo jamais havia acontecido. Ele est superaquecendo, pensou. Tentou imaginar por que Strathmore no havia desligado a mquina. Tomou uma deciso no mesmo instante.
Agarrou um telefone na mesa de reunies e digitou o ramal da Criptografia, mas o ramal estava inacessvel. Bateu o telefone com fora.
- Mas que droga! - esbravejou, ligando imediatamente para o celular de Strathmore. Dessa vez a linha foi completada e o telefone comeou a chamar. Tocou seis vezes.
Brinkerhoff e Midge observavam em silncio enquanto Fontaine andava de um lado para o outro, dentro dos limites que o fio do telefone permitia, como um tigre aprisionado. Depois de um minuto inteiro esperando, o diretor estava roxo de raiva. Bateu o telefone novamente.
- Inacreditvel! - gritou. - A Criptografia est prestes a explodir, e Strathmore no atende o maldito telefone!

CAPTULO
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Hulohot saiu correndo dos aposentos do cardeal Guerra e encontrou a luz forte do sol da manh. Protegeu os olhos com a mo e praguejou. Estava do lado de fora da catedral, em um pequeno ptio, cercado por uma alta parede de pedra, a fachada oeste da torre da Giralda e duas cercas de ferro. O porto estava aberto. Para fora do porto estendia-se a praa, mas estava vazia. As paredes de Santa Cruz estavam longe. No era possvel que Becker tivesse atravessado uma distncia to grande em to pouco tempo. Hulohot virou-se e varreu o ptio. Ele est aqui dentro. Tem que estar.
O ptio, conhecido como Jardin de los Naranjos, era famoso em Sevilha por suas laranjeiras em flor - 20 ao todo. Hulohot avanou entre as rvores, arma em punho. As laranjeiras j eram velhas e no havia mais folhagem na base dos troncos. Os galhos mais baixos eram altos demais para serem alcanados e os troncos finos no serviam como esconderijo. Ele concluiu rapidamente que o ptio estava vazio. Olhou para cima. A Giralda.
A entrada para a escadaria em espiral da Giralda era isolada por uma corda e um pequeno aviso de madeira. A corda estava imvel. Os olhos de Hulohot percorreram a torre de 127 metros, mas sabia que aquilo seria ridculo. Becker no teria sido assim to burro. A escadaria estreita subia diretamente at um cubculo quadrado de pedra. A torre tinha aberturas nas paredes para observao, mas no havia como escapar dali.
David Becker subiu o ltimo dos degraus ngremes e foi dar, sem flego e exausto, em um pequeno cubculo. Estava cercado por paredes altas e havia apenas fendas nas paredes a seu redor. Nenhuma sada.
O destino fora cruel com Becker naquela manh. Enquanto corria para fora da catedral em direo ao ptio externo, seu blazer ficou preso na porta. Ele foi puxado para trs e depois girou antes que o tecido se rasgasse. Desequilibrado, saiu em disparada debaixo do sol ofuscante. Olhou para a frente, viu uma escada, pulou uma corda e subiu correndo. Quando se deu conta de onde ela ia dar, era tarde demais.
Agora se encontrava confinado em uma cela, tentando recuperar o flego. Sentia sua ferida arder. Raios de sol matinal penetravam pelas aberturas na murada. Ele olhou para fora. O homem com os culos de armao de metal estava distante, l embaixo, de costas para Becker, olhando em direo  praa. Becker ajeitou o corpo em frente  abertura para ver melhor. Vamos, atravesse a praa!
A sombra da Giralda se esparramava pela praa como uma enorme rvore cortada. Hulohot percorreu com os olhos sua extenso. Na parte mais distante, trs fendas de luz passavam cortantes pelas aberturas de observao da torre e marcavam retngulos de contornos ntidos no cho abaixo. Um dos retngulos tinha acabado de ser interrompido pela sombra de um homem. Sem nem mesmo olhar para o topo da torre, Hulohot virou-se e correu em direo s escadas da Giralda.

CAPTULO
99

Fontaine socava seu punho contra a mo. Andava de um lado para o outro na sala de conferncias e olhava para as luzes enlouquecidas na Criptografia.
- Interrompa a execuo! Mas que diabos! Interrompa!
Midge entrou na sala segurando um novo relatrio.
- Diretor! Strathmore no pode interromper nada!
- Como? - disseram Brinkerhoff e Fontaine quase ao mesmo tempo.
- Ele j tentou, senhor! - Midge entregou-lhe o relatrio. - Quatro vezes. O TRANSLTR est preso em algum tipo de loop infinito.
Fontaine virou-se e olhou novamente para a janela.
- Meu Deus!
O telefone tocou abruptamente. O diretor olhou para trs.
- Tem que ser Strathmore! J era hora!
Brinkerhoff tirou o fone do gancho.
- Escritrio do diretor.
Fontaine estendeu a mo para pegar o fone. Brinkerhoff olhou de volta, constrangido, e virou-se para Midge.
-  Jabba. Quer falar com voc.
O diretor olhou perplexo para Midge, que atravessou a sala e ativou o viva-voz. - Fale, Jabba.
A voz metlica de Jabba ressoou na sala.
- Midge, estou na sala do banco de dados. Encontramos umas coisas bem estranhas por aqui. Estava pensando se...
- Diabos, Jabba! - Midge enfureceu-se. -  sobre isso que estive tentando lhe avisar o tempo todo!
- Pode no ser nada, mas... - disse Jabba, tentando amenizar a situao.
- Pare de dizer isso!  alguma coisa, sim! Seja l o que for que est acontecendo por a,  melhor voc levar isso muito a srio. Meus dados no esto errados, nunca estiveram, nunca estaro. - Ia desligar, mas resolveu acrescentar uma ltima coisa. - Jabba? S para ter certeza de que no haver surpresas... Strathmore ordenou que o Gauntlet fosse contornado. .

CAPTULO
100

Hulohot subiu a escada da Giralda, trs degraus de cada vez. A nica luz que entrava na passagem em espiral vinha de pequenas frestas na parede a cada 180 graus. Ele est preso. David Becker vai morrer! O assassino subia, segurando sua arma. Mantinha-se encostado  parede externa, caso Becker decidisse atacar de cima. Os castiais de ferro, colocados a cada patamar da escada, dariam boas armas caso Becker resolvesse us-los. Ainda assim, mantendo um ngulo aberto, Hulohot conseguiria v-Io a tempo. Sua arma tinha,  claro, um alcance bem maior do que um castial de um metro e meio.
Hulohot movia-se com agilidade, mas tambm com cuidado. A escada era ngreme e j tinha acontecido de turistas desavisados morrerem ali. No havia placas de segurana nem corrimos..
O assassino parou diante de uma das aberturas na parede e olhou para fora. Estava na face norte e, ao que parecia, a meio caminho do topo.
A abertura para a plataforma de observao estaria  vista logo aps a prxima volta. A escadaria para o topo estava vazia. David Becker no havia tentado enfrent-lo. Hulohot sups que Becker no o tivesse visto entrar na torre. Isso significava que o elemento surpresa tambm estava a seu favor. No que ele precisasse. Tinha todas as cartas na mo. At a disposio da torre estava a seu favor. A escadaria tetminava no canto sudeste da plataforma de observao. Desta forma, Hulohot teria uma linha de tiro limpa para qualquer ponto da cela sem que Becker pudesse se colocar por trs dele. E, para melhorar ainda mais as coisas, o assassino estaria saindo da escurido para um local iluminado. Uma armadilha perfeita, pensou.
Hulohot mediu a distncia at a abertura da porta. Sete passos. Repassou seus movimentos mentalmente. Se ele se mantivesse  direita ao se aproximar da abertura, seria capaz de ver o canto esquerdo da plataforma antes de adentr-la. Se Becker estivesse l, ele atiraria. Caso contrrio, iria passar para o outro lado e entrar se movendo em direo ao leste, de frente para o canto direito, o nico outro lugar onde Becker poderia estar. Sorriu.

ALVO: DAVID BECKER  ELIMINADO

Chegara a hora. Verificou sua arma.
Com um movimento rpido e violento, lanou-se para cima, e a plataforma surgiu  sua vista. O canto esquerdo estava vazio. Conforme havia planejado, moveu-se para dentro e jogou-se pela abertura olhando para a direita. Disparou no canto. A bala ricocheteou na parede nua e quase o acertou. Hulohot olhou para um lado e para o outro e soltou um grito abafado. No havia ningum l dentro. David Becker havia desaparecido.
Trs lances de escada abaixo, suspenso a 100 metros sobre o Jardin de los Naranjos, David Becker estava dependurado do lado de fora da Giralda como algum que estivesse fazendo musculao na borda de uma janela. Quando Hulohot comeou a subir a escadaria, Becker desceu trs lances e colocou o corpo para fora de uma das aberturas. Tinha sado de cena bem a tempo, pois o assassino passou correndo por ele pouco depois. Estava apressado demais para notar os dedos brancos agarrados  borda de pedra.
Pendurado do lado de fora da janela, Becker agradeceu mentalmente o fato de seus treinos dirios de squash inclurem 20 minutos de musculao especificamente voltada para desenvolver seus bceps, em busca de um saque mais violento. Contudo, apesar dos braos musculosos, Becker estava tendo dificuldade para voltar novamente para dentro. Seus ombros queimavam devido ao esforo. Seu ferimento parecia estar sendo aberto e doa. Alm disso, a borda de pedra talhada de forma rstica no lhe dava um bom apoio e arranhava as pontas de seus dedos como se fosse vidro cortado.
Calculou que o assassino estaria de volta em poucos instantes. Olhando de cima, no teria dificuldades de ver os dedos de Becker na pedra.
Ele fechou os olhos e fez fora. Precisaria de um milagre para escapar da morte. Seus dedos estavam perdendo apoio. Olhou para baixo. Era uma queda e tanto dali at as laranjeiras do jardim. Impossvel de sobreviver. A dor de seu ferimento estava piorando. Ouviu passos fortes acima dele, passadas de algum pulando os degraus, descendo a escada. Fechou os olhos novamente. Era agora ou nunca. Com os dentes rangendo devido ao esforo, deu tudo de si e puxou-se para cima.
A pedra lixava a pele de seus pulsos enquanto ele se movia lentamente. As passadas estavam mais prximas. Becker agarrou-se  parte interna da abertura, tentando encontrar um bom ponto de apoio. Apoiou-se na parede com os ps para ganhar impulso. Seu corpo parecia feito de chumbo, como se algum houvesse amarrado uma corda em suas pernas e estivesse puxando para baixo. Lutou contra seu prprio peso. Lanou-se para cima, firmando-se nos cotovelos. Podia ser visto agora com a cabea enfiada pela metade na janela, como um homem em uma guilhotina. Balanou-se e sacudiu as pernas, at jogar o peso do corpo para cima e passar atravs da abertura. Metade do corpo j estava do lado de dentro. Seu torso estava pendente acima da escadaria. Podia ouvir os passos se aproximando. Ento apoiou-se nas laterais da abertura e, com um s movimento, lanou seu corpo para dentro. Caiu seco nos degraus da escada.
Hulohot pde sentir o impacto do corpo de Becker no patamar logo abaixo dele. Pulou para a frente com a arma apontada e viu a janela.  agora! Encostou-se na parede externa e mirou para os degraus abaixo dele. As pernas de Becker sumiram de vista na curva da escada. Hulohot deu um tiro, irritado, mas a bala apenas ricocheteou na parede.
Mantendo-se sempre colado  parede externa para obter o melhor ngulo, Hulohot comeou a descer rapidamente os degraus atrs de sua presa. A escada ia girando rpido, mas parecia que Becker estava sempre 180 graus  frente, mantendo-se fora da linha de tiro. Becker estava descendo as escadas por dentro, cortando o ngulo e pulando quatro ou cinco degraus de cada vez. O assassino mantinha o passo. Um nico tiro seria o suficiente. Ele estava se aproximando. Alm disso, sabia que, ao atingir o trreo, Becker no teria para onde correr. Hulohot poderia acertar um tiro pelas costas quando ele tentasse atravessar o ptio vazio. A corrida desesperada continuava escada abaixo.
A fim de ganhar velocidade, o assassino moveu-se para dentro da espiral. Sentia que estava mais prximo. Podia ver a sombra de Becker a cada vez que passavam por uma abertura na parede. Para baixo. Mais. Em espiral. Becker parecia estar sempre logo aps a prxima volta. Hulohot mantinha um olho na sombra de Becker e outro na escada.
De repente pareceu ao portugus que a sombra de Becker havia tropeado. Viu um movimento estranho para a esquerda, depois pareceu que girava no meio do ar, retomando ao centro da escadaria. Hulohot pulou  frente. Eu o peguei!
Um pouco abaixo, uma ponta de ferro atravessou o ar, vinda do canto da escada. Foi lanada para a frente como uma espada, na altura do tornozelo. Hulohot tentou desviar-se para a esquerda, mas era tarde. O objeto j estava entre seus tornozelos. Seu p de apoio moveu-se e bateu em cheio na barra de ferro, que se chocou contra a parte inferior de sua perna. Colocou os braos  frente, buscando apoio, mas no havia onde segurar. Caiu no vazio. Logo depois estava no ar, girando de lado. Hulohot foi lanado para baixo, passando por cima de Becker, que estava dobrado sobre sua barriga, com os braos estendidos. O castial que ele antes segurava estava agora preso entre as pernas do asssassino, que caa escada abaixo.
  Hulohot bateu com fora na parede externa antes de cair sobre os degraus. Quando se chocou com o cho, comeou a rolar sobre si mesmo. Deixou cair a arma. Seu corpo girou para baixo, rolando de ponta-cabea. Completou cinco rotaes de 360 graus pela espiral antes de parar. Doze degraus a mais e teria cado diretamente no ptio.

CAPTULO
101

Era a primeira vez que David Becker segurava uma arma. O corpo de Hulohot estava retorcido na escadaria escura da Giralda.
Becker pressionou o cano da arma contra a testa do assassino e ajoelhou-se cuidadosamente. Qualquer movimento e ele iria atirar. Mas no houve movimento algum. Hulohot estava morto.
Colocando a arma no cho, Becker deixou-se cair sobre os degraus. Pela primeira vez em muito tempo sentiu vontade de chorar. Lutou contra as lgrimas. Haveria tempo para se emocionar mais tarde. Agora era hora de voltar para casa. Ele tentou se levantar, mas estava cansado demais para se mover. Ficou sentado durante um bom tempo, exausto, na escadaria de pedra.
Meio ausente, olhava para o corpo dobrado  sua frente. Os olhos do assassino comearam a se embaar, fixos no vazio. Incrivelmente, seus culos ainda estavam inteiros. Eram estranhos, com um fio saindo por trs da armao e conectando-se a uma espcie de unidade que estava presa ao cinto. Mas Becker estava demasiado exausto para ficar curioso.
Sentado ali, sozinho na escadaria, examinando seus pensamentos, voltou a ateno para o anel que estava em seu dedo. Sua viso estava mais clara e finalmente podia ler a inscrio. Como suspeitara, no era ingls. Olhou para os caracteres por algum tempo e depois franziu a testa. Vale a pena matar por isso?
O sol da manh brilhava intensamente quando Becker saiu da Giralda para o ptio. A dor de seu ferimento havia diminudo, e sua viso estava quase normal. Apreciou a vista por um momento, entorpecido, sentindo a fragrncia das flores de laranjeira. Depois comeou a cruzar lentamente o ptio.
Mal havia deixado a torre quando uma van freou bruscamente perto dele. Dois homens saram dela. Eram jovens e estavam vestidos em uniformes militares. Avanaram em direo a Becker com a preciso rgida de mquinas bem reguladas.
- Senhor? - chamou um deles.
Becker parou, espantado.
- Quem... quem so vocs?
- Venha conosco, por favor. Imediatamente.
Havia algo de surreal naquele encontro. Algo que fazia as terminaes nervosas de Becker formigarem outra vez. Comeou a andar para trs, tentando afastar-se.
O mais baixo dos dois olhou friamente para Becker:
- Por aqui, senhor. Agora.
Becker virou-se, pronto para correr. Deu apenas um passo. Um dos homens puxou uma arma e atirou.
Uma dor lancinante se espalhou pelo peito de Becker. Subiu at seu crnio.
Seus dedos se enrijeceram e ele caiu. Um instante depois, havia apenas escurido.

CAPTULO
102

Strathmore chegou ao nvel mais baixo do subsolo onde ficava o TRANSLTR. Saindo do gradeado, enfiou os ps em trs centmetros de gua. O computador gigantesco tremia ao seu lado. Grossos pingos de gua caam, como chuva, em meio  nvoa que o cercava. O rudo das sirenes ali era ensurdecedor.
O comandante olhou para os geradores principais que haviam entrado em curto. O corpo de Phil Chartrukian estava l, seus restos carbonizados atravessados sobre um conjunto de dissipadores metlicos de calor. A cena evocava um filme de terror.
Apesar de lamentar a morte daquele rapaz, Strathmore no tinha dvida de que fora necessria. Chartrukian no lhe deixou outra escolha. Quando o SegSis veio correndo no subsolo, gritando a respeito de um vrus, Strathmore o encontrou em uma das plataformas e tentou acalm-lo. Contudo, o jovem havia perdido a razo. Estamos com um vrus! Vou chamar Jabba! Quando ele tentou passar, Strathmore bloqueou seu caminho. A plataforma era estreita. Eles brigaram. O corrimo era baixo. A maior ironia, pensou Strathmore,  que Chartrukian estava certo a respeito do vrus o tempo todo.
Sua queda foi horrvel. Um uivo momentneo de terror e depois o silncio. Mas no foi pior do que aquilo que o comandante Strathmore viu a seguir. Greg Hale estava olhando para ele, escondido nas sombras um pouco abaixo, com uma expresso de terror e recriminao na face. Foi naquele momento que Strathmore soube que Greg Hale tambm teria que morrer.

O TRANSLTR emitiu outro rudo como se estivesse rachando ao meio, e Strathmore voltou sua ateno para a tarefa mais premente: cortar a energia. O disjuntor principal estava do outro lado das bombas de fron,  esquerda do corpo de Phil. Strathmore podia v-las de onde estava. Tudo o que precisava fazer era puxar uma alavanca e toda a energia restante na Criptografia seria desligada. Bastaria, ento, esperar alguns segundos para ligar novamente os geradores principais. Todas as portas e outros equipamentos seriam reativados. O gs fron voltaria a circular, e o TRANSLTR estaria salvo.
Contudo, quando se dirigiu cuidadosamente para o disjuntor, percebeu que haveria um ltimo obstculo. O corpo de Chartrukian ainda estava sobre os dissipadores do gerador principal. Deslig-lo e depois lig-lo novamente causaria um novo curto e nova queda de energia. O corpo precisava ser removido.
Strathmore olhou para a grotesca massa humana que restava e foi em sua direo. Pegou um punho. A pele parecia feita de isopor. O tecido havia torrado. O corpo inteiro tinha ressecado completamente. O comandante fechou os olhos, segurou firme o pulso e puxou. O corpo se moveu, mas muito pouco. Strathmore puxou com mais fora. O corpo deslizou mais um pouco. O comandante se concentrou e puxou com toda a sua fora. Viu-se jogado para trs. Bateu com as costas em um quadro de fora e caiu sentado. Tentando levantar-se em meio  camada de gua que estava se acumulando aos poucos no cho, olhou horrorizado para o objeto que estava segurando. Era o antebrao de Chartrukian que havia se partido na altura do cotovelo.
L em cima, no Nodo 3, Susan continuava esperando. Estava sentada no sof, sentindo-se paralisada. Hale estava morto a seus ps. Ela no podia imaginar por que o comandante estava demorando tanto. Os minutos passavam. Tentou afastar David de seus pensamentos, mas era intil. A cada vez que as sirenes tocavam, as palavras de Hale surgiam em sua mente: Lamento por David Becker. Achou que fosse enlouquecer.
Estava quase se levantando para sair correndo em direo ao salo da Criptografia quando a fora finalmente foi cortada. Strathmore havia alcanado o disjuntor.
O silncio tomou conta da Criptografia. As sirenes foram interrompidas e os monitores se apagaram. O corpo de Greg desapareceu na escurido. Instintivamente, Susan encolheu as pernas sobre o sof e cobriu-se com o palet de Strathmore.
Escurido. Silncio.
Nunca havia sentido o peso daquele silncio na Criptografia. Podia-se ouvir sempre o zumbido grave dos geradores preenchendo o ar. Agora no havia nada, apenas o gigante de silcio se aquietando, aliviado. O TRANSLTR estalava e sibilava, esfriando lentamente.
Susan fechou os olhos e rezou por David. Sua prece era simples: que Deus protegesse o homem que amava.
Ela no era religiosa e no esperava receber urna resposta s suas preces. Sobressaltou-se quando sentiu uma vibrao no seu peito. Sentou-se. Colocou a mo sobre o peito e logo entendeu o que estava acontecendo. As vibraes no vinham da mo de Deus, mas do bolso do palet do comandante. Ele havia deixado l seu SkyPager com o modo de vibrao ativado. Algum havia lhe enviado uma mensagem.
Seis andares abaixo, Strathmore estava de p ao lado do disjuntor. O subsolo da Criptografia estava escuro corno a mais profunda noite. Ficou parado por um instante, contemplando aquela escurido. A gua continuava caindo l de cima. Era como uma tempestade noturna. O comandante levantou a cabea e deixou aquelas gotas mornas lavarem sua culpa. Sou um sobrevivente. Ajoelhou-se e removeu os ltimos pedaos da carne de Chartrukian que estavam colados  sua mo.
Seus sonhos para o Fortaleza Digital haviam sido destrudos. Podia viver com isso. Susan era tudo o que importava agora. Pela primeira vez entendeu, verdadeiramente, que havia outras coisas na vida alm da ptria e da honra. Sacrifiquei os melhores anos de minha vida em nome da ptria e da honra. Mas onde fica o amor? Havia se privado disso por muito tempo. E para qu? Para ver um jovem professor roubar seus sonhos? Strathmore treinou Susan. Protegeu-a. Ele a merecia. Finalmente ela seria somente sua. Susan viria buscar abrigo em seus braos, agora que j no havia onde encontrar abrigo. Viria at ele, indefesa, ferida pela dor e, com o tempo, ele lhe mostraria que o amor cura todas as feridas.
Honra. Ptria. Amor. David Becker estava prestes a morrer por esses trs motivos.

CAPTULO
103

O comandante saiu pela portinhola como Lzaro retomando do mundo dos mortos. Apesar de suas roupas encharcadas, seus passos eram leves. Foi na direo do Nodo 3 - na direo de Susan e de seu futuro.
O salo da Criptografia estava novamente iluminado. O fron flua para os nveis mais baixos do TRANSLTR, como sangue oxigenado. Strathmore calculou que ainda levaria algum tempo para que o gs de refrigerao chegasse ao fundo do revestimento e impedisse os processadores das camadas mais baixas de queimar, mas estava certo de que havia agido a tempo. Suspirou, vitorioso, sem suspeitar da verdade: j era tarde demais.
Sou um sobrevivente, pensou. Ignorando o buraco aberto no vidro do Nodo 3, andou at as portas eletrnicas, que se abriram com seu som caracterstico. Entrou.
Susan estava de p  sua frente, ainda molhada e desgrenhada, coberta por seu palet. Parecia uma universitria pega de surpresa pela chuva. Strathmore se sentia como um estudante veterano emprestando seu casaco. Sentiu-se jovem, uma sensao que no tinha h muito tempo. Seus sonhos estavam se realizando.
No entanto, quando se aproximou, percebeu que no reconhecia a mulher  sua frente. Ela tinha um olhar glido e cortante. No havia suavidade alguma nela. Estava rgida como uma esttua. O nico movimento perceptvel eram as lgrimas que caam de seus olhos.
- Susan?
Outra lgrima desceu por sua face trmula.
- O que houve? - perguntou suavemente o comandante.
A poa de sangue sob o corpo de Hale havia se espalhado pelo carpete.
Strathmore olhou para o corpo, preocupado, e depois novamente para Susan. Ser que ela sabe? Impossvel. Ele havia encoberto todas as pistas.
- Susan? - disse, aproximando-se. - O que h?
Ela no se moveu.
- Voc est preocupada com David?
O lbio superior de Susan tremeu.
Strathmore aproximou-se ainda mais. Queria toc-la, mas hesitou. A meno do nome de David aparentemente trouxe  tona a dor represada. Lentamente, no incio, apenas um tremor. Depois uma enorme onda de infelicidade pareceu percorrer suas veias. Quase incapaz de conter seus lbios trmulos, Susan fez meno de dizer algo, mas no saiu nenhum som.
Sem quebrar por um instante sequer o olhar glido que mantinha fixado em Strathmore, ela tirou a mo do bolso do palet. Estendeu, tremendo, o pequeno objeto que segurava.
Strathmore pensou, por instantes, que fosse encontrar a Beretta apontada para sua barriga. Contudo, a arma ainda estava no cho, na mo de Hale. O objeto que Susan segurava era menor. O comandante olhou para ele e ento entendeu.
A realidade em volta pareceu se dobrar, enquanto o tempo quase parava. Ele podia ouvir o rudo de seu prprio corao batendo. O homem que havia vencido gigantes durante tantos anos tinha sido derrotado em um instante. Destrudo pelo amor, por sua prpria tolice. Com um gesto simples e cavalheiresco, dera a Susan seu palet. Com ele, seu SkyPager.
Agora era Strathmore quem estava rgido. A mo de Susan tremia. Deixou cair o pager aos ps de Hale. Com um olhar de incompreenso e de fria que Strathmore jamais poderia esquecer, Susan saiu correndo do Nodo 3.
O comandante deixou que fosse. Em cmara lenta, curvou-se e pegou o pager. No havia nenhuma mensagem nova: Susan j lera todas. Strathmore percorreu desesperadamente a lista.

 ALVO: ENSEI TANKADO - ELIMINADO
ALVO: P. CLOUCHARDE - ELIMINADO
                                                 ALVO: HANS HUBER - ELIMINADO
          ALVO: ROCO EVA GRANADA  ELIMINADO

A lista continuava. Strathmore ficou em choque. Posso explicar! Ela ir compreender! A honra! A ptria! Mas havia uma ltima mensagem que ele no havia visto ainda, aquela que jamais poderia explicar. Tremendo, olhou para a ltima transmisso.

ALVO: DAVID BECKER  ELIMINADO

Strathmore abaixou a cabea. Seu sonho havia terminado.

CAPTULO
104

Susan saiu do Nodo 3 atordoada.

ALVO: DAVID BECKER  ELIMINADO

Como se fosse um pesadelo, foi em direo  sada principal da Criptografia. A voz de Greg Hale ecoava em sua mente: Susan, Strathmore vai me matar! Susan, o comandante est apaixonado por voc!
Ela chegou at a enorme porta circular e comeou a digitar furiosamente sua senha. A porta no se movia. Tentou novamente, mas nada acontecia. Susan soltou um grito abafado. Aparentemente o corte de energia havia apagado os cdigos de acesso. Continuava presa.
Sem que tivesse tempo para notar, dois braos a seguraram por trs, abraando seu corpo entorpecido. O toque era familiar, mas repugnante. No tinha a mesma brutalidade de Greg Hale, mas havia nele um desespero, uma determinao interior forte como o ao.
Susan virou-se. O homem que a segurava estava arrasado, assustado. Era uma face que ela nunca vira antes.
	- Susan - Strathmore implorou, segurando-a -, eu posso explicar.
	Tentou livrar-se dele, mas o comandante segurou-a com firmeza. Tentou gritar, mas estava sem voz. Tentou correr, mas as mos fortes a puxaram para trs.
	- Eu te amo - sussurrava a voz. - Eu sempre te amei.
O estmago de Susan se revirava.
- Fique comigo.
Na mente de Susan, imagens pavorosas se sucediam: os olhos verdes de David fechando-se lentamente pela ltima vez; o corpo de Hale espalhando sangue pelo carpete; Phil Chartrukian espatifado e queimado sobre os geradores.
- A dor ir passar - dizia a voz. - Voc voltar a amar.
Susan no ouvia nada.
- Fique comigo - pedia a voz. - Irei curar as suas feridas.
Ela se debateu, sem sucesso.
- Fiz tudo isso por ns. Fomos feitos um para o outro. Susan, eu te amo  as palavras fluam como se ele houvesse esperado uma dcada para pronunci-las. - Eu te amo! Eu te amo!
Naquele instante, a 30 metros de distncia, como se estivesse refutando a desprezvel confisso de Strathmore, o TRANSLTR emitiu um rudo agudo, selvagem e impiedoso. Aquele som era inteiramente novo - um silvo agudo, distante e ameaador, que parecia crescer como uma serpente, vindo das profundezas do silo. O fron, aparentemente, no atingiu o nvel necessrio a tempo.
O comandante soltou Susan e, em pnico, virou-se para o computador de dois bilhes de dlares.
	- No! - gritou, com as duas mos na cabea. - No!
O foguete de seis andares comeou a tremer. Strathmore deu um nico passo cambaleante na direo da mquina trovejante. Caiu de joelhos, um infiel frente a um deus enraivecido. Era tarde. Na base do silo, os processadores de titnio-estrncio do TRANSLTR haviam entrado em combusto.

CAPTULO
105

Uma bola de fogo subindo atravs de trs milhes de chips de silcio gera um som nico. Uma floresta em chamas estalando e crepitando, um tornado uivando, um jato de vapor sado de um giser... todos esses sons, juntos, aprisionados dentro de um invlucro reverberante. Era o sopro do demnio, correndo por uma caverna fechada, procurando uma sada. Strathmore permaneceu ajoelhado, hipnotizado pelo rudo terrvel que subia em sua direo. O computador mais caro do mundo estava prestes a se transformar em um inferno.
Em cmara lenta, Strathmore virou-se para Susan, que continuava ao lado da porta da Criptografia, paralisada. Sua face, coberta de lgrimas, parecia reluzir sob a luz fluorescente.  um anjo, pensou. Buscou o paraso nos olhos dela, mas tudo que podia ver era morte, a morte da confiana. O amor e a honra no estavam mais presentes. A fantasia que o sustentara durante todos aqueles anos estava morta. Susan Fletcher nunca seria sua. Nunca. O vazio que tomou conta dele era desesperador.
Susan observava o TRANSLTR com um olhar vago. Sabia que, sob aquele revestimento de cermica, uma bola de fogo avanava na direo deles. Ela podia sentir a bola se movendo cada vez mais rpido, alimentando-se do oxignio liberado pelos chips que queimavam. Dentro de alguns momentos, o domo da Criptografia se transformaria em um inferno de chamas.
Ela queria correr, mas o peso da morte de David a mantinha esttica. Pensou ter ouvido sua voz chamando-a, dizendo que fugisse, mas no havia lugar algum para onde correr. A Criptografia era.um tmulo fechado. No importava: no tinha medo. A morte iria acabar com a dor. Ela estaria novamente com David.
O cho da Criptografia comeou a tremer como se, l embaixo, um monstro furioso estivesse saindo das profundezas. A voz de David parecia dizer: Corra, Susan! Corra!
Strathmore agora se movia na direo dela, a face desprovida de vida. Seus olhos tinham se tornado cinzentos e frios. O patriota que vivera na mente de Susan como um heri estava morto. Em seu lugar havia um assassino. Ele a abraou novamente, agarrando-se a ela em desespero. Beijou seu rosto.
- Perdoe-me - implorou.
Susan tentou afastar-se, mas Strathmore a segurava.
O TRANSLTR comeou a vibrar como um mssil prestes a ser lanado. O cho da Criptografia comeou a tremer. Strathmore segurou-a com mais fora. - Abrace-me, Susan. Preciso de voc.
Uma onda de fria tomou conta de Susan. Ouviu novamente a voz de David dizendo: Eu te amo! Fuja! Num mpeto, empurrou Strathmore e soltou-se. O rudo vindo do TRANSLTR tornou-se ensurdecedor. O fogo j estava na borda do silo. O supercomputador urrava, abrindo-se em fissuras.
A voz de David parecia sustentar Susan, guiando-a. Ela correu pelo salo da Criptografia e comeou a subir a escada que levava ao escritrio de Strathmore. Atrs dela, o TRANSLTR soltou um rugido estrondoso.
O ltimo dos chips de silcio se desintegrou e uma poderosa onda de calor rasgou a parte superior do invlucro, lanando fragmentos de cermica a dez metros de altura. Instantaneamente o ar rico em oxignio da Criptografia foi sugado para preencher o enorme vcuo.
Susan chegou at a plataforma superior e segurou-se firmemente no anteparo. Uma forte lufada de vento balanou seu corpo, fazendo-a virar para a Criptografia a tempo de ver o vice-diretor l embaixo, ao lado do TRANSLTR, olhando fixamente para ela. Uma fria tempestuosa o cercava, mas ainda assim havia paz em seus olhos. Seus lbios se abriram e ele proferiu uma ltima palavra:
- Susan.
O ar que estava sendo sugado para dentro do TRANSLTR entrou em combusto. Num lampejo flamejante, o comandante Trevor Strathmore passou de homem a silhueta, a lenda.
Quando a exploso chegou at Susan, arremessou-a quase cinco metros para trs, para dentro do escritrio do comandante. Ela s sentiu uma enorme onda de calor.

CAPTULO
106

Muito acima do domo da Criptografia, nas janelas da sala de reunies do diretor, trs faces surgiram, ofegantes. A exploso havia sacudido todo o complexo da NSA. Leland Fontaine, Chad Brinkerhoff e Midge Mi1ken olhavam para fora, horrorizados, em silncio.
Abaixo deles, o domo em chamas. O teto de policarbonato estava intacto, mas abaixo de sua superfcie transparente o prdio estava em chamas. Uma fumaa negra girava como um redemoinho no interior do domo.
Os trs olharam sem dizer uma palavra. O espetculo tinha uma grandeza sobrenatural.
Fontaine ficou parado um bom tempo. Quando falou, seu tom de voz era grave, mas firme.
- Midge, mande uma equipe para l... agora.
Na sala de Fontaine, o telefone comeou a tocar.
Era Jabba.






CAPTULO
107

Susan no sabia quanto tempo tinha decorrido. Uma sensao de ardncia em sua garganta fez com que retomasse a conscincia. Desorientada, olhou em volta. Estava deitada sobre um carpete, atrs de uma mesa. A nica luz na sala era uma estranha luminosidade alaranjada. O ar cheirava a plstico queimado. O lugar no qual estava no era mais uma sala: era uma concha devastada. As cortinas estavam em chamas e as paredes de plexiglas estavam derretendo.
Ento lembrou-se de tudo. David.
Em pnico, levantou-se. Podia respirar, mas o ar era custico. Ela andou cambaleando at a porta, procurando uma sada. Quando chegou l, sua perna deu um passo no vazio. Segurou-se na moldura da porta a tempo. A plataforma havia desaparecido. Quinze metros abaixo uma sucata de metal retorcido fumegava. Susan olhou para o salo da Criptografia horrorizada. Era um mar de chamas. O material derretido que restara dos trs milhes de chips havia irrompido do TRANSLTR como uma corrente de lava, jogando no ar uma fumaa densa. Ela conhecia aquele cheiro: silcio derretido. Era um veneno mortal.
Retomou para o que restara do escritrio de Strathmore, sentindo-se fraca. Sua garganta queimava. A sala estava iluminada por uma luz aterrorizante. A Criptografia estava morrendo. E eu tambm irei morrer, pensou ela.
Pensou na nica sada possvel, o elevador de Strathmore. Mas sabia que era intil: a parte eltrica no teria sobrevivido  exploso.
Contudo, andando na direo da porta do elevador em meio  fumaa cada vez mais densa, Susan lembrou-se do que Hale dissera: O elevador funciona com energia do prdio principal! Eu vi os diagramas. Sabia que era verdade e sabia tambm que todo o poo era revestido por concreto reforado.
A fumaa enchia o ar. Andou cambaleante at a porta, mas, chegando l, viu que o boto usado para chamar o elevador estava apagado. Susan bateu nervosamente no painel, depois deixou-se cair de joelhos e esmurrou o cho, em desespero.
Parou. Ouviu rudos mecnicos atrs da porta. Surpresa, olhou para cima. Aparentemente a cabine do elevador estava l! Susan socou o boto novamente. Ouviu de novo o mesmo som.
Ento percebeu que o boto no estava apagado - apenas havia sido recoberto pela fuligem escura. Agora podia ver um leve brilho sob seus dedos.
	Ainda h energia!
	Com uma esperana renovada, apertou vrias vezes o boto. A cada vez, alguma coisa se movia por trs das portas. Podia mesmo ouvir o som de um ventilador dentro da cabine. O elevador est aqui! Por que as malditas portas no se abrem?
	Olhou para um pequeno teclado auxiliar. Havia botes com as letras do alfabeto. Em desespero, lembrou-se: a senha.
A fumaa estava comeando a penetrar pelas janelas parcialmente derretidas. Socou as portas do elevador. Elas no se abriam. A senha!, pensou. Strathmore nunca me disse qual era a senha! A fumaa de silcio estava entrando no escritrio. Tossindo, Susan caiu em frente ao elevador, sentindo-se derrotada. O ventilador estava apenas a alguns metros. Deixou-se ficar, desnorteada, ofegante.
Fechou os olhos, mas a voz de David mais uma vez a trouxe de volta. Fuja, Susan! Abra a porta! Saia da! Abriu os olhos, esperando ver seu rosto sorridente, os olhos verdes... Mas foi o teclado que surgiu novamente  sua frente. A senha... Olhava para o teclado, mal conseguindo manter o foco. Em um visor iluminado abaixo do teclado, cinco posies esperavam uma entrada. Uma senha de cinco dgitos, pensou. Sabia quais eram suas chances: 26 elevado  quinta potncia, ou seja, quase 12 milhes de escolhas possveis. Se tentasse uma por segundo, levaria cerca de 19 semanas.
Tossindo, sem ar, deixou-se cair novamente no cho, sob o teclado. Ouvia a voz do comandante, repetindo pateticamente: Eu te amo, Susan! Sempre te amei! Susan! Susan! Susan!
Sabia que ele estava morto, mas ainda assim sua voz no silenciava. Ela ouvia seu nome sem parar.
	Susan... Susan...
	Em um momento de sbita clareza, ela entendeu. Fraquejante e trmula, esforou-se para alcanar o teclado e digitou a senha.
	S... U...S...A...N
	Logo em seguida, as portas se abriram.

CAPTULO
108

O elevador de Strathmore movia-se com rapidez. Dentro da cabine, Susan aspirava avidamente o ar puro. Ainda tonta, apoiou-se em uma das paredes. O elevador reduziu a velocidade e parou. Logo em seguida, algumas engrenagens foram acionadas e o elevador comeou a se mover novamente, desta vez na horizontal. Susan sentiu a cabine acelerar enquanto cruzava a distncia que a separava do complexo principal da NSA. Por fim parou e as portas se abriram.
Tossindo, Susan saiu num corredor escuro, cimentado. Ela estava num tnel estreito e com o teto baixo. Duas linhas amarelas se estendiam  sua frente, paralelas. Perdiam-se na escurido mais adiante.
A Estrada Subterrnea...
Ela andou lentamente ao longo do tnel, apoiando-se na parede para no cair. Atrs dela, as portas do elevador se fecharam. Mais uma vez viu-se mergulhada na escurido.
Silncio.
Nada a no ser um zumbido distante, propagando-se pelas paredes. Um zumbido que se aproximava.
Subitamente foi ofuscada por uma luz forte. A escurido transformou-se em uma nvoa acinzentada. As paredes do tnel ficaram ntidas. Um veculo surgiu, vindo de uma transversal; seus faris projetavam-se sobre ela, cegando-a. Susan encostou-se contra a parede e protegeu os olhos. Sentiu uma rajada de ar, e o veculo passou rapidamente por ela.
	Logo em seguida ele freou e comeou a voltar de r. Em poucos segundos estava a seu lado.
	- Senhorita Fletcher! - exclamou uma voz espantada.
	Susan olhou para uma forma vagamente familiar, algum sentado no volante de um carrinho eltrico de golfe.
	- Meu Deus. - O homem olhava, incrdulo. - Voc est bem? Achamos que estivesse morta!
	Susan olhou, ainda zonza.
	- Chad Brinkerhoff - disse ele, observando a criptgrafa, que visivelmente estava em choque. - Assistente do diretor.
Susan conseguiu apenas murmurar:
- O TRANSLTR...
Brinkerhoff assentiu.
- Esquea. Vamos, suba!
O farol do carrinho de golfe varria as paredes de cimento.
- H um vrus no banco de dados central- disse Brinkerhoff.
- Eu sei - respondeu Susan ainda em transe.
- Precisamos de sua ajuda.
Ela estava lutando contra as lgrimas.
- Strathmore... ele...
- Tambm j sabemos - completou Brinkerhoff. - Ele contornou o Gauntlet. - Sim... e... - As palavras ficaram presas em sua garganta. Ele matou David! Brinkerhoff colocou a mo sobre seu ombro.
- Estamos quase l, senhorita Fletcher. Agente firme.
O carrinho de golfe dobrou uma esquina e parou. Ao lado deles, perpendicular ao tnel, havia um corredor fracamente iluminado por luzes vermelhas no cho.
	- Venha - disse Brinkerhoff, ajudando-a a saltar.
	Ele a guiou pelo corredor enquanto Susan seguia, envolta em uma nvoa. O corredor, revestido de lajotas, agora descia em um plano inclinado. Segurando o corrimo, Susan acompanhou Brinkerhoff. O ar comeou a se tornar mais fresco. Continuaram descendo.
 medida que desciam, o tnel se estreitava. Podiam ouvir o eco de passos vindos de trs deles. Um andar vigoroso e cadenciado. O som ficou mais alto. Brinkerhoff e Susan pararam e se viraram.
Um homem negro, enorme, aproximava-se deles. Susan nunca o tinha visto antes. Quando chegou mais perto, ele lanou um olhar inquisitivo e penetrante sobre ela. Perguntou a Brinkerhoff:
- Quem  esta?
- Susan Fletcher - respondeu Brinkerhoff.
O grandalho levantou as sobrancelhas. Mesmo coberta por fuligem e ensopada, Susan Fletcher era mais impressionante do que ele havia imaginado. - E o comandante?
Brinkerhoff apenas balanou a cabea.
O diretor no disse nada. Olhou para baixo por um instante. Depois voltou-se para Susan:
- Leland Fontaine- disse, estendendo a mo. - Fico feliz em saber que voc est bem. 
Susan olhou, espantada. Sabia que um dia iria conhecer o diretor, mas no era exatamente assim que ela imaginara o encontro.
	- Junte-se a ns, senhorita Fletcher - disse Fontaine, seguindo em frente.
- Vamos precisar de toda a ajuda possvel.
No final do tnel, visvel em meio  tnue luz vermelha, uma parede de ao bloqueava o caminho. Quando chegaram diante dela, Fontaine aproximou-se e digitou uma senha de acesso em um teclado alfanumrico embutido na parede lateral. Depois colocou a mo sobre um pequeno painel de vidro. Uma luz varreu suas digitais. Logo em seguida a pesada parede se moveu.
Havia apenas uma sala mais sagrada que a Criptografia em toda a NSA. Susan sentiu que estava prestes a conhec-la.

CAPTULO
109

A sala de comando do banco de dados central da NSA se parecia com uma verso menor do controle de misses da NASA. Uma dzia de estaes de trabalho estava voltada para um painel de vdeo com nove metros de altura e 12 metros de largura na outra extremidade da sala. No painel, nmeros e diagramas eram exibidos em rpida sucesso, surgindo e desaparecendo como se algum estivesse trocando de canais sucessivamente. Tcnicos iam e vinham entre as estaes, carregando longas listagens de computador e gritando comandos uns para os outros. O lugar estava um completo caos.
Susan observou a impressionante sala. Lembrava-se vagamente de ter lido que 250 toneladas de terra haviam sido escavadas para cri-la. A cmara ficava situada 65 metros abaixo da superfcie, onde estava completamente a salvo de bombas de fluxo eletromagntico e de exploses nucleares.
Jabba estava em uma estao de trabalho elevada no centro da sala, berrando ordens, como um rei se dirigindo aos sditos. Ampliada no painel atrs dele, uma mensagem que Susan j vira antes:

APENAS A VERDADE PODER SALV-LOS
DIGITE A SENHA _________

Como se estivesse presa em um pesadelo surreal, ela seguiu Fontaine at a plataforma. Seu mundo parecia um borro mudando em cmara lenta.
Ao ver que eles se aproximavam, Jabba virou-se como um touro furioso. 
- Quando constru o Gaundet, eu tinha uma razo muito forte para faz-lo! 
- O Gaundet j no existe mais - retrucou Fontaine, sem se alterar.
- J sei, diretor - prosseguiu Jabba. - A onda de choque me fez cair sentado! Onde est Strathmore?
- O comandante Strathmore est morto.
- Mas que porra de justia potica.
- Mais respeito, Jabba - ordenou o diretor. - Como est a situao? Qual o poder de destruio desse vrus?
Jabba olhou para o diretor em silncio e depois comeou a rir.
- Um vrus? - Sua gargalhada ruidosa ressoou pela cmara. - Voc pensa que estamos lidando com um vrus?
Fontaine ficou impassvel. A insolncia de Jabba j havia passado dos limites, mas o diretor sabia que aquele no era nem o momento nem o lugar para lidar com isso. L embaixo Jabba era superior at mesmo a Deus. Problemas tcnicos no banco de dados tinham precedncia sobre a cadeia de comando normal.
- Ento no  um vrus? - exclamou Brinkerhoff, animado.
Jabba olhou para ele, desdenhoso.
- Um vrus tem comandos de replicao, chefe. Isso aqui no tem.
Susan mantinha-se prxima, mas no conseguia se concentrar em nada. 
- Ento o que est acontecendo? - Fontaine perguntou. - Pensei que estvamos lidando com um vrus.
Jabba respirou fundo e falou, baixando a voz:
- Os vrus... - comeou a explicar, secando o suor em seu rosto. - Os vrus se reproduzem. Criam clones. So vaidosos e burros; egomanacos binrios, digamos assim. Geram bebs mais rpido do que coelhos. Esse  seu ponto fraco:  possvel criar uma mutao que os aniquile, se voc souber o que fazer. Infelizmente o programa que temos aqui no tem ego e no precisa se reproduzir. Seus objetivos esto claros e ele  determinado. Na verdade, quando tiver atingido seu objetivo, provavelmente ir cometer suicdio digital. - Jabba apontou com os braos, reverentemente, para a confuso que continuava sendo projetada no enorme painel. - Senhoras e senhores, gostaria de apresentar-lhes o kamikase dos invasores de computadores: um verme.
- Verme? - resmungou Brinkerhoff. Isso lhe soava como um termo muito mundano para descrever aquele invasor traioeiro.
- Isso, um verme - continuou Jabba. - No tem uma estrutura complexa, apenas instinto: comer, defecar, se arrastar. S isso. Simplicidade mortfera. Faz o que foi programado para fazer e depois some. 
Fontaine encarou Jabba com severidade.
- E o que este verme em particular foi programado para fazer?
- No tenho idia. Neste momento, est se espalhando e se conectando a todos os nossos dados secretos. Depois disso, pode fazer qualquer coisa. Pode decidir apagar todos os arquivos, ou talvez prefira imprimir carinhas sorridentes em algumas transcries da Casa Branca.
Fontaine permanecia srio e contido.
- Voc pode det-lo?
Jabba suspirou e olhou para a tela.
- Ainda no sei. Depende de quanto o autor disso a estivesse irritado.
- Apontou para a mensagem no painel. - Algum pode me dizer o que isso significa?

APENAS A VERDADE PODER SALV-LOS
DIGITE A SENHA_____________

Jabba esperou uma resposta, mas ningum disse nada.
- Bem, parece que algum est brincando conosco, diretor. Chantagem. Esse  o bilhete de resgate mais terrvel que j vi.
A voz de Susan saiu como um sopro, etrea.
- ... Ensei Tankado.
Jabba virou-se para ela, espantado.
- Tankado?
Susan concordou, vagarosamente.
- Ele queria que confessssemos que o TRANSLTR existe, mas isso lhe custou...
- Confessar? - interrompeu Brinkerhoff, estupefato. - Tankado quer que confessemos que temos o TRANSLTR? Acho que  meio tarde para isso agora!
	Susan abriu a boca e ia comear a dizer algo, mas Jabba se adiantou:
	- Parece que Tankado possui um cdigo de desativao - disse ele, fitando a mensagem na tela.
	Todos olharam.
- Cdigo de desativao? - perguntou Brinkerhoff.
Jabba assentiu.
- Isso a. Uma senha que ir deter o verme. Resumindo: se admitirmos que temos o TRANSLTR, Tankado nos fornece a senha. Digitamos o que ele disser e salvamos o banco de dados. Bem-vindos  extorso digital.
Fontaine permanecia rgido como uma rocha.
- Quanto tempo ainda temos?
- Cerca de uma hora. O tempo exato de preparar uma coletiva para a imprensa e contar todos os detalhes.
- Alguma sugesto? - questionou Fontaine. - O que voc prope?
- Uma sugesto? - Jabba respondeu, irnico. - Voc quer uma sugesto? Vou lhe dar uma! Pare de fazer perguntas e aceite as exigncias de Tankado,  isso	que voc tem que fazer!
- Jabba, cuidado... - respondeu o diretor rispidamente.
- Diretor - prosseguiu Jabba, falando rpido -, neste exato momento Ensei Tankado  dono deste banco de dados! D a ele o que ele quiser. Se ele quer que o mundo saiba a verdade sobre o TRANSLTR, ligue para a CNN e mostre tudo. De qualquer maneira, o TRANSLTR no passa de um buraco no cho, ento por que se preocupar com isso?
Houve um silncio. Fontaine estava avaliando suas opes. Susan comeou a falar, mas Jabba a cortou de novo.
- O que voc est esperando, diretor! Coloque Tankado na linha! Diga que vai fazer o jogo dele! Precisamos desse cdigo de desativao. Do contrrio, isso aqui vai virar sucata.
Ningum se moveu.
- Vocs todos ficaram loucos? - gritou Jabba. - Chamem Tankado! Digam que nos rendemos! Descubram o maldito cdigo de desativao! J! - Jabba puxou seu telefone celular e ativou-o. - Ok, deixem pra l. Me dem o nmero dele! Eu mesmo vou ligar para esse maluco!
- No vai ser possvel- disse Susan em voz baixa. - Tankado est morto. 
Aps alguns instantes de perplexidade, as implicaes atingiram Jabba como um raio.
- Morto? Mas ento... quer dizer que... ns no podemos...
- Quer dizer que precisamos de outro plano - declarou Fontaine, seco. 
Jabba ainda estava se recuperando do choque quando algum comeou a gritar histericamente em um canto da sala.
- Jabba! Jabba!
Era Soshi Kuta, chefe dos tcnicos. Veio correndo em direo  plataforma de Jabba, puxando uma longa listagem. Parecia nervosa.
- Jabba - prosseguiu, sem flego. - O verme... Acabei de descobrir o que ele foi programado para fazer. - Soshi jogou o papel nas mos de Jabba. - Peguei isso a partir da sonda de anlise de atividade do sistema! Isolamos os comandos de execuo do verme. D uma olhada na programao! Veja o que ele est pretendendo fazer!
Perplexo, Jabba pegou o papel e leu. Em seguida apoiou-se no anteparo. 
- Meu Deus - disse Jabba, tenso. - Tankado, seu filho da me!

CAPTULO
110

Jabba olhava para o papel que Soshi havia acabado de lhe entregar. Plido, secava sua testa com a manga da camisa.
- Diretor, no temos escolha. Precisamos cortar a energia do banco de dados. 
- Inaceitvel- respondeu Fontaine. - Voc sabe que o resultado seria catastrfico. 
Jabba sabia perfeitamente. Havia mais de trs mil conexes ISDN ligando o banco de dados da NSA ao restante do mundo. Todos os dias militares de alta patente acessavam fotos atualizadas de satlites para observar os movimentos de seus inimigos, engenheiros acessavam projetos de novos armamentos e agentes de campo atualizavam dados sobre suas misses. O banco de dados da NSA era a espinha dorsal de milhares de operaes do governo americano. Deslig-lo sem aviso prvio provocaria blecautes em diversos setores da inteligncia americana em todo o planeta, em alguns casos possivelmente fatais.
- Estou ciente das implicaes, senhor, mas no vejo outra escolha - respondeu Jabba.
- Explique-se - ordenou Fontaine. Olhou rapidamente para Susan, de p ao seu lado na plataforma. Ela parecia estar em outro mundo.
Jabba respirou fundo e secou o suor mais uma vez. Pela cara que fez, estava claro para o grupo ao seu redor que ningum iria gostar do que tinha a dizer.
- Este verme no tem um ciclo degenerativo genrico.  um ciclo seletivo.
Em outras palavras, ele tem um paladar especfico.
Brinkerhoff fez meno de perguntar alguma coisa, mas Fontaine fez um gesto para que se calasse.
- A maioria dos programas destrutivos varre um banco de dados apagando seu contedo - prosseguiu Jabba. - Mas este  mais complexo. Ele est programado para apagar apenas arquivos que estejam dentro de certos parmetros.
- Voc quer dizer que ele no vai atacar todo o banco de dados?  Brinkerhoff perguntou, esperanoso. - Isso  uma boa notcia, no?
	- No! - irritou-se Jabba. -  ruim! Na verdade,  uma merda completa!
	- Jabba, calma - ordenou Fontaine. - Que parmetros esse verme est buscando? Militares? Operaes secretas?
	Jabba sacudiu a cabea. Olhou para Susan, que continuava vagando, distante, depois encarou novamente o diretor.
- Como o senhor sabe, qualquer um vindo de fora que deseje se conectar a este banco de dados precisa passar por uma srie de verificaes de segurana antes de ser admitido.
Fontaine balanou a cabea. As hierarquias de acesso ao banco de dados haviam sido brilhantemente implementadas. Pessoas com autorizao adequada podiam acess-lo atravs de conexes via Internet. Dependendo da seqncia de autorizaes, cada um acessava suas prprias zonas compartimentalizadas.
- Como estamos ligados  Internet, hackers, outros governos e os tubares da EFF passam seus dias circulando em torno deste banco de dados tentando encontrar uma forma de quebr-lo - explicou Jabba.	- Sim - disse Fontaine. - E o tempo todo nossos filtros de segurana os mantm do lado de fora. Onde voc quer chegar?
	Jabba apontou para o papel que Soshi lhe dera.
	- Quero chegar aqui. O verme de Tankado no est interessado em nossos dados. - Limpou a garganta. - Ele est atrs de nossos filtros de segurana.
Fontaine ficou branco. Entendeu as implicaes: o verme estava procurando os filtros que mantinham o banco de dados da NSA confidencial e que restringiam seu acesso. Sem eles, todas as informaes poderiam ser acessadas por qualquer um.
- Precisamos desligar tudo - insistiu Jabba. - Dentro de mais uma hora, qualquer estudante com um modem vai ter o mais alto nvel de acesso de segurana do pas.
Fontaine passou um bom tempo em silncio.
Jabba esperou, impaciente, e finalmente virou-se para Soshi. - Soshi. Coloque uma RV na tela! Agora!
Soshi saiu correndo.
Jabba usava as RVs muitas vezes. Para muitos profissionais de informtica, RV significava "realidade virtual': Na NSA, contudo, era o termo usado para "representao visual". Em um mundo cheio de tcnicos e polticos, todos com diferentes nveis de compreenso tcnica, uma representao grfica era, muitas vezes, a nica maneira de esclarecer um assunto. Um grfico costumava gerar uma reao dez vezes maior do que a obtida por muitas pginas de planilhas. Uma RV da crise atual esclareceria sua viso rapidamente.
- RV pronta! - gritou Soshi de seu terminal.
Um diagrama gerado por computador foi exibido no painel de vdeo  frente deles. Susan olhou, ainda distante de toda a agitao que a cercava. Todos na sala seguiram o olhar de Jabba em direo  tela.
O diagrama no painel parecia uma mira de tiro. No centro havia um crculo vermelho onde se lia "dados. Ao seu redor havia outros cinco crculos concntricos de diferentes espessuras e cores. O crculo mais externo estava desbotado, quase transparente.
- Temos um sistema de defesa em cinco camadas - explicou Jabba. - A camada mais externa  o servidor principal de segurana, o Bastion Host, seguido por dois conjuntos de filtros de pacotes para FTP e para o protocolo XII, depois um bloqueio por tunelamento e, finalmente, uma janela de autorizao de PEM que veio diretamente do projeto Truffle. A defesa externa que est desaparecendo representa o host exposto. Est praticamente destruda. Daqui a mais uma hora, as outras defesas tambm iro cair. Depois disso, as portas estaro abertas e todos podero entrar. Cada byte dos dados da NSA estar em domnio pblico.
Fontaine estudou a RV, visivelmente irritado.
Brinkerhoff resmungou.
- Esse verme pode mesmo abrir nosso banco de dados para o mundo?
-  um brinquedo de criana para Tankado - Jabba respondeu. - O Gaundet era nossa maior proteo, mas Strathmore tomou-a intil.
-  um ato de guerra! - grunhiu Fontaine, demonstrando rancor na voz. 
Jabba sacudiu a cabea.
- Eu sinceramente duvido que Tankado pretendesse que a coisa fosse to longe. Acho que ele esperava estar por perto e interromper o processo a tempo.
Fontaine olhou para a tela e viu a primeira das cinco camadas de defesa desaparecer completamente.
	- O Bastion Host se foi! - gritou um tcnico. - O segundo escudo est exposto.
- Temos que comear a desligar tudo imediatamente - pressionou Jabba. - Pelo que a RV nos mostra, temos cerca de 45 minutos. E o processo de tirar o sistema do ar  complexo.
O banco de dados da NSA tinha sido construdo de forma a jamais ficar sem energia - acidentalmente ou em caso de ataque. Diversos sistemas redundantes para comunicaes e energia estavam enterrados em tubulaes de ao reforado bem fundo no solo, abaixo deles, e, alm das linhas de alimentao que vinham do complexo da NSA, existiam outras fontes secundrias de energia partindo das principais redes pblicas. Desligar o sistema envolvia uma srie complexa de confirmaes e protocolos, sendo uma tarefa bem mais complicada do que um lanamento padro de um mssil nuclear.
	- Ainda temos tempo, se nos apressarmos. Um desligamento manual deve levar cerca de 30 minutos - disse Jabba.
	Fontaine continuava olhando para a RV, ponderando suas opes.
- Diretor! - Jabba perdeu a pacincia. - Quando esses firewalls carem, todosos usurios do planeta vo passar a ter acesso de alta prioridade! Estou falando do maior nvel possvel! Tero acesso aos registros de operaes secretas. A nossos agentes no exterior. Aos nomes e localizaes de todas as pessoas cobertas pelo programa federal de proteo a testemunhas. Cdigos de confirmao de lanamento de msseis. Precisamos desligar o sistema! Agora!
O diretor parecia no se deixar alterar.
- Tem que haver outro jeito.
- Sim - retrucou Jabba. - Claro que h! O cdigo de desativao! Acontece que o nico sujeito que conhecia o cdigo est morto.
- E se usarmos fora bruta? - sugeriu Brinkerhoff. - Podemos descobrir o cdigo? Jabba levantou os braos, irritado.
- Pelo amor de Deus! Os cdigos de desativao so como chaves de encriptao: completamente aleatrios! So impossveis de adivinhar. Se voc achar que pode digitar 600 trilhes de entradas nos prximos 45 minutos, o teclado  todo seu!
- O cdigo de desativao est na Espanha - disse Susan calmamente. 
Todos se viraram para ela. Era a primeira coisa que ela dizia em muito tempo. Susan olhou para eles com os olhos turvos.
- Tankado passou-o adiante quando morreu.
Ningum entendeu nada.
- A chave... - Susan tremia enquanto falava. - O comandante Strathmore enviou algum para encontr-la.
- E ento? O homem de Strathmore conseguiu ou no encontr-la? - perguntou Jabba, ansioso.
Susan tentou controlar-se, mas as lgrimas correram por seu rosto.
- Sim - soluou -, acho que sim.

CAPTULO
111

Um grito estridente cortou a sala de controle.
- Tubares! - gritou Soshi.
Jabba olhou para a RV. Duas linhas finas tinham aparecido fora dos crculos concntricos. Pareciam espermatozides tentando romper um vulo relutante.
- H sangue na gua, pessoal! - Jabba virou-se para o diretor. - Preciso de uma deciso final. Ou comeamos a desligar o sistema ou no vai dar tempo. Assim que esses dois invasores perceberem que o Bastion Host caiu, vo enviar um grito de guerra.
Fontaine no respondeu. Estava imerso em pensamentos. O que Susan dissera sobre a senha na Espanha parecia promissor. Olhou rapidamente para a criptgrafa nos fundos da sala. Ela parecia estar num mundo  parte, jogada em uma cadeira, a cabea enfiada entre as mos. O diretor no sabia o que havia desencadeado aquela reao, mas, fosse o que fosse, ele no tinha tempo para lidar com aquilo naquele momento.
- Preciso de uma deciso! - pressionou Jabba. - Agora!
Fontaine olhou para ele. Falou calmamente.
- Certo, aqui est minha deciso. No vamos desligar o sistema. Vamos esperar. Jabba ficou boquiaberto.
- O qu? Mas isso ...
- Uma aposta - cortou Fontaine. - Uma aposta que podemos ganhar.
- Pegou o celular de Jabba e digitou um nmero. - Midge, aqui  Leland Fontaine. Preste ateno...

CAPTULO
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- Diretor,  melhor que voc saiba o que est fazendo, porque estamos prestes a perder nossa chance de desligar o sistema. - Jabba disse, em tom de desaprovao.
Fontaine no se deu ao trabalho de responder.
A porta da sala de controle se abriu e Midge entrou, apressada. Chegou quase sem flego  plataforma onde Fontaine e Jabba se encontravam.
- Diretor! A central est transferindo a conexo para c!
Fontaine se virou e olhou para o painel de vdeo. Quinze segundos depois uma nova tela foi exibida.
A imagem inicial estava cheia de interferncias e desalinhada. Aos poucos entrou em foco. Era uma transmisso em formato digital, com baixa resoluo. A imagem mostrava dois homens. Um era plido, com um corte militar de cabelo, enquanto o outro era um louro tipicamente americano. Ambos estavam sentados em frente  pequena cmera, como reprteres esperando para entrar no ar.
- Que diabos  isso? - perguntou Jabba.
- Preste ateno - ordenou Fontaine.
Os homens pareciam estar dentro de uma van cercados por cabos e equipamentos eletrnicos. A conexo de udio entrou no ar e pde-se ouvir um rudo de fundo.
- Estamos recebendo udio - disse um tcnico atrs deles. - Dentro de alguns segundos poderemos transmitir.
	- Quem so estes? - perguntou Brinkerhoff, preocupado.
	- Observao e vigilncia - respondeu Fontaine, olhando para os dois homens enviados  Espanha. A precauo fora necessria. Fontaine havia confiado em quase todos os aspectos dos planos de Strathmore: a lastimvel porm necessria eliminao de Ensei Tankado, reescrever o Fortaleza Digital, tudo fazia sentido. Mas uma coisa deixava Fontaine nervoso: usar Hulohot. Ele certamente era experiente, mas no passava de um mercenrio. Seria confivel? Ou iria guardar a senha e us-la em proveito prprio? O diretor queria que o portugus fosse vigiado, s por garantia, e tinha tomado suas providncias.
Segundos depois, a conexo de udio foi estabelecida, e o homem com cara de militar falou para a cmera:
	- Diretor, sou o agente Coliander. Este  o agente Smith.
	- Muito bem - respondeu Fontaine. - Relatrio da situao?
CAPTULO
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Nos fundos da sala, Susan Fletcher estava sentada, lutando contra uma solido aterradora que tomara conta dela. Seus olhos estavam fechados, os ouvidos zuniam e ela estava chorando. Seu corpo parecia estar anestesiado. Toda a confuso da sala de controle fora reduzida a um murmrio distante. As pessoas que estavam de p sobre a plataforma ouviam atentamente o relatrio do agente Smith.
- De acordo com suas ordens, diretor, chegamos aqui em Sevilha h dois dias para seguir o Sr. Ensei Tankado.
- Conte-me como ele morreu - abreviou Fontaine, impaciente.
Smith assentiu.
- Observamos a ao de dentro da van, a cerca de 50 metros. O assassinato foi bem executado. Hulohot obviamente era um profissional. Mas em seguida ele teve problemas. Surgiram outras pessoas. Hulohot no teve a chance de pegar o objeto.
Fontaine concordou. Os agentes fizeram contato com ele na Amrica do Sul, avisando-o de que algo havia sado errado. Foi ento que o diretor decidiu retomar mais cedo da viagem.
Coliander continuou.
- Seguimos Hulohot, conforme ordenado. Contudo, ele no foi para o necrotrio. Em vez disso, passou a seguir uma outra pessoa. Parecia civil, de blazer e gravata.
- Civil? - conjeturou Fontaine. Soava exatamente como uma jogada de Strathmore, sabiamente mantendo a NSA fora de cena.
- Os filtros de FTP esto falhando! - gritou um tcnico.
- Precisamos do objeto - intimou Fontaine. - Onde est Hulohot agora? 
Smith olhou para trs.
- Bem, est conosco, senhor.
Fontaine suspirou.
- Onde? - Era a melhor notcia que havia recebido naquele dia.
Smith aproximou sua mo da lente e ajustou-a. A cmera foi virada dentro da van e passou a mostrar dois corpos inertes encostados na parte traseira. Um deles era um homem grande, com culos de armao de metal. O outro era mais jovem, com cabelos escuros e uma camisa ensangentada.
- Hulohot  o da esquerda - completou Smith.
- Ele est morto? - perguntou o diretor.
- Sim, senhor.
Fontaine decidiu deixar as perguntas para mais tarde. Olhou para os escudos de proteo diminuindo na tela.
- Agente Smith - disse, de forma lenta e clara. - O objeto. Eu preciso dele. 
Smith pareceu envergonhado.
- Senhor, ainda no sabemos o que  o objeto. Nos informaram apenas o estritamente necessrio.

CAPTULO
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- Ento procurem de novo! - bradou Fontaine.
O diretor olhava, incrdulo, a imagem um pouco distorcida de seus agentes revistando os dois corpos na van atrs de uma lista de nmeros e letras aleatrios.
	Jabba estava lvido.
- Meu Deus, eles no esto encontrando a senha! Estamos acabados!
- Perdemos os filtros de FTP! - gritou uma voz. - O terceiro escudo est exposto!
O corre-corre na sala aumentou.
No painel, o agente com o corte militar levantou os braos, sem saber o que fazer.
	- Senhor, a senha no est aqui. J revistamos os dois. Bolsos. Roupas. Carteiras. Nenhum sinal. Hulohot estava com um computador Monocle, e verificamos isso tambm. Aparentemente jamais transmitiu nada parecido com uma lista de caracteres aleatrios, apenas a lista de pessoas assassinadas.
- Droga! - vociferou, perdendo a calma. - Tem que estar a! Continuem procurando!
Jabba aparentemente se cansara daquilo. Fontaine havia feito uma aposta e perdido. O chefe de SegSis assumiu o controle da situao. Desceu de sua plataforma como uma avalanche. Passou por seu pequeno exrcito de programadores dando ordens.
- Acessem os controles auxiliares de desativao. Comecem a desligar tudo!
Agora!
- No vai dar tempo! - gritou Soshi em resposta. - Precisvamos de meia hora. Quando conseguirmos desligar tudo ser tarde.
Jabba ia responder algo, mas foi cortado por um grito agoniado vindo dos fundos da sala.
Todos se viraram. Como uma apario, Susan Fletcher levantou-se de onde tinha ficado curvada todo aquele tempo. Seu rosto estava branco, os olhos vidrados na imagem congelada de David Becker, imvel e com uma mancha de sangue, jogado no cho da van.
- Vocs o mataram! - ela gritou. - Vocs o mataram! - Ela saiu andando em direo  tela e estendeu os braos. - David...
Todos olharam para ela, confusos. Susan avanou em direo  tela, chamando por David, sem tirar os olhos do corpo dele.
- David... - ela soluava. - David... como eles puderam...
Fontaine no estava entendendo nada.
- Voc conhece esse homem?
Susan andou, trpega, e passou pela plataforma. Parou a alguns metros do enorme painel e olhou para cima, perplexa e sem foras, repetindo sem parar o nome do homem que amava.

CAPTULO
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A mente de Becker estava absolutamente vazia. Estou morto. Ainda assim, ouviu um som. Uma voz distante.
- David.
Sentia algo queimando debaixo do brao. Estava completamente tonto. Seu sangue parecia feito de lava incandescente. Meu corpo no me pertence. Ainda assim, podia ouvir uma voz baixa, distante. Mas era parte dele. Havia outras vozes tambm - no eram familiares, no eram importantes. Chamavam seu nome. Tentou bloque-las. Apenas uma voz importava. Aproximava-se, depois se afastava.
- David... eu lamento...
Surgiu uma luz, muito apagada primeiro, depois um risco cinza. Crescendo.
Becker tentou mover-se. Dor. Tentou falar. Nada. A voz continuava chamando.
Algum levantou-o. Becker se moveu em direo  voz. Estava chamando. Viu uma imagem iluminada. Podia ver alguma coisa em uma tela pequena. Parecia uma mulher, olhando para ele, vinda de algum outro mundo. Ela est me vendo morrer?
- David...
A voz era familiar. Era um anjo. Havia vindo busc-lo. O anjo falou. - David, eu te amo.
Ento ele soube.
Susan olhava para a tela chorando, rindo, perdida num emaranhado de emoes. Enxugava as lgrimas.
- David... Eu... eu pensei...
O agente Smith colocou David no assento em frente ao monitor.
- Ele est um pouco atordoado, senhora. Espere um minuto.
- M..mas... - Susan gaguejava. - Eu vi uma transmisso. Dizia que... Smith assentiu.
- Ns tambm vimos. Hulohot cantava vitria antes do tempo.
- Mas o sangue...
- Uma ferida superficial. Colocamos uma gaze sobre ela - respondeu Smith. Susan estava sem fala.
Coliander falou, fora do campo de viso:
- Ns o acertamos com o novo J23, uma arma tranqilizante de longo alcance. Deve ter dodo muito, mas ns o tiramos das ruas.
- No se preocupe, senhora - completou Smith, em tom tranqilizador.
- Ele vai ficar bem.
David Becker olhou para o monitor de TV  sua frente. Estava desorientado e zonzo. Na tela, via a imagem de uma sala em completo caos. Susan estava l, de p no meio de uma rea vazia, olhando para ele.
	Ela chorava e ria ao mesmo tempo.
	- David! Meu Deus! Achei que tinha perdido voc!
Ele esfregou a testa. Moveu-se para a frente e puxou o microfone para perto de sua boca.
	- Susan?
	Ela olhava para cima, em xtase. A face de David preenchia todo o painel de vdeo. Sua voz soava estrondosa na sala.
- Susan, preciso lhe perguntar uma coisa. - A ressonncia e o volume da voz de Becker fizeram com que as pessoas na sala do banco de dados parassem para observar. Todos se viraram em direo  tela.
	- Susan Fletcher, voc quer casar comigo?
	A sala ficou em total silncio. Uma prancheta caiu no cho, junto com um porta-lpis. Ningum se abaixou para peg-los. S era possvel ouvir o leve zumbido dos ventiladores dos terminais e o som da respirao de David Becker no microfone.
- David... - Susan gaguejou, completamente alheia ao fato de que havia 37 pessoas na sala olhando para ela. - Voc j me pediu em casamento, lembra-se? Cinco meses atrs. Eu disse sim.
- Eu sei - disse ele sorrindo. - Mas desta vez eu tenho um anel - estendeu sua mo esquerda para a cmera e mostrou um anel dourado em seu dedo.

CAPTULO
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- Vamos, leia, Sr. Becker! - ordenou Fontaine.
Jabba sentou-se, molhado de suor, com as mos a postos sobre o teclado. 
- Isso a, leia essa bendita inscrio.
Susan Fletcher estava com eles na plataforma, com as pernas ainda tremendo, mas radiante. Todos na sala pararam o que estavam fazendo e olharam para a enorme projeo de David Becker. O professor girou o anel entre os dedos e estudou a inscrio.
- Mas leia com cuidado! - disse Jabba, srio. - Um nico erro e estamos fritos!
Fontaine olhou com uma cara feia para Jabba. Se havia algo que ele conhecia bem eram situaes de alta presso. Criar tenso adicional nunca era uma boa idia nessas horas.
- Relaxe, Sr. Becker. Se houver algum erro, vamos digitar o cdigo de novo, at acertar.
- No  bem assim, Sr. Becker - interveio Jabba. - Temos que acertar da primeira vez. Os cdigos de desativao em geral tm algum tipo de penalidade para evitar que algum tente adivinhar cegamente a senha. Se digitarmos algo errado na primeira vez, o ciclo provavelmente ir se acelerar. Mas, se digitarmos errado duas vezes, estaremos fora. Fim de jogo.
O diretor franziu a testa e virou-se para a tela.
- Sr. Becker? Falha minha. Leia com cuidado, ento. Com extremo cuidado. Becker assentiu e estudou o anel por um instante. Depois comeou a recitar calmamente a inscrio.
- Q...U...I...S...espao...C...
Jabba e Susan interromperam a leitura ao mesmo tempo.
- Espao? - Jabba parou de digitar. - H um espao?
Becker olhou o anel.
- . Tem vrios espaos.
- Qual o problema? - perguntou Fontaine. - Por que paramos?
- Senhor.  que isso  meio... - disse Susan, preocupada.
- Concordo - disse Jabba. -  estranho. Senhas nunca tm espaos. Brinkerhoff engoliu em seco.
- O que isso quer dizer, ento?
- Quer dizer - retomou Susan - que talvez esse no seja o cdigo de desativao.
Brinkerhoff entrou em pnico.
-  claro que  o cdigo de desativao! O que mais poderia ser? Por que outra razo Tankado daria esse anel? Quem  que fica escrevendo letras aleatrias em um anel?
Fontaine silenciou o assistente com um olhar severo.
- Ah... pessoal? - Becker disse, em dvida se devia ou no se meter.  Vocs esto falando o tempo todo de letras aleatrias. Acho melhor eu avisar: as letras que esto aqui no so aleatrias.
Todos os que estavam na plataforma gritaram ao mesmo tempo:
- O qu?
Becker no sabia bem como agir.
- , eu lamento, mas h palavras aqui. Elas esto bem juntas e,  primeira vista, parecem mesmo aleatrias. Mas, olhando de perto, d para ver que a inscrio est em latim.
Jabba arregalou os olhos.
- Voc est brincando!
Becker sacudiu a cabea.
- No. Est escrito: Quis custodiet ipsos custodes, o que significa, em linhas gerais...
- Quem ir guardar os guardies! - interveio Susan, completando a frase de Becker.
Becker olhou para ela, espantado.
- Susan, no sabia que voc...
-  das Stiras, de Juvenal- exclamou Susan. - Quem ir guardar os guardies? Quem ir vigiar a NSA enquanto ns vigiamos o mundo? Era a citao predileta de Tankado.
- Afinal- perguntou Midge -, essa  ou no a senha?
- Tem que ser a senha - declarou Brinkerhoff.
Fontaine estava em silncio, ainda processando as novas informaes.
- No sei se esta  a senha - disse Jabba. - Me parece estranho que Tankado fosse usar uma construo no-aleatria.
- Vamos, remova os espaos e digite o maldito cdigo! - disse Brinkerhoff, quase histrico.
- Fontaine virou-se para Susan:
- Qual a sua opinio, senhorita Fletcher?
Susan refletiu. No sabia dizer exatamente o que era, mas alguma coisa ali estava errada. Susan conhecia Tankado o suficiente para saber que ele era um amante da simplicidade. Os algoritmos e os programas que desenvolvia eram quase cristalinos, absolutos. A idia de remover os espaos parecia deslocada. Era um pequeno detalhe, mas era um erro, e definitivamente no era limpo. Em resumo, no era o que Susan esperava do golpe final de Tankado.
	- Acho que h algo de errado - Susan disse, aps pensar. - No acho que seja a senha.
	Fontaine respirou fundo, olhando dentro dos olhos dela, como que tentando ler sua mente.
- Senhorita Fletcher, se esta no  a senha, por que Ensei Tankado a teria dado para outra pessoa? Se ele sabia que ns o havamos assassinado, voc no acha que iria querer nos punir fazendo o anel sumir?
Uma nova voz surgiu, interrompendo o dilogo.
- Ah... Diretor?
Todos se voltaram para a tela. Era o agente Smith, de Sevilha. Estava com a cabea enfiada sobre o ombro de Becker, falando no microfone.
	- No sei se isto ajuda em algo, mas no estou to certo de que o Sr. Tankado soubesse que estava sendo assassinado.
- O que voc quer dizer? - perguntou Fontaine.
- Hulohot era um profissional, senhor. Vimos o ataque, estvamos a apenas 50 metros. Todas as evidncias sugerem que Tankado no sabia de nada.
- Evidncias? - perguntou Brinkerhoff. - Mas que evidncias? Tankado deu o anel. Isso prova tudo!
- Agente Smith - Fontaine interrompeu. - O que o faz pensar que Ensei Tankado no percebeu que estava sendo assassinado?
Smith limpou a garganta.
- Hulohot usou uma bala no-invasiva.  uma pequena bala de borracha que  atirada contra o peito e que se espalha aps o impacto. Silenciosa e muito limpa. O Sr. Tankado deve ter sentido apenas uma dor aguda e depois teve um ataque cardaco.
- Uma bala de impacto - Becker murmurou para si mesmo. - Isso explica o hematoma.
-  difcil que Tankado tenha associado a sensao a um tiro  acrescentou Smith.
- Mas ainda assim ele deu seu anel- declarou Fontaine.
-  verdade, senhor. Mas no olhou em volta procurando seu agressor. Uma vtima sempre tenta localizar o agressor ao ser atingida.  instintivo. 
Fontaine pensou a respeito.
- Voc diz que ele no procurou Hulohot?
- No, senhor. Temos tudo registrado em filme, se desejarem...
- O filtro XII se foi! - gritou um tcnico. - O verme est na metade do caminho!
- Esquea o filme! - intrometeu-se Brinkerhoff. - Digite o maldito cdigo e vamos terminar com isso!
Jabba suspirou, subitamente calmo e pensativo.
- Diretor, se digitarmos o cdigo errado...
- Sim - interrompeu Susan. - Se Tankado no suspeitava de ns, temos algumas perguntas no ar.
- Quanto tempo nos resta, Jabba? - perguntou Fontaine.
Jabba olhou para a RV.
- Cerca de 20 minutos.  melhor usarmos nosso tempo com sabedoria. Fontaine ficou em silncio por alguns instantes. Depois suspirou e disse: - Tudo bem. Passem o filme.




CAPTULO
117

- Iniciando transmisso de vdeo dentro de 10 segundos - disse o agente Smith. - Vamos transmitir apenas um quadro a cada dois, sem udio; assim a transmisso vai ser quase em tempo real.
Todos ficaram em silncio, observando e esperando. Jabba digitou alguns comandos e alterou a posio das imagens no painel de vdeo. A mensagem de Tankado estava sendo exibida no canto esquerdo:

APENAS A VERDADE PODER SALV-LOS

 direita, no painel, havia uma imagem esttica do interior da van, com Becker e os dois agentes espremidos na frente da cmera. No centro surgiu uma borda pouco definida que logo se encheu de esttica. Ento surgiu a imagem em preto-e-branco de um parque.
- Transmitindo - anunciou Smith.
Parecia um antigo filme mudo. A imagem era granulada e pulava, resultado do processo de compresso de dados, que reduzia pela metade a quantidade de informaes enviadas e permitia uma transmisso mais rpida.
A cmera se moveu atravs de um enorme ptio que terminava, num dos extremos, em uma fachada semicircular: o Ayuntamiento de Sevilha. Havia rvores em primeiro plano e o parque estava vazio.
- Os XII caram! - gritou um tcnico. - Este bicho est faminto!
Smith comeou a narrar. Seu comentrio tinha o desprendimento de um veterano.
- Essa  uma tomada da van, a cerca de 50 metros da zona de ao. Tankado se aproxima pela direita. Hulohot est nas rvores,  esquerda.
- Estamos com pouco tempo por aqui - disse Fontaine, apressando-o.
- Vamos ao que interessa.
O agente Coliander mexeu em alguns botes e a imagem se acelerou.
Todos olharam, ansiosos, quando seu antigo colega, Ensei Tankado, entrou em cena. O vdeo acelerado fazia a imagem parecer engraada. Tankado se movia rapidamente pelo ptio, depois parava subitamente, talvez para apreciar a paisagem. Ele protegeu os olhos do sol e olhou para cima, observando os detalhes da enorme fachada.
-  agora - avisou Smith. - Hulohot  bom. Acertou de primeira e em espao aberto.
Notou-se um breve flash de luz saindo do meio das rvores  esquerda da tela. Pouco depois Tankado apertou o peito. Cambaleou. O zoom da cmera aproximou-se de Tankado, deixando a imagem instvel, entrando e saindo de foco.
Enquanto as imagens passavam aceleradas, Smith continuava friamente sua narrativa.
	- Como podem ver, Tankado teve uma parada cardaca instantaneamente.
	Susan sentiu-se mal vendo aquelas imagens. Tankado apertava o peito com suas mos deformadas e tinha um olhar confuso de terror em seu rosto.
	- Vocs podem notar - acrescentou Smith - que seus olhos esto voltados para baixo, para ele mesmo. Em nenhum momento Tankado olha em volta.
- E isso  importante? - disse Jabba, meio afirmando, meio perguntando.
- Bastante - respondeu Smith. - Se Tankado houvesse suspeitado de alguma armao, teria instintivamente olhado em volta. Mas, como vocs podem ver, ele no olhou.
Na tela, Tankado caiu de joelhos, ainda apertando o peito. Em nenhum momento olhou para cima. Ensei Tankado estava sozinho, morrendo uma morte particular e natural.
	-  estranho - disse Smith, intrigado. - As balas de impacto em geral no matam to rpido. Algumas vezes, se o alvo for uma pessoa grande, nem mesmo matam.
	- Corao fraco - disse Fontaine, seco.
Smith levantou as sobrancelhas, impressionado.
- Boa escolha de arma, ento.
	Susan observou quando Tankado rolou para o lado e finalmente deitou-se de costas. Estava olhando para cima, ainda segurando o peito; Subitamente a cmera moveu-se e voltou-se novamente para as rvores. Um homem sorriu. Usava culos de armao de metal e carregava uma maleta um pouco maior do que o normal. Enquanto se aproximava do ptio e de Tankado, que agonizava, seus dedos comearam a se mover, em uma estranha e silenciosa dana, sobre um mecanismo preso  sua mo.
- Ele est usando o Monocle - disse Smith. - Enviando a mensagem de que Tankado foi eliminado. - Smith virou-se para Becker. - Parece que Hulohot tinha o mau hbito de informar as mortes antes que os corpos esfriassem.
Coliander acelerou o filme um pouco mais, e a cmera seguiu Hulohot, que se aproximava de sua vtima. De repente, contudo, um homem mais velho saiu correndo de um local prximo, foi at Tankado e ajoelhou-se a seu lado. Hulohot comeou a andar mais devagar. Um instante depois outras duas pessoas surgiram em cena: um homem obeso e uma mulher de cabelos vermelhos. Tambm se aproximaram de Tankado e ficaram a seu lado.
- Hulohot escolheu mal o local - disse Smith. - Ele achou que tinha isolado a vtima.
Na tela, o assassino observou por um momento e depois retornou para as rvores, provavelmente para esperar.
- Agora Tankado vai entregar o anel - avisou Smith. - No havamos notado da primeira vez.
Susan olhou para as imagens perturbadoras sendo exibidas. Tankado estava sufocando, mas tentava dizer alguma coisa para as pessoas ajoelhadas ao seu lado. Depois, desesperado, levantou a mo esquerda e quase acertou o rosto do velho. Mantinha seus dedos aleijados estendidos bem na frente dos olhos do homem. A cmera deu um zoom, focando os dedos de Tankado. Em um deles, brilhando nitidamente sob o sol da Espanha, estava o anel. Tankado fez o mesmo movimento de novo, estendendo o brao. O velho chegou para trs. Tankado ento virou-se para a mulher. Colocou seus trs dedos deformados bem na frente da cara dela, como se quisesse que ela entendesse algo. O anel brilhava no sol. A mulher virou o rosto. Tankado, agora tossindo e incapaz de falar, virou-se para o homem obeso e tentou mais uma vez.
O homem mais velho subitamente levantou-se e saiu correndo, provavelmente para buscar ajuda. Tankado parecia estar ficando mais fraco, porm continuava segurando o anel na cara do homem gordo. Finalmente o homem agarrou o pulso do moribundo e manteve-o firme. Tankado parecia estar olhando para seus prprios dedos, para seu anel, e depois de volta para os olhos do homem. Num ltimo apelo antes de morrer, Ensei Tankado moveu ligeiramente a cabea para o homem, como que dizendo sim.
Depois seu corpo ficou inerte. 
- Jesus - murmurou Jabba.
A cmera voltou-se novamente para onde Hulohot tinha se escondido, mas ele j havia partido. Uma motocicleta da polcia apareceu, cruzando a Avenida Firelli. A cmera retornou ao local onde Tankado estava. A mulher que tinha ficado ajoelhada a seu lado pareceu ter ouvido as sirenes da polcia. Olhou em volta, ansiosa, e comeou a puxar seu companheiro obeso, pedindo que partissem. Os dois saram apressadamente.
A cmera deu um close em Tankado, suas duas mos dobradas sobre o peito sem vida. O anel que estava em seu dedo havia sumido.



CAPTULO
118

- Isso definitivamente  uma prova - disse Fontaine, com firmeza. - Tankado queria se livrar do anel. Queria que estivesse to longe dele quanto possvel, para que no pudssemos encontr-lo.
- Mas, diretor - argumentou Susan -, no faz sentido. Se Tankado no sabia que estava sendo assassinado, por que daria o cdigo de desativao para outra pessoa?
- Concordo com ela - disse Jabba. - O garoto era um rebelde, mas tinha conscincia. Uma coisa seria nos obrigar a admitir que tnhamos o TRANSLTR. Expor nosso banco de dados secreto  algo completamente diferente.	.
Fontaine olhou para eles, hesitante.
- Vocs acham que Tankado queria parar esse verme? Acham que seus ltimos pensamentos antes de morrer foram dirigidos  pobre NSA?
- Tunnel Block se desfazendo! - gritou algum. - Estaremos completamente vulnerveis em 15 minutos, no mximo.
	- Vou lhes dizer uma coisa - declarou o diretor, assumindo o controle.
- Dentro de 15 minutos, todos os pases do Terceiro Mundo sabero como construir um mssil balstico intercontinental. Se algum nesta sala achar que tem um candidato melhor para o cdigo de desativao do que este anel, sou todo ouvidos. - Olhou em volta. Ningum falou. Ele voltou a olhar para Jabba, fixamente. - Tankado queria se livrar daquele anel por algum motivo, Jabba. No me importa se estava tentando faz-lo sumir ou se achava que aquele homem gordo ia correr at o telefone pblico e ligar para ns. Tomei minha deciso. Vamos digitar aquela citao. Agora.
	Jabba respirou fundo. Fontaine estava certo, no havia nenhuma opo melhor. Alm disso, o tempo estava se esgotando. Jabba sentou-se.
	- Muito bem, vamos l. - Puxou a cadeira para perto do teclado.
- Sr. Becker? A inscrio, por favor. Bem devagar.
David Becker leu a inscrio enquanto Jabba digitava. Quando acabaram, verificaram letra por letra, e Jabba retirou os espaos. Na parte central do painel estava escrito:

QUISCUSTODIETIPSOSCUSTODES

- No estou gostando - murmurou Susan, baixinho. - No est limpo. Jabba hesitou, com a mo sobre a tecla ENTER.
- V em frente - ordenou Fontaine.
Jabba pressionou ENTER. Segundos depois todos perceberam que havia sido um erro.

CAPTULO
119

- O verme est acelerando! - Soshi gritou l de trs. - Esse no era o cdigo certo!
Estavam todos perplexos, tomados por um terror silencioso.
Na tela  frente deles havia uma mensagem de erro:

ENTRADA INVLIDA. CAMPO NUMRICO APENAS.

- Que diabos! - gritou Jabba. - Apenas nmeros! Estamos procurando um maldito nmero! Estamos ferrados! Esse anel no serve para nada!
- O verme dobrou de velocidade! - gritou Soshi. - Estamos sendo penalizados.
No centro da tela, logo abaixo da mensagem de erro, a RV mostrava uma imagem terrvel. O terceiro firewall havia cado, e cerca de meia dzia de linhas pretas, representando os hackers que tentavam invadir o banco de dados, avanavam incessantemente em direo ao ncleo. A cada instante que passava surgiam novas linhas.
- Esto se multiplicando! - gritou Soshi.
- Confirmando conexes do exterior! - berrou outro tcnico.  Algum espalhou os boatos.
Susan desviou o olhar da imagem dos firewalls em colapso e olhou para o canto da tela. As cenas do assassinato de Tankado passavam repetidamente. Sempre a mesma coisa: Tankado segurando seu peito, caindo e, com uma cara de pnico e desespero, empurrando o anel na cara de alguns turistas inocentes.
No faz sentido, pensou Susan. Se ele no sabia que ns o matamos... Susan desistiu. Era tarde demais. Deixamos de perceber algo.
Na RV; o nmero de hackers batendo contra os portes havia dobrado nos ltimos minutos. De agora em diante, iria aumentar exponencialmente. Hackers, assim como hienas, eram uma grande famlia, sempre vidos para espalhar as notcias a respeito de uma nova vtima.
Leland Fontaine aparentemente j vira o bastante.
- Desligue tudo - disse. - Desligue essa droga.
Jabba olhava em frente, como o capito de um navio que est afundando. - Tarde demais, senhor. Os escudos vo cair.

CAPTULO
120

O SegSis de 180 quilos estava parado, as mos apoiadas na cabea, em total incredulidade. Havia ordenado que desligassem a fora, mas isso levaria uns 20 minutos alm do tempo que tinham. Hackers com conexes de alta velocidade poderiam fazer o download de enormes quantidades de informaes secretas nesse meio tempo.
Jabba foi despertado de seu pesadelo por Soshi, que veio correndo at a plataforma com uma nova listagem.
- Descobri algo, senhor! - disse ela, animada. - H orfos no cdigo-fonte! Agrupamentos de letras. Esto espalhados por todo o cdigo!
Jabba no pareceu muito animado com a notcia.
- Estamos procurando por um nmero, bolas! No uma seqncia de letras! O cdigo de desativao  um nmero!
- Mas temos rfos! Tankado  bom demais para deixar rfos, sobretudo nesta quantidade!
O termo "rfos" se referia a linhas adicionais de programao que no faziam parte do objetivo do programa. No alimentavam nenhuma rotina, no faziam referncia a nada, no levavam a qualquer outro ponto do cdigo e geralmente eram apagados como parte do processo final de compilao e remoo de erros - debugging.
Jabba pegou a listagem e analisou-a.
Fontaine permanecia em silncio.
Susan olhou a listagem por cima do ombro do chefe de SegSis:
- Estamos sendo atacados por uma verso preliminar do verme de Tankado? 
- Preliminar ou final, est nos dando um couro - respondeu Jabba.
- Isso est errado - argumentou Susan. - Tankado era um perfeccionista, e voc sabe disso. Ele no teria deixado rfos em seu programa.
- H muitos deles! - disse Soshi. Ela tirou a listagem das mos de Jabba e mostrou a Susan. - Olhe!
Susan percorreu a listagem. A cada 20 ou 30 linhas de cdigo havia quatro caracteres soltos.

A C N E
E E R N
                                                                           D A T M

- Agrupamentos de quatro bytes cada - ela disse, pensativa. - Definitivamente no fazem parte do programa.
	- Deixem isso de lado - grunhiu Jabba. - Isso no tem a menor importncia!
	- No acho, no. Muitas tcnicas de encriptao usam agrupamentos de quatro bytes. Isto pode ser um cdigo - disse Susan.
- , pode sim - resmungou Jabba. - Significa: "He, he. Vocs esto ferrados." - Olhou para cima, consultando a RV: - Dentro de nove minutos, para ser mais especfico.
Susan ignorou Jabba e virou-se para Soshi.
- Quantos rfos h no cdigo?
Soshi deu de ombros. Ela se aproximou do terminal de Jabba e digitou todos os agrupamentos. Quando acabou, afastou-se do terminal. Todos na sala olharam para o painel.

ACNE     EIOT
EERN     NOIS
DATM    SIOA
IPRE       PSSG
FREN     OPHA
RMSO    SRMA
EAES     AHAK
NElR      V I E I

Susan era a nica que estava sorrindo.
- De fato,  bem familiar. Blocos de quatro, exatamente como na Enigma. O diretor assentiu. A Enigma, criada pelos nazistas, era a mais famosa mquina de escrever cdigos da Histria. Encriptava as mensagens em blocos de quatro.
- Otimo - resmungou Fontaine. - Por acaso voc teria uma delas  mo? 
- Essa no  a questo! - disse Susan, subitamente animada. Afinal, aquilo era sua especialidade. - A questo  que se trata de um cdigo. Tankado nos deixou uma pista! Ele est nos gozando, nos desafiando a descobrir a senha a tempo. Deixou pistas bem na nossa cara!
- Isso  absurdo! - retrucou Jabba. - Tankado s nos deu uma sada: revelar a existncia do TRANSLTR. Ponto final. Era nossa nica sada. Perdemos a chance.
- Sou forado a concordar com ele - completou Fontaine. - No acho que Tankado fosse nos dar uma outra forma de escapar dessa deixando pistas para seu cdigo de desativao.
Susan ficou pensativa, lembrando-se de como Tankado havia deixado o anagrama NDAKOTA bem na cara deles. Olhou para as letras, pensando se aquele no seria outro de seus jogos.
	- Tunnel Block pela metade! - disse um tcnico.
	Na RV, uma massa de linhas escuras de conexes penetrava mais fundo nos dois escudos que restavam.
	David tinha ficado sentado em silncio, observando o drama que se desenrolava no monitor  sua frente.
	- Susan? Eu tenho uma idia. Esse texto est em 16 agrupamentos de quatro?
	- Ah, mas que droga - grunhiu Jabba, baixinho. - Agora todo mundo vai querer brincar?
Susan ignorou o comentrio irnico e contou os agrupamentos.
- Sim, h 16 deles.
- Remova os espaos - disse Becker, com firmeza.
- David - respondeu Susan, ligeiramente desconfortvel. - Acho que voc no entendeu. Os agrupamentos de quatro so...
- Remova os espaos - ele repetiu.
Susan hesitou, depois fez um gesto para Soshi. Soshi removeu os espaos. O resultado permanecia obscuro.

ACNEEERNDATMSIOAIPREPSSGFRENOPHAEIOTNOISRMSOSRMAEAESAHAKNELRVIEI

Jabba teve um ataque.
- CHEGA! O recreio acabou! Essa coisa est duas vezes mais rpida! Temos cerca de oito minutos e estamos procurando um nmero, no um bando de letras sem p nem cabea.
- Quatro vezes 16 - David prosseguiu calmamente. - Faa as contas, Susan. 
Susan olhou para David, na tela. Faa as contas? Ele  pssimo em contas!
Sabia que David podia memorizar conjugaes verbais e vocabulrio de outros idiomas como se fosse uma copiadora, mas... matemtica?
- Tabelas de multiplicao - ele completou.
Tabelas de multiplicao? Do que ele est falando?, pensava Susan.
- Quatro vezes 16 - continuou. - Tive que decorar a tabuada no colgio.
- Sessenta e quatro - respondeu, sem entender. - E da? 
David inclinou-se em direo  cmera. Sua face encheu a tela. - Sessenta e quatro letras...
- Sim, so... - Susan ficou muda.
- Um quadrado perfeito - disse David.
- Meu Deus! David, voc  um gnio!

CAPTULO
121

- Sete minutos! - gritou um tcnico.
- Oito fileiras de oito! - gritou Susan animada.
Soshi digitou. Fontaine observava, em silncio. O penltimo escudo estava quase desaparecendo.
- Sessenta e quatro letras! - Susan estava agora no controle da situao.   um quadrado perfeito!
	- Um quadrado perfeito? - perguntou Jabba. - E da?
Dez segundos depois, Soshi havia reordenado as letras aparentemente aleatrias. Estavam em oito fileiras de oito. Jabba olhava para aquilo e sacudia a cabea, sem compreender. A nova disposio era to esquisita quanto a anterior.





                               A	C	N	E	E	E	R	N
                               D	A	T	M	S	I	O	A
                               I	P	R	E	P	S	S	G
                               F	R	E	N	O	P	H	A
                               E	I	O	T	N	O	I	S
                               R	M	S	O	S	R	M	A
                               E	A	E	S	A	H	A	K
                              N	E	L	R	V	I	E	I

- Claro como o breu - resmungou Jabba.			
- Srta. Fletcher, voc pode explicar o que est acontecendo?  exigiu Fontaine. Todos se voltaram para Susan.		
Susan estava olhando para o bloco de texto. Inicialmente balanou a cabea, depois abriu um enorme sorriso.		
- David, parabns!
As pessoas olhavam umas para as outras sem entender.
David piscou para a pequena imagem de Susan que estava na tela  sua frente. 
- Sessenta e quatro letras. Jlio Csar ataca novamente.
Midge parecia perdida.
- Do que vocs esto falando?
- A Caixa de Csar - disse Susan, contente. - Leia por colunas, de cima para baixo. Tankado nos deixou uma mensagem.

CAPTULO
122

- Seis minutos! - avisou um tcnico.
Susan dava ordens:
- Digite novamente, de cima para baixo! Leia na vertical e no na horizontal! Soshi percorria rapidamente as colunas, redigitando o texto.
- Jlio Csar enviava seus cdigos desta forma! - explicou Susan em meio  confuso. - As letras de suas mensagens sempre formavam um quadrado perfeito. 
- Feito! - gritou Soshi.
Todos olharam para as letras, agora reordenadas em uma nica linha de texto no painel de vdeo.
- Continua me parecendo lixo - disse Jabba, zombando. - Olhem para isso.  s um bando de letras aleatrias... - Engasgou-se com suas palavras. Seus olhos se arregalaram. - Uau. Minha nossa...
Fontaine tambm j havia visto. Levantou as sobrancelhas, obviamente impressionado. Midge e Brinkerhoff repetiram, quase ao mesmo tempo:
	- Minha nossa...
	As 64 letras agora podiam ser lidas como:

ADIFERENCAPRIMAENTREOSELEMENTOSRESPONSAVEISPORHIROSHIMAENAGASAKI

- Coloque os espaos de volta - ordenou Susan. - Temos uma charada para resolver.


CAPTULO
123

Um tcnico subiu na plataforma, plido.
- O Tunnel Block no vai durar muito.
Jabba olhou para a RV no vdeo. Os atacantes continuavam avanando, com muito pouco separando-os do quinto e ltimo escudo. O banco de dados iria ficar exposto em pouco tempo.
Susan bloqueou o caos que havia em torno dela. Leu a estranha mensagem de Tankado diversas vezes.

A DIFERENCA PRIMA ENTRE OS ELEMENTOS RESPONSAVEIS POR HIROSHIMA E NAGASAKI

- Isso nem mesmo  uma pergunta! - gritou Brinkerhoff. - Como podemos encontrar uma resposta?
- Precisamos de um nmero -lembrou Jabba. - A senha  numrica.
- Silncio - disse Fontaine, sem se alterar. Virou-se e falou com Susan.
- Srta. Fletcher, voc nos trouxe at aqui. O que sugere?
Susan respirou fundo.
- O campo do cdigo de desativao s aceita nmeros. Eu diria, ento, que essa mensagem  algum tipo de pista com relao ao nmero certo. O texto menciona Hiroshima e Nagasaki, as duas cidades japonesas que foram atingidas por bombas atmicas. Talvez o cdigo de desativao esteja relacionado ao nmero de mortes, o valor estimado dos danos materiais... - Ela parou um instante, relendo a pista de Tankado. - A diferena principal entre Hiroshirna e Nagasaki. Tankado considera que os dois casos foram diferentes de alguma forma.
A expresso de Fontaine no se alterou. As esperanas estavam se esvaindo rapidamente. Parecia que as questes polticas em torno das duas exploses mais devastadoras da Histria precisavam ser analisadas, comparadas e traduzidas em um nmero mgico. Tudo isso nos prximo cinco minutos.

CAPTULO
124

- O ltimo escudo est sob ataque!
Na RV, a programao de autorizao PEM comeava a diminuir. Linhas pretas envolviam o ltimo escudo protetor e comeavam a forar passagem em direo ao ncleo.
Os hackers agora estavam chegando de todos os lugares do mundo. O nmero praticamente dobrava a cada minuto. Em pouco tempo, qualquer um que dispusesse de um computador - espies estrangeiros, radicais, terroristas teria acesso a todas as informaes secretas do governo norte-americano.
Enquanto os tcnicos tentavam em vo cortar a fora, o grupo reunido sobre a plataforma estudava a mensagem. At mesmo David e os dois agentes da NSA estavam tentando quebrar o cdigo em sua van, na Espanha.

A DIFERENCA PRIMA ENTRE OS ELEMENTOS RESPONSAVEIS POR HIROSHIMA E NAGASAKI

Soshi estava pensando em voz alta.
- Os elementos responsveis por Hiroshima e Nagasaki... Pearl Harbor? A recusa de Hirohito em...
- Precisamos de um nmero - repetiu Jabba - e no de teorias polticas. Estamos falando de matemtica, no de histria!
Soshi ficou em silncio.
- O que vocs acham da carga de explosivos? - tentou Brinkerhoff. - Mortes? Danos materiais?	.
- Estamos procurando por um nmero exato - lembrou Susan. - As estimativas quanto aos danos no sero exatas. - Olhou para a mensagem.  Os elementos responsveis...
A cinco mil quilmetros de distncia, David Becker teve um estalo.
- Elementos! Tankado est brincando com as palavras!
Todos se voltaram para a janela com as imagens da Espanha.
- A palavra elementos tem diversos significados! - prosseguiu Becker.
- Explique sua teoria, Sr. Becker - retrucou Fontaine.
- Ele est falando de elementos qumicos, no de elementos sociopolticos! Ningum entendeu exatamente o que Becker estava querendo dizer.
- Elementos! - insistiu. - A tabela peridica! Elementos qumicos! Nenhum e vocs assistiu ao filme Fat Man and Little Boy, sobre o Projeto Manhattan? As duas bombas atmicas eram diferentes. Usavam combustveis diferentes: elementos diferentes!
Soshi deu pulinhos de alegria, empolgada.
- Isso! Ele est certo! Eu li sobre isso! Uma das bombas usava urnio e a utra, plutnio! Dois elementos diferentes!
Um silncio tomou conta da sala.
- Urnio e plutnio! - exclamou Jabba, subitamente esperanoso. - A pista ue ele deixou pede a diferena entre os dois elementos! - Virou-se para seu pequeno exrcito de programadores. - A diferena entre urnio e plutnio! Algum sabe qual ?
Todos olhavam espantados.
- Vamos l! - disse Jabba. - Vocs no foram ao colgio? Algum! Qualquer um! Preciso saber a diferena entre plutnio e urnio.
Nenhuma resposta.
Susan virou-se para Soshi.
- Preciso acessar a Internet. Voc tem um browser em sua estao?
Soshi assentiu.
- Sim,  claro.
Susan puxou-a pela mo.
- Venha. Vamos navegar.

CAPTULO
125

- Quanto tempo nos resta? - perguntou Jabba.
Nenhum dos tcnicos respondeu. Olhavam, assoberbados, para a RV. O ltimo escudo estava prestes a se desfazer.
Um pouco abaixo de Jabba, Susan e Soshi olhavam os resultados obtidos no programa de busca.
- Outlaw Labs? Quem so eles? - perguntou Susan.
Soshi encolheu os ombros.
- Voc quer que eu abra a pgina?
- Com certeza. Seiscentas e quarenta e sete referncias textuais a urnio, plutnio e bombas atmicas. Parece ser nossa melhor chance.
Soshi abriu o link. Uma mensagem de aviso foi exibida:

  As informaes contidas neste arquivo so apenas para uso acadmico. Qualquer leigo que se disponha a construir qualquer um dos dispositivos aqui descritos corre o risco de envenenamento por radiao e/ou auto-exploso.
  
- Auto-exploso? Nossa - disse Soshi.
- Pesquisem - retrucou Fontaine, olhando para trs. - Vamos ver se achamos algo.
Soshi mergulhou no documento. Passou por uma frmula para criar nitrato de uria, um explosivo 10 vezes mais poderoso que a dinamite. A informao apareceu na tela como uma receita para bolo.
- Plutnio e urnio - repetiu Jabba. - Vamos manter o foco.
- Volte - ordenou Susan. - O documento  grande demais. Ache o ndice. 
Soshi retornou at encontr-lo:

I.
Mecanismo de uma Bomba Atmica a. Altmetro
b. Detonador por Presso do Ar 
c. Cabeas Detonadoras
d. Cargas Explosivas
e. Defletor de Urnio
f. Urnio e Plutnio
g. Escudo de Chumbo
h. Fusveis

II. Fisso Nuclear I Fuso Nuclear
a. Fisso (bomba A) & Fuso (bomba H) 
b. U-235, U-238 e Plutonio

III. Histria das Armas Atmicas
a. Desenvolvimento (Projeto Manhattan)
b. Exploses
i. Hiroshima
ii. Nagasaki
iii. Efeitos Colaterais das Exploses Atmicas 
iv. Zonas de Impacto

- A seo dois! - exclamou Susan. - Urnio e plutnio! Vamos! 
Soshi localizou a seo correta.
- Est aqui - disse ela. - Esperem um pouco. - Comeou a ler rapidamente
os dados. - H muita informao. Uma tabela inteira. Como vamos saber qual  a diferena que estamos procurando? Um ocorre naturalmente, o outro  fabricado pelo homem. O plutnio foi descoberto pela primeira vez por...
- Um nmero -lembrou Jabba. - Precisamos de um nmero.
Susan leu novamente a mensagem de Tankado. A diferena prima entre os elementos... a diferena entre... precisamos de um nmero...
- Esperem! A palavra diferena tambm tem mltiplos sentidos. Precisamos de um nmero, ento estamos falando de matemtica.  outro dos jogos de palavra de Tankado. Diferena quer dizer subtrao.
	- Isso! - concordou Becker, na tela. - Talvez os elementos tenham um nmero diferente de prtons ou algo assim? Se subtrairmos...
	- Ele est certo! - disse Jabba, virando-se para Soshi. - H nmeros nessa tabela? Contagem de prtons? Meia-vida? Algo que ns possamos subtrair?
	- Trs minutos! - gritou um tcnico.
	- Que tal a massa supercrtica? - perguntou Soshi. - Aqui diz que a massa supercrtica do plutnio  de 16 kg.
	- Otimo! - disse Jabba. - Verifique o urnio! Qual  a massa supercrtica do urnio?
Soshi procurou.
- Ah... 50 quilos.
- Cinqenta? - Jabba pareceu esperanoso. - A diferena  ento...
- Trinta e quatro - completou Susan, na mesma hora. - Mas eu no acho que... - Saiam da frente! - gritou Jabba, dirigindo-se para o teclado. Esse tem que ser o cdigo de desativao! A diferena entre as massas crticas! Trinta e quatro!
- Espere - disse Susan, olhando para a tela de Soshi. - H outros valores aqui. Pesos atmicos. Contagem de nutrons. Tcnicas de extrao. - Ela varreu com os olhos a tabela. - O urnio se divide em brio e criptnio; o plutnio age de outra forma. O urnio possui 92 prtons e 146 nutrons, mas...
	- Precisamos encontrar a diferena mais bvia - sugeriu Midge. - A pista diz: a diferena primria entre os elementos.
	- Mas que diabos! - praguejou Jabba. - Como vamos saber o que Tankado achava que fosse a diferena primria?
Foi a vez de David interromper.
- Na verdade, ele disse prima, no primria.
A palavra pegou Susan em cheio.
- Primo! - exclamou. - Primo! - Voltou-se para Jabba. - O cdigo de desativao  um nmero primo! Pense nisso. Faz todo o sentido!
Jabba sabia que Susan tinha razo. Ensei Tankado havia construdo sua carreira em cima dos nmeros primos. Eles eram os fundamentos para a criao de todos os algoritmos de encriptao. Valores nicos que no possuam outros divisores a no ser 1 e eles mesmos. Nmeros primos funcionavam bem para gerar cdigos porque os computadores no tinham como adivinh-los usando o mtodo tpico de fatoramento.
Soshi resolveu manifestar-se.
- Sim!  perfeito! Os nmeros primos so essenciais para a cultura japonesa. Os haikai usam primos. Trs linhas com contagens de slabas de cinco, sete, cinco. Todos so primos. E os templos de Kyoto tm...
- Basta! - ordenou Jabba. - Mesmo se o cdigo for um nmero primo, e da? H infinitas possibilidades!
Susan concordou. Como h infinitos nmeros,  sempre possvel encontrar um outro nmero primo. Mesmo considerando-se apenas os nmeros entre zero e um milho, havia mais de 70.000 primos. Tudo dependeria do valor escolhido por Tankado para seu nmero primo. Quanto maior fosse, mais difcil seria de adivinhar.
- Deve ser enorme - resmungou Jabba. - Seja l qual for o primo que Tankado escolheu, com certeza  monstruoso.
Algum l atrs na sala gritou:
- Alerta de dois minutos!
Jabba olhou para a RV, sentindo-se derrotado. O ltimo escudo comeava a desaparecer. Os tcnicos estavam correndo de um lado para o outro.
Susan, contudo, sentia que estavam prximos.
- Vamos l, podemos resolver isso! - declarou, assumindo o controle.  De todas as diferenas entre o urnio e o plutnio, aposto que h somente uma que possa ser representada por um nmero primo! Esta  nossa ltima pista. Estamos procurando por um nmero primo!
	Jabba olhou para a tabela de urnio e plutnio no monitor e jogou os braos para o alto.
	- Deve haver centenas de entradas a! No h como subtrair todas elas e verificar quais vo dar em primos.
- Muitas das entradas no so numricas - disse Susan, tentando manter o moral elevado. - Podemos ignorar todas elas. O urnio  natural, o plutnio  criado pelo homem. O urnio precisa de um detonador, o plutnio usa a imploso. Essas coisas no so nmeros, ento so irrelevantes!
- Prossigam - ordenou Fontaine. Na RV, a ltima camada de proteo estava fina como um ovo.
Jabba passou a mo pela testa.
- Tudo bem, vamos l. Comecem a subtrair. Eu pego a primeira parte. Susan, voc fica com o meio. Todo mundo trabalha no resto. Estamos procurando por uma diferena que resulte em um nmero primo.
Dentro de alguns segundos... ficou claro que nunca iriam conseguir. Os nmeros eram enormes e, em muitos casos, as unidades no eram equivalentes.
- Estamos comparando mas com laranjas, que droga! - disse Jabba. - Temos raios gama contra pulso eletromagntico. Fissionvel contra no-fissionvel. Alguns so valores. Outros so porcentagens. Est um caos!
- Tem que estar aqui - disse Susan com firmeza. - Temos que pensar. Deve haver uma diferena simples entre o plutnio e o urnio que no estejamos percebendo! Algo simples!
- Ahn... pessoal? - disse Soshi. Ela havia aberto uma segunda janela com o mesmo documento do Outlaws Lab e estava lendo alguns trechos.
- O que ? Voc encontrou algo? - perguntou Fontaine.
- ... bem... de certa forma, sim - ela parecia constrangida. Sabem quando eu disse que a bomba de Nagasaki tinha sido feita com plutnio?
- Sim - responderam todos ao mesmo tempo.
- Bem... - Soshi respirou fundo. - Parece que cometi um erro.
- O qu! - vociferou Jabba. - Estivemos procurando pela coisa errada? Soshi apontou para a tela. Todos se aproximaram e leram o texto:

...O engano freqente de que a bomba de Nagasaki foi feita com plutnio. Na verdade, a bomba usava urnio, assim como sua irm, a bomba de Hiroshima.

- Mas... - Susan hesitou. - Se os dois elementos eram urnio, como poderemos encontrar uma diferena entre eles?
- Talvez Tankado tenha cometido um engano - sugeriu Fontaine. - Pode ser que ele no soubesse que as duas bombas eram iguais.
- No - suspirou Susan. - Ele nasceu aleijado por conta dessas bombas. Com certeza sabia de tudo isso e muito mais.




CAPTULO
126

- Um minuto!
Jabba olhou para a RV.
- A autorizao PEM est indo embora rpido.  nossa ltima linha de defesa, e h um bocado de gente querendo entrar.
- Concentrem-se! - ordenou Fontaine.
Soshi sentou-se em frente ao navegador e comeou a ler em voz alta:

...a bomba de Nagasaki no usou plutnio, mas um istopo de urnio-238, saturado de nutrons e artificialmente fabricado.

- Que droga! - vociferou Brinkerhoff. - As duas bombas usaram urnio. Ambos os elementos responsveis por Hiroshima e Nagasaki eram urnio. No	h diferena alguma!
- Estamos fritos - murmurou Midge.
- Espere. Leia essa ltima parte novamente - disse Susan, dirigindo-se a Soshi. 
Soshi repetiu o texto que acabara de ler:
- ...um istopo de urnio -238, saturado de nutrons e artificialmente fabricado. 
- 238? - exclamou Susan. - No acabamos de ler algo que dizia que a bomba de Hiroshima usava um outro istopo de urnio?
	Trocaram olhares perplexos. Soshi procurou agitadamente o texto e encontrou o ponto anterior.
	- Sim! Diz aqui que a bomba de Hiroshima usava um outro istopo de urnio!
Midge exclamou, animada:
- Ento ambos so urnio, mas ainda assim so diferentes!
- Ambos so urnio? - Jabba moveu-se e olhou para o terminal. - Mas e mas! Perfeito!
	- Qual a diferena entre os dois istopos? - perguntou Fontaine. - Deve ser algo bem bsico.
Soshi procurava no documento, lendo o mais rpido que podia.
- Esperem... estou procurando... achei...
- Quarenta e cinco segundos!
Susan olhou para cima. O ltimo escudo mal podia ser visto.
- Est aqui! - gritou Soshi.
- Leia! - Jabba suava em profuso. - Qual a diferena? Tem que haver alguma diferena entre os dois!
- Sim, olhem! - disse Soshi, apontando para seu monitor.
Eles leram o texto:

...as duas bombas usavam dois tipos de combustvel diferentes... caractersticas qumicas absolutamente idnticas. Nenhum processo de extrao qumica pode separar os dois istopos. Eles so, descontando-se pequenas diferenas em seus pesos atmicos, completamente idnticos.

- O peso atmico! - disse Jabba, animado. - Tem que ser isto! A nica diferena est nos pesos! Esta  a chave! Me d os pesos, vamos subtra-los!
- Vamos l... - disse Soshi, avanando no texto. - Quase... Aqui!  Olharam para o texto, procurando o valor.


...a diferena nos pesos  muito pequena...
...difuso gasosa para separ-los...
 ...1O,032498X10^134 por oposio a 19,39484X10^23.* 

-  isso! - gritou Jabba. - So estes os pesos!
- Trinta segundos!
- Rpido! - disse Fontaine em voz baixa. - Subtraia os valores.
Jabba pegou sua calculadora e comeou a digitar os nmeros.
- O que significa o asterisco? - perguntou Susan. - H um asterisco aps o nmero. Jabba prosseguiu, ignorando o comentrio. Digitava furiosamente em sua calculadora.
- Cuidado! - disse Soshi. - Precisamos de um nmero exato.
- O asterisco - repetiu Susan. - H uma nota de p de pgina.
Soshi clicou para chegar ao final do pargrafo. Ao ler a nota referente ao asterisco, Susan ficou plida.
- Ah... Deus!
Jabba olhou para ela.
- O que foi?
Todos olharam para a tela e deram um suspiro de derrota. Na pequena nota estava escrito:

* 12% de margem de erro. Os valores publicados variam de acordo com o laboratrio em que foi feita a medio.

CAPTULO
127

Um silncio pesado tomou conta do grupo que estava sobre a plataforma. Era como se estivessem observando um eclipse ou uma erupo vulcnica: uma cadeia incrvel de acontecimentos sobre a qual no tinham controle. A sensao  de que o tempo passava devagar, quase parando.
- Estamos perdendo o escudo! - gritou um tcnico. - Conexes! Em todas as linhas!
Na extrema esquerda do painel, David e os agentes Smith e Coliander olhavam para a cmera inexpressivamente. Na RV, o ltimo firewall era apenas uma folha fina. Uma massa de traos negros o rodeava, milhares de linhas esperando para se conectar. A direita, as imagens de Tankado, em seus ltimos momentos, continuavam sendo repetidas. Aquele olhar de desespero, os dedos levantados para o cu, o anel brilhando no sol.
Susan olhava para esse clipe entrando e saindo de foco. Observava os olhos de Tankado: pareciam cheios de arrependimento. Ele no queria que isso fosse to longe, pensava. Ele queria nos salvar. Ainda assim, a cada vez o mesmo gesto se repetia. Tankado levantava os dedos, colocando o anel na cara das pessoas. Tentava dizer algo, mas no conseguia falar. Apenas projetava seus dedos para cima.
Em Sevilha, a mente de Becker continuava revirando todos os dados. Pensou consigo mesmo:
- O que eles disseram sobre os dois istopos? U-238 eU...?  suspirou pesadamente. No importava. Ele era um professor de lnguas, no um fsico.
	- Conexes externas prontas para iniciar autenticao!
- Jesus! - Jabba gritou, frustrado. - Qual a maldita diferena entre os dois istopos? Ningum sabe?! - No houve resposta. Todos os tcnicos na sala estavam com os olhos grudados na RV sem poder fazer nada. Jabba balanou a cabea.
- Onde esto os fsicos nucleares quando se precisa deles?
Susan olhou para o vdeo de Tankado no visor, consciente de que estava tudo acabado. Em cmara lenta, via Tankado morrer, sucessivas vezes. Ele estava tentando falar, engasgando em suas palavras, projetando sua mo deformada... tentando comunicar algo. Estava tentando salvar o banco de dados, Susan pensou. Mas agora j no temos como saber.
- Temos companhia na entrada!
Jabba olhou para a tela.
- Bem, l vamos ns! - ele suava.
Na tela central, a linha tnue do ltimo firewall havia praticamente desaparecido. A massa preta de linhas em volta do ncleo estava opaca e piscava. Midge virou-se para no ver. Fontaine manteve-se de p, rgido, olhando para a frente. Brinkerhoff parecia prestes a passar mal.
- Dez segundos!
Os olhos de Susan no desgrudavam da imagem de Tankado. O desespero. O arrependimento. Suas mos esticadas, repetidamente, o anel brilhando, os dedos deformados apontados para a cara dos estranhos que o cercavam. Ele est querendo lhes dizer algo. O que ?
Na tela, David estava profundamente concentrado.
A diferena... - continuava repetindo para si mesmo. - A diferena entre U-238 e U-235. Tem que ser algo simples.
Um tcnico comeou uma contagem regressiva.
- Cinco. Quatro. Trs.
A palavra chegou na Espanha em menos de um dcimo de segundo.
Trs... Trs...
Como se Becker tivesse sido atingido novamente pela arma tranqilizante, seu mundo parou por completo. Trs... trs... trs. 238 menos 235! A diferena  trs! Em cmara lenta, aproximou-se do microfone.
No mesmo momento, Susan estava olhando para a mo estendida de Tankado. Subitamente, ela enxergou alm do anel, alm do ouro com uma inscrio, at chegar  carne que estava embaixo... at chegar aos dedos. Trs dedos. No era o anel. Eram os dedos. Tankado no estava dizendo para eles, estava mostrando para eles. Estava contando seu segredo, revelando o cdigo de desativao. Implorando para que algum compreendesse, rezando para que seu segredo pudesse chegar at a NSA a tempo.
- Trs - murmurou Susan, atnita.
- Trs! - gritou Becker, da Espanha.
Mas, em meio ao caos, ningum pareceu ouvir.
- Os escudos caram! - gritou um tcnico.
A RV comeou a piscar na tela e o ncleo sucumbiu em meio a um dilvio de conexes externas. Sirenes comearam a tocar na sala.
- Dados sendo transmitidos.
- Conexes de alta velocidade em todos os setores!
Susan moveu-se como se estivesse num sonho. Foi at o teclado de Jabba. Enquanto virava, seu olhar estava fixo em seu noivo. A voz dele se espalhou novamente pela sala.
Trs! A diferena entre 238 e 235  trs!.
Todos olharam.
- Trs! - gritou Susan, em meio  cacofonia ensurdecedora de sirenes e tcnicos. Ela apontou para a tela. Os outros olharam na mesma direo e viram Tankado, com os trs dedos esticados, acenando desesperadamente sob o sol de Sevilha.
Jabba ficou paralisado.
- Meu Deus! - Compreendeu, naquele instante, que o gnio deformado havia tentado dar a resposta para eles o tempo todo.
- Trs  um primo! - metralhou Soshi. - Trs  um nmero primo! 
Fontaine olhou, perplexo.
- Pode ser algo assim to simples?
- Dados sendo extrados! - gritou um tcnico. - Estamos perdendo nossos dados rapidamente!
Todos na plataforma se atiraram para o terminal ao mesmo tempo, uma massa de braos estendidos. Em meio quelas pessoas, Susan conseguiu uma brecha e chegou primeiro ao alvo. Digitou o nmero 3. Todos se voltaram para o painel.

DIGITE A SENHA: 3

- Sim! - ordenou Fontaine. - V em frente!
Susan segurou a respirao e pressionou a tecla ENTER. O computador emitiu um bipe. Ningum se moveu. Trs segundos de infinita agonia depois nada havia acontecido. As sirenes continuavam tocando. Cinco segundos. Seis segundos.
- Dados sendo removidos!
- Nenhuma alterao!
Ento Midge apontou para a tela, excitada. - Vejam!
Uma nova mensagem estava sendo exibida.

CODIGO DE DESATIVAO CONFIRMADO

- Levantem os firewalls! - ordenou Jabba.
Mas Soshi estava um passo  frente e j enviara o comando.
- Sada de dados interrompida! - gritou um tcnico.
- Conexes interrompidas!
Na RV acima deles, o primeiro dos cinco firewalls comeou a aparecer. As linhas pretas que atacavam o ncleo foram imediatamente interrompidas.
- Reativao! - Jabba gritou. - Essa porcaria est se reativando!
Por um segundo eles temeram que o sistema de segurana fosse cair aos pedaos a qualquer momento. Mas ento o segundo firewall foi novamente exibido e depois o terceiro. Aps alguns instantes, a srie de filtros foi completamente reinstalada. O banco de dados estava novamente seguro.
A sala rompeu em comemoraes. Os tcnicos se abraavam, jogando listagens de computador para o ar. As sirenes silenciaram. Brinkerhoff abraou	Midge. Soshi chorava.
- Jabba, quanto eles conseguiram pegar? - perguntou Fontaine
- Muito pouco - respondeu Jabba, olhando para seu monitor.  Muito pouco. E nada que estivesse completo.
Fontaine exibiu um ligeiro sorriso no canto da boca. Olhou em volta, procurando Susan, mas ela j estava andando para a frente da sala, em direo  imagem de Becker, que enchia a tela.
- David?
- Oi, querida! - disse ele sorrindo.
- Volte para casa. J.
- Te encontro no Stone Manor? - perguntou.
Ela concordou, as lgrimas escorrendo pelo rosto.
- Combinado.
- Agente Smith? - chamou Fontaine.
Smith apareceu na tela, por trs de Becker.
- Senhor?
- Parece que o Sr. Becker tem um compromisso. Providencie para que ele volte para casa imediatamente.
Smith assentiu.
- Nosso jato est em Mlaga. - Deu uns tapinhas nas costas de Becker. - Voc
vai ter uma bela surpresa, professor. J voou em um Learjet 60?
Becker riu.
- No, hoje ainda no.

CAPTULO
128

Quando Susan acordou, o sol brilhava. Os raios eram filtrados pelas cortinas, iluminando sua cama com acolchoado de penas de ganso. Ela virou-se, procurando David. Estou sonhando? Seu corpo continuava preguioso, cansado, ainda tomado pelo torpor da noite anterior.
- David? - murmurou.
Ele no respondeu. Ela abriu os olhos aos poucos, a pele ainda formigando.
O outro lado do colcho estava frio. David tinha sado.
Estou sonhando. Sentou-se. O quarto era decorado no estilo vitoriano, cheio de rendas e antiguidades - o melhor quarto de Stone Manor. Sua valise estava jogada no cho de tbuas corridas e sua lingerie em uma cadeira Queen Anne ao lado da cama.
David j havia chegado? Ela tinha lembranas: seu corpo contra o dela, acordando-a com beijos doces. Tinha sido parte do sonho? Virou-se para a mesinha ao lado da cama, onde havia uma garrafa vazia de champanhe e dois copos.
Esfregando os olhos, Susan enrolou-se no edredom. Viu um movimento no canto. Em um sof suntuoso, aproveitando o sol da manh, enrolado em seu grosso roupo, David estava sentado em silncio, olhando-a. Ela estendeu a mo, chamando-o de volta para a cama.
- Voc ficar feliz em saber que durante meu vo de volta liguei para o reitor da universidade - disse ele.
	Susan olhou-o, cheia de esperana.
	- Por favor, me diga que voc pediu demisso do posto de chefe do departamento.
David assentiu.
- Estarei de volta s aulas no prximo semestre.
Susan suspirou aliviada.
-  onde voc deve estar.
David sorriu levemente.
- Sim, acho que a Espanha me fez pensar nas coisas que realmente importam.
	- Ento voc vai voltar a partir o corao de suas alunas? - Susan deu-lhe um beijinho no rosto. - Bem, pelo menos ter tempo de me ajudar a editar meu manuscrito.
- Que manuscrito? 
- Decidi public-lo.
- Publicar? - David olhou para ela espantado. - Publicar o qu?
- Ah, algumas idias que tenho sobre protocolos de filtros variantes e resduos quadrticos.
Ele resmungou:
- Tenho certeza de que vai entrar na lista dos mais vendidos.
Ela riu.
- Voc ainda vai se surpreender...
David procurou algo dentro de seu roupo e tirou um pequeno objeto.
- Feche os olhos. Tenho uma surpresa para voc.
Susan fechou os olhos.
- Vamos ver se adivinho... Um reluzente anel de ouro com uma inscrio em latim?
- No - disse David, rindo. - Entreguei o anel a Fontaine, para que ele o mandasse para o Japo junto com os outros pertences de Tankado. - Pegou a mo de Susan e colocou algo em seu dedo.
- Mentiroso! - ela riu, abrindo os olhos. - Eu sabia que era...
Ficou em silncio. O anel em seu dedo realmente no era o de Tankado. Era uma armao de platina com um belo diamante solitrio brilhando sobre ela.
Susan ficou sem palavras.
Olhando em seus olhos, David perguntou:
- Voc quer se casar comigo?
Susan ficou sem ao. Olhou para ele, depois de volta para o anel. Seus olhos se encheram de gua.
- David, no sei o que dizer...
- Basta dizer sim.

EPLOGO

Dizem que, quando chega a hora da morte tudo se torna claro. Tokugen Numataka sabia agora que isso era verdade. De p em frente ao caixo na alfndega de Osaka, viu-se tomado por uma compreenso amarga que nunca sentira antes. Sua religio falava de crculos, da forma como tudo na vida estava interconectado, mas Numataka jamais teve tempo para ser religioso.
Os funcionrios da alfndega lhe deram um envelope com formulrios de adoo e registros de nascimento.
- Voc  o nico parente vivo deste rapaz. Tivemos muito trabalho para localiz-lo - disseram.
A mente de Numataka voltou-se para aquela noite chuvosa, h 32 anos, e para o hospital do qual saiu correndo, abandonando seu filho deformado e sua mulher moribunda. Fez aquilo em nome do menboku - a honra -, uma sombra vazia agora.
Havia um anel dourado junto com os papis. Nele estavam gravadas palavras que Numataka no compreendia. No fazia diferena, as palavras j no tinham sentido algum para Numataka. Ele havia abandonado seu nico filho. Agora um destino cruel os havia reunido pela ltima vez.

